quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CARLOS BRICKMAN: 'É FASCINAÇÃO E AMOR'


‘É fascinação e amor’, por Carlos Brickmann

CARLOS BRICKMANN
O papa Francisco conquistou o Brasil. Tem carisma, uma empatia evidente com a população. Seus hábitos simples caíram no gosto do povo (e não só dos católicos). Falou de religião enquanto as autoridades tentavam conquistar eleitores. Mas, principalmente, ganhou o país por outro fator positivo: a tolerância.
Enquanto fundamentalistas anticatólicos e ateus que se imaginam melhores que os outros partiram para a grosseria e a intolerância, profanando símbolos religiosos e promovendo lamentáveis cenas de talibanismo (os talibãs afegãos, lembremos, dinamitaram duas magníficas estátuas de Buda, com mais de mil anos de idade, porque Buda não era muçulmano), o papa tomou cafezinho com um pastor evangélico, conversou com dirigentes de várias religiões, monoteístas ou não, e admitiu que muitos católicos se afastaram da Igreja porque a Igreja não lhes dava assistência espiritual. Lembrou que todos são filhos de Deus. E, nesse denso contexto, condenou sem reservas a homofobia, o ódio aos homossexuais. “Se a pessoa é gay e procura Deus, quem sou eu para prejulgá-la?”
Marketing? Não, ele é assim mesmo. Há anos é grande amigo de um rabino, Abraham Skorka, e com ele escreveu um livro ótimo, Sobre o Céu e a Terra ─ sobre tolerância, convivência entre pessoas com crenças diferentes. O papa mostrou que discordar de um comportamento não significa discriminar pessoas. E disse: “Casais que moram juntos antes do casamento são um fato antropológico”.
O papa Francisco venceu. O Brasil preferiu a tolerância ao rancor.
A descoberta… 
O papa, veja só, conseguiu abrir até a dura cabeça do governador fluminense Sérgio Cabral. O governador disse que, inspirado por Francisco, será agora mais humilde e aberto ao diálogo. Cabral se achava quase perfeito, embora lhe faltasse a humildade. 
Agora, com toda a nova humildade, deve considerar-se perfeito.
…de Cabral
Os grupos que se manifestam incessantemente em frente ao prédio em que mora Sérgio Cabral ultrapassam os limites do que é civilizado: a família e os vizinhos do governador não são responsáveis pelo seu Governo nem devem ser vítimas de seus adversários. Que se proteste contra o governador diante da sede do Governo, poupando família e vizinhos. E não se pode esquecer que Cabral nunca foi melhor do que é hoje; mesmo assim, elegeu-se e reelegeu-se governador, em eleições diretas e limpas.
Mas alguém precisa informar o neo-humilde Cabral que reclamar só do incômodo imposto à sua família pelos manifestantes é demonstração de falta de humildade. Nem se lembrou do sofrimento dos vizinhos.
A voz de Dilma
A presidente Dilma Rousseff deu longa entrevista a respeito das maravilhas e das medidas ─ invariavelmente corretas ─ de seu Governo que pode ser resumida em poucas palavras: “Se não têm pão, comam brioches”. Em outra época, quem disse a mesma coisa foi uma rainha francesa, Maria Antonieta. 
Ficou famosa!
A voz das ruas
Dilma disse que entendeu a voz das ruas mas que não vai mudar nada no Governo. Os parlamentares dizem ter entendido a voz das ruas e saíram de férias sem votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, que obrigatoriamente precisa ser aprovada antes das férias. E a gastança maluca não se esgotou na recepção do governador Sérgio Cabral ao papa Francisco, em que um bufê teve a audácia de cobrar (e o Governo fluminense teve a audácia de pagar) R$ 1.300,00 por pessoa, para servir café, água e biscoitos. O Congresso também saiu gastando sem freios.
Os ouvidos do Poder
Em fevereiro, tanto Renan Calheiros, ao assumir a Presidência do Senado, quanto Henrique Alves, ao assumir a Presidência da Câmara, prometeram reduzir as despesas. Resultado: o Congresso gastou R$ 140 milhões a mais que no mesmo período do ano passado, já levada em conta a inflação. Veja o balanço completo aqui.
Os bolsos do cidadão
E a festa continua. Dois anúncios do Senado deram na vista. Primeiro, pela publicação num pé de página, em letras pequenas; segundo, embora tratassem de licitações, por não se tocar em valor. Mas o que saiu já mostra do que se trata: mais luxos. Uma das licitações visa alugar veículos com motorista, para atender aos senadores em seus Estados, todos os dias, mesmo que o senador esteja em Brasília. São, no total, 78 carros (os senadores brasilienses ficam só com os carros que já têm, tadinhos!). 
E, como senador não é papa, nada de automóvel de pobre. É carro caprichado. O outro edital é para compra de material gráfico. Divulgar as maravilhas que o senador faz em seu mandato também é transparência.
Perdendo a razão
A revolta dos médicos contra a decisão do Governo de buscar estrangeiros sem exigir que revalidem seus diplomas no Brasil (e contra a tentativa de jogar nos médicos brasileiros a culpa por problemas sanitários, de falta de infraestrutura, de falta de verba) é justíssima. Mas greve de médicos é coisa errada: quem sofre não pode pagar pela culpa do Governo

REYNALDO BH: 'A CONTA DO POPULISMO NÃO VAI DEMORAR A CHEGAR'


Reynaldo-BH: A conta do populismo oportunismo não vai demorar a chegar

REYNALDO ROCHA
Houve uma época, não muito distante, em que cada brasileiro era, além de técnico de futebol, especialista em economia. Adam Smith, Milton Friedman, Keynes, Max Weber ou Paul Krugman eram figurinhas fáceis como Zagalo, Telê Santana ou Parreira. Antes de FHC e do Plano Real, éramos economistas por necessidade de sobrevivência. Foi o período em que o jornalismo econômico se tornou mais importante que o noticiário sobre questões políticas ou sociais. Fazia sentido. As revistas, os jornais e as emissoras de TV davam destaque aos novos “pacotes” (medidas tomadas sempre de surpresa), aos índices das Bolsas de Valores e às taxas diárias da caderneta de poupança.
Se aprendemos algo naqueles anos, foi que a inflação nasce basicamente do descontrole. Da irresponsabilidade fiscal e do mau uso do dinheiro de nossos impostos.
Um gigantismo estatal em que cada estado da federação tinha pelo menos um banco. E milhões de dependentes em vez de correntistas.
Voltaremos a isso, numa mistura de túnel do tempo com túnel do terror?
Estamos chegando perigosamentea esse ponto que, se ultrapassado, jogará fora tudo o que fizemos até aqui. Nós, os brasileiros.
Dilma anunciou nesta semana a liberação de R$ 6 bilhões de “emendas” parlamentares, após ter cortado o orçamento federal em mais de R$ 10 bilhões. Teve o cuidado de dividir a bolada em três parcelas, a vencer até o fim do ano. Qual foi a motivação? Manter a base alugada coesa, irrigada com esta fortuna. Por isso a repartição em parcelas até 2014.
Tal atitude ajuda a controlar a “espiral inflacionária” (expressão que jamais imaginei utilizar novamente), ou a estimular o investimento produtivo ou a produtividade nacional? Gera renda para os trabalhadores? Sabemos as respostas.
A notícia do dia é que Dilma vai elevar o limite de endividamento de estados e municípios. Um dia após ter liberado (ou prometido liberar) R$ 8 bilhões para o município de São Paulo. Por que não o fez antes? O município de São Paulo não estava, tecnicamente, falido? Se estava, como vai pagar? Ou não irá pagar? Se não for pagar, o Brasil todo vai bancar a graça de Dilma para o companheiro Haddad?
O que vem a ser essa “flexibilização”? Em termos simples, é como o chefe de uma família resolver o problema de falta de dinheiro aumentando o cheque especial de cada um dos familiares.
Responsabilidade fiscal? Esquece. Dilma permitirá gastar por conta. Uma conta que chegará em breve na forma de mais inflação. Os municípios (são mais de 5.550!) e os estados usarão o limite aumentado do cheque especial, mesmo tendo a renda reduzida.
Do populismo de esquerda passamos ao populismo de lugar algum! Ou simplesmente oportunista. Se antes os “magos” do PT gastavam (mal) o que tínhamos (impostos), agora pretendem gastar pior ainda o que não temos!
À incompetência e à irresponsabilidade, somou-se a volta a um passado que acreditávamos ter ultrapassado.
Falta saber o nome que terá na novilíngua petista essa colossal estupidez.

VELHARIAS IDEOLÓGICAS DO FORO DE SÃO PAULO

31/07/2013
 às 20:43 \ Direto ao Ponto

As velharias ideológicas agrupadas no Foro de São Paulo querem construir o futuro com os escombros do Muro do Berlim

No vídeo que ilustra o post republicado na seção Vale Reprise, Hugo Chávez conta que conheceu os companheiros Raul Reyes e Lula em 1995, durante a reunião do Foro de São Paulo realizada em San Salvador. Reyes, o número 2 na hierarquia das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas, estava lá como representante do bando que nasceu sonhando com o paraíso comunista e, há pelo menos 20 anos, sobrevive explorando o narcotráfico. Lula, então convalescendo da primeira derrota para Fernando Henrique Cardoso e já a caminho da segunda, baixara na capital de El Salvador para falar em nome do Partido dos Trabalhadores.
Gravado em 2008, o vídeo transformou-se numa prova contundente de que, ao contrário do que recitaram desde sempre os chefes do PT, as Farc são sócias fundadoras da confraria concebida por Fidel Castro para mostrar, uma vez por ano, que o comunista não é uma espécie extinta. Como nenhuma prova é suficientemente irrefutável para mentirosos patológicos, os pontapés na verdade prosseguiram. Assim que começa a quermesse anual dos órfãos da União Soviética, algum companheiro é escalado para jurar que as Farc jamais participaram do Foro.
Nestes dias, os sacerdotes da seita lulopetista estarão trocando afagos públicos com lhamas-de-franja, viúvas-de-tango, filhotes-de-passarinho, ditadores-de-adidas e outras obscenidades cucarachas. Mas vão fingir que não viram nem de longe alguém procedente da selva colombiana. Nos bordéis de antigamente, as prostitutas topavam tudo, menos beijo na boca. No cabaré das velharias ideológicas, o PT topa qualquer ligação promíscua, aprova qualquer perversão. Mas só anda de mãos dadas com as FARC sem testemunhas por perto.
É no Foro de São Paulo que a turma mostra a cara. A exemplo dos parceiros, o PT nem tenta camuflar o desprezo pelo Estado Democrático de Direito, a certeza de que os fins justificam os meios, a ojeriza aos princípios éticos, a obsessão pelo poder e o sonho do partido único. Na segunda década do século 21, os stalinistas farofeiros não desistiram de construir o futuro com os escombros do Muro de Berlim.

HEDONISTAS? 'CONTARDO CALLIGARIS'

Hedonistas? - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 01/08

De onde vem a ideia dominante, de que a renúncia ao prazer sempre ganha pontos?


O papa Francisco, quando era o cardeal Jorge Bergoglio, de Buenos Aires, conversava de religião com o amigo rabino Abraham Skorka. Os diálogos estão agora num livro, que, no Brasil, acaba de sair, "Sobre o Céu e a Terra" (editora Paralela).

Os dois religiosos tratam de matérias escabrosas --as quais não são apenas contracepção, células-tronco, divórcio, aborto e casamento gay, mas também as questões que desafiam a fé de qualquer um: por que a presença do mal no mundo? Deus é apenas uma resposta fantasiosa a nosso mal-estar psíquico? A religião foi inventada para servir de ópio dos povos?

Como ambos são decididos a parecerem simpáticos e razoáveis, o texto é agradável e um pouco previsível. Não que eu esperasse grandes viradas teológicas: de qualquer forma, um livro para o grande público não seria o lugar para isso. Mas esperava mais ousadia no pensamento.

Alguém dirá que ousadia não é coisa para papa --citação de Francisco na orelha do próprio livro: "A verdade religiosa não muda, mas se desenvolve e vai crescendo".

Sinto muito, a igreja tem uma história (muitas vezes sangrenta) de mudanças. Só para dar uma ideia, nos 2.000 anos desde que os apóstolos se reuniram em Jerusalém:

-- Faz só 1.700 anos que acreditamos que o Pai e o Filho teriam a mesma natureza;

-- Faz menos de 1.600 que acreditamos na maternidade divina de Maria, e por volta de 1.400 que acreditamos na perpétua virgindade da mesma;

-- Faz apenas um pouco mais de 800 anos que o celibato se tornou obrigatório para o clero, e menos ainda que confissão e comunhão se tornaram obrigatórias uma vez por ano, na Páscoa;

-- Faz por volta de 600 anos que a gente inventou o Purgatório;

-- E é só desde 1870 que o papa é dogmaticamente infalível.

À vista dessa história de reviravoltas, em que cada um pode se tornar herético (o que, hoje, no máximo, vale uma excomunhão sem grande interesse, mas, no passado, acarretou consequências fatais para muitos), ninguém sabe as surpresas que nos reserva a igreja de amanhã.

Quanto a mim, espero há tempos a reabilitação dos cátaros, que são minha seita preferida (exterminada no século 12). Eles tinham a melhor solução teológica ao problema do mal na Terra e da estupidez dos homens: basta pensar que o mundo seja criação do diabo, e não de Deus.

Enfim, entre os muitos assuntos ao redor dos quais papa Francisco e o rabino Skorka concordam, um capturou minha atenção. Francisco diz "nesta civilização consumista, hedonista, narcisista...", e o rabino Skorka, "...em uma concepção hedonista da vida, egocêntrica, ególatra".

Embora o papa e o rabino não desprezem todos os prazeres terrenos (isso significaria desprezar a criação --pecado gravíssimo), ambos parecem convergir com um clichê dos críticos culturais contemporâneos, considerando que "hedonismo" é palavrão: a procura do prazer como bem único ou supremo parece ser o que eles menos gostam na nossa época. No Rio, aliás, Francisco mencionou o prazer entre os "ídolos" que nossa época colocaria no lugar de Deus. Algumas notas.

1) A correlação entre hedonismo e egoísmo é, no mínimo, problemática. Exemplo. Quem é mais egoísta? Alguém que se priva de toucinho na sexta-feira para ganhar o Paraíso? Ou alguém que transa quanto mais puder, sempre achando que o que ele mais gosta é ver sua parceira ou seu parceiro gozar?

2) Uma cultura que, de maneira quase unânime, não para de lamentar seu "hedonismo", só pode ser radicalmente anti-hedonista, ou seja, oposta ao prazer como bem. É fácil constatar que inclusive os que acreditam na existência de uma alma imortal sentem a finitude da vida; agora, é espantoso que, mesmo assim, o prazer continue tendo, para nós, uma conotação moral negativa. E a renúncia ao prazer (seja ela para satisfazer a Deus ou ao médico higienista), uma conotação moral positiva.

3) Nos três grandes monoteísmos, o prazer é facilmente culpado ("não se cansem de pedir perdão", encorajou papa Francisco). Alguém dirá que isso acontece sobretudo no cristianismo porque Deus se manifestou pelo sofrimento e não pelo prazer de seu filho. Essa é uma visão teológica à qual não sei contribuir. Mas a questão cultural correspondente é: o que fez o sucesso de uma religião que se fundou na ideia da paixão necessária do filho de Deus e, por consequência, na ideia de que o sofrimento e a renúncia ao prazer, de alguma forma, ganham pontos?

4) Só para lembrar: não era assim entre os pagãos, nem entre os libertinos dos séculos 16, 17 e 18.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG: 'FOLGANDO NA SEXTA'


quinta-feira, agosto 01, 2013


Folgando na sexta - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 01/08

Fazenda e Planejamento ficaram semanas discutindo o corte orçamentário. Quando o anunciaram, verifica-se uma coisa frouxa, sem combinação com o resto do governo, sem projetos



A Marinha chegou a comunicar a seus funcionários que não precisariam mais trabalhar às sextas-feiras. Culpa do superávit primário, explicava o comando em nota distribuída internamente na última segunda. A Esquadra, digamos assim, havia sido atingida pelo corte de gastos necessário para atingir a meta de economia do setor público, o tal superávit primário.

Nos Estados Unidos, os governos — federal, estaduais e municipais — também fecham repartições e mandam funcionários para casa nesses momentos de aperto. Faz sentido: gasta-se menos com luz, água, telefone, ar-condicionado, cafezinho, bandejão, essas coisas. Só que lá nos EUA funcionário em casa não recebe — e no Brasil é proibido cortar salário de servidor público. Logo, a economia seria menor. E a sexta-feira seria mesmo uma bela folga para os funcionários burocráticos e administrativos da Marinha. Fim de semana de três dias, remunerados!

Mas, para azar desses servidores, que já planejavam a folga, a coisa pegou mal. A Marinha distribuiu o comunicado, em e-mail interno, na segunda. Na terça, o documento caiu nas mãos da jornalista Denise Peyró, da CBN, que colocou a matéria no ar. Poucas horas depois, a Marinha distribuía nota à imprensa dizendo que chegara a cogitar de fechar às sextas, mas que desistira da ideia e estudava outras maneiras de economizar.

Ficou evidente a bronca não apenas da Marinha, mas também das outras forças, Exército e Aeronáutica. Essa área, a Defesa, sofreu os maiores cortes, e não é a primeira vez que isso acontece. Em outras tesouradas, outros governos cortaram mais verbas das forças. Ninguém nunca diz claramente, mas todo mundo sabe o pensamento que está por trás disso: o país não está em guerra, sequer tem inimigos...

Não apenas por isso, o fato é que a Defesa brasileira foi ficando para trás. Equipamentos atrasados, quartéis reduzindo expediente para não precisar dar almoço aos soldados, redução de efetivos e por aí foi. Pode parecer estranho, mas faz parte desse processo de deterioração o uso dos jatinhos da FAB por autoridades políticas.

Militares, reservadamente, criticam o sistema. Que a FAB cuide do avião presidencial, tudo bem, mas transformá-la em serviço de aluguel de jatinhos para políticos? — tal é a queixa.

Mas, sabem o que mais? A triste realidade é que oficiais da FAB têm nesse sistema uma oportunidade de acumular horas de voo, sempre limitadas por questões orçamentárias. Avião no chão, navio no porto e tanque no quartel gastam bem menos, não é verdade?

Todo esse episódio revela o atraso não apenas da Defesa, mas do Estado brasileiro. E a absoluta falta de um projeto, sequer a disposição, de reforma. Aqui, os próprios militares têm parcela da responsabilidade, no seu setor.

Há tempos especialistas nacionais e estrangeiros notam que nossas Forças Armadas precisam ter menos gente, menos quartéis (inclusive no Rio), menos repartições, menos soldados e oficiais. E mais equipamentos e muito mais tecnologia. Resumindo: uma Força menor, bem armada, com uma capacidade e movimentação adequada ao tamanho do país e, especialmente, de nossas fronteiras. Mais uma mudança de orientação para que a Força Armada, ao controlar de fato a fronteira e o mar territorial, seja parte essencial no combate ao tráfico de drogas.

Mas não se nota uma pressão da corporação por essas reformas. O pessoal parece acomodado e fica ali tocando a vida. Há, no momento, um programa de compra de armamentos, mas atrasado e de conclusão duvidosa. Há quanto tempo se fala da compra dos tais caças para a Aeronáutica?

Assim para o Estado, para o serviço público. O episódio da Marinha mostrou como foi tudo na base da improvisação. A Fazenda e o Planejamento ficaram semanas discutindo o corte orçamentário. Quando o anunciaram, verifica-se uma coisa frouxa, sem combinação com o resto do governo, sem projetos.

Se for mesmo para cortar, o que é duvidoso, vão ter que improvisar como a Marinha tentou.

Tem muita gente reclamando do serviço público em geral. A reação dos governos tem sido a pior possível. No caso dos médicos, por exemplo, o governo Dilma já está mudando a proposta tão contestada. Parece coisa tão improvisada como a ideia de fechar repartição na sexta-feira.

Obra anunciada

E, por falar nisso, não percam a série do “Valor Econômico”, do repórter André Borges, sobre a Ferrovia de Integração Leste-Oeste, iniciada ontem. Em 2010, Lula prometeu inaugurá-la em 30 de julho de 2013, anteontem. Pois a ferrovia não tem sequer um trilho instalado. A Valec, estatal que toca (?) a obra, não consegue comprar os trilhos.

DEMÉTRIO MAGNOLI: 'DA ARTE DE ILUDIR'

Da arte de iludir - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 01/08

Todos eles leram “O leopardo”, de Lampedusa. “Se queremos que as coisas permaneçam como sempre foram, elas terão que mudar” — o célebre conselho de Tancredi Falconeri a Don Fabrizio provavelmente não foi enunciado explicitamente na reunião de Dilma Rousseff com os líderes do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), mas uns e outros sabiam que era disso que se tratava. A presidente declarou-se simpática à proposta de reforma política, mas não chegou a anunciar um apoio público, algo que “não interessa” ao movimento, segundo o juiz Márlon Reis. O patrocínio oficial ficou, assim, fora dos autos.

Nas ruas, em junho, gritaram-se as palavras “educação” e “saúde”, não “reforma política”. Contudo, o governo concluiu, razoavelmente, que o sistema político em vigor tornou-se insuportável — e resolveu agir antes que uma nova onda de manifestações se organize sob a bandeira de “Fora Dilma”. Os ensaios sucessivos da constituinte exclusiva, uma flagrante inconstitucionalidade, e do plebiscito, uma tentativa quixotesca de cassar as prerrogativas do Congresso (o que se traduz, hoje, na prática, como prerrogativas do PMDB) evidenciaram o desespero que invadiu o Planalto. É sobre esse pano de fundo que surgiu, como derradeira boia de salvação, a iniciativa do MCCE. Tancredi está entre nós.

Antes das manifestações de junho, só o PT tinha uma proposta completa de reforma política. Nos sonhos petistas, o anárquico e corrompido sistema atual evoluiria em direção a algo mais consistente — e ainda mais impermeável à vontade dos cidadãos. O financiamento público de campanha concluiria o processo de estatização dos partidos políticos, que se tornariam virtualmente imunes ao escrutínio popular. O voto em lista fechada concentraria o poder nas mãos das cúpulas partidárias, rompendo os tênues vínculos ainda existentes entre os eleitores e seus representantes. No fim, surgiria uma partidocracia cortada segundo os interesses exclusivos do partido dotado da máquina eleitoral mais eficiente.

O projeto petista, que já esbarrava na resistência do restante da elite política, tornou-se inviável depois do transbordamento das insatisfações populares. No lugar dele, o Planalto inclina-se em direção ao artefato lampedusiano produzido no forno do MCCE. O primeiro componente da proposta, sobre o financiamento de campanha, é um tímido aceno às ruas. O segundo, sobre o sistema eleitoral, é uma versão levemente modificada do projeto petista do voto em listas fechadas. Os autores da proposta têm bons motivos para temer que lhes colem o rótulo de companheiros de viagem do governo.

Dentro da ideia do financiamento público de campanha pulsa um coração totalitário. Sob a sua lógica, os partidos se libertariam por completo da necessidade de persuadir as pessoas a financiá-los. Pela mesma lógica, eu seria compelido a pagar as campanhas de figuras arcaicas restauradas pelo lulopetismo (Sarney, Calheiros, Collor, Maluf), de pastores fanáticos que sonham incendiar bruxas (Feliciano), de oportunistas sem freios atraídos pelas luzes do poder (Kassab, Afif), de saudosistas confessos do regime militar (Bolsonaro) e de stalinistas conservados em formol que adoram ditaduras de esquerda (quase todos os candidatos do PT, do PCdoB e do PSOL). O MCCE rejeitou essa ideia macabra, associando sensatamente o financiamento de campanha à capacidade dos partidos de exercer influência sobre cidadãos livres. Entretanto, curvando-se aos interesses gerais da elite política, a proposta não toca nas vacas sagradas do sistema em vigor: o Fundo Partidário e o tempo de televisão cinicamente qualificado como gratuito.

O sistema eleitoral atual é uma triste caricatura de democracia representativa. Soterrados sob listas intermináveis de candidatos apresentados por dezenas de siglas partidárias e ludibriados pelo truque imoral das coligações proporcionais, os eleitores operam como engrenagens da máquina de reprodução de uma elite política bárbara, hostil ao interesse público. A alternativa petista do voto em listas fechadas corrompe a representação de um modo diverso, mas não menos doentio, conferindo aos chefes dos partidos o poder extraordinário de esculpir a composição do parlamento.

A proposta do MCCE envolve a alternativa petista num celofane ilusório, sem modificar o seu cerne. Os partidos seriam obrigados a realizar prévias internas fiscalizadas pela Justiça Eleitoral para selecionar seus candidatos, o que configura uma interferência antidemocrática na vida partidária. Numa primeira etapa, os eleitores votariam apenas nos partidos. Depois, na etapa derradeira, votariam em nomes constantes de listas com duas vezes mais candidatos que as vagas obtidas na etapa anterior. A valsa complexa conserva o poder de decisão essencialmente com os dirigentes dos partidos, mas distribui alguns doces aos eleitores. O Planalto e o PT entenderam o sentido da obra — que, por isso mesmo, deve ser descrita como “apartidária”.

Uma ruptura democrática seria a adoção do sistema de voto distrital misto. Nos Estados Unidos e na França, a disputa entre apenas um candidato de cada partido em circunscrições eleitorais delimitadas transfere o poder de decisão para os eleitores e provoca nítidas polarizações ideológicas. Sob a sua lógica, os partidos são estimulados a lançar candidatos capazes de sobreviver ao escrutínio direto do público. E, ao contrário do que argumentam os arautos do voto proporcional exclusivo, os candidatos não podem se apresentar como “deputados-vereadores”, pois a dinâmica da disputa majoritária os compele a associar seus nomes às posições doutrinárias de seus partidos.

O MCCE, porém, parece avesso à ideia de uma mudança genuína. “Precisamos do apoio de todas as forças políticas na hora da aprovação no Congresso”, explicou Márlon Reis, o Tancredi disponível na esteira da tempestade de junho.

AOS LEITORES DESTE BLOGUINHO: RAFAEL BRASIL

Passei dois dias sem internet. Para mim, e nós da minha família, foi uma eternidade. É um absurdo que estas "otoridades" brasileiras deixaram metade do povo sem essa, digamos,  iguaria digital. O povo merece internet. O povo brasileiro tem esse direito. Depois vem estes petistas dizerem que gostam do povo. Gostam mesmo é da miséria da nação para a explorarem. Vivem dela. Afinal, a miséria não é só material. É sobretudo intelectual  e espiritual. Povo desinformado é povo mais facilmente domesticável, não? Só agora voltarei a ler artigos e fazer postagens. 

DITADURA CLEPTOCRÁTICA TOGADA - RAFAEL BRASIL

A ditadura cleptocrática togada, do consórcio PT/ STF, se baseia nos princípios fundamentais de qualquer ditadura comunista. Terrorismo de e...