domingo, 17 de junho de 2018

Mario Vargas Llosa: "Nicarágua, hora zero"


O comandante Daniel Ortega, amo e senhor da Nicarágua desde 2007, propôs retardar as eleições para 2019 a fim de ficar mais um ano no poder, período em que imagina, sem dúvida, encontrar novas artimanhas que lhe permitam se eternizar na presidência, à qual chegou por meio de um conluio eleitoral em que se juntaram remanescentes do sandinismo, empresários ambiciosos e membros da Igreja Católica, como seu antigo adversário, o cardeal Miguel Obando (que morreu recentemente), que conquistou para sua causa com uma oportuna conversão, que chegou até a celebrar seu casamento com sua antiga companheira e cúmplice, a atual vice-presidente Rosario Murilo.
Repressão na Nicarágua
As manifestações encabeçadas pelos estudantes tinham como objetivo 
imediato protestar contra uma reforma do regime de aposentadoria 
Foto: AP Photo/Esteban Felix
Como todos os tiranos, o desejo de poder deixa cego o comandante Ortega e não lhe permite ver, apesar dos massacres que sua polícia política e os paramilitares sandinistas continuam cometendo (no momento em que escrevo, já são 160 mortos e mais de mil feridos), que sua impopularidade é gigantesca em todos os setores da sociedade, a começar pelos empresários, que decretaram uma greve nacional exigindo sua renúncia, além dos estudantes, operários, camponeses, a Igreja Católica, ou seja, o grosso de uma sociedade que decidiu se mobilizar com uma grande coragem contra a corrupção, os roubos, a demagogia, a censura, os crimes e os desmandos do casal presidencial, com o objetivo de pôr fim a um dos regimes mais abjetos da história da América Central.
A história do comandante Ortega é digna de um romance. Lutou contra a ditadura de Somoza, foi preso por isso e, quando a revolução triunfou, liderou o governo sandinista. Em 1990, derrotado nas eleições por Violeta Chamorro, ele e um grande número de dirigentes do governo se envolveram num enorme escândalo, a famosa “Piñata”, se apoderando de casas, terras e bens do Estado, o que levou muitos sandinistas autênticos e decentes, como o escritor Sergio Ramírez, a romper com eles e os denunciarem.
Para voltar ao poder, Ortega aparentou uma dupla conversão democrática e religiosa, com pactos delirantes (como o que fez com Arnoldo Alemán, que ajudou a sair da prisão, condenado por corrupção) e se aliando a empresários sem escrúpulos, oferecendo-lhes tudo o que desejassem desde que não interferissem na política de governo, e com apoio do cardeal Obando. Desta maneira, assumiu o governo em eleições fraudulentas. 
Desde então, tem se mantido no poder, afundando o país em operações duvidosas, como a que forjou com um empresário chinês para construir um novo canal que ligaria o Caribe ao Pacífico, projeto que deu em nada, e outros caprichos delirantes, como o bosque de árvores metálicas construído por Rosario Murilo, que os estudantes rebelados destruíram em uma operação catártica.
O levante popular que começou em abril teria ocorrido muito antes se a Nicarágua endividada e arruinada não tivesse contado com o petróleo venezuelano que o comandante Chávez, primeiro, e depois Nicolás Maduro ofereciam generosamente para seu aliado sandinista.
As manifestações encabeçadas pelos estudantes e apoiadas pela maioria da opinião pública tinham como objetivo imediato protestar contra uma reforma do regime de aposentadoria que aumentava a quota devida pelos pensionistas, mas, na verdade, esta foi a gota d’água, pois a indignação popular contra os abusos e canalhices do casal na presidência, que já fermentava em silêncio graças à repressão, encontrou uma via de escape e deixou o governo e o restante do mundo surpreendidos pela magnitude dos protestos e pela coragem dos manifestantes face à brutalidade com que o regime procurou sufocá-los. 
Não há outra saída para o país de Rubén Darío e de Sandino senão a renúncia imediata de Ortega e de sua mulher e a convocação imediata de eleições, como exige o povo da Nicarágua. O relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre a selvagem violência do governo contra os pacíficos manifestantes mostra, claramente, que o sistema político que eles presidem violou todas as normas e princípios democráticos e age com a ferocidade repressiva das piores ditaduras. O sangue derramado nos últimos dois meses pelo valente povo nicaraguense, enfrentando balas, assassinatos, prisões e torturas, colocará um fim a uma das últimas tiranias que, lembrança de uma época funesta, sobrevivem na América Latina.
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Violência sem fim na Nicarágua
Para isso, é indispensável que os países democráticos e organizações internacionais, como as Nações Unidas, OEA e União Europeia se solidarizem com os patriotas nicaraguenses, exigindo a renúncia de Ortega e Rosario Murillo e a realização, no menor prazo possível, de eleições livres, com observadores internacionais, para o país recuperar sua liberdade e começar a reconstrução das suas instituições democráticas depois de tantos anos de sofrimento.
A Nicarágua, provavelmente, é um dos países latino-americanos que mais sofreu ao longo da história: foram ocupações, ditaduras, saques, guerras civis. A derrota da ditadura de Somoza, uma das piores já vistas no continente, foi uma façanha que despertou grandes esperanças. Mas os sandinistas que ocuparam seu lugar optaram pela utopia coletivista excludente e, em vez de lançar as bases de uma sociedade democrática, criaram uma guerra civil e uma divisão social que até agora impediram o país de edificar as instituições que garantem o progresso econômico e a liberdade política. Mas nunca é tarde para iniciar esse processo e, depois das terríveis experiências que marcaram sua história recente, a saída de Ortega e da sua sinistra companheira deve dar início a uma nova era para essa terra de heróis e de grandes poetas.
A realidade do nosso tempo não tem lugar para sistemas tirânicos nem utopias sociais, que só trouxeram miséria e dor para os países que sucumbiram a elas. A América Latina vem compreendendo isso e a prova é que quase já não restam regimes dessa natureza, com exceção de Cuba e Venezuela, e países que respaldam o “socialismo do século 21” (por oportunismo e cobiça, pois só o praticam em teoria e não na prática) estão dele se afastando, caso do Equador e agora a Nicarágua, de modo que finalmente a democracia substituirá essa deprimente realidade política que reinou na América Latina na minha juventude, quando de um ponto ao outro do continente havia ditaduras militares, com exceção da Costa Rica e do Uruguai. Não é por acaso que a liberdade nesses dois países esteja mais enraizada com que em outros, assim como a coesão social e a paz. / Traduçã de Terezinha Martino

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA
O Estado de São Paulo

sábado, 16 de junho de 2018

"Não é a corrupção", por Carlos Alberto Sardenberg


Há muita corrupção no Brasil, mas não se pagam as contas simplesmente botando todos os políticos para fora


A ampla maioria da população brasileira apoiou a greve dos caminhoneiros. Ainda apoia.

Pesquisas mostram isso, assim como a minha própria observação como apresentador do programa “CBN Brasil”. As manifestações dos ouvintes por e-mail e WhatsApp indicaram clara tendência: os caminhoneiros tinham o direito de fazer o que fizeram.

Há razões para estranhar: como as pessoas podem endossar um movimento que lhes causou tantos prejuízos? Será que não se importam em ficar sem gasolina ou pagar o dobro pelo quilo de batata?

Não é simples assim. As pessoas ficaram de bronca, reclamaram intensamente da falta e do preço das coisas, mas, esse é o ponto, achavam que não era culpa dos caminhoneiros. 

De quem, então? Fácil: do governo, dos políticos em geral e dos corruptos em particular.

Tanto é assim que as pessoas não gostaram nada das soluções propostas pelo governo Temer, especialmente o subsídio incluído no preço do diesel. Muitos entenderam que se tratava de dinheiro público, que vinha da arrecadação dos impostos pagos por todos, mas achavam que o governo não devia fazer isso.

Resumindo: por culpa do governo, os caminhoneiros, assim como a maior parte da população, passavam por momentos de dificuldade. A paralisação, portanto, era uma arma legítima. Do mesmo modo, os sacrifícios impostos às pessoas eram consequência da incapacidade do governo em resolver a situação. Logo, querer aumentar imposto para pagar a conta dos caminhoneiros não fazia o menor sentido.

Mas se não há subsídio grátis, como pagar?

Fácil, respondiam nossos ouvintes: cortando salários e outras vantagens de políticos e, sobretudo, cobrando o dinheiro da corrupção.

Mudemos de assunto, para a Previdência. Pesquisa nacional do instituto Ipsos, patrocinada pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida, Fenaprevi, mostrou que a metade dos entrevistados (51%) entende que nosso regime de aposentadoria é sustentável. 

Apenas 28% acham que modelo exige reforma e 21% não têm opinião.

Por outro lado, também uma metade dos brasileiros (49%) acha que o assunto deve ser tratado pelo próximo presidente. E uma maioria de 43% afirma que será necessário fazer uma reforma no futuro, contra 38% para os quais o modelo não requer mudanças nem hoje nem mais à frente.

Com reforma ou sem reforma, a maioria espera se aposentar antes dos 65 anos e afirma que será totalmente dependente do sistema público. A maioria não sabe qual será o valor do benefício, mas desconfia que não será suficiente. Nada menos que 60% acham necessária uma previdência complementar.

Não que a façam — 63% dizem que não fazem investimentos para o futuro.

Resumindo: o sistema é sustentável, a aposentadoria está garantida, mas não será suficiente para uma vida confortável. Seria bom ter uma Previdência complementar, se houvesse dinheiro para poupar.

E se houver algum desequilíbrio nas contas da Previdência pública? Quem paga? As próprias pessoas, trabalhando mais e se aposentando mais tarde? A resposta é não. 

Aumentar o valor da contribuição? Negativo. Diminuir o valor da aposentadoria? Também não.

Então não tem problema algum?

Tem — e o leitor já adivinhou: a corrupção. Nada menos dos que 75% dos entrevistados pela Fenaprevi acham que o maior problema do sistema é a roubalheira e o desvio de verbas. E, de novo, cobrem a conta dos políticos.

Olhando os fatos, sem ideologias, é evidente que há um enorme problema na Previdência, tanto a do INSS quanto na dos servidores públicos. Aliás, dois desequilíbrios. Primeiro, o dinheiro arrecadado com as contribuições não é suficiente para pagar as aposentadorias. 

Há um déficit crescente, em ritmo vertiginoso. Segundo, o gasto previdenciário total alcança 13% do PIB, nível de países ricos e velhos.

Voltando aos caminhoneiros, está claro que as suas reivindicações, sem exceção, pediam subsídios, dinheiro público e preços favoráveis tabelados. Ou seja, estavam mandando a conta para algum outro lado da sociedade. Por isso mesmo, não está dando certo.

Tudo considerado, a situação do país é ainda mais complicada do que se sabia. Não apenas há uma crise nas contas públicas e numa economia travada por mecanismos errados. Há um déficit de percepção. Há muita corrupção no Brasil, os políticos estão fazendo de tudo para serem desprezados, mas não se vai pagar as contas simplesmente botando todos para fora, ou melhor, na cadeia.

Vai daí que ou elegemos um presidente que consiga convencer a população sobre a necessidade de reformas — e diga claramente quais reformas, com o fizeram Macri e Macron — ou não haverá políticos suficientes para culpar e prender.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Fernando Gabeira: Olhar brasileiro na Rússia de Putin


- O Globo

Momento em que ex-coronel da KGB surgiu na cena política do seu país é parecido com o do Brasil de agora, que busca estabilidade

Apesar das leituras, não me arrisco a analisar a política russa. Apenas comparar o que li com o que vejo e tentar, através da experiência, entender um pouco o Brasil.

O momento em que Vladimir Putin surgiu na cena política russa é parecido, por razões diferentes, com a atual situação do Brasil. Depois de uma década de transição para o capitalismo, os russos sentiam o país mergulhado no caos e ansiavam por algo que Putin oferece: estabilidade.

Tanto lá, naquele período, como no Brasil de agora, há uma sensação de perda de importância no cenário internacional de baixa autoestima e um desejo difuso por mais comando e autoridade.

Como um ex-coronel da KGB, que atuou em Dresden, na época Alemanha Oriental, Putin se aproveitou da ampla campanha positiva em torno da KGB, dirigida pelo seu mais ilustre dirigente: Yuri Andropov.

Um dos pontos altos da campanha foi uma série sobre um espião russo que se tornou herói nacional: Maxim Isaev. Sob o nome de Max Otto von Stierlitz, ele se se infiltrou no governo alemão e impediu com seu trabalho um acordo entre Estados Unidos e Alemanha, destinado a prejudicar a União Soviética.

Stierlitz foi tema de uma série de extraordinário sucesso, intitulada “17 Momentos da Primavera”. Virou tema popular, jogos infantis de guerra. Segundo Arkady Ostrovsky, no livro “A invenção da Rússia”, Putin fez uma bela apariçao em cena, emulando o herói Stierlitz. No programa de TV em que foi apresentado, a música de fundo era a mesma da série, ele dirigia o mesmo carro Volga, enfim, era o homem certo para salvar a Rússia, nessa nova dificuldade.

Deu certo. A Rússia esperava alguém que a arrancasse da insegurança. E Putin passou a representar isto. Tanto que os jovens no período de seu governo são chamados de os filhos da estabilidade.

Putin é criticado pela oposição por falta de liberdades políticas. No entanto, certamente usando a máquina, consegue se reeleger com facilidade e também ao seu sucessor de plantão: Dimitri Medvedev.

O Brasil não passou por uma década de capitalização selvagem. Pelo contrário, o último período foi marcado por uma experiência estatizante, focada em aspirações socialistas.

A ascensão de Michel Temer não só não trouxe estabilidade, como transmitiu a certeza de que a corrupção continuava instalada no poder: eram todos do mesmo bloco predatório.

A greve dos caminhoneiros acentuou a sensação de desamparo dos brasileiros.

Fernando Henrique, numa entrevista, considerou a situação pré-revolucionária.

Discordo. Não vivemos um momento pré-Lenin. Estamos mais próximos de um momento pré-Putin.

Felizmente não temos nenhum herói nacional para ser emulado. Mas a televisão é um grande instrumento.

Influenciados pelo marxismo, analistas costumam culpar os asiáticos pelos traços autoritários na Rússia. Diziam que o czar Nicolau era o Gengis Khan com telégrafo e Stalin o Gengis Khan com o telefone.

Os tempos passam, podem surgir Gengis Khan com televisão ou talvez até com internet.

Nessa plataforma, no entanto, será difícil prosperar, porque pelo menos teoricamente é um espaço democrático, uma Atenas digital.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A regra de ouro de Gioconda Brasil: Trump e a imprensa brasileira - Flávio Gordon

A regra de ouro de Gioconda Brasil: Trump e a imprensa brasileira

Foto: AFP photo / KCNA via KNS
Foto: AFP photo / KCNA via KNS
Era o dia 20 de outubro de 2016, semanas antes das eleições presidenciais norte-americanas. Com uma honestidade que destoava do comportamento de seus colegas, e cujo mérito só faz aumentar com o passar do tempo, a jornalista da Globo Gioconda Brasil afirmou categoricamente em seu perfil no Twitter: “No Brasil, não existe cobertura das eleições americanas. Existe torcida pela vitória de Hillary Clinton”.
De lá para cá, nada mudou. Ao contrário. O ressentimento com a vitória de Trump levou a prática daquele mau jornalismo ao paroxismo, produzindo, dia após dia, matérias e análises constrangedoras, que, se dizem pouco sobre o objeto de que alegam tratar, revelam muito sobre o estado emocional histeriforme de grande parte de nossos comunicadores. Lembro de Arnaldo Jabor na rádio CBN, dizendo-se “doente” pela vitória do republicano. E de Lucas Mendes no Manhattan Connectionconfessando emocionado: “A eleição de Obama foi um dos melhores dias da minha vida. Eu dei sorte de caminhar neste planeta junto com ele. E agora a eleição do Trump é um dos piores dias da minha vida”. Diante dessas demonstrações de irracionalidade e paixão política por parte de veteranos do jornalismo, resta claro que a regra de ouro tão bem descrita por Gioconda Brasil segue em vigor. No Brasil, não existe cobertura da administração Trump. Existe torcida pelo seu fracasso.
Para que o leitor tenha uma ideia do tamanho do alheamento do nosso jornalismo em relação à realidade, e do quão ensimesmado está, basta tomar como exemplo o último artigo de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo. Nele, ao analisar a foto já famosa dos líderes mundiais no mais recente encontro do G7, e na qual Trump aparece como centro das atenções, o articulista trata o presidente americano por “pré-adolescente petulante e ridículo”, lamentando que a democracia permita eleger tipos como ele. Trata-se, enfim, da velha ladainha midiática dos tempos da corrida eleitoral, que mal consegue disfarçar o ódio político incontido, para não falar do rosário de preconceitos elitistas contra o americano médio, ocultados sob a aparência de análise.
Por ironia do destino, e para a infelicidade do autor, o artigo foi ao ar quase na mesma hora em que Trump, o “pré-adolescente petulante e ridículo”, posava para a foto histórica cumprimentando o ditador norte-coreano Kim Jong-un, em gesto que consagra um inédito e até então inconcebível acordo de paz entre os dois países, e pelo qual Kim se compromete a trabalhar pela completa desnuclearização da Península Coreana. Um acontecimento de verdadeira relevância, muito diverso do encontro entre Barack Obama e o ditador cubano Raul Castro, que, apesar de não ter resultado na assunção de nenhum compromisso deste com a democracia e o respeito aos direitos humanos, a imprensa tratou como a chegada da Era de Aquário.
Lembro aos leitores que, desde o segundo semestre do ano passado, quando Trump endureceu o discurso – prometendo “fogo e fúria”, e até mesmo a total destruição da Coreia do Norte, caso o seu ditador não parasse com suas ameaças nucleares –, a imprensa brasileira não cessou de profetizar o armagedon, sempre atribuindo à retórica “incendiária” do presidente americano a culpa de uma eventual guerra nuclear. Quando a realidade começou a se revelar como o exato oposto das profecias catastrofistas, o discurso foi mudando sutilmente, sem que jamais, é claro, os torcedores dos estúdios e redações admitissem o erro. Sentindo estar diante de um negociador de pulso firme, muito diferente do tíbio e omisso ex-ocupante da Casa Branca, o ditador norte-coreano começou a baixar o tom. Não podendo negar o fato, a imprensa decidiu interpretá-lo a seu próprio modo, bastante sui generis. As negociações pós-ameaças passaram a ser tratadas como uma vitória, não de Trump, mas (pasmem!) de Kim Jong-un. Uma manchete da Folha resumiu o teor geral da cobertura: “Encontro com Trump é vitória estratégica de ditador norte-coreano”. Lembro-me de, à época, ter comentado algo assim no Facebook: é como dizer que o encontro do punho do Mike Tyson com o queixo do adversário é vitória estratégica do adversário.
O mesmo padrão se repete agora que as negociações resultaram no acordo histórico firmado em Cingapura. Quem o definiu bem foi uma figura insuspeita: Nate Silver, outrora guru da imprensa brasileira, por haver aplicado seus modelos estatísticos à corrida eleitoral americana, prevendo à época (para a euforia de jabores, mendes, chacras e blinders) uma vitória acachapante de Hillary Clinton. Comentando sobre o comportamento da imprensa em face do encontro entre Trump e Kim, Silver tuitou ontem, dia 12: “Para deixar claro, 90% dos comentários da especialistocracia sobre a cúpula de Cingapura parecem ser construídos com o objetivo de convencer as pessoas de que Trump não deve receber nenhum crédito por ela – em lugar de analisar racionalmente os méritos e deméritos do acordo”.
Assim tem sido com todos os acertos de Trump, tanto na política interna (a exemplo da queda significativa nos índices de desemprego, sobretudo entre os negros americanos – para o desespero impotente, disfarçado de deboche, de congressistas democratas como Nancy Pelosi), quanto na política externa (como a vitória sobre o Estado Islâmico). A imprensa brasileira, torcendo e militando mais que reportando, prefere ignorá-los solenemente, ou então distorcê-los. Enquanto, para os nossos comentaristas, Trump segue sendo um raivoso senhor da guerra, para o presidente sul-coreano, ele é digno de receber o Nobel da Paz.
No fim do ano passado, Ross Douthat, colunista do New York Times, e tão antitrumpista como qualquer um de seus colegas, admitiu a resistência da classe falante em reconhecer os méritos do presidente, sobretudo em relação à política externa. Depois de elencar motivos alheios ao trabalho jornalístico para o fenômeno, Douthat faz a seguinte autocrítica:  “Isso também é falha da imprensa, um caso em que a mídia não noticia adequadamente um sucesso importante porque ele não cabe na narrativa do desastre trumpiano com a qual as nossas entidades jornalísticas estão todas comprometidas. Incluo-me na acusação. A política externa é a área em que os riscos de eleger Trump me pareciam particularmente inaceitáveis, e tive a tendência de focar em narrativas que confirmassem esse medo (…) Se me tivessem dito ao fim de 2016 que, em um ano de era Trump, o califado teria sido arrasado sem que algo de pior ocorresse no Oriente Médio, eu teria ficado surpreso e satisfeito. A título provisório, então, é preciso dar crédito a quem o merece – a nossos soldados e diplomatas, sim, mas também ao nosso presidente”.
Enquanto os fatos vão numa direção, e os méritos de Trump são reconhecidos até pelos que lhe são avessos, a provinciana imprensa brasileira segue o seu destino de avestruz. Parece ter sido ela, e não o presidente americano, a construir um muro entre si e os fatos, esses imigrantes ilegais e indesejados nos santuários ideológicos das redações. Só isso explica que, no exato instante em que o atual ocupante da Casa Branca realiza feito inédito e de importância global, um de nossos opinadores o tenha qualificado de “pré-adolescente petulante e ridículo”, sem perceber que não há nada mais pré-adolescente (e petulante, e ridículo) que a sua própria birra política disfarçada de artigo jornalístico.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Fernando Gabeira: Os russos não dão bandeira


- O Globo

País vai se concentrar no verdadeiro problema de segurança, que é o terrorismo

De repente, chegou por aqui uma notícia: quatro brasileiros foram presos por exibir uma bandeira do país na rua. Era fake news. Talvez tenha nascido da cartilha da Embaixada do Brasil que aconselhava a não ostentar bandeiras nem carícias entre gente do mesmo sexo nas ruas da Rússia.

A Embaixada não fez mais do que seu dever: informar as leis do país para defender os brasileiros que o visitam. Num país onde, por exemplo, as mulheres têm de usar véu, a obrigação consular é avisá-las. No entanto, apesar das precauções, é evidente que essa história da bandeira é uma regra que não pega na Copa do Mundo.

Saí pelas ruas e documentei, no domingo, como as imediações do Kremlin estavam cheias de gente com bandeira. Muitos sul-americanos e um russo.

Ouvi gente que vive aqui. Um diplomata contou que um dia usou uma bandeira no estádio e muita gente se aproximou, pedindo-a de presente. Já um jornalista que mora aqui há alguns anos teve uma experiência diferente. Enrolado na do Brasil, atraiu a hostilidade de alguns transeuntes porque pensavam que era de algum movimento separatista.

Durante o conflito com a Ucrânia, muito possivelmente as pessoas que andassem com a bandeira do país nas ruas de Moscou seriam hostilizadas. Os russos têm uma palavra para isso. Soa mais ou menos assim: “provocacia”. Quer dizer provocação.

É improvável que o governo russo reprima latino-americanos cantando nas ruas com as bandeiras de seus países. Num só trecho ao lado do Kremlin, encontrei bandeiras da Colômbia, México e Peru. O interessante é que apareceu um torcedor russo com a bandeira de seu país e se juntou ao alegre grupo mexicano que cantavam “Cielito lindo”, origem provável do nosso “Está chegando a hora”.

Talvez a mesma tolerância exista para a bandeira do arco-íris, caso apareça nas ruas. Eu não a vi. O problema é que os russos sabem que o mundo está de olho na Copa e, com décadas de experiência de “provocacia”, vão se concentrar no verdadeiro problema de segurança, que é o terrorismo.

Além do terror, outro problema central são os hooligans. Eles estão sendo monitorados no país, e nove agentes especiais britânicos vieram para acompanhar os ingleses.

Ao que tudo indica, podem ser neutralizados nesta Copa. Numa entrevista concedida a um youtuber, um hooligan russo afirmou que a polícia estava vigiando de perto, e que a chance de haver conflito na Copa era menor. Isto porque já houve um grande confronto em Marselha, em 2016, entre os hooligans russos e ingleses:

— Estamos satisfeitos com aquilo. Foi o grande momento na nossa história. Daqui para diante, um outro confronto seria uma espécie de anticlímax.

O confronto de Marselha foi considerado o mais grave da história. Mais aguerridos e organizados, os russos deixaram muitos feridos no lado inglês. A polícia francesa, pega um pouco de surpresa, perdeu o controle da situação.

Embora não seja um especialista nesse região do mundo, a análise política mais elementar indica que os russos farão tudo para que a Copa dê certo, e a tendência é a de poucos incidentes.

Isso não significa um estímulo a sair com as bandeiras pelas ruas porque, como dizia Afonso Arinos, não se deve confiar apenas na cúpula: o problema está quase sempre no guarda da esquina.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Mais um comparsa de Lula é condenado à prisão, desta vez, o ex-presidente de El Salvador


Como Lula, Maurício Funes se elegeu presidente de El Salvador pela esquerda, prometendo a redenção dos pobres. Como Lula, governou pela direita e aliou-se aos picaretas do seu país. Como Lula, uma vez denunciado por corrupção, negou tudo e atacou a Justiça. Ao contrário de Lula, porém, não esperou ser condenado e preso: exilou-se há dois anos na Nicarágua.
O Procurador Geral da República de El Salvador, há três dias, pediu sua prisão. Acusou-o de montar uma “estrutura quase perfeita” que desviou dos cofres do Estado pouco mais de 350 milhões de dólares. Por peculato, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, a Justiça, ontem à tarde, expediu ordem de prisão contra Funes, sua atual mulher Ada Guzmán, e seus dois filhos.
Também foi acusada e será presa a ex-mulher de Funes, a brasileira Vanda Pignato, atual Secretária de Inclusão Social do governo. Representante do PT em El Salvador, Vanda e Funes eram casados quando ele se elegeu presidente. Os dois teriam gastado mais de 4 milhões de dólares em 166 viagens de turismo, várias delas ao Brasil. Lula foi à posse de Funes e o recebeu aqui.
A campanha de Funes foi feita pelo marqueteiro do PT, João Santana Filho. E paga pela Odebrecht a pedido de Lula. Tão logo Lula foi parar no cárcere da Polícia Federal em Curitiba, Funes apressou-se a postar nas redes sociais uma mensagem de solidariedade a ele. Escreveu que Lula fora preso porque governara para os pobres. E criticou a Justiça brasileira.
Lula declara-se preso político. Funes, um asilado político, que como Lula, diz não haver uma única prova de que tenha cometido os crimes que lhe imputam. É o que afirma também Ollanta Humala, ex-presidente do Peru, em prisão preventiva há dois meses junto com a sua mulher, acusado de desvio e de lavagem de dinheiro, e de ter recebido propina paga pela Odebrecht.
A justiça dos Estados Unidos investiga as campanhas presidenciais de Juan Manuel Santos (Colômbia), Danilo Medina (República Dominicana), Nicolás Maduro (Venezuela) e Michel Bachelet (Chile), todas suspeitas de terem sido pagas pela Odebrecht e outras construtoras brasileiras. A extradição de Funes será pedida ao governo da Nicarágua que, por sua vez, está cai, não cai.
Com Blog do Noblat, Veja