quarta-feira, 27 de março de 2019

O GOLPE E O REGIME MILITAR – RAFAEL BRASIL


Resultado de imagem para O regime militar e o general Mourão Filho

Muito tem se falado sobre o golpe militar e o regime que resultou. Logo agora que o presidente recomendou que o regime fosse comemorado dentro dos quartéis, ou mesmo fosse incentivado debates e discussões como palestras nos mesmos, na data em que foi desencadeado.
Pululam nas redes sociais debates acalorados sobre o que a direita chama de a redentora, e a esquerda de golpe militar fascista. Evidentemente, pelas paixões suscitadas, as narrativas não correspondem os fatos históricos em questão. Afinal a conjuntura internacional, e o acirramento da crise econômica do governo Goulart, favoreceu a radicalização e a intervenção militar.  Porém, a esquerda também era totalitária, e a revolução cubana teve um importante papel na época. Ademais a própria revolução cubana foi contrária a política soviética para a América Latina de não revolução, mas de uma aliança da esquerda com os setores ditos nacionalistas contra o imperialismo americano. Fidel ao tomar o poder teve inclusive apoio dos Estados Unidos, e só depois, mais precisamente em 1960, declarou a revolução socialista e o alinhamento com a União Soviética.
Do ponto de vista da esquerda, a revolução cubana mostrou que a revolução poderia surgir com o que poderíamos chamar de voluntarismo revolucionário, em poucas palavras, da vontade e disposição de grupos guerrilheiros, em tomar o poder pela luta armada, contrariando as orientações de Moscou. Aliás já havia um rompimento da URSS com o stalinismo com o famoso XX congresso do partido em 1956, que aqui redundaria na divisão do PCB, em duas alas inconciliáveis. O PCB alinhado a Moscou, e o PC do B, alinhado ao stalinismo e depois com o maoísmo.
O clima depois da renúncia de Jânio Quadros era de radicalização política. Naquele tempo, era permitido votar em candidatos distintos para presidente e vice. Assim, Jango foi eleito vice de Jânio. Ou seja, um presidente de direita, ou pelo menos alinhado com os conservadores, e um vice de esquerda. A renúncia, depois de sete meses de governo, acirraria a crise, pois quando Jânio renunciou, Jango estava justamente em visita à China comunista. Com a renúncia houve uma grande resistência à posse do vice, resultando na adoção do parlamentarismo, logo abortado com um movimento pela legalidade capitaneado por Brizola, um dos autoproclamados herdeiros do varguismo.
A radicalização política aumentou, juntamente com a guerra fria. Grupos castristas a maoístas, treinavam e formavam guerrilheiros em Cuba e na China, enquanto militares conspiravam. A crise econômica acirrou os ânimos, colocando lenha na fogueira. Aqui em Pernambuco surgia as ligas camponesas comandadas pelo advogado Francisco Julião, e o governador era Miguel Arraes, que foi, corretamente um legalista, e anti radical. A direita, comandava um grande movimento cívico, com a intensa participação da Igreja católica, arrastando multidões às ruas das grandes cidades, sobretudo o Rio de Janeiro.
Quem desencadeou o estopim foi o general Mourão Filho, partindo com tanques de Juiz de Fora, numa ação impetuosa e voluntarista, pois os conspiradores foram pegos de surpresa. Como não houve reação do então proclamado esquema militar de Jango, do general Assis Brasil, os militares, juntamente com amplos setores da sociedade civil e muitos políticos, foram aderindo ao golpe, saindo da tocaia. E tudo aconteceu depois de um comício de Jango na estação central do Brasil, onde o mesmo radicalizou o discurso, bradando para o que a esquerda chamava de reformas de base. E como não houve resistência, os golpistas tomaram o poder, prometendo eleições presidenciais, em 1966. A maioria dos políticos apoiaram o golpe, como Juscelino, e Carlos Lacerda, que seriam os principais concorrentes. Os dois foram cassados posteriormente, pois os golpistas transformaram o governo num  regime militar, uma ditadura que foi se radicalizando, por vinte anos, até a abertura promovida pelo general Ernesto Geisel, quando o regime já estava se desmoralizando pela crise econômica, causada sobretudo pela crise do petróleo em 1973.
Foi numa ditadura envergonhada, nem tanto de direita, mas de cunho positivista, como aliás é a base de nossa malfadada república. Os radicais de esquerda contribuíram consideravelmente pela radicalização política, quando em 1968 foi dado um golpe dentro do golpe, com o endurecimento do regime. Evidentemente houve violência de ambas as partes, do governo e dos terroristas, que pregavam a ditadura comunista no país. Evidentemente perderam os democratas, que experiemetaram o gosto amargo da repressão política e da censura à imprensa.
Os militares fizeram uma verdadeira revolução econômica, investindo maciçamente em infra estrutura, alavancando a economia de uma forma excepcional. Durante o governo Médici, o mais duro na repressão, o Brasil chegoiu a crescer 12% ao ano. Nossa economia passou da quadragésima a oitava no ranking  mundial. Se tivéssemos eleições diretas, Médici ganharia com cerca de 80% dos votos, dada a sua imensa popularidade.
Como bons positivistas, os milicos não roubaram, mas, digamos, fizeram a cama para roubarem no futuro. Encheram o país de estatais, e pasmem: As oposições ainda chamavam o governo de entreguista e anti nacionalista.
O regime militar deve ser analisado pelos historiadores, enfim. As esquerdas, depois no poder com a redemocratização, criaram a narrativa de que os integrantes da luta armada foram mártires pela democracia. Narrativa ridícula amplamente desmentida por historiadores de esquerda como Jacob Gorender. Pintaram a ditadura como, fascista, e extremamente brutal em sua repressão. O aparato repressivo foi devidamente desmontado por Geisel que enquadrou a linha dura do regime permitindo a abertura e a redemocratização.
Como bem ressaltou o jornalista Élio Gaspari, que teve acesso ao arquivo de Heitor de Aquino, um dos ideólogos do regime, todos queriam golpe. Miguel Arraes, uma semana antes do golpe, ao ser interpelado por um jornalista se haveria golpe, disse: Vai sim só não sei de que lado. Nisso estava certo, pois o golpe veio, e ele foi preso, e depois, como muitos, seguiria para o exílio. Mas isso é outra história.
Justamente quem não conhece a nossa história, fica reproduzindo a narrativa da esquerda, e isto sobretudo está descrito nos livros didáticos. Hoje, com a eleição de um candidato de direita, há um saudável confronto de narrativas. Isto é bom que acirra os debates, e nos mostra que a discussão do período é tarefa para historiadores, e, claro, para esclarecer muitas questões a respeito da democracia no Brasil, e na América Latina. Afinal nossa democracia foi vilipendiada pela própria esquerda no poder, que resultou neste mar de lama , nunca antes visto no país. Porém, é como dizia o saudoso Roberto Campos, que realmente formou a tecnoburocracia nacional quando foi ministro da economia de Castelo Branco, e criou as bases para o grande crescimento econômico do regime militar. As ditaduras de direita são biodegradáveis, as de esquerda, muito piores. Basta estudar um pouco de História para ver que ele estava certo. Afinal, os conservadores são chatos mas estão certos. É isso aí.

terça-feira, 26 de março de 2019

HOMEM É HOMEM, MULHER É MULHER, TERRORISTA É TERRORISTA – RAFAEL BRASIL

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Como diria Falcão, homem é homem, mulher é mulher, aí completo, terrorista é terrorista, afinal nestes tempos do politicamente correto, chega de eufemismos, abaixo a novilíngua. A esquerda quis reescrever a História classificando como guerrilheiros os terroristas que participaram da chamada luta armada. Até filme com nosso dinheiro fizeram sobre o famigerado Marighella, que foi um terrorista famoso, nem tanto pelas suas malfadadas ações, mas por ter escrito um manual de terrorismo que seria usado por inúmeras organizações terroristas do mundo a exemplo das Brigadas Vermelhas na Itália, e outras inúmeras organizaçõs deste tipo, como as organizações terroristas islâmicas que ainda infestam o planeta. Aliás,  Marighella virou até nome de escola na Bahia. Este é um dos legados do Brasil petista.
E por falar em petismo, quando no governo, eles deram guarida ao terrorista Cesare Battisti, um terrorista italiano que matou várias pessoas naquele país, e apesar das inúmeras tentativas do governo de lá para extraditá-lo, aqui era tratado como herói, sob o eufemismo de ativista. Até inúmeros retratos o meliante tirou com  autoridades do governo, e até a eleição de Bolsonaro ele era tratado como celebridade, e aplaudido pelos milhões de idiotas de plantão, que aliás não são poucos. Gente que ainda considera Lula um preso político, e são em sua grande maioria pertencentes as chamadas classes pensantes que acabaram com o que restava de eeducação nacional.
Agora ele confessou no que cinicamente negava, que foi o assassinato de pelo menos quatro pessoas durante o seu triste protagonismo na Itália. Aqui sob o governo petista vivia nababescamente, gozando das belezas deste país tropical,  banhado de sangue pela violência das quadrilhas que estão devidamente infiltradas em quase todos os setores da sociedade, e também em governos, como o de São Paulo, é o que dizem.
Aqui os terroristas são retratados até em livros didáticos como heróis que lutavam pela democracia durante a ditadura ,militar. Uma mentira devidamente desmentida por muitos esquerditas sinceros, como Fernando Gabeira e Jacob Gorender, este um grande historiador, que inclusive descreve os assassinatos dos terroristas de opositores e dissidentes destas organizações que caíam em desgraça.
Felizmente esta narrativa vai chegando ao fim, afinal a verdade tarda mas não falha. Dilma também foi uma terrorista alçada à presidência, foi o chamado poste de Lula. Tentou, felizmente sem sucesso, fazer uma nova constituição nos moldes do bolivarianismo, o modelo venezuelano, mas felizmente o exército ficou imune. Mas o sujeito confessou e a esquerda nem pediu desculpas, o que no passado chamavam de autocrítica. Afinal, o mantra comuinista é mentir, desde Lênin. Seguindo este malfadado raciocínio, tudo pelo partido e pela revolução. Mataram cerca de 150 milhões de almas no sangrento século XX, e estes genocidas ainda são apresentados aos nossos pobres estudantes como revolucionários,  que lutavam por um mundo melhor. Uma desgraça para nosso povo, que ainda sofre com o desgoverno que provocou a maior recessão da nossa História, uma lástima. Porém ocuparam quase todas as escolas e universidades, matando nossa cultura e sacrificando à imbecilidade total muitas gerações de brasileiros. Felizmente estas narrativas vão perdendo a validade, simplesmente porque é um acinte à verdade. E como sabemos a verdade nos libertará. É só não ficarmos calados mas sinda temos um longo caminho pela frente. Afinal a ignorância, mentira e imbecilidade é obra de séculos, como diria nosso grande Nélson Rodrigues.

segunda-feira, 25 de março de 2019

A CRISE DA CHAMADA ARTICULAÇÃO POLÍTICA – RAFAEL BRASIL


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, barba, óculos e close-up

O assunto do dia é a chamada articulação política. A mídia e, claro, a oposição, o que afinal quer dizer a mesma coisa nos dias que correm, dizem que o governo não terá capacidade de articulação política para emplacar as mudanças institucionais, sobretudo no caso da previdência, e do pacote contra a violência do ministro Sérgio Moro. Articulação  seria o loteamento de cargos ou mesmo de verbas para os parlamentares, como reza a chamada pelo governo de  velha política. Se o governo cede, seria ridicularizado pela mídia, descontente com o brutal corte de verbas governamentais. Se não, como vem acontecendo, vão gritar pela falta de articulação política, aliás é o que já está acontecendo, em outras palavras, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.
Esta semana o ministro Paulo Guedes vai ao congresso alertar sobre os perigos da não aprovação da reforma previdenciária. Creio que o governo devia fazer mais e massivamente, aliás o próprio ministro falou isso ainda hoje. Se a reforma não for aprovada os servidores em todas as esferas, federal estadual e municipal, simplesmente irão ficar sem receber, e isto a curto prazo, ou seja, questão de um ano, mais ou menos. Ainda mais se considerarmos que sem a reforma os investimentos não virão e a arrecadação naturalmente cairá. Seria o caos, mais ainda do que estamos vivendo com a brutal recessão da famigerada era petista.
O que está acontecendo é uma verdadeira queda de braço, seria o que poderíamos chamar de destruição criativa. Temos que mudar radicalmente o que FHC e outros politicólogos chamaram de presidencialismo de coalizão, em outras palavras, o loteamento do estado, e o caminho aberto para a mais deslavada corrupção, que envergonha os brasileiros conscientes e decentes.
Claro, dentre muitas outras reformas, precisamos da reforma política, mas a urgência é salvar o estado , falido e corrompido. Depois diminuir o mesmo com um amplo programa de privatizações, isso a curto prazo. Afinal, como há anos sabemos, o Brasil precisa de capitalismo, e com mais de duas décadas de esquerdismo, o que já era ruim ficou pior.
Em síntese, o governo precisa se comunicar diretamente com a população, sobretudo os servidores públicos. Para isso devia ter um canal aberto constantemente em cadeia nacional de televisão, e comunicar a todos que logo ficarão sem nada. E o pais num estado de caos e guerra civil, aliás quase chegamos a esta situação com o desastre monumental da esquerda no poder. Afinal, a situação pode piorar? Sempre pode. E dessa vez fica sem nada, de marajá a barnabé. Quem quiser que pague pra ver.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Guten Morgen 73: Como sobreviver à faculdade - Flavio Morgenstern

Guten Morgen 73: Como sobreviver à faculdade

Agora que você passou no vestibular e viu como a faculdade é por dentro, está decepcionado e intoxicado de maconha. Saiba como manter a sanidade e os estudos em nosso podcast
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Guten Morgen, Brasilien! Já que educação, MEC, doutrinação, Ricardo Vélez, ideologia e quejandos estão em voga (para não falar eternamente do diploma de Olavo de Carvalho), vamos dar um manual de como sobreviver à essa entidade acadêmica, erudita, científica e dona da verdade e das maiores bocas-de-fumo do planeta: a Universidade. Se você acabou de passar na faculdade, seus problemas mal começaram. Sobreviva com nosso podcast.
As faculdades, ou o mundo acadêmico em si, perderam completamente o sentido original contido na palavra “Universidade”: um conhecimento universal, uma busca por uma unidade coerente entre disciplinas absolutamente distantes como Física e Crítica Literária. Hoje, o debate é dominado por “especialistas”, ou seja, aqueles que se aprofundam em apenas um tema, e geralmente o entendem cada vez menos quanto mais o estudam, justamente por só lerem uma coisa.
Ao invés de acadêmicos serem mais inteligentes do que os eruditos do passado, cada vez mais inventam uma desculpa para lerem menos: algo não foi publicado em um jornal acadêmico relevante, o professor não gosta de tal autor, há um “consenso acadêmico” que não permite discutir certos temas, ou simplesmente “ninguém na faculdade leva tal livro a sério”, o que faz com que certos assuntos sejam lidos por todos, exceto por universitários, que se gabam de, ehrr, estudarem mais do que os não-iniciados.
Essas são apenas algumas das contradições do atual academicismo, que acredita que atingiu a maior verdade do Universo por ter aprendido a usar as normas da ABNT no Word. Fora a marofa de maconha e gente que se aproveita para nunca mais se vestir bem na vida, damos um breve passeio pela história da educação a da pedagogia desde a Paidéia grega (sempre inventamos um motivo pra falar de Grécia Antiga…), a educação no Império Romano, até o surgimento das Universidades na Idade Média.
E para quem acha que as faculdades hoje são o supra-sumo da sabedoria “científica”, vamos analisar como e por que, bem ao contrário do que se acredita, o conhecimento criado e descoberto nas Universidades pode ter avançado tecnologicamente desde então, mas decaiu e muito em matéria filosófica – aquilo que, justamente, dá unidade e coerência ao conhecimento.
Da paidéia a Harvard, e das Universidades medievais à educação global unificada, vamos admitir o que ninguém admite: as faculdades, com todos os méritos que possuem e excelentes programas e professores, são uma entidade decadente no mundo atual.
A produção é de Filipe Trielli e David Mazzuca Neto no estúdio Panela Produtora, com produção visual de Gustavo Finger da Agência PierGuten Morgen, Brasilien! 
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"Reflexões sobre um voto a mais", por Fernando Gabeira


"Reflexões sobre um voto a mais", por Fernando Gabeira

A Lava Jato fez cinco anos com impressionantes números internos e grandes repercussões na política continental, algo que não se destaca muito aqui, no Brasil. Mas na semana do aniversário sofreu uma derrota: por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que crimes conexos ao caixa 2 vão para a Justiça Eleitoral.
Os políticos acusados de corrupção terão um alívio. A Justiça Eleitoral não está aparelhada para investigar, dificilmente colherá provas. Alívio maior ainda é saber que, mesmo com excesso de provas, como no julgamento da chapa Dilma-Temer, ela decide absolver.
Há um novo marco adiante: a votação da prisão em segunda instância. Se o grupo que resiste à Lava Jato vencer, trará alívio não só para investigados, como também para os presos.
A Lava Jato vinha de uma semana difícil com a história da fundação que usaria R$ 2,5 bilhões para combater a corrupção. Era dinheiro da Petrobrás a ser devolvido ao Brasil pelos Estados Unidos. Os procuradores compreenderam rápido que era melhor recuar da ideia e deixar que o dinheiro seja usado de acordo com prioridades democraticamente definidas. Mas os adversários souberam aproveitar o tropeço. 
O ministro Gilmar Mendes chegou a afirmar que havia intenções eleitorais na decisão dos procuradores de usar o dinheiro contra a corrupção. E levou o nível da tarde ao de um programa do Chaves, chamando os procuradores de gentalha.
Creio que os ministros perceberam que derrotar a Lava Jato ia custar a todos uma certa oposição social. E de fato houve reação nas redes e na rua. Algumas reportagens indicavam que era uma reação de bolsonaristas contra o STF. Penso que transcende um grupo determinado.
Dias Toffoli compreende que está diante de uma situação grave. As sessões são públicas, a rede comenta e ataca os ministros. No entanto, sua reação de determinar inquérito no Supremo e escolher um delegado para conduzi-lo deu a impressão de estar com medo e isolado.
Com medo porque, de fato, o nível de agressividade aumenta, até com posições que fariam Rui Barbosa virar no túmulo: acabar com o STF. Isolado porque o Supremo é um órgão superior, existem estruturas judiciárias próprias para isso. Por que desprezá-las? Elas só desenvolvem inquéritos sobre acusações específicas, não uma hostilidade difusa contra os ministros.
Na verdade, Toffoli deu uma carteirada. Como em toda carteirada no Brasil, no princípio as pessoas ficam meio surpresas. Em seguida, pensando bem, conseguem ver as coisas nas dimensões legais.
O inquérito determinado por Toffoli pode ser contestado legalmente e, sobretudo, no campo político. Até que ponto procuradores e parlamentares que preparam uma CPI da Lava Toga não podem interpretar isso como uma tentativa de intimidação?
Não será o fim do mundo entregar os crimes conexos ao caixa 2 à Justiça Eleitoral, muito menos acabar com a prisão após julgamento em segunda instância. Se vão fazer isso, aguentem o tranco, sem apelar para saídas autoritárias. Quem anda pelas ruas não ouve críticas ao STF apenas de seguidores de Bolsonaro. Há algo mais amplo e potencialmente agressivo. E se a reação for essa que Toffoli lançou, as coisas podem ficar muito piores. Em vez de as pessoas lutarem contra juízes que veem apenas como cúmplices dos políticos, eles vão ser vistos também como autoritários e antidemocráticos.
Algumas previsões eleitorais temiam passos autoritários do governo. O Supremo e o Parlamento seriam contrapesos democráticos. Se o próprio Supremo avança o sinal, aumenta uma percepção de insegurança. Não creio que os parlamentares se vão intimidar.
O caminho escolhido por Dias Toffoli agrava a situação. Abre-se uma perspectiva para uma luta mais áspera ainda. Já chegamos ao nível do programa vespertino Chaves com a gentalha, gentalha de Gilmar. No programa, gentalha é um achado; no diálogo institucional, uma barbárie.
A Lava Jato continuará com apoio popular. A entrada de Sergio Moro no governo ainda é uma incógnita. Ela é baseada no propósito de ampliar o trabalho da operação, levá-la além dos seus limites com um conjunto de leis e uma nova atitude do Executivo. Todavia não é garantido que os parlamentares respaldem majoritariamente suas propostas. E parece haver no governo uma luta interna com potencial desagregador. As notícias que vieram de Washington, sobretudo a entrevista de Olavo de Carvalho, revelam uma linguagem também corrosiva, em especial quanto aos militares.
Se a maioria ocasional entre os ministros prevalecer e derrotar de novo a Lava Jato, certamente haverá reações. Toffoli mostrou-se um pouco sem norte nesta primeira etapa. Se insistir nesse tipo de resposta, tende a sair enfraquecido.
Uma nova derrota da Lava Jato também terá repercussões no Congresso e, pelo que ouço, o tom lá contra alguns ministros do STF tem a mesma carga emocional das ruas. Uma CPI da Lava Toga tem o potencial de trazer uma grande pressão, criar tensões institucionais. A luta ainda está longe do desfecho, mas vejo que pode ser áspera, com os políticos estimulados pelas ruas. O aspecto delicado é que ela tem o potencial de pôr em confronto, ainda que parcialmente, duas instituições com que contávamos como contrapeso democrático.
Será preciso muita maturidade para avançar daqui para a frente, máxime neste momento crucial de luta entre diferentes maneiras de tratar a corrupção. Não deveriam ser tão excludentes. Quando um ministro se coloca como inimigo da Lava Jato, perde a isenção, propõe, na verdade, um duelo com a maioria da sociedade e parte substancial do Congresso.
Tomar sucessivas decisões impopulares com um estilo de briga de botequim é uma escolha. O próprio STF, instituição destinada a resolver conflitos, transformou-se num núcleo conflitivo. Uma fábrica de crises entre um e outro chá.

O Estado de S.Paulo

domingo, 17 de março de 2019

"Cidade imensa e triste", por Mario Vargas Llosa


Resultado de imagem para mario vargas llosa frasesVim a Londres pela primeira vez em 1967, para lecionar no Queen Mary’s College. Levava uma hora de metrô para chegar à universidade, a partir de Earl’s Court, e outra para voltar. Usava essas duas horas para preparar as aulas e corrigir os trabalhos dos alunos. Descobri que gostava de ensinar, que não me saía mal e aprendia muito lendo – por exemplo, Sarmiento, cujo ensaio sobre o gaúcho Quiroga passou a ser, desde então, um de meus livros de cabeceira. 

Londres
A música liderava a vida cultural de Londres nos anos 60  Foto: Kirsty Wigglesworth / AP
A Londres daqueles dias era muito diferente de Paris, onde vivi os sete anos anteriores. Ali se falava de marxismo e revolução, de defender Cuba contra as ameaças do imperialismo, de acabar com a cultura burguesa e substituí-la por outra, universal, na qual a sociedade toda se sentisse representada. 
No Reino Unido, os jovens perdiam o interesse pelas ideias, pela política e a música passava a liderar a vida cultural. Eram os anos dos Beatles e dos Rolling Stones, da maconha, dos trajes chamativos e dos cabelos até os ombros. Uma nova palavra, hippies, havia se incorporado ao vocabulário universal. 
Havia passado meus seis primeiros meses em Londres vivendo num distante e tranquilo bairro cheio de irlandeses, Clicklewood, mas logo, sem mesmo saber, aluguei uma casinha no próprio coração do universo hippie, Philbeach Gardens, em Earl’s Court. Eram benignos e simpáticos e lembro-me da surpreendente resposta de uma garota a quem me ocorreu perguntar por que andava sempre descalça: “Para me livrar de uma vez de minha família”. 
Todas as tardes em que não tinha aulas, eu passava na belíssima sala de leitura da British Library, que então ficava no Museu Britânico – escrevendo Conversa na Catedral e lendo Edmund Wilson, Orwell, Virginia Woolf e, por fim, Faulkner e Joyce em inglês. Tinha muitos conhecidos, mas poucos amigos, entre eles Hugh Thomas e os Cabrera Infantes, que, por pura casualidade, vieram morar a poucos metros de minha casa. No ano seguinte, passei a lecionar no King’s College, muito mais perto de casa. Trabalhava mais, mas o salário era melhor. 
Naqueles anos, passei a ter muito carinho e admiração pela Inglaterra. Também fui deixando de ser socialista e me convertendo, pouco a pouco, no que ainda tento ser, um liberal. Esse sentimento aumentou com as coisas extraordinárias que Margaret Thatcher fez no governo. Na época, eu lia muito Hayek, Popper, Isaiah Berlin e, sobretudo, Adam Smith. Fui a Kirkcaldy, onde ele havia escrito A Riqueza das Nações. De sua casa, só restou um pedaço de muro, com uma placa. O museu local só tinha dele um cachimbo e uma caneta. 
Em Edimburgo, em compensação, pude depositar um buquê de flores na Igreja onde ele está enterrado e passear pelo bairro onde os vizinhos o viam vagabundear durante seus últimos anos, distraído, distante do mundo, com seus passos de dromedário, totalmente absorto em pensamentos. 
Em meus antigos tempos de Londres, no final dos anos 60, não tínhamos televisão, embora tivéssemos um rádio, e só saíamos uma vez por semana, nas noites de sábado, para ir ao cinema ou ao teatro, porque a senhora da Maby Minders que vinha ficar com as crianças nos custava o olho da cara. 
Entretanto, apesar das limitações, creio que éramos muito felizes, e é possível que, não fosse por Carmen Balcells, teríamos ficado para sempre em Londres. Meus dois filhos e minha futura filha seriam três ingleses. Tenho certeza, porém, de que seria contra o Brexit e teria militado ativamente contra semelhante aberração. 
Eu me dava muito bem com meu chefe no King’s College, o professor Jones, especialista no Século de Ouro. Naquele fim de ano acadêmico, ele me propôs que, no ano seguinte, eu substituísse uma vez por semana um professor de espanhol de Cambridge que sairia de férias e eu aceitei. Então, sem se anunciar, Carmen Balcells bateu como um furacão à minha porta.
Havia sido apresentado a ela em Barcelona por Carlos Barral, que explicou que ela se ocuparia de negociar no exterior meus direitos autorais. Pouco depois, porém, a própria Carmen me contou que havia deixado de trabalhar na editora Seix Barral, porque a missão de uma agente literária era representar os autores ante (e contra) o editor, e não o oposto. Gostaria eu de tê-la como minha agente? Sem dúvida. E as coisas ficaram mais ou menos por ali.
E o que ela veio fazer em Londres? “Vim ver você”, respondeu. “Quero que renuncie imediatamente à universidade e à Inglaterra e quero que todos vocês venham viver em Barcelona. O King’s College toma muito de seu tempo. Garanto que você pode viver de seus livros. Eu me encarrego disso.”
É provável que eu tenha dado uma gargalhada e lhe perguntado se ela havia enlouquecido. Viver de direitos autorais era uma bobagem, pois eu levava dois ou três anos para escrever um romance e, se tivesse de escrevê-lo em seis meses para dar de comer a meus filhos, sairia um livro ilegível. 
O que eu não sabia era que quando Carmem punha uma coisa na cabeça era melhor fazer o que ela queria ou então matá-la. Não havia meio-termo. Em me lembro de que discutimos horas e horas e ela me contou que García Márquez já estava em Barcelona vivendo de seus livros – ela havia ido ao México para convencê-lo. E decretou que não sairia de minha casa enquanto eu não dissesse sim. 
Venceu-me pelo cansaço. Na mesma tarde, fui dizer ao professor Jones que iria para Barcelona e, dali em diante, viveria de meus direitos autorais. Ele era um homem bem educado e não me disse que eu era um imbecil fazendo tal disparate, mas vi em seu olhar que pensou isso.
Não me arrependo nada de ter ouvido Carmem Barcells, pois os cinco anos que passei em Barcelona foram maravilhosos. Ali nasceu minha filha Morgana, na clínica Dexeus, e graças a Santiago Dexeus eu a vi nascer. 
A cidade se converteu, graças principalmente a Carmen e a Carlos Barral, na capital da literatura latino-americana por um bom tempo, e lá voltaram a se encontrar e a conviver os escritores espanhóis e os hispano-americanos, que se davam as costas desde a Guerra Civil
Nós que passamos aqueles anos na grande cidade mediterrânea não esqueceremos nunca o entusiasmo com que sentíamos chegar o fim da ditadura e a sensação reconfortante de saber que, na nova sociedade democrática, a cultura teria um papel fundamental. O pensamento é livre!
A Espanha ainda não prestou a Carmen Balcells as homenagens que ela merece. Carmen, sozinha, decidiu que, com suas grandes editoras e sua antiga tradição de alta cultura, caberia a Barcelona reunir muitos escritores latino-americanos e, reconciliando-os com os espanhóis, unir a cultura e a língua num só território cultural. 
Os editores, pouco a pouco, começando com Carlos Barral, passaram a ouvi-la. Como fez comigo, ela levou muitos escritores a se instalarem em Barcelona, onde, naqueles anos, começavam a chegar jovens sul-americanos, como antes chegaram a Paris, porque era ali que fazia sentido fantasiar histórias, escrever poemas, pintar e compor. 
Desde o Brexit, me senti profundamente fraudado e a Inglaterra foi se apagando de minha memória. Entretanto, nestes dias, talvez porque já esteja velho, lembrei com saudade os anos que aqui passei e mais uma vez contradigo aquele poeta brasileiro do qual Jorge Ewards tanto gostava, que chamou Londres de “cidade imensa e triste” e disse de si mesmo: “Foste lá triste e voltaste mais triste”. / Tradução de Roberto Muniz

* É prêmio Nobel de Literatura

sábado, 16 de março de 2019

"O colapso da moderação", por Ruy Fabiano


O STF é a última cidadela de um establishment político-institucional que, embora moralmente arruinado, luta para sobreviver – mais que isso, manter seu status quo e as regras que o sustentam.
Esse establishment, sem a exceção de nenhum dos poderes, foi gradualmente desmascarado pela operação Lava Jato, que levou à cadeia figurões da política e do meio empresarial. Os maiorais.
Expôs as relações incestuosas entre o público e o privado e a transgressão contínua, quase rotineira, a uma cláusula pétrea constitucional segundo a qual “todos são iguais perante a lei”.
Millôr Fernandes, décadas atrás, dizia que alguns são mais iguais. 
Atualizando-o, pode-se dizer que lutam – e o STF é a trincheira final – para que essa igualdade desigual seja preservada.
A Lava Jato expôs as vísceras desse sistema e, ao fazê-lo, despertou o ânimo da população, que se insurgiu em sucessivas manifestações de rua – as maiores da história – denunciando sua índole corrupta e subversiva, clamando por sua remoção.
O impeachment de Dilma Roussef foi a consequência inicial e a eleição de Bolsonaro a continuidade desse processo (que não cessou). A população, em sua maioria, viu nele o candidato que melhor expressava o sentimento anti-establishment.
A hostilidade da mídia e do coronelato cultural a seu nome, que precede a posse e acompanha cada um de seus atos, apenas os inclui, na percepção do público, entre os que resistem às mudanças, merecedores, eles sim, do estigmatizado rótulo de reacionários.
Nada simboliza mais essa degradação institucional que o encarceramento, a partir de juízes de primeira instância, de um ex-presidente da República, Lula, ao lado de ex-governadores (quatro do Rio de Janeiro e um do Paraná), ex-deputados (inclusive um ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha), ex-senadores, ex-ministros.
Ao lado deles, os donos das maiores empreiteiras do país, algumas ostentando o rótulo de multinacionais, com tentáculos estendidos a outras nações e continentes. E a fila não acabou.
Aguardam nela, em face dos mesmos delitos, outros figurões, entre os quais, dois ex-presidentes – Dilma Roussef e Michel Temer -, parlamentares com mandato, banqueiros e… juízes.
O ex-governador Sérgio Cabral, condenado (até aqui) a mais de um século de cadeia (o que o obrigará a retornar a Bangu na próxima encarnação), resolveu abrir o bico e chegar ao pessoal da toga.
No Senado, prepara-se uma CPI para investigar o Judiciário e acaba de ser impetrado mais um pedido de impeachment contra Gilmar Mendes (há outros, contra Dias Toffolli, Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski). No Congresso, há ainda um pacote anticrime, do ministro Sérgio Moro, que, entre outras coisas, fortalece o combate à corrupção nos altos escalões do Estado.
Diante disso, não surpreende a decisão do STF de remeter ao TSE os crimes de corrupção que possam, de algum modo, apresentar um viés eleitoral. Nocaute à Lava Jato: quase todos os enquadrados por ela alegam caixa dois para justificar propinas e superfaturamento de obras. Reduz-se assim (ou mesmo elimina-se) a fila dos réus e viabiliza-se a liberação dos já encarcerados, a começar por Lula.
Achou ruim? Cuidado: o presidente do STF, Dias Toffolli, anunciou que irá punir os que, inconformados, protestem contra esses atos. Em gesto inédito (quase tudo neste momento é inédito), o STF julgará em causa própria os que achar que o ofenderam.
Eis que o autointitulado Poder Moderador da República perdeu de vez a moderação.
Ruy Fabiano é jornalista 

sexta-feira, 8 de março de 2019

"Venezuela inspira cuidados', por Fernando Gabeira

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Fui quatro vezes à fronteira com a Venezuela. A última jornada, entrega de caminhões com comida e remédio, acompanhei de longe. A sensação que tenho é de que algumas pessoas superestimaram a possibilidade da queda imediata de Maduro. Esperam um nocaute numa luta que só poderia ser ganha por pontos. E de certa forma a luta foi ganha. A violência contra os manifestantes e o incêndio dos caminhões contribuíram para isolar um pouco mais o ditador bolivariano.
Numa luta ganha por pontos, o vencedor também sofre alguns golpes. O grupo de países que apoiou Juan Guaidó utilizou um grande símbolo, que é a ajuda humanitária, mas parece ter-se esquecido de que outras crises surgem constantemente no mundo. E um dos princípios da ajuda humanitária é exatamente não usá-la para proselitismo político.
Se entendi bem os informes acerca da reunião sobre a Venezuela na Colômbia, havia uma divergência latente entre a posição brasileira e a norte-americana. Creio que essa divergência pode ser encontrada numa frase que os americanos usam com frequência: todas as opções para derrubar Maduro estão sobre a mesa. A julgar pelo general Hamilton Mourão, que representou o Brasil, há pelo menos uma opção que não nos interessa: a intervenção militar.
Há muitas razões para o Brasil descartar essa hipótese. Uma delas é o fato de termos uma fronteira comum e uma série de questões que precisam ser resolvidas bilateralmente. Um clima de guerra poderia atrair milhares de novos refugiados. Apesar do indiscutível poderio militar dos EUA e das forças bem equipadas da Colômbia, a vitória rápida na Venezuela não é tão previsível.
O centro de todas as táticas, no momento, é tentar descolar as Forças Armadas venezuelanas da ditadura de Maduro. Daí a insistência nas promessas de anistia e o apelo aos oficiais para que pensem no futuro. No entanto, a resistência a uma intervenção militar não surgiria apenas nas Forças Armadas. Há os paramilitares organizados por Maduro e possivelmente orientados pelos cubanos. E há uma polícia política que só teria a perder com a queda do regime.
Mesmo entre os militares há os que parecem imunes a qualquer proposta de anistia. São os generais que ocupam postos no governo e obtêm neles grandes vantagens financeiras. Podem até achar interessante a ideia de uma velhice tranquila. Mas dificilmente se disporão a perder os ganhos materiais que recebem de Maduro em troca de apoio.
É um caminho complicado. Guaidó definiu-o bem, afirmando que a ditadura não cairá por si própria. Não só Maduro pode refugiar-se no seu bunker em Miraflores, como existem centenas de pessoas dispostas a se imolar pelo socialismo do século 21.
O general Mourão também disse algo que me parece correto: a Venezuela não consegue sozinha se livrar desse esquema de dominação. Se Maduro não renuncia, a intervenção militar é inviável e a Venezuela não pode resolver a parada sozinha, o que nos resta como alternativa?
Guaidó marcou nova manifestação para amanhã. Ele, que parece ter capturado a simpatia de grande parte do povo, seguirá nesse caminho. Mas sabemos que nem sempre as manifestações se mantêm quando não conseguem resultados práticos. Elas tendem a refluir com o tempo, para reaparecer adiante, às vezes com mais força.
Articular a pressão interna e externa parece-me no momento a melhor saída, ainda que tome mais tempo. O sofrimento do povo venezuelano é um dado que leva muitos ao desejo de rapidez e nocaute.
Nem sempre soluções fulminantes são as menos dolorosas. Há outras ditaduras no mundo. Algumas são tratadas pela comunidade internacional com certa tolerância. Não só a Arábia Saudita, como a Coreia do Norte são objeto de táticas diferentes dos EUA. Há nisso tudo outra questão delicada: combinar com os russos. E os chineses. Ambos financiam a Venezuela e possivelmente têm sua dívida paga com petróleo. Assim como é necessário tranquilizar os militares com anistia, seria preciso convencer os russos e chineses de que não terão perdas econômicas com a mudança.
Não sei qual é a posição de Guaidó sobre isso. Mas como seu objetivo é conduzir a transição para a democracia, realizar eleições, não só ele, como outros atores da oposição vão precisar se manifestar sobre isso. Naturalmente, Maduro e a cúpula do governo podem também ser alcançados por uma política de anistia e retirada segura da Venezuela.
Imagino como algumas pessoas podem torcer o nariz para essas hipóteses. Combinar com os russos? Deixar Maduro escapar do país? São as contingências de uma vitória por pontos, diferente de simples nocaute.
Supor um caminho mais radical e de curta duração pode trazer sérias consequências, e não só as sangrentas de uma guerra no continente. São também as constantes decepções das pessoas que acreditam que um regime comunista, apoiado pelos cubanos, vai deixar a cena, refugiando-se numa embaixada ou pura e simplesmente partindo num avião de carreira.
Não creio que o Brasil deva temer uma posição moderada. Afinal, embora exista um esforço muito amplo para derrubar Maduro, as consequências do processo violento vão ser mais sentidas nos países vizinhos. Outro dia, em Pacaraima, segui uma ambulância militar venezuelana. Quando chegou a Boa Vista foi direto para o Hospital Geral e desembarcou um jovem soldado que precisava de ajuda.
Isso me fez pensar. Se até os militares cruzam a fronteira em busca de ajuda médica, qual o papel de Roraima num cenário de guerra? Volta e meia há apagões em Boa Vista. A energia vem da Venezuela. Estamos prontos para substituí-la?
O próprio Maduro, ao condenar a ajuda humanitária, de certa forma poupou o Brasil. Disse que tinha dinheiro para comprar nossa carne, nosso arroz e nosso leite em pó. Não é verdade, mas é uma nuance. E, em política, nuance conta. Ele não ignora que o Brasil quer derrubá-lo. Mas distingue o método dos adversários.

O Estado de São Paulo