quarta-feira, 15 de novembro de 2017

No centro de uma fantasia psicótica da esquerda - Olavo de Carvalho


No centro de uma fantasia psicótica da esquerda

15 de novembro de 2017 - 17:13:28
(Publicado no Diário Filosófico do autor no Facebook.)

Na esquerda brasileira já não existe, desde há muito tempo, pensamento individual. Tudo ali se decide em grupos, reuniões, debates internos em redes que formam o discurso ideológico destinado a criar e manter a hegemonia, o controle do movimento sobre o curso da vida social e política.
Decorridas algumas décadas da adoção desse estilo gramsciano de viver e pensar, é inevitável que cada participante da rede, desde os seus líderes e mentores intelectuais mais destacados até o último militante e tarefeiro, projetem a imagem da sua experiência sobre o que quer que lhe pareça personificar “o adversário”.
Como, por outro lado, a esquerda domina hegemonicamente toda a mídia, o show business e o sistema de ensino, essa visão das coisas se alastra por toda parte e se torna o modo normal e normativo de interpretar todas as ações humanas.
Graças a esse fenômeno, chegamos ao ponto em que já ninguém mais consegue distinguir entre a influência difusa de um escritor, cujas idéias e palavras se impregnam num vasto círculo de leitores sobre o qual ele não exerce o menor controle, e as palavras-de-ordem de um líder de partido ou guru de movimento político.
É como se Aleksander Soljenítsin fosse uma espécie de Leonid Brejnev da oposição, cercado de um Politburô, de uma KGB, de um departamento de propaganda e de toda uma estrutura partidária e governamental oposta ao sistema de comando oficial.
Encontro-me, hoje, no centro dessa fantasia psicótica. Tudo o que faço e digo, por pessoalíssimo e original que seja, é interpretado como se fosse fruto de deliberações estratégicas no seio de um movimento “de direita”; e, quanto mais minhas palavras se difundem espontaneamente pela sociedade e meus livros alcançam um sucesso considerável, tornando-se símbolos aglutinadores de sentimentos populares difusos, mais a esquerda inteira me enxerga como um temível chefe de partido, o membro e representante de um comitê diretivo, empenhado em transmitir palavras-de-ordem a toda uma militância obediente e disciplinada – exatamente aquilo que todos os intelectuais de esquerda são.
Por esse motivo, ninguém a quem as minhas opiniões desagradem imagina sequer a possibilidade de combatê-las pelos meios normais do debate intelectual, mas todos se empenham em mobilizar contra mim os instrumentos apropriados, antes, a destruir uma carreira política de deputado, senador ou presidente da República: os protestos coletivos, as movimentações de massa, a gritaria da militância organizada e, é claro, as campanhas virulentas de assassinato de reputação.
A anormalidade monstruosa desse estado de coisas salta aos olhos de qualquer observador isento, mas, nos próprios círculos de esquerda, parece a coisa mais normal e corriqueira do mundo combater um movimento político pelos meios usuais do combate político, sem ver que contra ela não se levanta um político ou uma organização de massas, mas apenas um escritor independente, sem respaldo partidário ou organizacional, sem patrocinadores, sem aparato de propaganda e sem outro auxílio que não o da sua esposa e de dois dos seus filhos.
A desproporção de forças, nesse confronto, é tal, que não se pode descrevê-la senão com a imagem empregada por Sebastião Castellio para resumir a disputa entre ele e a ditadura de João Calvino em Genebra: o mosquito contra o elefante.
Muitos líderes intelectuais e figuras de destaque nos círculos esquerdistas ajudaram a tecer em torno de mim essa imagem mitológica que já se consolidou numa campanha de caça ao Olavo de Carvalho.
Entre os culpados por esse estado de coisas destaca-se o sr. Caetano Veloso, que nunca abriu a boca a meu respeito para discutir minhas opiniões, mas para fazer delas a cristalização estereotipada de um movimento político que, na imaginação dele, se formou e atua exatamente como o “coletivo” da esquerda, apenas com sinal ideológico trocado.
Tão natural lhe parece esse modo de ver, que daí ele tira conclusões factuais totalmente fantasiosas, como por exemplo a de que “orquestrei” a vinda do deputado Jair Bolsonaro aos EUA, com a qual não tive absolutamente nada a ver e da qual participei apenas como conferencista, a convite do presidente do Inter-American Institute, Jeffrey Nyquist.
Também é inevitável que, nessa fantasia paranóica, minhas opiniões pessoais, em vez de ser compreendidas conforme as escrevi pessoalmente, apareçam mescladas e indistintas com as de pessoas, grupos e organizações com os quais não tenho contato absolutamente nenhum e pelos quais não nutro sequer alguma simpatia.





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