segunda-feira, 30 de julho de 2018

Demétrio Magnoli: "O PSOL e o PT diante de Ortega"


O filósofo Guilherme Boulos, um lulista próximo do PT, tornou-se o candidato presidencial do PSOL. A filósofa Marcia Tiburi deixou o PSOL e tornou-se candidata do PT ao governo do Rio. As portas giratórias da filosofia borram a fronteira entre a extrema-esquerda e a esquerda. Haverá, ainda, alguma diferença de fundo entre os dois partidos? Daniel Ortega indica que sim: enquanto o PT declarava seu apoio à repressão na Nicarágua, o PSOL a condenava. A diferença, porém, não é o que parece — como indica Nicolás Maduro.

A Venezuela aboliu as prerrogativas da maioria parlamentar oposicionista eleita em 2005. O regime chavista cassou os direitos políticos dos líderes da oposição e encarcerou centenas de oposicionistas. Apesar de tudo, em notas oficiais, PT e PSOL ofereceram solidariedade incondicional a Maduro. Por que, tal como o PT, o PSOL perfila-se à ditadura venezuelana, mas repudia as violências cometidas pelo governo nicaraguense?

Sociologicamente, o PSOL é diferente do PT. O partido de Lula nasceu do movimento dos trabalhadores do ABC. Já o PSOL, dissidência do PT, organizou-se como condomínio de facções esquerdistas. O PT estabeleceu-se como grande partido parlamentar e lançou extensas redes na direção do alto funcionalismo público e do empresariado. O PSOL, em contraste, segue circunscrito à periferia do sistema político. Não por acaso, seu candidato ao Planalto é um forasteiro, recém-filiado, que acalenta o projeto de criar um novo partido, nos moldes do espanhol Podemos. Entretanto, na esfera do discurso político, PSOL e PT rezam pela mesma Bíblia — ou quase.

No plano internacional, a “pátria ideológica” do PT é a Cuba castrista. Nem sempre foi assim. Na década de 1980, a revista teórica petista qualificou o regime castrista como uma imperdoável ditadura. Tudo mudou em 1990, quando Lula e Fidel Castro criaram juntos o Foro de São Paulo. O Foro, articulação de partidos da esquerda latino-americana, foi inventado para servir como escudo diplomático do regime dos Castro, que cambaleava sob o golpe da queda do Muro de Berlim. Dali em diante, o PT sujeitou-se ao “controle externo” cubano em todos os temas essenciais para o castrismo.

Há pouco, diante do Foro reunido em Cuba, Dilma Rousseff e Mônica Valente, secretária de Relações Internacionais do PT, caracterizaram as manifestações populares na Nicarágua como parte de “uma contraofensiva neoliberal, imperialista”. Maduro, Ortega, pouco importa o nome: o partido de Lula não faz distinções entre governos alinhados com Cuba. O PT age como um partido comunista das antigas — só que, no lugar de Moscou, seu coração mora em Havana.

A candidata petista Marcia Tiburi cultiva o hábito de denunciar o “exercício de poder sobre o corpo” mas não se comove com os “exercícios de poder” dos regimes de Maduro ou de Ortega contra os “corpos” de manifestantes desarmados. O PSOL, ao contrário, distingue nitidamente um cassetete do outro. “Há muito tempo a gente não via na América Latina um governo com esse nível de repressão”, clamou Israel Dutra, secretário de Relações Internacionais do partido, comparando Ortega ao sírio Bashar al-Assad. É que, para o PSOL, só regimes “revolucionários” têm o privilégio de violar as liberdades públicas.

A Venezuela destruiu sua economia em nome do socialismo. Por isso, segundo o PSOL, o cassetete chavista é virtuoso. Ortega, por outro lado, segue fielmente a cartilha do FMI. Na Nicarágua, a esquerda cindida com o sandinismo participa ativamente da onda de protestos contra o governo. Por isso, segundo o PSOL, o cassetete sandinista é vicioso.

“Mora na filosofia/ Pra que rimar amor e dor”. PT e PSOL são igualmente coerentes, mas orientam-se por bússolas distintas. O PT, partido pragmático, curva-se aos interesses geopolíticos de Cuba. O PSOL, partido ideológico, curva-se a seus próprios delírios revolucionários. No fim, porém, os dois são galhos da mesma árvore filosófica. Para ambos, democracia e direitos humanos não passam de utensílios descartáveis: copinhos plásticos de festas infantis.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

O Foro de São Paulo nada mais é do que um conglomerado de corruptos, Luiz Inácio Lula da Silva à frente



Foro de São Paulo é uma conferência de partidos políticos e organizações de esquerda, criada em 1990 a partir de um seminário internacional promovido pelo PT, que convidou outros partidos e organizações da América Latina e do Caribe para discutir alternativas às políticas dominantes na região durante a década de 1990, chamadas de "neoliberais", e para promover a integração latino-americana no âmbito econômico, político e cultural. (Wikipedia)

O 'FSP' acaba de se reunir em... Cuba.

Se havia lá nos anos 1990 a intenção de se criar um bloco para enfrentar os 'neoliberais', esse sentimento foi rápido para o vinagre.

Num primeiro momento, se consagrou a  certeza de que os seus inspiradores tentariam inicialmente estender o modelo de Cuba para outros países da região.

Venezuela, Argentina, Bolívia, Nicarágua... e claro, o Brasil.

A primeira vítima do 'FSP' foi a tentativa de amordaçar a imprensa. Lula mandou para o Congresso Nacional, já no seu primeiro mandato, um projeto para controlar a informação.

Calar os meios de comunicação era parte da engrenagem para roubar o dinheiro do povo. Sem divulgação.

Felizmente, a reação da sociedade barrou o 'gopi' da organização criminosa.

Noutros países integrantes do 'FSP' houve avanço. Argentina, Venezuela e Nicarágua são exemplos. Embora, o argentino já tenha despachado o projeto Lula-Kirchner-Fidel para o lixo. Pelo voto.

Paralelo à tentativa de barrar a liberdade de informação, o 'FSP' promoveu a montagem do maior assalto à coisa pública da humanidade. País mais rico do 'Foro', o Brasil fazia a derrama da grana entre a 'companheirada', a partir dos cofres do BNDES, da Petrobras, da Odebrecht...

O dinheiro farto do povo brasileiro fez a farra dos celerados do 'FSP' durante os governos da dupla medonha Lula-Dilma.

Enfim, o 'FSP' nada mais é do que um conglomerado de corruptos, Luiz Inácio Lula da Silva à frente.

O pretexto de gestar novas 'Cubas' era assaltar deslavadamente o bolso do povo, no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Nicarágua...

'Líder' da organização criminosa, Lula está no xilindró há mais de 100 dias, condenado a 12,1 anos só no primeiro dos seis processos contra ele que correm na Justiça.

Explica-se o ódio do covil do PT à Lava Jato.

Diga-se, de resto, que esses bandoleiros do 'FSP' continuam viajando mundo afora com despesas pagas com grana subtraída de quem trabalha e paga impostos.

Dilma 'trambique' simboliza a promiscuidade. Ainda solta, apesar de todos os crimes cometidos, segue pregando contra o Brasil. Afrontando quem defende um Brasil melhor.




Em papo com Glamurama, Fagner lamenta: “Chico [Buarque] foi meu grande parceiro e a política nos separou”


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Fagner || Créditos: Reprodução Facebook
Formidável é um adjetivo que cai bem para Raimundo Fagner. Um dos maiores artistas do Brasil, o artista, 68 anos, faz apresentação única em São Paulo no dia 4 de agosto, no Espaço das Américas. Na ocasião, vai reunir grandes sucessos de sua carreira com a turnê “Vento Forte”. Glamurama aquece os motores para o show com entrevista exclusiva com o cearense, uma figura simples que gosta de politica e futebol. É relacionando esses dois assuntos que Fagner lamenta a falta que sente de Chico Buarque, seu parceiro de pelada. “Chico [Buarque] foi meu grande parceiro. Faz tempo que a política nos separou, mas não tira o carinho que tenho por ele. Perdi um amigo que amo muito pelo artista que é.”
Ainda na entrevista, sua opinião sobre o resultado do Brasil na Copa do Mundo, alertando para a perda de identidade cultural dos jogadores da atual geração. Isso sem falar em boa música, claro, já que ele prepara seu próximo álbum de inéditas com a promessa de que será o melhor de sua carreira, sem modéstia: “Duvido que qualquer artista consiga ter um igual.”
Glamurama: O que você reconhece como mais interessante no cenário atual da música brasileira? 
Fagner: “O mais interessante sempre foi a diversidade. O Brasil é um país enorme, com músicas e sons de todos os lugares e de todas as tendências.”
Glamurama: Você é entusiasta de algum novo movimento musical?
Fagner: “Continuo sendo entusiasta de movimentos e artistas da minha geração, como a Tropicália, Clube da Esquina, que tem repertório e qualidade que sobrevivem até hoje, e nordestinos desta penúltima geração, que inclui Zeca Baleiro, Lenine, Chico Cesar…Todos esses deixam uma marca muito forte.”
Sabemos que você gosta muito de futebol, inclusive se apresentou na copa de 82. O que achou da atuação da seleção brasileira nesta Copa do Mundo?
Fagner: “Nós sonhamos demais. Foi um desperdício no sentido de que tínhamos um time com muita qualidade dentro do cenário internacional. Tinha fé que, por ter jogadores importantes – os melhores do mundo em suas posições – nosso time poderia chegar no mínimo na final. Acho que jogamos um pouquinho de salto alto e com alguns jogadores que não estavam no melhor da fase – o que aconteceu também em 2014. Por mais que achem que o Brasil foi bem, acho que poderíamos ter ido muito melhor. Sempre somos surpreendidos porque não temos mais identidade cultural – e isso não acontece só no futebol. A maioria dos jogadores da atual seleção saíram muito cedo do país e a cultura deles é a dos países em que jogam. A emoção de vestir a camisa do Brasil não é mais a mesma. Perder uma Copa do Mundo não marca a vida deles. Perdem no máximo uma noite de sono, enquanto os craques de outras gerações ficavam na pior. A força de uma pessoa ser convocada pra seleção hoje é muito menor. No dia em que voltar a ser uma seleção formada por craques que joguem aqui, no Corinthians, Flamengo e etc, a gente vai ter de volta essa emoção.”
Glamurama: Torceu para quem na final?
Fagner:
 “Eu já sabia que a França era o time mais completo. Achei bom não termos ido para final com ela, seria mais uma decepção. Eu gosto de futebol bonito, então não tinha muita preferência, mas sabia que era muito difícil a seleção francesa perder.”
Glamurama: Gosta de jogar futebol/pelada com os amigos?
Fagner: “Gosto mas estou parado por conta de complicações que tive no joelho. Joguei muito futebol, tenho o orgulho em dizer que joguei com os maiores do mundo – Rivelino, Sócrates, Pelé, Éder… Fiquei tão ligado ao futebol que em todo Estado que eu ia sempre tinha um clube que ia me buscar no aeroporto e me convidava pra treinar. Fui um dos artistas que marcou a ligação entre música e futebol, quando o artista flertava com o universo do jogador e vice-versa. A imprensa adorava esse intercâmbio. Chico [Buarque] foi meu grande parceiro. Faz tempo que a política nos separou, mas não influenciou no carinho que tenho por ele. Perdi um amigo que amo muito. Infelizmente, porque a política deveria ser uma coisa a parte.”
João do Vale, Fagner e Chico Buarque no início dos anos 1980 || Créditos: Reprodução
Glamurama: O que São Paulo pode esperar de seu próximo show na cidade?
Fagner: “Um show de um artista que ama o que faz, com repertorio identificado com o público e uma equipe espetacular que joga junto e me deixa, na linguagem do futebol, sempre na cara do gol.”
Glamurama: Você sempre cantou o amor, acha que o romantismo acabou ou está diferente?
Fagner: “Ele está cada vez mais forte. O Brasil é um país romântico. Não tem um grande sucesso que não tenha um grande romântico por trás.”
Glamurama: A forma de se produzir músicas mudou muito desde o início de sua carreira. Como você observa as novas gerações de músicos, o advento da internet, youtube e afins?
Fagner: “A Sony está lançando 13 títulos meus nestes novos formatos. O mundo caminha para frente e eu continuo no meu mundinho, procurando fazer musica com meus parceiros. Nunca mudei meu esquema. O mundo vai pra frente e eu fico no meu (Rai)mundinho (Risos). Estou vivendo o que eu sempre vivi.”
Glamurama: Você tem algum projeto musical em parceria com outros músicos à vista?
Fagner: “Estou com um disco praticamente pronto feito com vários parceiros como Zeca Baleiro e Moacyr luz.”
Glamurama: São 45 anos de carreira, uma discografia riquíssima e muitos prêmios. Que projetos ainda falta realizar?
Fagner:
 “Estou sonhando que meu melhor disco seja o próximo, que está entrando em fase de produção. Ele tem músicas boas de curtir e se emocionar, feitas com a mesma paixão de sempre e com grandes parceiros.”
Glamurama: Poderia fazer um balanço desses anos?
Fagner: “A maturidade reflete tudo aquilo que sinto no palco: reconhecimento e purificação da arte. A música é muito sublime, vejo isso pela forma que as pessoas se emocionam repetidamente. Como tudo na vida, a maturidade vem da repetição. O melhor lugar do mundo é o palco e o retorno do publico – o meu é fascinante. Um público que segura meus fracassos, me atura e me prestigia tanto. Duvido que qualquer artista consiga ter um igual. Às vezes penso: ‘será que as pessoas estão me prestigiando tanto porque eu estou mais para lá do que para cá?'(Risos).”
Glamurama: O que te fez conquistar esse público?
Fagner: “Comecei muito cedo, cantando em rádios e tenho uma frase que sempre falo: o público adota o artista, ‘segurando’ ele tanto nas fases boas como nas ruins. Uma vez, quando lancei meu primeiro disco, ouvi Nara Leão dizer: ‘Fagner, você vai fazer sucesso sempre porque o público te ama. Esse carisma que você tem eu só vi em Chico [Buarque].'”
Glamurama: Em suas mídias sociais você costuma relembrar momentos do passado, ao lado de outros grandes músicos. Você se considera um saudosista?  
Fagner: “Tenho dois meninos que fazem meu Instagram, o Yuri em Fortaleza e o Alan em Natal. Eles são fascinados por isso e me passam por Whats App o que acontece por lá, mas eu não acompanho. As pessoas me dizem que tem muita coisa legal, mas eu não vejo. Levo dois meses para responder alguma coisa.”
Glamurama: Você ainda vive em Fortaleza? Como é a sua rotina atualmente?
Fagner: “Moro entre Fortaleza e Rio, e levo uma vida de pessoa normal. Gosto de fazer caminhadas, falar no telefone e ver meus netos sempre que dá. Viajo muito, estou sempre disponível para os meus amigos. Me envolvo em tudo o que é problema que eles têm, sou um cara que quebra muito galho. Conheço gente de muitas áreas e meus amigos sabem que podem contar comigo, por isso eu sempre estou um pouco na mão dos outros.”
Glamurama: Como faz para manter o físico e a voz em forma?
Fagner: “Para o físico eu procuro fazer boas caminhas, mas da voz não cuido bem. Fumo até hoje, sou um irresponsável, deveria me tocar. Meu médico e meus amigos reclamam, e as pessoas sempre se admiram de saber que ainda fumo. No aeroporto tenho que fumar escondido… Há um ano fiquei seis meses sem fumar por contra de um problema de saúde, mas voltei e hoje fumo pouco mais de um maço por dia. Não aconselho ninguém a fazer isso.”
Glamurama: Qual a música da sua vida – a que mais gosta?
Fagner: “Tem que ter respeito por todas as músicas, mas apesar de muitas acumuladas nos últimos anos sou muito ligado a ‘Mucuripe’ (em parceria com Belchior), que não foi um hit mas abriu as portas para a minha carreira. Ela foi gravada pela Elis Regina e pelo Roberto Carlos… é a mais importante pra mim.”
Glamurama: Você sempre foi muito envolvido com a política. Se arrepende de algo? 
Fagner: “Além de meus amigos de geração serem Tasso [Jereissati] e Ciro [Gomes], entre tantos outros políticos, presenciei toda a mudança que tivemos no Ceará com o fim da gestão dos coronéis para o início de uma democracia, então me dediquei e me envolvi muito com a política, a ponto de tê-la colocado como prioridade em alguns momentos da minha carreira. Me arrependo de ter perdido tanto tempo com isso, participando tão ativamente de tudo, me apresentando em palanques… Tomei muita bola nas costas, fui até o fundo do poço, mas aprendi. Era apenas uma ficção. Recebia muitos conselhos para me envolver menos e não ouvi. Deveria ter sido mais ‘light’.”
Glamurama: Além de Chico Buarque, já perdeu outros amigos para a política?
Fagner: “Com certeza. Fui bobo e só percebi depois, mas muitos me usaram. Se tem uma coisa que posso ficar tranquilo é que nunca peguei dinheiro de política. Valorizei minha suposta ideologia de acreditar em pessoas e adorei quando veio a proibição de artistas em palanque, porque muitos subiam cada dia em um partido diferente, buscando dinheiro, e acabavam desnorteando as pessoas. Eu só subi em palanque de políticos que considerava os melhores, e claro que errei, mas nunca recebi nada por isso.”
Glamurama: Como se posiciona politicamente hoje? Em quem vai votar na próxima eleição?
Fagner:
 “Estamos há três meses das eleições, esperando para ver o quadro, que não é bom. Candidatos com maior visibilidade talvez venham com as mesmas manias e o país está menos dividido, as pessoas estão se ‘tocando’ de maneira geral. Quero ver o que eles têm a dizer. Tenho um grande amigo na disputa, o Ciro Gomes – já contribuí muito na campanha dele no Ceará -, e também Alvaro Dias e Geraldo Alckmin, que não são amigos mas já acompanhei de perto.”
Glamurama: Que recado daria para os políticos que estão no poder?
Fagner: 
“Olhem para o povo”. (Por Julia Moura)

terça-feira, 24 de julho de 2018

Roberto Freire: Bolivarianismo revela-se totalitário e assassino


Roberto Freire: Bolivarianismo revela-se totalitário e assassino

- Diário do Poder

O PPS entrou, lá trás, no FORO DE SÃO PAULO, uma plenária de partidos e organizações de esquerda da América Latina.

Quando o bolivarianismo – capitaneado por Cuba e pela Venezuela – se tornou hegemônico neste movimento, o PPS o deixou, formalmente.

De instrumento de construção de um pensamento amplo de esquerda no subcontinente, o Foro de São Paulo passou a ser uma correia de transmissão de um pensamento prototalitário e populista, revestido de tinturas de esquerda.

Nosso nome, apesar de pedirmos formalmente há mais de uma década, a retirada, ainda consta nesse movimento.

Há dias, reuniu-se o Foro São Paulo em Cuba.

Não deu outra.

Foi reiterado o apoio às protoditaduras da Venezuela e da Nicarágua.

O discurso é o de sempre. Forças do “império do mal” e da “direita”, partiram para derrubar regimes “populares, democráticos, progressistas, anti-imperialistas”.

O modelo nesses regimes segue o mesmo padrão.

Os limites à reeleição da Presidência da República são abolidos. O Judiciário é subordinado ao Executivo e passa a coonestar as decisões do primeiro-mandatário.

O Parlamento, a princípio com certa pluralidade, quando os bolivarianos perdem a hegemonia é simplesmente substituído por outra entidade, um simulacro de Parlamento, este formado diretamente pelos apoiadores do regime.

Sem democracia, sem alternância de poder, sem locus apropriado para que os conflitos se apresentem e sejam negociados e arbitrados, instaura-se a rebeldia, de diversas colorações políticas e ideológicas.

Na Nicarágua, Daniel Ortega aboliu os limites à reeleição.

A vice-presidência é de sua esposa.

Todos os poderes foram subordinados ao Executivo, diga-se, ao ditador.

Conflitos normais em uma democracia tornam-se conflagrações contra o governo.

350 cadáveres é o resultado dos conflitos na Nicarágua, parte expressiva deles produzidos por paramilitares apoiadores do regime.

No Brasil, os partidos de esquerda irmãos, aliados e amigos dos bolivarianistas do Foro de Sã Paulo ou se calam diante dos acontecimentos da Venezuela e agora, brutais, da Nicarágua, ou partem para o apoio, sempre travestidos das mesmas justificativas, de que a violência estatal se dá em resposta aos eternos “inimigos da pátria”.

O lulopetismo brasileiro é cúmplice de Maduro, na Venezuela.

E agora, é parceiro da ditadura de Ortega na repressão assassina aos nicaraguenses que exercem o elementar direito democrático de dissentir.

Deixo claro, em nome da Presidência do Partido Popular Socialista, e em meu nome, o repúdio às ditaduras da Venezuela e da Nicarágua, minha solidariedade aos povos desses países pelos seus direitos democráticos.

Lamento que o Partido dos Trabalhadores tenha enxovalhado a reputação das esquerdas brasileiras no que toca aos métodos nada republicanos de fazer política e agora, no plano internacional, esteja associado publicamente ao totalitarismo em sua prática de violentar e eliminar fisicamente opositores.
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Roberto Freire é presidente do Partido Popular Socialista.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

"Estupidez tóxica", por Luiz Felipe Pondé


Existe um novo conceito no mercado das ciências humanas (esse ramo do conhecimento mais sectário do que templos de fanáticos): masculinidade tóxica. Um primor. Logo existirão debates sobre masculinidade tóxica. 
Teses, debates na televisão. Fogueiras. Qual a acusação mesmo? “Ele é um caso grave de masculinidade tóxica, você não sabia?!”
O que vem a ser essa pérola inteligentinha? Ouvi o termo aplicado aos personagens masculinos do escritor americano Philip Roth (1933-2018).

Qual o pecado deles? Gostam muito de mulher. Pensam nelas como objetos de desejo. Sofrem por elas e as fazem sofrem. Tudo o que sempre foi considerado normal no afeto antes de o mundo ficar idiota. Imagino que a masculinidade não tóxica seja a de homens castrados.
Nelson Rodrigues fundou a reflexão sistemática sobre a idiotice contemporânea na mídia e na universidade (na inteligência como um todo). 
Seu “idiota da objetividade” é o ancestral direto do inteligentinho (termo fofo para idiota da inteligência), do idiota do bem, do idiota da tecnologia, do idiota da saúde, do idiota da educação. E o que eles todos têm em comum? Qual o DNA deles (como diria o idiota do mundo corporativo)?
Todos querem salvar a humanidade, tornando-a letra morta. Sangrando a vida. Acusar Philip Roth de masculinidade tóxica, crer que esse pode vir a ser um conceito “sério”, é ser um idiota da objetividade e do bem, ao mesmo tempo.
Mas, vejamos um grande exemplo disso, muito recente, ligado à recente Copa do Mundo na Rússia. Aliás, as discussões politicamente corretas durante a Copa encheram o saco. Cada um queria se provar o cara mais antimachista do mundo. Um bode total.
Nós achamos os russos uns machistas (as mulher russas, então, são supermachistas, além de serem absurdamente lindas, é claro). E os russos nos acham uns frouxos. Ambos têm razão. Imagino que os idiotas do bem achem que as mulheres russas sofrem de feminilidade tóxica (sensuais demais?).

Ricardo Cammarota
Rumores por aí afirmam que a Fifa quer proibir que as transmissões dos jogos exibam aquelas mulheres lindas nos estádios. Todo mundo sabe que parte da graça dos jogos da Copa é ver mulheres lindas de países diferentes. Mas, perdoe-me, devo sofrer de masculinidade tóxica ao pensar nisso.
Alguns afirmam que proibir a imagem de mulheres bonitas nos jogos ajudaria no combate ao assédio. Se isso for verdade, acho melhor proibir as imagens de crianças nos jogos também, assim podemos prevenir a pedofilia. E de pessoas de cor negra, assim combatemos o aumento do racismo. Asiáticos também, claro! E também do time adversário, assim combatemos a violência entre as torcidas.
Há um velho sintoma no ar, por trás dessa ideia de proibir a imagem de mulheres bonitas nos jogos: o ódio à mulher bonita. E, como beleza é um gradiente, a possibilidade de haver mulheres mais bonitas do que outras é sempre uma ameaça. 
Qual a solução? Proibamos, simplesmente, a exibição pública de mulheres bonitas, fazendo exceção, apenas, nos casos em que essas mulheres bonitas estejam rezando pela cartilha de ódio a si mesmas ou aos homens que sofrem da tal masculinidade tóxica. Vamos trancá-las no quarto.
Criemos um imposto sobre mulheres bonitas, a fim de gerar, no futuro, uma igualdade de gente sem beleza (não vou usar termos incorretos!). Outra é escrever papers “provando” que mulheres são consideradas mais bonitas do que outras por culpa do patriarcado. 
Mais uma é criminalizar de vez qualquer manifestação pública da beleza feminina. Não apenas proibir a exibição pública dessa beleza, mas, também, propor que o Ministério Público processe mulheres bonitas e seus adoradores (os tais tóxicos) de uma vez por todas.
As escolas, claro, devem coibir manifestações em sala de aula ou fora dela de encantamento por parte de um menino pela beleza de uma menina. 
Primeiro porque essas formas de encantamento na infância podem gerar masculinidade tóxica na idade adulta, e, claro, também, como ficariam as outras meninas menos encantadoras diante de tal encantamento pela mais encantadora? As redações do Enem, seguramente, falarão contra tais comportamentos tóxicos.
Freud deve estar tendo ataques de risos a esta altura. Inteligentinhos de todos os matizes (inclusive psicanalistas inteligentinhos) afirmam aos quatro cantos do mundo que Freud está ultrapassado em sua teoria sexual. Na verdade, ele nunca esteve mais atual. O ódio à mulher bonita é a prova de nossa doença.
Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”.
É doutor em filosofia pela USP

Denis Lerrer Rosenfield*: Loucura com método


- O Estado de S.Paulo

Se o PT sempre foi uma máquina produtora de versões, a prisão de seu líder máximo apenas confirma este fato

Se o PT sempre foi uma máquina produtora de versões, a prisão de seu líder máximo apenas confirma este fato. Sempre atento à formação da opinião pública, é-lhe capital manter o seu protagonismo político. Sair de cena significaria uma batida em retirada de difícil retorno.

Ocorre que Lula e vários de seus dirigentes foram condenados e alguns estão cumprindo pena em prisões. O comprometimento do partido com o crime tornou-se uma outra marca sua, com o mensalão e o petrolão sendo suas expressões mais visíveis. O partido da ética na política tornou-se o da criminalização da política, numa equação em que salta aos olhos a contradição.

Imagens contraditórias atormentam o partido. Como conviver com elas veio a ser uma questão maior. Várias alternativas se fizeram presentes. Uma delas, a de uma verdadeira autocrítica e uma mudança de rumos propriamente social-democrata, foi das primeiras a ser descartada. Seu lugar foi ocupado por uma denegação de todos os crimes cometidos, acompanhada por um discurso de tipo revolucionário em que abundam as radicalizações, com seus dirigentes abertamente defendendo o Foro de São Paulo em Cuba e a sanguinária ditadura de Maduro na Venezuela.

O discurso do “golpe”, da “perseguição política” e contra a “direita e os conservadores” faz parte da estruturação dessa narrativa. Lula preso tornou-se um ativo de preservação do próprio partido, em sua busca desenfreada por manter uma imagem pública palatável aos seus crentes e simpatizantes.

Neste quadro, a prisão do ex-presidente é um fato propriamente político da maior importância. O aparente quebra-cabeças de seus advogados faz parte do jogo, visando a manter o apenado em cena. Não se trata de uma defesa jurídica, mas propriamente política. Os argumentos, digamos, “jurídicos” são apenas uma aparência que faz parte de uma lógica mais geral. Não se bate em juízes e promotores um dia sim e outro também se há verdadeira intenção de libertar o condenado. A estratégia seria outra.

Alguns chegam a enxergar nessas atitudes aparentemente paradoxais uma espécie de “suicídio” do PT, vitimado que seria por suas contradições. Contudo, se adotarmos uma outra perspectiva, poderíamos ver a lógica do que surge como ilógico. E se o objetivo maior do partido fosse precisamente a sua própria conservação sob a ótica do longo prazo?

Uma abordagem possível consistiria em considerar um posicionamento partidário voltado para o período pós-eleitoral, cujo relógio começaria a contar a partir do dia 1.º de janeiro de 2019. Eis o cenário para o qual o PT está se preparando.

O partido já sabe que Lula não poderá ser candidato em 2018 por razões legais evidentes. A Lei da Ficha Limpa é clara a respeito. Até um estudante de primeiro ano de Direito sabe disso. Não é necessária a contratação de nenhum grande advogado. Contudo, o discurso da “perseguição política” e de cerceamento de seus direitos eleitorais faz parte de um processo mais amplo de deslegitimação das próximas eleições. O partido está amealhando capital político.

As chances de um poste escolhido no último momento são exíguas, apesar de alguns acreditarem ainda sinceramente nessa possibilidade. Em todo caso, tal crença contribui para que o partido continue coeso, algo que é da máxima relevância neste momento. Aparentemente, o PT está preocupado em ganhar esta eleição, quando na verdade visa a se posicionar enquanto oposição ao novo governo, dentro de um cenário institucional degradado – cenário este que lhe é de valia também em função do discurso revolucionário que está adotando. Regressa às suas origens.

Neste cenário, não lhe interessa qualquer aliança que lhe dê substância eleitoral para outubro. Por exemplo, compor com o ex-governador Ciro Gomes não lhe convém, pela simples razão de que este, eleito, seria por demais igual ao PT, vindo a aniquilar o próprio partido. O programa do candidato apresenta semelhanças profundas com o que foi defendido pelos governos Dilma e Lula II. Seria lógico apoiá-lo. Eleitoralmente, faria sentido; partidariamente, não. O fundamental para o partido reside em manter a sua hegemonia.

Para o PT, faz muito mais sentido a eleição de Jair Bolsonaro. Isso porque sempre poderia dizer que o processo eleitoral não tem nenhuma legitimidade, na medida em que Lula não teria podido participar da eleição. Teria sido impedido graças a uma “perseguição política”, a um ato de “arbítrio” perpetrado por juízes e promotores apoiados pela “grande mídia”.

Teria, ainda, do ponto de vista de sua narrativa, no interior de um quadro apresentado como institucionalmente degradado, o “benefício” de colocar-se como de oposição a um governo “militar”. Caso eleito, Bolsonaro não seria considerado como resultado de um processo constitucional, mas como produto de um conjunto de arbitrariedades da toga e dos meios de comunicação que teriam propiciado a volta dos militares ao poder.

O comprometimento do partido com a verdade é nulo. Importa-lhe exclusivamente a sua versão, contanto que essa lhe seja útil na perspectiva da conquista do poder. Não há nada ilógico no que o partido vem fazendo. A aparente desordem nas orientações partidárias segue também um método próprio de ordenação, tendo como eixo a estrutura partidária e a coesão de sua ideologia, por mais falsa e dissociada que seja da realidade.

O PT nunca prezou tampouco a democracia. Esta lhe foi útil, sobretudo no período pós-regime militar, apresentando-se como uma nova alternativa de participação política. Discursos de uma suposta “democracia direta” abundaram naquele período. Entretanto, o que importava para o partido era o uso que poderia fazer das instituições democráticas para apropriar-se do poder. Tratava-se do mero uso instrumental da democracia. Agora, o seu aviltamento veio a ser o seu complemento.
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*Professor de filosofia na UFRGS.

domingo, 22 de julho de 2018

G. K. CHESTERTON E A DENÚNCIA DO FALSO PACIFISMO DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA.

G. K. Chesterton e a denúncia do falso pacifismo da sociedade contemporânea

Referência bibliográfica do artigo:
SANTOS, Ivanaldo. G. K. Ghesterton e a denúncia do falso pacifismo da sociedade contemporânea. In: Estudos Nacionais, Florianópolis, n. 2, ano 1, março, 2018, p. 22-25.
Ivanaldo Santos
Filósofo, professor universitário, escritor e conferencista.
E-mail: ivanaldosantos@yahoo.com.br.
Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), mais conhecido como G. H. Chesterton, foi um dos mais relevantes escritores da primeira metade do século XX. Sua obra forma uma rara mistura de sátira, ironia, poesia e denuncia social. Ele valoriza o paradoxo como uma arma contra a aceitação complacente da visão convencional das coisas. Ele realiza uma sofisticada denúncia contra os erros, limitações e até mesmo a visão ingênua que o homem moderno tem de si mesmo e do mundo. Um bom exemplo do estilo crítico de Chesterton é a biografia que ele escreveu sobre Tomás de Aquino, um dos maiores pensadores da humanidade, intitulada Santo Tomás de Aquino: biografia. Nesse livro encontram-se todos os dados biográficos, as principais ideias e feitos sociais realizados por Tomás de Aquino. No entanto, também se encontra a denuncia dos erros e limitações das ideias e do modo de vida desenvolvidos na modernidade. Entre os livros publicados por Chesterton, destacam-se: O homem que foi quinta-feira, Ortodoxia e O Homem Eterno. O romance Homem Eterno é um dos melhores livros de apologética cristã do século XX e, dentre outras coisas, contribuiu para a conversão do escritor C. S. Lewis ao cristianismo. Por tudo isso, a obra de G. H. Chesterton tem sido resgatada, relida e valorizada nas primeiras décadas do século XXI.
Um bom livro para se conhecer a lado da denúncia social de Chesterton é o romance: O homem que foi quinta-feira. Nesse livro encontra-se, por exemplo, o personagem Lucian Gregory, membro de um grupo radical, que praticava atos terroristas, e seguidor da ideologia anarquista. Gregory tem ideias radicais, das quais constam: a abolição de Deus e da religião, acabar com todas as distinções entre vício e virtude, honra e traição, tradição e modernidade, direitos e injustiças. Para disfarçar suas ideias radicais e, com isso, passar despercebido pela sociedade e poder ficar livre para praticar atos terroristas, Gregory se passa por um “ingênuo poeta” que, por sua aparente ingenuidade, as “mães deixariam que levasse o seu carinho de bebê”. Em O homem que foi quinta-feira Chesterton apresenta a tática do “disfarce” desenvolvida por muitos grupos radicais (anarquistas, socialistas, fundamentalismo islâmico, etc) para viverem tranquilos dentro da sociedade e, por isso, ficarem livres para praticarem atos de terror e de violência. Essa tática consiste no fato do grupo radical e dos seus respectivos líderes sempre aparecerem publicamente como pacifistas, poetas ingênuos e inofensivos pregadores de algum modelo de sociedade alternativa (grupos de uso de drogas, grupos anticapitalistas, anti-cristianismo, etc). Enquanto a sociedade não perceber o disfarce, esses grupos ficarão livres para praticarem atos de violência. Uma violência apresentada geralmente como atos de bondade, de poesia e de pregação de um modelo de nova sociedade.
Chesterton é bem conhecido por seu personagem de ficção literária, o sacerdote-detetive Padre Brown. Nos contos do Padre Brown ou, como são conhecidas, nas histórias do Padre Brown, o personagem usa a lógica aristotélica-tomista para resolver empolgantes, misteriosos e cômicos casos de desaparecimento, assassinatos e tramas políticas.
No entanto, assim como em toda a sua obra, Chesterton utiliza-se do personagem Padre Brown para descrever, denunciar e criticar os erros e as limitações do mundo moderno. Um bom exemplo de como Chesterton realiza essa crítica, por meio do Padre Brown, é o conto: O duelo do Dr. Hirsch. É um conto que propicia uma leitura rápida, irônica e suave. Existe um pequeno ar de mistério no conto até que o detetive Padre Brown resolve o caso.
Nesse conto o Padre Brown, que conversava com alguns amigos, é convocado para ajudar um importante intelectual de origem francesa que, nas primeiras décadas do século XX, residia em Londres, o qual afirmava está sofrendo ameaças de morte por parte de algum desafeto. O nome desse intelectual é Paul Hirsch, mais conhecido como Dr. Hirsch. Ele é apresentado como um “líder e mestre em filosofia”, um pacifista e defensor do “desarmamento de todo o planeta” e, por isso, os “soldados deveriam fuzilar seus oficiais”. O Dr. Hirsch apresenta-se como um “manso sonhador e humano”, um intelectual moderado que “não era nem anarquista e nem evolucionista, seus pontos de vista sobre o desarmamento eram moderados”. Ele tinha alguns fiéis discípulos e uma multidão se seguidores que eram capazes de “ajudar o mestre em qualquer situação”. O Dr. Hirsch afirmava que estava sofrendo graves perseguições e, entre outras cosias, que essas perseguições eram semelhantes ao Caso Dreyfus, logo “Dreyfuz, um homem que sabia que era injustiçado”.
Apenas para esclarecer, o Caso Dreyfus foi um drama político que abalou a França no final do século XIX. Em síntese, o oficial do exército francês, de origem judaica, Alfred Dreyfus foi condenado injustamente, num processo fraudulento. O julgamento de Dreyfus provocou uma profunda crise na sociedade francesa. Uma crise que contribuiu para o acirramento do movimento anticlerical, anticristão e antissemita na França e na Europa. O Caso Dreyfus é apontado como uma das bases para o estabelecimento, em 1940, da França de Vichy, ou seja, de um governo fantoche e pró-nazista na França que durou até o ano de 1944.
O Padre Brown investiga as denúncias de tentativa de agressão contra o líder pacifista, o Dr. Hirsch. No entanto, para surpresa de todos, ao contrário do que se esperava, o Dr. Hirsch não era nem um pacifista. Pelo contrário, ele não passava de um espião a serviço de uma grande potência estrangeira e inimiga da Inglaterra. No Duelo do Dr. Hirsch não fica claro o nome verdadeiro do Dr. Hirsch e nem para qual país ele trabalhava. Isso fica em aberto. Em tese, poderia ser países que, no início do século XX, estavam em conflito com a Inglaterra, como, por exemplo, a Alemanha e a Rússia. O que Chesterton deixa claro, neste conto, é que o discurso do Dr. Hirsch era falso, que nem seu nome é verdadeiro. Tudo no falso Dr. Hirsch não passa de “mentiras na esperança de ter dito um pouco da verdade”.
Em O duelo do Dr. Hirsch, Chesterton denuncia os pregadores que influenciam a classe média, os intelectuais e até mesmo a Igreja. São pregadores que se apresentam como moderados, que só querem o bem da sociedade, que são contra toda forma de radicalismo, pacifistas que pregam o desarmamento, o fim do exército, o fim das fronteiras nacionais, pregam contra o preconceito, querem a abolição de toda forma de radicalismo e, para se atingir o fim do radicalismo, propõem, o fim do cristianismo. São pregadores que apresentam um mundo mágico, paradisíaco, cheio de facilidades. Pregadores que colocam a culpa sempre na família, no casamento, na maternidade, no cristianismo, na lei, no governo, que falam contra algum tipo de entidade mágica chamada de “elite” e coisas semelhantes. De acordo com esses pregadores, a solução dos problemas humanos passa pela abolição do casamento e da família, pela extinção do cristianismo e a presença, de forma radical, do Estado dentro da vida privada dos cidadãos.
No entanto, o próprio Chesterton, por meio do personagem Padre Brown, chama a atenção que ninguém deve se enganar com essa pregação mágica. Por trás desse tipo de pregação se encontram os mais sujos, corruptos e antiéticos projetos de dominação social. São projetos que, se colocados em prática, ao invés de trazerem a paz e o conforto social, trarão a privação da liberdade e a opressão para a esmagadora maioria da população.
Apesar do conto Duelo do Dr. Hirsch ter sido escrito a quase 100 anos atrás, a denúncia que Chesterton realiza é extremamente atual. As primeiras décadas do século XXI estão carregadas de pregadores, escritores, artistas, gurus de toda sorte e de toda forma de modismo intelectual que pregam um pacifismo radical (desarmamento, fim do exército, fim das fronteiras, etc), que pregam contra a família, contra o cristianismo e contra toda forma de valor moral. A sociedade contemporânea está repleta de falsos Dr. Hirschs que, assim como no conto de Chesterton, iludem multidões, enchem as casas das pessoas comuns com mentiras e ilusões. Esse tipo de ilusão, de falsa pregação está presente em muitos ambientes da sociedade (universidades, centros de estudos, nas mídias, etc) e até mesmo dentro da Igreja.
Por fim, afirma-se que a leitura do conto de Chesterton demonstra que a pregação pacifista, anti-família, anticristã e de outras naturezas já estavam presentes no Ocidente a 100 anos atrás. O que temos na sociedade contemporânea não é uma pregação nova, mas sim um novo capítulo da velha pregação pacifista. Por isso, é necessário ficar atento a denúncia de Chesterton, ou seja, todos os indivíduos desejam alcançar a paz, a pacificam dos conflitos sociais é um sonho a ser realizado, mas devemos ficar atentos, pois por trás desse tipo de pregação existem os mais obscuros, corruptos e antiéticos interesses políticos e econômicos.