Silêncio de instituições e intelectuais brasileiros sobre a violação de direitos políticos em Cuba revela o mais estreito pragmatismo
Para os mais jovens, vale lembrar que os bolchevistas -palavra que vem do russo significando maioria- representavam a facção majoritária que, no congresso do Partido Comunista de 1903, seguiu Lênin, contra os menchevistas, os minoritários, sociais-democratas mais moderados do que o grande líder revolucionário.
Mas interessa, neste momento, lembrar que o bolchevismo representou uma forma de prática política em que o militante adere ao partido de corpo e alma, como se aderisse a uma igreja, a uma instituição prenhe de verdade. Os velhos comunistas pediam a autorização do partido para se casarem.
E, durante os processos de Moscou, quando Stálin liquidou seus adversários, estes terminaram confessando crimes que não tinham cometido, pois pensavam o partido como a morada da verdade.
Se o comunismo desapareceu do horizonte político de hoje, se a democracia se impôs, vamos dizer assim, como valor universal, não é por isso que essa adesão emocional, e às vezes mística, a uma organização política tenha se extinguido.
É muito comum em pequenos partidos de esquerda (ou de direita), assim como em certas correntes da esquerda infiltradas nos grandes partidos. A maior surpresa, todavia, é constatar que medra no pensamento de muitos intelectuais.
Compreende-se que um militante endosse uma decisão partidária, mesmo contra sua vontade. Participou das discussões internas do partido e, tendo perdido a disputa, só lhe cabe acatar a decisão da maioria. Há um compromisso com a instituição em que milita. Se ela viola seus princípios, resta-lhe apenas retirar-se.
Nas situações-limite, porém, essa regra se torna relativa. Ao intelectual, em particular, orgânico ou não, cabe estar sempre atento às questões de princípio. Se um partido nega um de seus esteios fundadores, não precisa abandoná-lo, desde que faça ouvir bem alto sua voz discordante.
Não há como transigir quando se trata de uma questão que diz respeito ao funcionamento da própria democracia, do direito de as minorias se manifestarem e lutarem por seus ideais.
Sabemos que não é o que está acontecendo em Cuba, na China e em outros lugares.
Minha geração foi tomada de entusiasmo pela Revolução Cubana. Era um raio de sol na América Latina, quando predominavam as contrarrevoluções autoritárias. Entendemos a necessidade de Fidel se aproximar da União Soviética, diante da pressão americana, principalmente depois do embargo decretado.
Aceitamos, embora com relutância, o "paredón", o fuzilamento dos inimigos do regime. Há momentos em que a violência política se torna inevitável. Mas aos poucos fomos percebendo que a Revolução Cubana estava se degenerando.
Caricatura
Jean-Paul Sartre [1905-80] foi o primeiro intelectual conhecido a romper com Fidel. Depois se avolumaram as evidências de que o regime se tornava cada vez mais autoritário, reprimindo sem piedade qualquer manifestação oposicionista. Hoje a República cubana é uma caricatura do socialismo.
E o embargo americano que impede Cuba de se desenvolver? E as conquistas sociais, principalmente no campo da saúde, da educação e do esporte, que colocaram Cuba na modernidade?
Tudo isso continua sendo muito pertinente, mas não retira dos cubanos o direito de divergirem das políticas oficiais. Mais ainda, não abole a distinção entre o preso político, aquele que sofre punição por sua militância política, e o preso comum, que simplesmente transgride em prol de si mesmo ou de sua gangue.
As manifestações contra o regime cubano crescem dia a dia. Tudo indica que a repressão aumentará. Não podemos aceitar que os manifestantes sejam tratados como presos comuns. Mas, como sempre, o governo Lula dá uma no prego e outra na ferradura.
Desta vez, porém, a pancada na ferradura foi muito maior, porque ferrou qualquer adversário, negando seu estatuto de político, mesmo quando faz greve de fome para ser reconhecido como tal. Cabe então a nós, intelectuais brasileiros, denunciar essa violência, defender o direito e o espaço das oposições.
No entanto, muitos de nós simplesmente estão se furtando a tomar firme posição contra esse escândalo. Estão casados com os grupos de esquerda em que militam e comprometidos com a política do atual governo, mesmo quando ela nega princípios gerais que comandam os ideais democráticos.
Até o Cebrap
O maior argumento é que agora qualquer manifestação teria efeitos eleitorais. Mas o silêncio não tem o mesmo efeito? Interessante é que até mesmo o Cebrap, uma instituição que, durante a ditadura, não deixou de denunciar as violações dos direitos democráticos, hoje simplesmente está calado.
E, naqueles tempos, o efeito não era eleitoral, mas a porrada dos gendarmes do governo.
Cabe refletir sobre o que está atualmente acontecendo no Brasil. Em particular a vida pública está perdendo qualquer dimensão normativa. Vale o pragmatismo mais estreito. Importa ganhar as eleições, fazer um governo popular, não perturbar a onda de felicidade que nos cobre mansamente. Ainda que sejam adiadas decisões importantes que não caiam no gosto do público, que as próximas gerações paguem o preço de nossas conveniências.
Resulta daí que cada vez mais tendemos a nos tornar uma sociedade média, média, micha.
José Arthur Giannotti é professor emérito da USP e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção "Autores", do Mais!
sexta-feira, 16 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Reacionários
Li na coluna de um amigo blogueiro, um artigo de uma nulidade que nunca ouvi falar, de que só os maiores reacionários do país, sobretudo os do democratas, ex PFL, é quem apoiavam a candidatura de Serra a presidente. Que os “progressistas” de todos os quadrantes apoiavam a candidatura Dilma. Por quê? Ora porque o presidente Lula é o maior, que fez o melhor governo da história desse país, desde que Cabral aportou em Pindorama lá pelos idos de 1500. É. Só que ninguém dos quadros petistas diz qual a reforma que Lula fez para melhorar o país. Nenhuma. Só conversa para boi dormir, lorotas e sobretudo mentiras. O melhor que ele fez foi não fazer nada. Deu continuidade ao plano de Fernando Henrique, e eis seu maior legado. No que se meteu,ou prometeu fazer, só fez piorar o déficit fiscal aumentando as despesas públicas. Hoje, o maior sonho dos jovens brasileiros é ser barnabé. Logo vão saber que não vai dar para todo mundo. O Brasil não pode deixar de lado as reformas. E mesmo sem as reformas, dá para fazer muito mais. Só é Serra ganhar, o que vai ser uma batalha dificílima, e podemos ter reformas, sobretudo com honestidade. Se não, a argentinização do país. Ou pior: A venezuelização.
Falam muito dos democratas, mas foram eles um dos atores coletivos principais no processo de transição política brasileira, via colégio eleitoral com Tancredo, odiado pelos petistas por ser de centro direita, na época considerado um moderado. Ademais,só se faz transição política com os moderados. Os radicais ficam de fora, mas depois se aproveitam do banquete democrático. Como diz Aécio Neves, o PT sempre esteve de fora das grandes questões nacionais, como a transição e a constituinte. Com a maior cara de pau, Dilma foi colocar flores no túmulo de Tancredo. Como boa bolchevique, faz tudo pelo partido, ou pelo projeto de poder. Para os velhos bolcheviques seria perfeitamente legítimo mentir, roubar, caluniar, desde que os nobres objetivos da revolução fossem devidamente mantidos. Por essas e outras, os mensaleiros calaram o bico. Ainda mais que são àqueles burgueses sem trabalho, cujas dentre suas principais funções está a de roubar o estado. Em nome do partido ou da revolução, decerto.
São estes os verdadeiros reacionários, aqueles que aceitam uma candidata laranja, e notadamente no mínimo inexperiente para o cargo e com fortes colorações bolchevistas, como grande parte da velha guarda “revolucionária” do PT, como José Dirceu,ou mesmo Genoíno, isto para não falar em Palocci, o ex-trotskista, que aliás também deve ter lido Moral e revolução de Trotski, que em tempos atrás quando era comunista, adorava. Aliás, alguém já disse que a candidatura Dilma é filha do mensalão. Como todos os outros possíveis candidatos foram engolidos pela corrupção, só restou a Lula inventar uma candidatura. Aí está, o monstrengo político e ideológico. Ademais, a esse respeito,publico também um artigo de José Arthur Gianotti, notótio esquerdista, sobre o assunto da bolchevização da nossa esquerda. Um primor de reacionarismo. Aonde essa gente é progressista? Aliás, o que significa ser direita, ou esquerda, hoje?
VOLTA AO PASSADO
Andaram dizendo que iam proibir a fala de Fernando Henrique no lançamento da candidatura Serra. Ao contrário, pois o ex presidente não só falou como foi lembrado por todos os oradores, afinal, só um imbecil, ou um sujeito mal intencionado por natureza, nega o legado de Fernando Henrique para alavancar o capitalismo nacional. Apesar de que, as reformas capitalistas ainda serão extremamente necessárias pois Dilma e sua turma tentam ressuscitar o estatismo, ainda mais do que temos. Está na hora de o Brasil deixar de sustentar através do estado, multidões de salafrários e vagabundos, cupins dos dinheiros nacionais, estaduais e municipais. Se Serra não é nenhum liberal, infelizmente diga-se de passagem, é um homem que vai tentar desemperrar o setor público, aonde tem muitos marajás ( alô Collor!) e vagabundos de todas as espécies, comendo o dinheiro do povo.
POBRE TANCREDO
Deve ter se revirado no túmulo o velho Tancredo quando a falsidade em pessoa o agraciou (ou pelo menos sua alma) com flores, em sua última morada. Se fosse com um parente meu, convocaria pelo menos um bom pai de santo, para tirar as urucubacas stalinistas, que são, acreditem , coisas do mal. Logo os petistas cripto-comunistas que odiavam o velho político mineiro, tanto é que além de não votarem nele no colégio eleitoral, expulsaram três deputados da legenda por discordarem da orientação do partido, Bete Mendes, José Eudes, e Ayrton Soares, se não me engano. Hoje, Lula e sua cambada de mentirosos, trocam beijos e abraços com Sarney, Collor, Jáder Barbalho e companhia, em nome, dizem, da governabilidade. E que governabilidade? O grande benefício de Lula ao Brasil, foi justamente não ter feito nada. Hoje, babam Tancredo no túmulo. Bom foi o discurso de Aécio Neves, que desmascarou mais esta farsa. Porém, como bons stalinistas, fazem tudo pelo partido. Ou pelo poder. Gente safada!
JARBAS
Se fosse Jarbas, não disputaria o governo do estado. Deixava as eleições com Raul Jungman, um dos melhores quadros da centro-esquerda estadual, o que quer que isso signifique. É preciso renovar. Ademais, Jarbas já fez muito pelo Estado, tirando-o do buraco que deixou a última e melancólica administração de Arraes. Que ficou refém deste pobre e decadente estado, sem ter condições de alçar vôos mais altos. Agora que o estado está bem melhor, as discussões também serão outras. Se for candidato, as eleições devem ser mais duras, todos sabem disso, embora a tendência é que o governador ganhe.Pelo menos até agora.
SINDICATO
O sintepe, sindicato dos professores do estado de Pernambuco engoliu calado as admoestações do PT que o controla, e não fomentou nenhuma greve. Já em São Paulo, onde o governador é do PSDB, fizeram uma zoada danada. Lá eles são contra a produtividade e a meritocracia. Aqui fizeram beicinho para o governo, mas quem controla o sindicato é o simpático e provável candidato ao senado pelo PT, Humberto Costa.
Falam muito dos democratas, mas foram eles um dos atores coletivos principais no processo de transição política brasileira, via colégio eleitoral com Tancredo, odiado pelos petistas por ser de centro direita, na época considerado um moderado. Ademais,só se faz transição política com os moderados. Os radicais ficam de fora, mas depois se aproveitam do banquete democrático. Como diz Aécio Neves, o PT sempre esteve de fora das grandes questões nacionais, como a transição e a constituinte. Com a maior cara de pau, Dilma foi colocar flores no túmulo de Tancredo. Como boa bolchevique, faz tudo pelo partido, ou pelo projeto de poder. Para os velhos bolcheviques seria perfeitamente legítimo mentir, roubar, caluniar, desde que os nobres objetivos da revolução fossem devidamente mantidos. Por essas e outras, os mensaleiros calaram o bico. Ainda mais que são àqueles burgueses sem trabalho, cujas dentre suas principais funções está a de roubar o estado. Em nome do partido ou da revolução, decerto.
São estes os verdadeiros reacionários, aqueles que aceitam uma candidata laranja, e notadamente no mínimo inexperiente para o cargo e com fortes colorações bolchevistas, como grande parte da velha guarda “revolucionária” do PT, como José Dirceu,ou mesmo Genoíno, isto para não falar em Palocci, o ex-trotskista, que aliás também deve ter lido Moral e revolução de Trotski, que em tempos atrás quando era comunista, adorava. Aliás, alguém já disse que a candidatura Dilma é filha do mensalão. Como todos os outros possíveis candidatos foram engolidos pela corrupção, só restou a Lula inventar uma candidatura. Aí está, o monstrengo político e ideológico. Ademais, a esse respeito,publico também um artigo de José Arthur Gianotti, notótio esquerdista, sobre o assunto da bolchevização da nossa esquerda. Um primor de reacionarismo. Aonde essa gente é progressista? Aliás, o que significa ser direita, ou esquerda, hoje?
VOLTA AO PASSADO
Andaram dizendo que iam proibir a fala de Fernando Henrique no lançamento da candidatura Serra. Ao contrário, pois o ex presidente não só falou como foi lembrado por todos os oradores, afinal, só um imbecil, ou um sujeito mal intencionado por natureza, nega o legado de Fernando Henrique para alavancar o capitalismo nacional. Apesar de que, as reformas capitalistas ainda serão extremamente necessárias pois Dilma e sua turma tentam ressuscitar o estatismo, ainda mais do que temos. Está na hora de o Brasil deixar de sustentar através do estado, multidões de salafrários e vagabundos, cupins dos dinheiros nacionais, estaduais e municipais. Se Serra não é nenhum liberal, infelizmente diga-se de passagem, é um homem que vai tentar desemperrar o setor público, aonde tem muitos marajás ( alô Collor!) e vagabundos de todas as espécies, comendo o dinheiro do povo.
POBRE TANCREDO
Deve ter se revirado no túmulo o velho Tancredo quando a falsidade em pessoa o agraciou (ou pelo menos sua alma) com flores, em sua última morada. Se fosse com um parente meu, convocaria pelo menos um bom pai de santo, para tirar as urucubacas stalinistas, que são, acreditem , coisas do mal. Logo os petistas cripto-comunistas que odiavam o velho político mineiro, tanto é que além de não votarem nele no colégio eleitoral, expulsaram três deputados da legenda por discordarem da orientação do partido, Bete Mendes, José Eudes, e Ayrton Soares, se não me engano. Hoje, Lula e sua cambada de mentirosos, trocam beijos e abraços com Sarney, Collor, Jáder Barbalho e companhia, em nome, dizem, da governabilidade. E que governabilidade? O grande benefício de Lula ao Brasil, foi justamente não ter feito nada. Hoje, babam Tancredo no túmulo. Bom foi o discurso de Aécio Neves, que desmascarou mais esta farsa. Porém, como bons stalinistas, fazem tudo pelo partido. Ou pelo poder. Gente safada!
JARBAS
Se fosse Jarbas, não disputaria o governo do estado. Deixava as eleições com Raul Jungman, um dos melhores quadros da centro-esquerda estadual, o que quer que isso signifique. É preciso renovar. Ademais, Jarbas já fez muito pelo Estado, tirando-o do buraco que deixou a última e melancólica administração de Arraes. Que ficou refém deste pobre e decadente estado, sem ter condições de alçar vôos mais altos. Agora que o estado está bem melhor, as discussões também serão outras. Se for candidato, as eleições devem ser mais duras, todos sabem disso, embora a tendência é que o governador ganhe.Pelo menos até agora.
SINDICATO
O sintepe, sindicato dos professores do estado de Pernambuco engoliu calado as admoestações do PT que o controla, e não fomentou nenhuma greve. Já em São Paulo, onde o governador é do PSDB, fizeram uma zoada danada. Lá eles são contra a produtividade e a meritocracia. Aqui fizeram beicinho para o governo, mas quem controla o sindicato é o simpático e provável candidato ao senado pelo PT, Humberto Costa.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Dora Kramer -A hora do artifício O Estado de S. Paulo - 06/04/2010
Encerrada a fase das despedidas, começa a semana das festas que marcam o início das campanhas ainda sem os candidatos oficialmente escolhidos. Depois disso se inicia o período mais perigoso de todos: dois meses de limbo, até as convenções de junho.
Os candidatos ainda não são candidatos, já deixaram os cargos importantes que ocupavam, precisam se manter em atividade permanente e diária. Só que descontando jornalistas e políticos, ninguém mais está pensando 24 horas em eleições.
Se você tem candidatos ocupando cargos no governo é uma coisa. Há a cobertura natural decorrente das atividades governamentais. Quando voltam à planície, é necessário que seus movimentos sejam jornalisticamente interessantes. Natural, então, que cada um se empenhe em assegurar presença no noticiário.
A Advocacia-Geral da União tem o entendimento de que Dilma Rousseff pode participar de eventos oficiais do governo federal como convidada do presidente Luiz Inácio da Silva. Isso não quer dizer que a Justiça Eleitoral entenda da mesma forma. A AGU é governo.
Ainda que não possa andar junto do presidente, por alguns dias Dilma estará garantida como convidada de convenções de partidos da base aliada e até do PT em vários Estados.
O mesmo vale para Serra e eventos organizados pelo PSDB e aliados. Os dois principais candidatos sempre terão repórteres junto deles. Atrás da foto mais original, da frase mais inusitada e da tolice mais saborosa ou da explosão de temperamento mais reveladora. A questão é: há eficácia real na formação do conhecimento sobre os atributos de cada um dos candidatos na cabeça do eleitor nessa fase ou a entressafra cumpre apenas um roteiro malfeito da Lei Eleitoral?
A rigor, não existe campanha. Não pode haver debates. O programa eleitoral só começará em agosto. E até lá o que fazem? De substancial para o público muito pouco.
A campanha para o eleitor será no segundo semestre. Até agora o que se viu foi campanha para arrumar a vida de partidos e candidatos.
Um duro danado. A Advocacia-Geral da União vai ter trabalho para convencer a Justiça Eleitoral de que o presidente Lula exercerá suas atividades de campanha fora do expediente de trabalho.
Ele mesmo estabeleceu a premissa de que a prioridade de governo agora é eleger Dilma Rousseff. Isso posto, avisou que quem quiser derrotá-lo terá de "acordar mais cedo". Quer dizer, já começa o dia em campanha. No horário do expediente, portanto.
Quando chama para si a disputa, se põe na condição de candidato de fato impossibilitando na prática a separação das figuras do presidente e do cabo eleitoral.
Pelo modelo que vem adotando dificilmente deixará de se licenciar do cargo mais à frente para poder continuar ajudando Dilma sem ficar tão vulnerável a ações judiciais.
Quando surgiu a notícia sobre a licença semanas atrás, o presidente negou, dizendo que isso equivaleria a desqualificar a candidata. Daria a impressão de que ela por si não seria capaz de conquistar o eleitor. Ocorre que tanto Lula quanto Dilma derrubaram esse argumento na cerimônia de despedida da ministra do governo.
Lula, ao convocar o adversário à luta direta com ele, transformando a candidata em sujeito oculto da eleição; Dilma, ao se referir 28 vezes num único discurso ao "senhor" de sua plataforma presidencial.
Sem acordo. O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, nega qualquer possibilidade de acordo com o PT para evitar ações na Justiça Eleitoral. Guerra diz que procurou o presidente do PT, José Eduardo Dutra, para falar sobre as greves de funcionários públicos de São Paulo e pedir ajuda para contenção dos radicais.
Dutra se dispôs a atuar "na medida do possível". Aproveitou para abordar o assunto da "judicialização" da política, mas, segundo Guerra, não pediu ao PSDB que evitasse recorrer à Justiça. "Até porque não adiantaria. Nossas relações políticas são civilizadas, mas a Lei Eleitoral é assunto dos advogados."
Os candidatos ainda não são candidatos, já deixaram os cargos importantes que ocupavam, precisam se manter em atividade permanente e diária. Só que descontando jornalistas e políticos, ninguém mais está pensando 24 horas em eleições.
Se você tem candidatos ocupando cargos no governo é uma coisa. Há a cobertura natural decorrente das atividades governamentais. Quando voltam à planície, é necessário que seus movimentos sejam jornalisticamente interessantes. Natural, então, que cada um se empenhe em assegurar presença no noticiário.
A Advocacia-Geral da União tem o entendimento de que Dilma Rousseff pode participar de eventos oficiais do governo federal como convidada do presidente Luiz Inácio da Silva. Isso não quer dizer que a Justiça Eleitoral entenda da mesma forma. A AGU é governo.
Ainda que não possa andar junto do presidente, por alguns dias Dilma estará garantida como convidada de convenções de partidos da base aliada e até do PT em vários Estados.
O mesmo vale para Serra e eventos organizados pelo PSDB e aliados. Os dois principais candidatos sempre terão repórteres junto deles. Atrás da foto mais original, da frase mais inusitada e da tolice mais saborosa ou da explosão de temperamento mais reveladora. A questão é: há eficácia real na formação do conhecimento sobre os atributos de cada um dos candidatos na cabeça do eleitor nessa fase ou a entressafra cumpre apenas um roteiro malfeito da Lei Eleitoral?
A rigor, não existe campanha. Não pode haver debates. O programa eleitoral só começará em agosto. E até lá o que fazem? De substancial para o público muito pouco.
A campanha para o eleitor será no segundo semestre. Até agora o que se viu foi campanha para arrumar a vida de partidos e candidatos.
Um duro danado. A Advocacia-Geral da União vai ter trabalho para convencer a Justiça Eleitoral de que o presidente Lula exercerá suas atividades de campanha fora do expediente de trabalho.
Ele mesmo estabeleceu a premissa de que a prioridade de governo agora é eleger Dilma Rousseff. Isso posto, avisou que quem quiser derrotá-lo terá de "acordar mais cedo". Quer dizer, já começa o dia em campanha. No horário do expediente, portanto.
Quando chama para si a disputa, se põe na condição de candidato de fato impossibilitando na prática a separação das figuras do presidente e do cabo eleitoral.
Pelo modelo que vem adotando dificilmente deixará de se licenciar do cargo mais à frente para poder continuar ajudando Dilma sem ficar tão vulnerável a ações judiciais.
Quando surgiu a notícia sobre a licença semanas atrás, o presidente negou, dizendo que isso equivaleria a desqualificar a candidata. Daria a impressão de que ela por si não seria capaz de conquistar o eleitor. Ocorre que tanto Lula quanto Dilma derrubaram esse argumento na cerimônia de despedida da ministra do governo.
Lula, ao convocar o adversário à luta direta com ele, transformando a candidata em sujeito oculto da eleição; Dilma, ao se referir 28 vezes num único discurso ao "senhor" de sua plataforma presidencial.
Sem acordo. O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, nega qualquer possibilidade de acordo com o PT para evitar ações na Justiça Eleitoral. Guerra diz que procurou o presidente do PT, José Eduardo Dutra, para falar sobre as greves de funcionários públicos de São Paulo e pedir ajuda para contenção dos radicais.
Dutra se dispôs a atuar "na medida do possível". Aproveitou para abordar o assunto da "judicialização" da política, mas, segundo Guerra, não pediu ao PSDB que evitasse recorrer à Justiça. "Até porque não adiantaria. Nossas relações políticas são civilizadas, mas a Lei Eleitoral é assunto dos advogados."
Celso Ming -Bandeira do atraso O Estado de S. Paulo - 06/04/2010
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) promete mais um abril vermelho, com um festival de invasões, ocupações, derrubadas de cerca e destruição de plantações.
Na edição do caderno Aliás, no Estadão desse domingo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso denunciou o apego aos valores do atraso pelo MST. O sociólogo José de Souza Martins, que há décadas estuda os movimentos sociais no Brasil, observa que, longe de ser uma vanguarda dos novos tempos, o MST é um núcleo aferrado a valores do conservadorismo. É o exemplo do que os cientistas políticos e também Fernando Henrique chamam de movimentos das utopias regressivas.
Houve um tempo em que o MST sabia o que perseguia. Queria a reforma agrária com a mesma radicalidade com que o viajante francês August Saint Hilaire viu esta terra em 1822: "Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil." De lá para cá não aconteceu nem uma coisa nem outra. Também a reforma agrária vai perdendo o sentido depois que surgiram por aqui o agronegócio e o Bolsa Família. Quase não há mais latifúndio improdutivo e, onde ele ainda existe, os líderes do MST não se interessam por assentamentos, porque fica longe de tudo.
O MST está sem foco. Partiu para depredações do que chama de monoculturas. Ataca laranjais, plantações de eucalipto e até os seculares canaviais, a cultura trazida nas caravelas de Martim Afonso de Souza em 1530, como se fossem nocivos e como se houvesse outro jeito de produzir suco de laranja, celulose, açúcar e álcool.
O MST valoriza a cultura de subsistência como ideal de vida moderna. Em princípio, é hostil a novas tecnologias e aferra-se a uma agricultura familiar jecatatuísta, como se os verdadeiros valores da humanidade só se desenvolvessem em condições de atraso.
Quer parecer independente do governo Lula, a ponto de desprezar os interesses eleitorais do PT, mas depende dele para tudo, para distribuição de terras, para obtenção de sementes, para escoamento da produção e, até mesmo, para sobrevivência do assentamento. Relaciona-se com a autoridade como se fosse a única supridora dos excluídos, a força que faz chover e nascer o sol e que tem de lhe fazer a vontade aqui e agora.
Para as lideranças do MST não há nunca o que negociar. Tudo tem de ser como está na cabeça deles, inclusive a imposição do regime socialista no Brasil, seja lá o que isso signifique. "Não existe para o MST a ideia de passar pelos canais institucionalizados, partidos, etc.; existe é pressão", aponta Fernando Henrique.
Apesar de tudo o que apronta, o MST vem sendo tolerado. E uma das razões pelas quais isso acontece parece ter a ver com a percepção de que cumpre a função de dar alguma organização ao lúmpen que se formou nas periferias das grandes cidades interioranas. Entrega-lhe uma bandeira e ensina-lhe alguns hinos, preserva-o da delinquência pura e simples e aponta-lhe um futuro cujo símbolo é o pedaço de chão que um dia vai receber.
As lideranças do MST ainda não perceberam que o assentado não quer terra; quer emprego. A maioria dos que compõem os acampamentos não sabe o que fazer com a terra que recebe. E os que sabem logo se dão conta de que, mesmo com a ajuda oficial, a terra não lhes oferece futuro se não estiver inserida no sistema global de produção, distribuição e consumo. Mas essas são imposições do capital internacional e do neoliberalismo...
Confira
Para o alto
Os preços do barril de petróleo (159 litros) saltaram ontem em Nova York para US$ 86,62, o mais alto desde outubro de 2008, às vésperas do estouro do Lehman Brothers, que injetou pânico nos mercados, bloqueou o crédito e derrubou os bancos.
É mais um indício de que aumenta a confiança na recuperação dos Estados Unidos. Mas esse não é o único recado. Alta do petróleo significa aumento dos custos da energia, significa inflação e inflação aciona os grandes bancos centrais, especialmente o Fed (o banco central americano), para puxar pelos juros.
Na edição do caderno Aliás, no Estadão desse domingo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso denunciou o apego aos valores do atraso pelo MST. O sociólogo José de Souza Martins, que há décadas estuda os movimentos sociais no Brasil, observa que, longe de ser uma vanguarda dos novos tempos, o MST é um núcleo aferrado a valores do conservadorismo. É o exemplo do que os cientistas políticos e também Fernando Henrique chamam de movimentos das utopias regressivas.
Houve um tempo em que o MST sabia o que perseguia. Queria a reforma agrária com a mesma radicalidade com que o viajante francês August Saint Hilaire viu esta terra em 1822: "Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil." De lá para cá não aconteceu nem uma coisa nem outra. Também a reforma agrária vai perdendo o sentido depois que surgiram por aqui o agronegócio e o Bolsa Família. Quase não há mais latifúndio improdutivo e, onde ele ainda existe, os líderes do MST não se interessam por assentamentos, porque fica longe de tudo.
O MST está sem foco. Partiu para depredações do que chama de monoculturas. Ataca laranjais, plantações de eucalipto e até os seculares canaviais, a cultura trazida nas caravelas de Martim Afonso de Souza em 1530, como se fossem nocivos e como se houvesse outro jeito de produzir suco de laranja, celulose, açúcar e álcool.
O MST valoriza a cultura de subsistência como ideal de vida moderna. Em princípio, é hostil a novas tecnologias e aferra-se a uma agricultura familiar jecatatuísta, como se os verdadeiros valores da humanidade só se desenvolvessem em condições de atraso.
Quer parecer independente do governo Lula, a ponto de desprezar os interesses eleitorais do PT, mas depende dele para tudo, para distribuição de terras, para obtenção de sementes, para escoamento da produção e, até mesmo, para sobrevivência do assentamento. Relaciona-se com a autoridade como se fosse a única supridora dos excluídos, a força que faz chover e nascer o sol e que tem de lhe fazer a vontade aqui e agora.
Para as lideranças do MST não há nunca o que negociar. Tudo tem de ser como está na cabeça deles, inclusive a imposição do regime socialista no Brasil, seja lá o que isso signifique. "Não existe para o MST a ideia de passar pelos canais institucionalizados, partidos, etc.; existe é pressão", aponta Fernando Henrique.
Apesar de tudo o que apronta, o MST vem sendo tolerado. E uma das razões pelas quais isso acontece parece ter a ver com a percepção de que cumpre a função de dar alguma organização ao lúmpen que se formou nas periferias das grandes cidades interioranas. Entrega-lhe uma bandeira e ensina-lhe alguns hinos, preserva-o da delinquência pura e simples e aponta-lhe um futuro cujo símbolo é o pedaço de chão que um dia vai receber.
As lideranças do MST ainda não perceberam que o assentado não quer terra; quer emprego. A maioria dos que compõem os acampamentos não sabe o que fazer com a terra que recebe. E os que sabem logo se dão conta de que, mesmo com a ajuda oficial, a terra não lhes oferece futuro se não estiver inserida no sistema global de produção, distribuição e consumo. Mas essas são imposições do capital internacional e do neoliberalismo...
Confira
Para o alto
Os preços do barril de petróleo (159 litros) saltaram ontem em Nova York para US$ 86,62, o mais alto desde outubro de 2008, às vésperas do estouro do Lehman Brothers, que injetou pânico nos mercados, bloqueou o crédito e derrubou os bancos.
É mais um indício de que aumenta a confiança na recuperação dos Estados Unidos. Mas esse não é o único recado. Alta do petróleo significa aumento dos custos da energia, significa inflação e inflação aciona os grandes bancos centrais, especialmente o Fed (o banco central americano), para puxar pelos juros.
Contenha seu entusiasmo pelo Brasil'-Wall Street Journal' O Globo - 06/04/2010
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Colunista do 'Wall Street Journal' diz que país parece ter abandonado reformas
NOVA YORK
Desde que o Brasil descobriu novas e promissoras reservas de petróleo na sua costa em 2007, o país parece ter abandonado várias reformas que deveriam deixá-lo em sintonia com sua ambição de conquistar um lugar entre as nações mais industrializadas do mundo.
É o que diz um artigo publicado ontem no "Wall Street Journal" e assinado por Mary Anastasia O'Grady, editora e colunista do jornal americano de finanças.
O texto, intitulado "Contenha seu entusiasmo pelo Brasil", questiona o otimismo manifestado no país sobre o sucesso das parcerias público-privadas na reinvenção "de um Brasil com sua nova riqueza". Mary Anastasia se refere em particular ao entusiasmo do empresário Eike Batista, dono do grupo EBX, em recente passagem por Nova York.
Ela conta que Eike — o homem mais rico do Brasil e o oitavo do mundo pela revista "Forbes" — "encantou a plateia com seu entusiasmo, não apenas por seus próprios projetos no desenvolvimento da exploração de petróleo, de portos e de estaleiros, como também pelo seu país".
"Apesar dos muitos erros do passado, ele (Eike) disse que o Brasil mudou e está pronto para reclamar seu lugar de direito entre as nações industrializadas", escreve.
Mas a autora do artigo se diz "cética" quanto ao otimismo de Eike, e se pergunta se o resto do país também vai se beneficiar das oportunidades que se abriram para o empresário no setor de gás e petróleo.
"Quanto mais a elite do país fala sobre sua parceria público-privada para reinventar o Brasil com sua recém-descoberta riqueza, mais soa como o mesmo velho corporativismo latino", diz ela. Mary Anastasia admite que o Brasil melhorou "em relação ao que era em meados da década de 90, quando a hiperinflação alimentou caos nacional", e disse que "o crédito por controlar os preços vai para o ex-presidente de dois mandatos (Fernando) Henrique Cardoso, cujo governo implementou o Plano Real".
A autora minimiza o papel do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no comando do país, dizendo que "uma revisão de sua gestão revela que a melhor coisa que ele fez como chefeexecutivo do país foi nada". "Além da reforma da lei de falências e a melhoria da legislação relativa a seguros, ele (Lula) fez muito pouco." A jornalista considera positivo que mudanças sejam gradativas, mas diz que "o problema é que desde que o Brasil descobriu petróleo abundante na costa em 2007, parece ter abandonado até as reformas modestas". No artigo, ela sugere que faltam reformas que facilitem a operação de muitas empresas de pequeno e médio porte. Citando relatório do Banco Mundial de 2010, a jornalista diz que o Brasil não tem bom histórico em relação à abertura de empresa, pagamento de impostos, contratação de funcionários e obtenção de alvará de construção
Colunista do 'Wall Street Journal' diz que país parece ter abandonado reformas
NOVA YORK
Desde que o Brasil descobriu novas e promissoras reservas de petróleo na sua costa em 2007, o país parece ter abandonado várias reformas que deveriam deixá-lo em sintonia com sua ambição de conquistar um lugar entre as nações mais industrializadas do mundo.
É o que diz um artigo publicado ontem no "Wall Street Journal" e assinado por Mary Anastasia O'Grady, editora e colunista do jornal americano de finanças.
O texto, intitulado "Contenha seu entusiasmo pelo Brasil", questiona o otimismo manifestado no país sobre o sucesso das parcerias público-privadas na reinvenção "de um Brasil com sua nova riqueza". Mary Anastasia se refere em particular ao entusiasmo do empresário Eike Batista, dono do grupo EBX, em recente passagem por Nova York.
Ela conta que Eike — o homem mais rico do Brasil e o oitavo do mundo pela revista "Forbes" — "encantou a plateia com seu entusiasmo, não apenas por seus próprios projetos no desenvolvimento da exploração de petróleo, de portos e de estaleiros, como também pelo seu país".
"Apesar dos muitos erros do passado, ele (Eike) disse que o Brasil mudou e está pronto para reclamar seu lugar de direito entre as nações industrializadas", escreve.
Mas a autora do artigo se diz "cética" quanto ao otimismo de Eike, e se pergunta se o resto do país também vai se beneficiar das oportunidades que se abriram para o empresário no setor de gás e petróleo.
"Quanto mais a elite do país fala sobre sua parceria público-privada para reinventar o Brasil com sua recém-descoberta riqueza, mais soa como o mesmo velho corporativismo latino", diz ela. Mary Anastasia admite que o Brasil melhorou "em relação ao que era em meados da década de 90, quando a hiperinflação alimentou caos nacional", e disse que "o crédito por controlar os preços vai para o ex-presidente de dois mandatos (Fernando) Henrique Cardoso, cujo governo implementou o Plano Real".
A autora minimiza o papel do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no comando do país, dizendo que "uma revisão de sua gestão revela que a melhor coisa que ele fez como chefeexecutivo do país foi nada". "Além da reforma da lei de falências e a melhoria da legislação relativa a seguros, ele (Lula) fez muito pouco." A jornalista considera positivo que mudanças sejam gradativas, mas diz que "o problema é que desde que o Brasil descobriu petróleo abundante na costa em 2007, parece ter abandonado até as reformas modestas". No artigo, ela sugere que faltam reformas que facilitem a operação de muitas empresas de pequeno e médio porte. Citando relatório do Banco Mundial de 2010, a jornalista diz que o Brasil não tem bom histórico em relação à abertura de empresa, pagamento de impostos, contratação de funcionários e obtenção de alvará de construção
MÍRIAM LEITÃO Risco fiscal O GLOBO - 06/04/10
As capitalizações em série do BNDES são obviamente um risco fiscal de grandes proporções.
Se o governo fizer mais uma operação de R$ 100 bilhões significa um montante equivalente a oito anos de Bolsa Família. Isto é 3% do PIB, é toda a dimensão da indústria de petróleo. E essa é a terceira operação recente. Já foram feitas duas: uma de R$ 100 bilhões e outra de R$ 80 bilhões.
Fala-se pouco disso no Brasil. O silêncio é por interesse.
A maioria das empresas do país, todos os bancos, os bancos de investimento dependem do BNDES para seus negócios. O Tesouro está se endividando para pôr dinheiro no banco, que transfere para as empresas por critérios discutíveis.
E com isso está também concentrando renda.
O primeiro critério é a ideia de criar "campeões nacionais".
Foi exatamente assim que o contribuinte brasileiro teve que arcar com enormes rombos nos anos 70 de empresas que, alimentadas com dinheiro público, se tornaram dependentes, e depois quebraram.
O segundo critério é o de aumentar a estatização do crédito por razões ideológicas.
Os grandes projetos estão todos estatizados na prática porque os consórcios são formados por uma estatal, fundos de pensão de estatal e o banco público.
O BNDES na atual gestão não explica absurdos como o de ter aplicado R$ 100 milhões de capital de risco para virar sócio do frigorífico Independência, três meses antes de a empresa familiar quebrar.
Quando esta coluna perguntou sobre isso ao banco, ele respondeu por escrito que o assunto está entregue ao departamento jurídico.
Obviamente isso não resolve a questão. As dúvidas são: Quem autorizou tal negócio? Como ninguém soube da verdadeira situação da empresa? Não houve uma avaliação da situação patrimonial antes de entrar no capital de uma empresa familiar e fechada? A ideia agora, informou O GLOBO de ontem, é a de capitalizar o BNDES para ele financiar o PAC. O problema é que isso não é neutro do ponto de vista fiscal. O governo informa que a operação não vai aumentar a dívida líquida porque o Tesouro diz que receberá de volta ao longo do tempo. Mas a dívida bruta voltou a subir, como se pode ver no gráfico abaixo.
O "Wall Street Journal" publicou uma reportagem recomendando conter o otimismo em relação ao Brasil.
Disse que não somos mais o país da hiperinflação graças às reformas feitas no governo anterior ao Lula. Que as reformas já eram incipientes neste governo e desapareceram depois da descoberta do pré-sal.
O jornal não sabe de toda a má notícia. O pior é a recriação de riscos fiscais que podem abalar a base da estabilidade. Como o dinheiro do banco é subsidiado, o que o Tesouro está fazendo é transferindo R$ 280 bilhões — se for confirmada essa terceira capitalização — para que o banco possa emprestar para as empresas abaixo do custo que o próprio Tesouro se financia. Não há transparência sobre esse custo fiscal, nem sobre os riscos que o banco tem assumido.
O economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria, lembra que o Brasil tem precisado de poupança externa para financiar o crescimento.
Isso significa que o passo do governo vai na direção contrária, pois aumenta a dívida ao invés de estimular a poupança interna. Salto observa também que continua o descompasso entre as políticas monetária e fiscal. Enquanto o Banco Central é obrigado a subir juros para controlar a inflação, o governo aumenta gastos e contribui para pressionar os preços: — A política fiscal é o nosso principal risco no médio e longo prazo. O governo se aproveita do crescimento econômico e dos efeitos que o superávit primário têm sobre o perfil da dívida. Elas funcionam como um freio.
Porém, se tivéssemos uma política fiscal mais sólida, a expectativa mudaria para melhor, haveria menos pressão sobre a demanda e os juros seriam mais baixos. No final, o país cresceria mais.
Entre 2008 e 2009, a dívida bruta subiu de 57% do PIB para 63%. O governo dirá que isso aconteceu por causa de ações de combate à crise.
Esse argumento já não serve para 2010 porque as previsões de crescimento para este ano estão em torno de 6%.
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, a nova capitalização do BNDES é um mau sinal para um ano eleitoral.
— No aspecto fiscal, é preocupante a pressão sobre a dívida bruta, ainda mais porque teremos mudança de governo — disse.
Se o governo fizer mais uma operação de R$ 100 bilhões significa um montante equivalente a oito anos de Bolsa Família. Isto é 3% do PIB, é toda a dimensão da indústria de petróleo. E essa é a terceira operação recente. Já foram feitas duas: uma de R$ 100 bilhões e outra de R$ 80 bilhões.
Fala-se pouco disso no Brasil. O silêncio é por interesse.
A maioria das empresas do país, todos os bancos, os bancos de investimento dependem do BNDES para seus negócios. O Tesouro está se endividando para pôr dinheiro no banco, que transfere para as empresas por critérios discutíveis.
E com isso está também concentrando renda.
O primeiro critério é a ideia de criar "campeões nacionais".
Foi exatamente assim que o contribuinte brasileiro teve que arcar com enormes rombos nos anos 70 de empresas que, alimentadas com dinheiro público, se tornaram dependentes, e depois quebraram.
O segundo critério é o de aumentar a estatização do crédito por razões ideológicas.
Os grandes projetos estão todos estatizados na prática porque os consórcios são formados por uma estatal, fundos de pensão de estatal e o banco público.
O BNDES na atual gestão não explica absurdos como o de ter aplicado R$ 100 milhões de capital de risco para virar sócio do frigorífico Independência, três meses antes de a empresa familiar quebrar.
Quando esta coluna perguntou sobre isso ao banco, ele respondeu por escrito que o assunto está entregue ao departamento jurídico.
Obviamente isso não resolve a questão. As dúvidas são: Quem autorizou tal negócio? Como ninguém soube da verdadeira situação da empresa? Não houve uma avaliação da situação patrimonial antes de entrar no capital de uma empresa familiar e fechada? A ideia agora, informou O GLOBO de ontem, é a de capitalizar o BNDES para ele financiar o PAC. O problema é que isso não é neutro do ponto de vista fiscal. O governo informa que a operação não vai aumentar a dívida líquida porque o Tesouro diz que receberá de volta ao longo do tempo. Mas a dívida bruta voltou a subir, como se pode ver no gráfico abaixo.
O "Wall Street Journal" publicou uma reportagem recomendando conter o otimismo em relação ao Brasil.
Disse que não somos mais o país da hiperinflação graças às reformas feitas no governo anterior ao Lula. Que as reformas já eram incipientes neste governo e desapareceram depois da descoberta do pré-sal.
O jornal não sabe de toda a má notícia. O pior é a recriação de riscos fiscais que podem abalar a base da estabilidade. Como o dinheiro do banco é subsidiado, o que o Tesouro está fazendo é transferindo R$ 280 bilhões — se for confirmada essa terceira capitalização — para que o banco possa emprestar para as empresas abaixo do custo que o próprio Tesouro se financia. Não há transparência sobre esse custo fiscal, nem sobre os riscos que o banco tem assumido.
O economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria, lembra que o Brasil tem precisado de poupança externa para financiar o crescimento.
Isso significa que o passo do governo vai na direção contrária, pois aumenta a dívida ao invés de estimular a poupança interna. Salto observa também que continua o descompasso entre as políticas monetária e fiscal. Enquanto o Banco Central é obrigado a subir juros para controlar a inflação, o governo aumenta gastos e contribui para pressionar os preços: — A política fiscal é o nosso principal risco no médio e longo prazo. O governo se aproveita do crescimento econômico e dos efeitos que o superávit primário têm sobre o perfil da dívida. Elas funcionam como um freio.
Porém, se tivéssemos uma política fiscal mais sólida, a expectativa mudaria para melhor, haveria menos pressão sobre a demanda e os juros seriam mais baixos. No final, o país cresceria mais.
Entre 2008 e 2009, a dívida bruta subiu de 57% do PIB para 63%. O governo dirá que isso aconteceu por causa de ações de combate à crise.
Esse argumento já não serve para 2010 porque as previsões de crescimento para este ano estão em torno de 6%.
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, a nova capitalização do BNDES é um mau sinal para um ano eleitoral.
— No aspecto fiscal, é preocupante a pressão sobre a dívida bruta, ainda mais porque teremos mudança de governo — disse.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
O QUE É QUE UMA CRIANÇA PODE APRENDER “OBSERVANDO UM LEÃO VELHO E SARNENTO RONCANDO NO FUNDO DA JAULA” ? (COM A PALAVRA, H.L.MENCKEN, O JORNALISTA QUE COMBATIA ATÉ OS JARDINS ZOOLÓGICOS) Postado por Geneton Moraes Neto em 25 de março de 2010
Senhoras e senhores: o Dossiê Geral tem o prazer de passar a palavra para H.L.Mencken, o jornalista que conseguia escrever contra até jardins zoológicos: “O Livro dos Insultos de H.L. Mencken” ganhou uma nova edição. Mencken morreu em 1956. Era da linhagem de Paulo Francis. Vasculho a estante: localizo um exemplar da primeira edição, lançada no Brasil faz vinte e dois anos. Grifei vários trechos. Fala, Mencken:
1. “Educativo é avó! Mostre-me um guri que tenha aprendido alguma coisa valiosa ou importante observando um leão velho e sarnento roncando no fundo da jaula ou uma família de macacos disputando amendoins. Ganhar alguma instrução útil de tais baboseiras é palpavelmente impossível. Nenhuma descoberta científica de qualquer valor, mesmo para os próprios animais, saiu até hoje de um zoológico. O tipo de sujeito que gosta de passar o tempo contemplando um camelo babar, araras matraqueando ou um lagarto comendo moscas é exatamente o tipo de sujeito cuja debilidade mental deve ser combatida, não estimulada”.
2. “Todo ator é um sujeito vazio de ideias; é artificial; é ignorante; é preguiçoso; é absurdamente adulado; tem os modos de um garçom ou de um ginecologista da moda”.
3. “O que chamamos de progresso, disse Havelock Ellis, é apenas a substituição de um aborrecimento por outro aborrecimento. A ideia é tão óbvia que já deve ter ocorrido, de vez em quando, até a algum ministro de Estado”.
4. “Um jovem de dezessete anos que não seja um poeta será apenas um jumento, seu desenvolvimento foi paralisado antes mesmo do seu estágio como girino. Mas um homem de cinquenta anos que continue a escrever poesia é um infeliz que nunca passou intelectualmente da adolescência”.
5. “Todos os homens verdadeiramente sensíveis lutam poderosamente pela distinção e pelo poder, isto é, pelo respeito e pela inveja dos seus semelhantes, pela admiração de uma interminável série de carcaças portando aminoácidos em rápida desintegração. E para quê ? Se eu soubesse, certamente não estaria escrevendo livros neste infernal verão americano; estaria exposto numa sala de cristal e outo – e as pessoas pagariam dez dólares para me contemplar através de buraquinhos”.
6. “Todo governo é composto de vagabundos que, por um acidente jurídico, adquiriram o duvidoso direito de embolsar uma parte dos ganhos de seus semelhantes”
7. “O jornal americano médio, especialmente o chamado de primeira linha, tem a inteligência de um pastor batista, a coragem de um camundongo, a informação de um porteiro de ginásio, o bom gosto de um criador de flores artificiais e a honra de um advogado de porta de cadeia”
8. “Quando martelam diariamente que todo político é um patife, todo serviço público é dirigido por escroques e todas as operações de Wall Street têm como objetivo garfar as pessoas comuns, os jornais estão bastante perto da verdade, para qualquer propósito prático”
9.”Talvez o homem seja uma doença localizada do cosmos – uma espécie de eczema ou uretrite pestífera. Existem, é claro, diferentes graus de eczemas, assim como há diferentes graus de homens. Sem dúvida, um cosmos afligido por uma infecção de Beethovens jamais precisaria de um médico. Mas um cosmo infestado por socialistas, escoceses ou corretores da Bolsa deve sofrer como o diabo”.
10.”Política consiste numa sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que existem apenas como palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a qualquer declaração lógica”
11. “A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável”
12. “Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que por entende por vezes, o que signfica dois, o que quer dizer são e por que isto dá quatro. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes”.
13. “O homem detesta os parentes de sua mulher(…) De todos eles, a sogra é obviamente a mais repugnante, porque ela não apenas macaqueia sua mulher, mas também porque antecipa o que sua mulher provavelmente se tornará. Aquela visão, naturalmente, lhe provoca náuseas”.
14.”A pintura, a escultura, a música e a literatura, se exibirem algum conteúdo estético ou intelectual, não são para multidões, mas para indivíduos selecionados, quase todos sofrendo do fígado”.
15.”Duvido que a arte de pensar possa ser ensinada – pelo menos, por professores do segundo grau. Não é adquirida, mas congênita. Algumas pessoas nascem com ela. Suas idéias fluem com clareza e elas são capazes de raciocínio lúcido. Quando dizem alguma coisa, esta é instantaneamente reconhecível; quando a escrevem são luminosas e convincentes. Eu diria que essas pessoas constituem cerca de 1/8 de 1% da espécie humana. Os demais filhos de Deus são tão incapazes de pensamento lógico quanto de esquiar na lua. Tentar ensiná-los será uma empreitada tão presunçosa quanto tentar ensinar a uma pulga os Dez Mandamentos. A única coisa a fazer com eles será transformá-los em PHDs e mandá-los escrever livros sobre estilo”.
Entrevistas
1. “Educativo é avó! Mostre-me um guri que tenha aprendido alguma coisa valiosa ou importante observando um leão velho e sarnento roncando no fundo da jaula ou uma família de macacos disputando amendoins. Ganhar alguma instrução útil de tais baboseiras é palpavelmente impossível. Nenhuma descoberta científica de qualquer valor, mesmo para os próprios animais, saiu até hoje de um zoológico. O tipo de sujeito que gosta de passar o tempo contemplando um camelo babar, araras matraqueando ou um lagarto comendo moscas é exatamente o tipo de sujeito cuja debilidade mental deve ser combatida, não estimulada”.
2. “Todo ator é um sujeito vazio de ideias; é artificial; é ignorante; é preguiçoso; é absurdamente adulado; tem os modos de um garçom ou de um ginecologista da moda”.
3. “O que chamamos de progresso, disse Havelock Ellis, é apenas a substituição de um aborrecimento por outro aborrecimento. A ideia é tão óbvia que já deve ter ocorrido, de vez em quando, até a algum ministro de Estado”.
4. “Um jovem de dezessete anos que não seja um poeta será apenas um jumento, seu desenvolvimento foi paralisado antes mesmo do seu estágio como girino. Mas um homem de cinquenta anos que continue a escrever poesia é um infeliz que nunca passou intelectualmente da adolescência”.
5. “Todos os homens verdadeiramente sensíveis lutam poderosamente pela distinção e pelo poder, isto é, pelo respeito e pela inveja dos seus semelhantes, pela admiração de uma interminável série de carcaças portando aminoácidos em rápida desintegração. E para quê ? Se eu soubesse, certamente não estaria escrevendo livros neste infernal verão americano; estaria exposto numa sala de cristal e outo – e as pessoas pagariam dez dólares para me contemplar através de buraquinhos”.
6. “Todo governo é composto de vagabundos que, por um acidente jurídico, adquiriram o duvidoso direito de embolsar uma parte dos ganhos de seus semelhantes”
7. “O jornal americano médio, especialmente o chamado de primeira linha, tem a inteligência de um pastor batista, a coragem de um camundongo, a informação de um porteiro de ginásio, o bom gosto de um criador de flores artificiais e a honra de um advogado de porta de cadeia”
8. “Quando martelam diariamente que todo político é um patife, todo serviço público é dirigido por escroques e todas as operações de Wall Street têm como objetivo garfar as pessoas comuns, os jornais estão bastante perto da verdade, para qualquer propósito prático”
9.”Talvez o homem seja uma doença localizada do cosmos – uma espécie de eczema ou uretrite pestífera. Existem, é claro, diferentes graus de eczemas, assim como há diferentes graus de homens. Sem dúvida, um cosmos afligido por uma infecção de Beethovens jamais precisaria de um médico. Mas um cosmo infestado por socialistas, escoceses ou corretores da Bolsa deve sofrer como o diabo”.
10.”Política consiste numa sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que existem apenas como palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a qualquer declaração lógica”
11. “A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável”
12. “Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que por entende por vezes, o que signfica dois, o que quer dizer são e por que isto dá quatro. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes”.
13. “O homem detesta os parentes de sua mulher(…) De todos eles, a sogra é obviamente a mais repugnante, porque ela não apenas macaqueia sua mulher, mas também porque antecipa o que sua mulher provavelmente se tornará. Aquela visão, naturalmente, lhe provoca náuseas”.
14.”A pintura, a escultura, a música e a literatura, se exibirem algum conteúdo estético ou intelectual, não são para multidões, mas para indivíduos selecionados, quase todos sofrendo do fígado”.
15.”Duvido que a arte de pensar possa ser ensinada – pelo menos, por professores do segundo grau. Não é adquirida, mas congênita. Algumas pessoas nascem com ela. Suas idéias fluem com clareza e elas são capazes de raciocínio lúcido. Quando dizem alguma coisa, esta é instantaneamente reconhecível; quando a escrevem são luminosas e convincentes. Eu diria que essas pessoas constituem cerca de 1/8 de 1% da espécie humana. Os demais filhos de Deus são tão incapazes de pensamento lógico quanto de esquiar na lua. Tentar ensiná-los será uma empreitada tão presunçosa quanto tentar ensinar a uma pulga os Dez Mandamentos. A única coisa a fazer com eles será transformá-los em PHDs e mandá-los escrever livros sobre estilo”.
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