A política brasileira sem Eduardo Campos - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 14/08
A morte do candidato do PSB tem o aspecto grave, entre outros, de representar uma perda séria no processo de renovação geracional na política brasileira
A morte de Eduardo Campos, num desastre aéreo em Santos, passa a constar das grandes tragédias ocorridas na política brasileira, em que líderes desapareceram de maneira traumática.
Entre elas, há o suicídio de Getúlio Vargas — também em agosto, mês de má fama na crônica da política nacional —, o desastre automobilístico de que Juscelino Kubistchek foi vítima, o desaparecimento no mar de Ulysses Guimarães e Severo Gomes, além do drama da morte de Tancredo Neves, eleito numa eleição indireta, mas com apoio popular, e que não conseguiu subir a rampa do Planalto.
O desaparecimento de Eduardo Campos tem, entre outros, o aspecto grave de representar uma perda séria no processo de renovação geracional da política brasileira. Com 49 anos, neto de Miguel Arraes, histórico político pernambucano, Campos se firmava como uma liderança que permaneceria no cenário nacional, mesmo se não saísse vitorioso nas urnas de outubro, ainda que sequer fosse ao segundo turno.
Não há dúvida que a campanha de 2014 projetaria o candidato, ex-governador de Pernambuco, presidente do PSB, para além das fronteiras do seu estado e do Nordeste.
A perda de um político jovem, com capacidade de liderança — independentemente de partido e ideologia —, tem característica negativa especial num país que passou 21 anos numa ditadura militar (1964-1985), sem portanto formar quadros num ambiente institucional de liberdades.
Por este motivo, a política brasileira retomou a atividade na democracia ainda com lideranças das décadas de 1950 e 60. O apagão causado pela ditadura na prática impediu a formação de quase uma geração de políticos.
Os sobreviventes do regime militar desenvolveram virtudes, mas também deformações, cultivadas na resistência ao arbítrio. Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias, uma virtude.
A aliança que lhe propôs Marina Silva, depois de não conseguir registrar seu partido Rede, foi prontamente aceita. O ato abriu-lhe novos espaços, os quais ele ocupava com habilidade, aparando arestas criadas pelas dificuldades previsíveis na articulação de propostas do PSB com a plataforma ambientalista da Rede, com a qual Marina atraiu dissidentes do Partido Verde, entre outros.
Enquanto se diluirá o trauma do desaparecimento do candidato à Presidência, seguirão os ritos legais para sua substituição na chapa do PSB, provavelmente pela vice Marina.
Neste caso, haverá todo um debate sobre qual agenda preponderará, se a do PSB ou da Rede. Mas pode ser que Marina e Campos já houvessem consolidado um campo comum de propostas, a serem reafirmadas por pessedebistas e marineiros. Resta esperar.
O certo é que as eleições de 2014 já entraram para a História. Infelizmente, com uma tragédia.
A morte do candidato do PSB tem o aspecto grave, entre outros, de representar uma perda séria no processo de renovação geracional na política brasileira
A morte de Eduardo Campos, num desastre aéreo em Santos, passa a constar das grandes tragédias ocorridas na política brasileira, em que líderes desapareceram de maneira traumática.
Entre elas, há o suicídio de Getúlio Vargas — também em agosto, mês de má fama na crônica da política nacional —, o desastre automobilístico de que Juscelino Kubistchek foi vítima, o desaparecimento no mar de Ulysses Guimarães e Severo Gomes, além do drama da morte de Tancredo Neves, eleito numa eleição indireta, mas com apoio popular, e que não conseguiu subir a rampa do Planalto.
O desaparecimento de Eduardo Campos tem, entre outros, o aspecto grave de representar uma perda séria no processo de renovação geracional da política brasileira. Com 49 anos, neto de Miguel Arraes, histórico político pernambucano, Campos se firmava como uma liderança que permaneceria no cenário nacional, mesmo se não saísse vitorioso nas urnas de outubro, ainda que sequer fosse ao segundo turno.
Não há dúvida que a campanha de 2014 projetaria o candidato, ex-governador de Pernambuco, presidente do PSB, para além das fronteiras do seu estado e do Nordeste.
A perda de um político jovem, com capacidade de liderança — independentemente de partido e ideologia —, tem característica negativa especial num país que passou 21 anos numa ditadura militar (1964-1985), sem portanto formar quadros num ambiente institucional de liberdades.
Por este motivo, a política brasileira retomou a atividade na democracia ainda com lideranças das décadas de 1950 e 60. O apagão causado pela ditadura na prática impediu a formação de quase uma geração de políticos.
Os sobreviventes do regime militar desenvolveram virtudes, mas também deformações, cultivadas na resistência ao arbítrio. Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias, uma virtude.
A aliança que lhe propôs Marina Silva, depois de não conseguir registrar seu partido Rede, foi prontamente aceita. O ato abriu-lhe novos espaços, os quais ele ocupava com habilidade, aparando arestas criadas pelas dificuldades previsíveis na articulação de propostas do PSB com a plataforma ambientalista da Rede, com a qual Marina atraiu dissidentes do Partido Verde, entre outros.
Enquanto se diluirá o trauma do desaparecimento do candidato à Presidência, seguirão os ritos legais para sua substituição na chapa do PSB, provavelmente pela vice Marina.
Neste caso, haverá todo um debate sobre qual agenda preponderará, se a do PSB ou da Rede. Mas pode ser que Marina e Campos já houvessem consolidado um campo comum de propostas, a serem reafirmadas por pessedebistas e marineiros. Resta esperar.
O certo é que as eleições de 2014 já entraram para a História. Infelizmente, com uma tragédia.
Eduardo Campos e o futuro da eleição - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 14/08
A morte do candidato interrompe uma carreira em ascensão e lança incertezas sobre a chapa que ele construiu para concorrer ao Planalto
A repentina e trágica morte do ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB), em acidente aéreo ocorrido na manhã de ontem, no Litoral paulista, encerrou precocemente a carreira do herdeiro político de um ícone da política nacional, seu avô Miguel Arraes – ambos, coincidentemente, faleceram em um dia 13 de agosto. A morte do candidato também lança diversas incertezas a respeito da disputa presidencial em curso, tanto pelo potencial eleitoral que tinha – Campos figurava em terceiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto – quanto pelo nome que vai sucedê-lo à frente da chapa liderada pelo Partido Socialista Brasileiro.
Campos iniciou a carreira política como deputado estadual em Pernambuco, eleito em 1990. Foi deputado federal por três mandatos consecutivos, mas passou o primeiro deles trabalhando como secretário de Governo e de Fazenda em Pernambuco. Despontou para o cenário nacional como ministro de Ciência e Tecnologia, cargo que ocupou por um ano e seis meses no primeiro mandato do ex-presidente Lula. Em 2006, foi eleito, no segundo turno, governador de Pernambuco, e conquistou a reeleição em 2010 com 82,84% dos votos válidos.
Tanto o PSB quanto Campos fizeram parte da base aliada durante a maior parte dos 12 anos de governo petista, mas ultimamente havia ocorrido um distanciamento: em 2012, PT e PSB já tinham se enfrentado pela prefeitura do Recife (Geraldo Júlio, candidato de Campos, venceu no primeiro turno), e em 2013 os políticos do PSB entregaram todos os cargos no governo federal. Campos passou a criticar a presidente Dilma Rousseff e o PT, principalmente por suas alianças com figuras nada respeitáveis da política brasileira, como o senador Renan Calheiros (PMDB). Na entrevista que deu ao Jornal Nacional, na véspera da sua morte, Campos ainda afirmou que “esse governo é o único governo que vai entregar o Brasil pior do que recebeu”.
Com a morte de Campos, a chapa encabeçada por ele fica sem candidato à Presidência da República. Sua vice, Marina Silva (também do PSB), desponta como a substituta natural do pernambucano, mas a troca não é automática: precisa ser referendada pelas executivas dos partidos que compõem a coligação montada em torno de Campos. Marina já foi candidata em 2010 e sua participação foi apontada como um dos fatores que levou ao segundo turno uma eleição que parecia ser favas contadas para Dilma Rousseff. O capital político que ela acumulou na ocasião fez de Marina a “noiva cobiçada” por vários partidos quando seu grupo, a Rede Sustentabilidade, não conseguiu registro na Justiça Eleitoral a tempo de lançá-la como candidata. No fim, ela escolheu o PSB de Campos, em uma relação que não é livre de turbulências: as divergências surgiram quase que de forma imediata, especialmente no que diz respeito ao agronegócio e a alianças que o PSB decidiu fazer em alguns estados e das quais o grupo de Marina discordava.
Ao lado de críticas pertinentes – à maneira como o PT vem administrando a Petrobras, à relutância governamental de admitir que há problemas na economia, às políticas de Dilma para a energia e a infraestrutura –, a campanha de Campos também trazia itens de viabilidade duvidosa, como a proposta de passe livre para todos os estudantes do país. Caso Marina realmente se torne a candidata, resta saber não apenas se o discurso de campanha de Campos será mantido ou radicalmente alterado, mas também se ela será capaz de manter o capital político de 2010, acrescentando-lhe o voto daqueles que tenderiam a escolher Campos na eleição presidencial.
A morte do candidato interrompe uma carreira em ascensão e lança incertezas sobre a chapa que ele construiu para concorrer ao Planalto
A repentina e trágica morte do ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB), em acidente aéreo ocorrido na manhã de ontem, no Litoral paulista, encerrou precocemente a carreira do herdeiro político de um ícone da política nacional, seu avô Miguel Arraes – ambos, coincidentemente, faleceram em um dia 13 de agosto. A morte do candidato também lança diversas incertezas a respeito da disputa presidencial em curso, tanto pelo potencial eleitoral que tinha – Campos figurava em terceiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto – quanto pelo nome que vai sucedê-lo à frente da chapa liderada pelo Partido Socialista Brasileiro.
Campos iniciou a carreira política como deputado estadual em Pernambuco, eleito em 1990. Foi deputado federal por três mandatos consecutivos, mas passou o primeiro deles trabalhando como secretário de Governo e de Fazenda em Pernambuco. Despontou para o cenário nacional como ministro de Ciência e Tecnologia, cargo que ocupou por um ano e seis meses no primeiro mandato do ex-presidente Lula. Em 2006, foi eleito, no segundo turno, governador de Pernambuco, e conquistou a reeleição em 2010 com 82,84% dos votos válidos.
Tanto o PSB quanto Campos fizeram parte da base aliada durante a maior parte dos 12 anos de governo petista, mas ultimamente havia ocorrido um distanciamento: em 2012, PT e PSB já tinham se enfrentado pela prefeitura do Recife (Geraldo Júlio, candidato de Campos, venceu no primeiro turno), e em 2013 os políticos do PSB entregaram todos os cargos no governo federal. Campos passou a criticar a presidente Dilma Rousseff e o PT, principalmente por suas alianças com figuras nada respeitáveis da política brasileira, como o senador Renan Calheiros (PMDB). Na entrevista que deu ao Jornal Nacional, na véspera da sua morte, Campos ainda afirmou que “esse governo é o único governo que vai entregar o Brasil pior do que recebeu”.
Com a morte de Campos, a chapa encabeçada por ele fica sem candidato à Presidência da República. Sua vice, Marina Silva (também do PSB), desponta como a substituta natural do pernambucano, mas a troca não é automática: precisa ser referendada pelas executivas dos partidos que compõem a coligação montada em torno de Campos. Marina já foi candidata em 2010 e sua participação foi apontada como um dos fatores que levou ao segundo turno uma eleição que parecia ser favas contadas para Dilma Rousseff. O capital político que ela acumulou na ocasião fez de Marina a “noiva cobiçada” por vários partidos quando seu grupo, a Rede Sustentabilidade, não conseguiu registro na Justiça Eleitoral a tempo de lançá-la como candidata. No fim, ela escolheu o PSB de Campos, em uma relação que não é livre de turbulências: as divergências surgiram quase que de forma imediata, especialmente no que diz respeito ao agronegócio e a alianças que o PSB decidiu fazer em alguns estados e das quais o grupo de Marina discordava.
Ao lado de críticas pertinentes – à maneira como o PT vem administrando a Petrobras, à relutância governamental de admitir que há problemas na economia, às políticas de Dilma para a energia e a infraestrutura –, a campanha de Campos também trazia itens de viabilidade duvidosa, como a proposta de passe livre para todos os estudantes do país. Caso Marina realmente se torne a candidata, resta saber não apenas se o discurso de campanha de Campos será mantido ou radicalmente alterado, mas também se ela será capaz de manter o capital político de 2010, acrescentando-lhe o voto daqueles que tenderiam a escolher Campos na eleição presidencial.
Uma perda imensurável - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 14/08
O Brasil perdeu ontem uma alternativa importante para o seu futuro. O jovem político pernambucano Eduardo Campos, morto tragicamente na queda de um jatinho particular em Santos, juntamente com quatro assessores e dois pilotos, representava na atual disputa presidencial a chamada terceira via, com potencial para quebrar a bipolarização histórica entre o PT, atual ocupante do poder, e o PSDB, seu antecessor.
Representava, também, um sopro de novidade na política nacional. Eduardo Campos, do PSB, carregava no sangue uma história familiar de comprometimento com as causas sociais, herdada de seu avô e padrinho político Miguel Arraes, falecido em 2005, coincidentemente também num 13 de agosto. E, aos 49 anos, também carregava no currículo uma recente e bem-sucedida experiência de dois mandatos como governador de Pernambuco, de onde saiu com índices históricos de aprovação popular.
Estava, portanto, credenciado para pleitear uma fatia importante do eleitorado na atual disputa presidencial, embora ocupasse apenas a terceira posição nas pesquisas de intenção de voto já apuradas. Mas vinha conquistando espaço desde que tomou a surpreendente decisão de coligar-se com a ex-ministra Marina Silva quando esta não conseguiu o registro de seu partido, a Rede Sustentabilidade.
A ousadia era uma das marcas da breve carreira política de Eduardo Campos: com três mandatos parlamentares, dois mandatos de governador e participação no ministério de Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a presidência nacional do PSB em 2005 e, no ano passado, surpreendeu ao optar pela candidatura própria, em vez de continuar apoiando a administração petista.
Perde o Brasil, portanto, uma referência como homem público. E perde, acima de tudo, uma liderança política comprometida com a democracia, com o desenvolvimento e com as liberdades individuais de seu povo. Mas a perda maior, imensurável, é a do ser humano, pai de família, filho ilustre de Pernambuco e homem reconhecido por seus pares pela convivência civilizada, pelo diálogo inteligente e pela integridade.
O primeiro dever do país diante de uma perda assim deve ser a solidariedade e o conforto aos familiares e amigos do ex-governador e das demais pessoas vitimadas no acidente. Só depois do luto é que se pode pensar mais refletidamente nas consequências eleitorais do inesperado desaparecimento do político pernambucano.
Porém, uma frase extraída da entrevista que ele concedeu na última terça-feira ao Jornal Nacional já pode ser adotada pelos brasileiros de todas as tendências políticas em sua homenagem: “Não vamos desistir do Brasil!”.
O Brasil perdeu ontem uma alternativa importante para o seu futuro. O jovem político pernambucano Eduardo Campos, morto tragicamente na queda de um jatinho particular em Santos, juntamente com quatro assessores e dois pilotos, representava na atual disputa presidencial a chamada terceira via, com potencial para quebrar a bipolarização histórica entre o PT, atual ocupante do poder, e o PSDB, seu antecessor.
Representava, também, um sopro de novidade na política nacional. Eduardo Campos, do PSB, carregava no sangue uma história familiar de comprometimento com as causas sociais, herdada de seu avô e padrinho político Miguel Arraes, falecido em 2005, coincidentemente também num 13 de agosto. E, aos 49 anos, também carregava no currículo uma recente e bem-sucedida experiência de dois mandatos como governador de Pernambuco, de onde saiu com índices históricos de aprovação popular.
Estava, portanto, credenciado para pleitear uma fatia importante do eleitorado na atual disputa presidencial, embora ocupasse apenas a terceira posição nas pesquisas de intenção de voto já apuradas. Mas vinha conquistando espaço desde que tomou a surpreendente decisão de coligar-se com a ex-ministra Marina Silva quando esta não conseguiu o registro de seu partido, a Rede Sustentabilidade.
A ousadia era uma das marcas da breve carreira política de Eduardo Campos: com três mandatos parlamentares, dois mandatos de governador e participação no ministério de Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a presidência nacional do PSB em 2005 e, no ano passado, surpreendeu ao optar pela candidatura própria, em vez de continuar apoiando a administração petista.
Perde o Brasil, portanto, uma referência como homem público. E perde, acima de tudo, uma liderança política comprometida com a democracia, com o desenvolvimento e com as liberdades individuais de seu povo. Mas a perda maior, imensurável, é a do ser humano, pai de família, filho ilustre de Pernambuco e homem reconhecido por seus pares pela convivência civilizada, pelo diálogo inteligente e pela integridade.
O primeiro dever do país diante de uma perda assim deve ser a solidariedade e o conforto aos familiares e amigos do ex-governador e das demais pessoas vitimadas no acidente. Só depois do luto é que se pode pensar mais refletidamente nas consequências eleitorais do inesperado desaparecimento do político pernambucano.
Porém, uma frase extraída da entrevista que ele concedeu na última terça-feira ao Jornal Nacional já pode ser adotada pelos brasileiros de todas as tendências políticas em sua homenagem: “Não vamos desistir do Brasil!”.
Eduardo Campos - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 14/08
Morte do candidato do PSB retira da campanha presidencial um dos maiores fatores de renovação do cenário eleitoral brasileiro
Na violência cega de um acidente aéreo, perdeu-se uma das personalidades mais promissoras da vida política nacional.
Aos 49 anos, Eduardo Campos vinha de uma bem avaliada gestão no governo de Pernambuco para representar, na disputa à Presidência da República, o difícil e estimulante papel de alternativa à tradicional polarização entre petistas e tucanos no plano federal.
Seu perfil o habilitava de forma singular para esse desafio, embora a própria campanha --tragicamente interrompida-- tivesse ainda de desenhá-lo com mais nitidez.
Neto, por parte de mãe, do mitológico líder esquerdista Miguel Arraes, de quem foi secretário da Fazenda nos anos 1990, Campos tinha, pelo lado paterno, ligações com os setores mais conservadores da política local.
O lastro de herdeiro de Arraes não o impediu de procurar caminhos próprios na cena pernambucana --do mesmo modo que, ex-ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo Lula, percebeu que suas perspectivas seriam limitadas caso seu partido, o PSB, se mantivesse por mais tempo à sombra do situacionismo petista.
Escorado nos altos índices de crescimento econômico obtidos em seu período como governador, bem como numa visão administrativa sem ranços ideológicos, Campos procurou aproximar-se do empresariado, adiantando-se em relação ao mineiro Aécio Neves (PSDB) na disputa pelo campo de oposição à presidente Dilma Rousseff (PT).
Ao mesmo tempo, sua candidatura buscava desvincular-se de uma imagem excessivamente industrialista, dada a presença de Marina Silva como vice.
Para a postulação de Eduardo Campos confluíam tendências diversas, capazes de consolidar seu nome como fator de inovação diante dos dilemas nos quais se tem debatido a política brasileira nas últimas décadas. Capazes também, todavia, de minar a própria coerência interna de sua campanha e de um eventual governo.
A tragédia de ontem --que vitimou outras seis pessoas-- impõe, naturalmente, uma dor e um choque sem limites a familiares e amigos do candidato. Pai de cinco filhos, um dos quais nascido há pouco mais de seis meses, Campos aparentava possuir, mesmo para o grande público, os sinais inconfundíveis do bom humor, da disposição e da felicidade pessoal.
Na política, ficam irrespondidas as perguntas sobre seu futuro e sobre a forma final que assumiria a candidatura peessebista no espectro ideológico.
O próprio PSB, agora, colocado ante a escolha de Marina Silva, que soa óbvia, e a de um nome mais ligado à cúpula do partido, terá de haver-se com encruzilhadas e definições que a hábil empatia de Eduardo Campos provavelmente lhe permitia postergar.
Morte do candidato do PSB retira da campanha presidencial um dos maiores fatores de renovação do cenário eleitoral brasileiro
Na violência cega de um acidente aéreo, perdeu-se uma das personalidades mais promissoras da vida política nacional.
Aos 49 anos, Eduardo Campos vinha de uma bem avaliada gestão no governo de Pernambuco para representar, na disputa à Presidência da República, o difícil e estimulante papel de alternativa à tradicional polarização entre petistas e tucanos no plano federal.
Seu perfil o habilitava de forma singular para esse desafio, embora a própria campanha --tragicamente interrompida-- tivesse ainda de desenhá-lo com mais nitidez.
Neto, por parte de mãe, do mitológico líder esquerdista Miguel Arraes, de quem foi secretário da Fazenda nos anos 1990, Campos tinha, pelo lado paterno, ligações com os setores mais conservadores da política local.
O lastro de herdeiro de Arraes não o impediu de procurar caminhos próprios na cena pernambucana --do mesmo modo que, ex-ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo Lula, percebeu que suas perspectivas seriam limitadas caso seu partido, o PSB, se mantivesse por mais tempo à sombra do situacionismo petista.
Escorado nos altos índices de crescimento econômico obtidos em seu período como governador, bem como numa visão administrativa sem ranços ideológicos, Campos procurou aproximar-se do empresariado, adiantando-se em relação ao mineiro Aécio Neves (PSDB) na disputa pelo campo de oposição à presidente Dilma Rousseff (PT).
Ao mesmo tempo, sua candidatura buscava desvincular-se de uma imagem excessivamente industrialista, dada a presença de Marina Silva como vice.
Para a postulação de Eduardo Campos confluíam tendências diversas, capazes de consolidar seu nome como fator de inovação diante dos dilemas nos quais se tem debatido a política brasileira nas últimas décadas. Capazes também, todavia, de minar a própria coerência interna de sua campanha e de um eventual governo.
A tragédia de ontem --que vitimou outras seis pessoas-- impõe, naturalmente, uma dor e um choque sem limites a familiares e amigos do candidato. Pai de cinco filhos, um dos quais nascido há pouco mais de seis meses, Campos aparentava possuir, mesmo para o grande público, os sinais inconfundíveis do bom humor, da disposição e da felicidade pessoal.
Na política, ficam irrespondidas as perguntas sobre seu futuro e sobre a forma final que assumiria a candidatura peessebista no espectro ideológico.
O próprio PSB, agora, colocado ante a escolha de Marina Silva, que soa óbvia, e a de um nome mais ligado à cúpula do partido, terá de haver-se com encruzilhadas e definições que a hábil empatia de Eduardo Campos provavelmente lhe permitia postergar.
Um legado a preservar - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 14/08
Eduardo Henrique Accioly Campos (PSB) é mais um importante líder político brasileiro abatido por tragédia em momento histórico. No período recente, o país perdeu, antes da posse, o presidente eleito Tancredo Neves, que seria, 29 anos atrás, o primeiro civil a assumir o poder após 21 anos de ditadura militar. Agora, o economista e político socialista pernambucano, candidato à Presidência da República em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, morre em acidente aéreo a menos de dois meses do pleito.
Eduardo Campos tinha a política no sangue. Quando nasceu, em 10 de agosto de 1965, o avô, Miguel Arraes, morto exatos nove anos antes dele, já havia sido deputado estadual, prefeito do Recife e governador de Pernambuco, cargo que voltaria a ocupar outras duas vezes. O neto pretendia ir mais longe. Depois de exercer mandatos de deputado estadual, federal e de governar seu estado por duas vezes - tudo isso dos 26 aos 49 anos recém-completados -, empenhava-se numa campanha nacional para suceder Dilma Rousseff.
O candidato fazia diferença na sucessão. Assim como a companheira de chapa, Marina Silva, era dissidente nas forças que levaram o PT ao poder em 2002. Chegou a ser ministro da Ciência e Tecnologia no primeiro mandato do governo Lula. Teve apoio do então presidente para eleger-se, reeleger-se e governar Pernambuco. Diplomático, ao decidir apresentar-se como alternativa na sucessão presidencial deste ano, começou apontando conquistas dos governos petistas, mas defendendo a necessidade de avançar mais. Aos poucos, foi marcando posição, distanciando-se mais de Dilma que de Lula e aprofundando as críticas ao governo.
De uma hora para outra, o país perde a alternativa que se punha entre o PT e o PSDB. À coligação Unidos Pelo Brasil (PHS, PRP, PPS , PPL, PSB, PSL), restam, pela legislação eleitoral, 10 dias para encontrar substituto, que a lei recomenda seja do próprio partido, escolhido pela maioria absoluta das legendas coligadas. É provável que o nome indicado seja o da vice da chapa, Marina Silva, ex-candidata a candidata à Presidência da República que chegou a ser mais bem posicionada nas pesquisas que o próprio Eduardo Campos, mas, sem conseguir criar o próprio partido, o Rede Solidariedade, terminou por conformar-se em trocar o papel de protagonista pelo de coadjuvante.
O luto nacional vai, portanto, bem além do sentimento de perda pela trágica saída de cena do jovem e promissor político pernambucano. A dor é também política, de mais um importante momento nacional repentinamente desviado de rumo. Mas a triste incógnita lançada sobre a sucessão presidencial precisa ser rapidamente preenchida. Tampouco se pode perder a alegria da disputa democrática. Eduardo Campos merece a homenagem de uma campanha que leve ao aperfeiçoamento do Estado brasileiro, seja quem for que o substitua na chapa, seja quem for o escolhido nas urnas. Esse é o legado a ser preservado.
Eduardo Campos tinha a política no sangue. Quando nasceu, em 10 de agosto de 1965, o avô, Miguel Arraes, morto exatos nove anos antes dele, já havia sido deputado estadual, prefeito do Recife e governador de Pernambuco, cargo que voltaria a ocupar outras duas vezes. O neto pretendia ir mais longe. Depois de exercer mandatos de deputado estadual, federal e de governar seu estado por duas vezes - tudo isso dos 26 aos 49 anos recém-completados -, empenhava-se numa campanha nacional para suceder Dilma Rousseff.
O candidato fazia diferença na sucessão. Assim como a companheira de chapa, Marina Silva, era dissidente nas forças que levaram o PT ao poder em 2002. Chegou a ser ministro da Ciência e Tecnologia no primeiro mandato do governo Lula. Teve apoio do então presidente para eleger-se, reeleger-se e governar Pernambuco. Diplomático, ao decidir apresentar-se como alternativa na sucessão presidencial deste ano, começou apontando conquistas dos governos petistas, mas defendendo a necessidade de avançar mais. Aos poucos, foi marcando posição, distanciando-se mais de Dilma que de Lula e aprofundando as críticas ao governo.
De uma hora para outra, o país perde a alternativa que se punha entre o PT e o PSDB. À coligação Unidos Pelo Brasil (PHS, PRP, PPS , PPL, PSB, PSL), restam, pela legislação eleitoral, 10 dias para encontrar substituto, que a lei recomenda seja do próprio partido, escolhido pela maioria absoluta das legendas coligadas. É provável que o nome indicado seja o da vice da chapa, Marina Silva, ex-candidata a candidata à Presidência da República que chegou a ser mais bem posicionada nas pesquisas que o próprio Eduardo Campos, mas, sem conseguir criar o próprio partido, o Rede Solidariedade, terminou por conformar-se em trocar o papel de protagonista pelo de coadjuvante.
O luto nacional vai, portanto, bem além do sentimento de perda pela trágica saída de cena do jovem e promissor político pernambucano. A dor é também política, de mais um importante momento nacional repentinamente desviado de rumo. Mas a triste incógnita lançada sobre a sucessão presidencial precisa ser rapidamente preenchida. Tampouco se pode perder a alegria da disputa democrática. Eduardo Campos merece a homenagem de uma campanha que leve ao aperfeiçoamento do Estado brasileiro, seja quem for que o substitua na chapa, seja quem for o escolhido nas urnas. Esse é o legado a ser preservado.
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