quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"Entrevista que não houve", por Ruy Castro



Folha de São Paulo


11.nov.1967/Folhapress
SETE LAGOAS, MG, BRASIL, 24-05-2016, 12:30h. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo", na empresa de sua familia em Sete Lagoas. No mês em que "Grande Sertão: Veredas" completa 60 anos, apenas um remanescente da expedição que levou Guimarães Rosa ao sertão de Minas Gerais ainda vive. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo" (apelido irônico por ele ser branco demais), acompanhou Guimarães Rosa na viagem feita em 1952 que inspirou o autor a escrever o romance e ainda guarda imagens e lembranças da época, aos 81 anos.(Alexandre Rezende/Folhapress ILUSTRADA) *** EXCLUSIVO FOLHA *** ORG XMIT: Alexandre Rezende
O escritor Guimarães Rosa durante sua posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967


Por esses dias de novembro de 1967, há inacreditáveis 50 anos, eu estava telefonando para Guimarães Rosa em nome da revista "Manchete", pedindo uma entrevista. Naquela semana, Rosa finalmente tomaria posse de sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito por unanimidade em 1963. Ainda não a assumira porque, médico e cardíaco, temia não sobreviver à cerimônia. Mas agora era a hora.

Nunca entendi por que Justino Martins, diretor da "Manchete", me confiou a tarefa. A revista estava cheia de repórteres experientes —dois deles os poetas Lêdo Ivo e Homero Homem, certamente amigos de Rosa. Eu tinha, se tanto, seis meses de profissão e acabara de chegar à "Manchete". Mas foi assim. 

Justino convocou-me à sua mesa, deu-me o número do telefone de Rosa e só me recomendou que chamasse o homem de embaixador —o que Rosa também era.

Naquele mesmo dia, telefonei. O próprio Rosa atendeu e, muito amável, se desculpou, alegando que estava escrevendo seu discurso de posse e não podia parar para dar entrevistas, mesmo que fosse para "Manchete". Eu insisti, "Mas, embaixador...". E ele, firme. Talvez tocado pela evidente juventude do repórter, sugeriu que eu telefonasse no dia seguinte —quem sabe já teria terminado o discurso. Fiz isto, mas, não, ele não havia terminado. Como consolação, disse que, se eu fosse à cerimônia, me daria uma cópia do texto.

Rosa tomou posse na quinta-feira, 16. Ao fim do discurso e sob a chuva de aplausos, saiu pelo salão apertando mãos, como se levitasse. Parecia encantado, não via ninguém –só a mim cumprimentou duas vezes, sem saber quem eu era. E o coração resistiu bem, não o traiu.

Deixou para traí-lo três dias depois, na noite de domingo, 19, no seu apartamento, em Copacabana. E eu me esquecera de pedir-lhe o discurso.

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