segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O STF e o velho Brasil - JOSÉ MURILO DE CARVALHO

O GLOBO - 30/09

Os juízes da Suprema Corte americana que deixaram seu nome na história foram exatamente os que inovaram, alteraram a jurisprudência


O STF, com a ajuda da Procuradoria Geral e do Ministério Público, criara na opinião pública a expectativa de que estaria havendo uma inflexão na curva da jurisprudência brasileira no sentido de introduzir visão mais ampla e atual do papel da lei na sociedade. A entrada de dois novos ministros, no entanto, fez com que o que parecia inflexão se tornasse, nas palavras de um deles, apenas um ponto fora da curva, a ser corrigido, como de fato o foi. Com a correção, voltou-se ao velho, à nossa tradição de desigualdade na distribuição da justiça, bem traduzida na conhecida expressão popular: rico não vai para a cadeia. A jurisprudência bacharelesca foi recolocada a serviço do privilégio. Perdeu o STF, perdeu o país, perdeu a República.

Vale a pena examinar um dos principais argumentos brandidos pelos embargantes para eliminar o incômodo ponto fora da curva. Trata-se da ficção criada para dar legitimidade aos juízes na ausência de mandato popular. A ficção consiste em alegar que o juiz age segundo a razão, a lei, a justiça, de modo neutro e imparcial. Para atingir esse objetivo, ele tem que evitar o contágio da emoção, da paixão, do partidarismo, vícios próprios da opinião pública, da mídia, da multidão, do povão. O juiz, encastelado em sua torre de marfim, tem que se distanciar da sociedade, mesmo quando ela sai em massa às ruas clamando, entre outras coisas, pelo fim da corrupção, ou quando se manifesta no mesmo sentido em dezenas de pesquisas de opinião pública. Consta mesmo que o ministro que desempatou a votação dos embargos votou certa vez contra sua convicção só para não parecer que concordava com um jornal que antecipara seu voto.

Esse juiz imaginado, pairando olimpicamente sobre sociedade, é um ET, não existe. A ficção tem sua razão de ser e sua utilidade, mas não pode ser levada muito longe. As leis sempre permitem mais de uma interpretação, sobretudo as leis penais brasileiras, que são um cipoal de onde se pode, com ou sem chicana, extrair interpretações contraditórias, todas elas legais, técnicas, racionais. Nessas circunstâncias, a opção por uma interpretação, sobretudo em casos polêmicos como o do mensalão, será sempre metajurídica, dependerá de interesses, convicções, emoções, lealdades. Quanto mais técnica se pretende, maior a probabilidade de não o ser.

Como se dizia das eleições da Primeira República: quanto mais perfeitas as atas, mais falsas as eleições. Ou no latinório caro aos juristas,summum jus, summa injuria (o máximo de direito é o máximo de injustiça). Em meus tempos de estudante dizíamos brasileiramente dura lex, sed lastex (a lei é dura, mas espicha). Dessa situação, aproveitam-se todos os que têm recursos para contratar os melhores advogados do país, que, por sua vez, sabem muito bem como esgrimir a miríade de recursos a seu dispor e com eles convencer juízes. É assim que, passados nove anos do crime do mensalão, realizadas mais de 60 sessões de julgamento pela suprema corte do país, ainda se achou como argumentar que o direto de defesa dos réus de luxo ainda não se tinha esgotado. Foram mobilizados os embargos infringentes, criados por dispositivo regimental não confirmado em lei. É pena que tanta garantia seja reservada a poucos privilegiados e negada a dezenas de milhões de brasileiros. Esse uso do direito ao devido processo legal é a negação da igualdade perante a lei, base da República.

Em contraste, a operação Mãos Limpas, levada a efeito por promotores e juízes italianos na década de 1990, e dirigida contra vasto esquema de corrupção nos partidos políticos, emitiu milhares de mandados de prisão de políticos, empresários, funcionários públicos, entre eles 438 parlamentares. O Watergate, de 1972, teve 69 funcionários públicos acusados e 48 condenados. Dois anos após a denúncia, os culpados já estavam na cadeia, entre eles três altos funcionários ligados ao presidente Nixon, que, ele próprio, se viu forçado a renunciar. Em contraste, graúdos entre nós raramente pisam na cadeia e quando o fazem é em cela especial e não esquentam o lugar. Uma liminar, um habeas corpus logo os libertam e uma infinidade de recursos adicionais adiam, reformam, anulam as sentenças condenatórias.

Os juízes da Suprema Corte americana que deixaram seu nome na história, como Oliver Wendell Holmes Jr. e Earl Warren, foram exatamente os que inovaram, alteraram a jurisprudência. A lei para eles não era fetiche, era produto histórico que precisava ser constantemente adequado às contínuas mudanças por que passava a sociedade. Para Warren, até mesmo a Constituição não era um conjunto de cláusulas pétreas, mas um “documento vivo”, a ser constantemente reinterpretado. Eram juízes de olho na sociedade, sem medo da opinião pública, sempre fora da curva, em busca de novas curvas.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

EXPLODEM DESPESAS COM CARTÕES CORPORATIVOS

A conta dos cartões corporativos do governo federal ultrapassou R$ 32 milhões em setembro, mês marcado pela decisão da presidenta Dilma Rousseff de hospedar-se com sua comitiva, em Nova York, esta semana, no luxuosíssimo hotel St. Regis, onde somente sua diária custou R$ 25 mil. Desde agosto foram R$ 6 milhões torrados com cartões. A Presidência é quem mais gastou: R$ 3,6 milhões.


CONTA SECRETA

Sob a surrada alegação de “segurança do Estado”, o Palácio do Planalto se recusa a detalhar as despesas com cartões corporativos.


PRIORIDADES

Enquanto Dilma ocupava no hotel St. Regis, líderes do seu governo negociavam reduzir reajuste salarial dos professores, em todo o Brasil.


NOSSOS ESPIÕES

Gastos com cartões corporativos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) somam R$ 5,8 milhões em 2013. Tudo secreto, claro.


OS ESPIÕES DELES

Estimam-se que os gastos dos Estados Unidos com espionagem e inteligência ultrapassam os R$ 130 bilhões por ano.


INFRAERO PROMOVE RETORNO DOS ‘JABUTIS NO GALHO’

Ato do diretor de administração da estatal Infraero, José Clovis Dattoli, e do diretor jurídico, Francisco José de Siqueira, obtido pela coluna, traz de volta os conhecidos “jabutis no galho”. O ato altera o estatuto da empresa a fim de permitir o retorno dos extintos cargos comissionados: uma porta aberta aos apadrinhados, que chegarão sem ter obrigação de bater ponto, cumprir horário e ganharão mais que os concursados.


FOI INÚTIL

Ao extinguir os cargos, em 2009, o ex-ministro Nelson Jobim (Defesa) chamou os indicados políticos da Infraero de “jabutis no galho”.


‘BOCÃO’ TOMA CONTA

A mudança no estatuto da Infraero coincide com a indicação de André Marques Barros, “André Bocão”, para cuidar da propaganda da estatal.


…DO GALINHEIRO

“Bocão” foi indicado pelo PMDB, como os 98 que o partido indicou para a Infraero, sem concurso, e demitidos apos uma rebelião do partido.


COMENDO POEIRA

Com a produção de soja empacada nos portos, produtores de Mato Grosso do Sul querem usar o porto chileno de Iquique – mais de mil quilômetros atravessando os Andes – para escoar a enorme produção.


CASA DOS HORRORES

Para o ex-prefeito Cesar Maia, que não morou lá, a desgraça do governador Sérgio Cabral está na lenda da “maldição” do palácio Guanabara, onde um escravo torturado antes de morrer lançou.


EM BAIXA

O senador Ranfolfe Rodrigues (AP) se indispôs com ala mais radical do PSOL, após se reunir com a presidente Dilma, e queimou a chance de disputar Presidência em 2014. O nome mais forte é Chico Alencar (RJ).


ESTICA E PUXA

Os servidores do Tribunal Regional Federal da 2ª Região serão poupados de dores nas costas e nas juntas: terão aulas de pilates garantidas em contrato de R$ 4,7 milhões até setembro de 2014.


HERDEIRA

Joaquim Roriz declara ser candidato ao governo do DF, em 2014, mas seu projeto real é catapultar a carreira política da filha, deputada Liliane (PRTB), que pode ser candidata a vice-governadora do DF.


MALHAÇÃO

O Tribunal de Contas do DF suspendeu concorrência de R$ 20 milhões em equipamentos para mil academias de ginástica em Brasília. Com amenidades e penduricalhos, cada academia custaria R$ 20 mil.


BANDEIRA BRANCA

A Executiva do PMDB designou comissão para tentar conciliar o ex-governador do Tocantins Marcelo Miranda e o deputado Júnior Coimbra, que deixará o comando do partido no Estado no dia 11.


CRUZ OU ESPADA

Favorável a empresários que querem regulamentar a terceirização, o relator Arthur Maia (PMDB-BA) se filiará ao Solidariedade, comandado pelo presidente da Força Sindical, Paulo Pereira, contrário ao projeto.


PENSANDO BEM…

…já que não tem autossuficiência em petróleo, o Brasil bate recordes na produção de óleo de peroba.


PODER SEM PUDOR

LIÇÃO DE AUTORIDADE

O ministro do Trabalho, Castro Neves, não gostou quando foi negado um aumento no quilo do açúcar. Jânio Quadros enviou-lhe um bilhete exemplar:

- “Castro Neves: Leio num jornal que recebi, do Ministério do Trabalho, um bilhete enérgico de Vossa Excelência, que é favorável ao aumento dos usineiros. Desminta. O Ministro é educado bastante para não escrever ao Presidente. E o Presidente não é educado bastante para recebê-lo… O Ministro é usineiro! Seja usineiro sem ser ministro. J. Quadros, 09/08/1961.”

domingo, 29 de setembro de 2013

NÃO DEIXEM DE LER: DESCIDA AO INFERNO - J. R. GUZZO


domingo, setembro 29, 2013


Descida ao inferno - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA
A desgraça narrada a seguir é real, está da em fatos públicos e chegou, algur atrás, a causar certa comoção neste de hoje, que parece a caminho de se formar em um dos países a ser estudado maior atenção, algum dia, por possíveis pesquisadores de uma história mundial da infâmia. Trata-se de um episódio chocante por sua crueldade em estado puro, e o resultado inevitável de uma conspiração não declarada dos agentes do poder público para permitir a prática aberta dos delitos mais selvagens - por serem eles mesmos os autores dos crimes, ou pelo uso que fazem da letra da lei para livrar os envolvidos de qualquer risco de punição. Acontece quase todos os dias, em todo o Brasil, sob a indiferença absoluta das mais altas autoridades e a proteção de um conjunto de leis escritas com o objetivo de praticamente abolir a culpa na Justiça penal brasileira. Não há remédio conhecido contra isso.
Ainda recentemente a repórter Branca Nunes, da edição digital de VEJA, fez uma reconstrução passo a passo da tenebrosa descida ao inferno aqui na terra, entre outubro e novembro de 2007, de uma menina de 15 anos, L.A.B., presa sob a acusação de furtar um telefone celular numa cidade do interior do Pará, a 100 quilômetros de Belém, e punida segundo a hermenêutica que vale no Brasil real. O propósito da reportagem era mostrar, seis anos depois, que fim tinham levado os personagens centrais da história - um símbolo fiel de aberrações praticamente idênticas que acontecem a cada dia neste país, e do tratamento-padrão que recebem do poder público. A visita a essa tragédia "confirmou o apronto", como se dizia na linguagem do turfe. Nada de embargos infringentes para L.A.B. Nada de advogado "Kakay" pregando em seu favor. Nada de todo esse maravilhoso facilitário que faz da lei brasileira um milagre permanente em benefício dos ricos, poderosos e influentes -e transforma culpa em mérito, como Cristo transformou água em vinho. Tudo, naturalmente, em favor dos responsáveis por sua agonia.

L.A.B.. como relata a reportagem, foi apanhada na cidade de Abaetetuba tentando furtar um celular e uma correntinha de prata pertencentes, para seu azar, ao sobrinho de um investigador de polícia da delegacia local. Chamados pelo rapaz, o tio e dois colegas levaram a garota, um toco de gente com menos de 40 quilos de peso e 1,5 metro de altura, para a delegacia da cidade - onde foi trancada numa cela com mais de vinte homens. L.A.B. ficou 26 dias presa, durante os quais foi estuprada regularmente, cinco ou seis vezes por dia. Não se cogitou no seu caso na possibilidade, digamos, de uma prisão domiciliar, alternativa que o bondoso ministro Celso de Mello, do STF, acaba de abrir, em nome do cumprimento rigorosíssimo da lei, para gigantes de nossa vida política condenados no mensalão. Não se cogitou, sequer, no fato de que ela era menor de idade, que não podia ser presa nem, menos ainda, jogada num xadrez exclusivamente masculino. L.A.B., na verdade, foi presa dentro da prisão: arrastada para o fundo da cela. de onde não podia ser vista, tinha a sua miserável comida confiscada pelos outros presos, que só lhe permitiam comer se não desse trabalho durante os estupros. Não tinha direito a prato - precisava pegar sua comida direto do chão. À noite, era acordada por chamas de isqueiro ou pontas de cigarro, quando algum dos presos requeria os seus serviços.

A título de ilustração, um deles, o mais ativo de todos, respondia pelo apelido de "Cão". Que tal?

O mais interessante do caso, talvez, é que as autoridades locais legalizaram, a seu modo. todo o procedimento. A delegada Flávia Verônica Pereira autorizou a prisão de L.A.B. quando a menina lhe foi entregue pelos investigadores que a capturaram. Dois dias depois, a juíza Clarice Maria de Andrade assinou seu auto de prisão em flagrante, sabendo perfeitamente, como a delegada, o que iria acontecer na cela lotada de machos. O desfecho da história é um retrato admirável do Brasil de 2013. Quando o caso começou a fazer ruído na imprensa, L.A.B. foi solta - e desde então, nestes seis anos, nunca mais se ouviu falar dela. Os únicos punidos foram "Cão" e um de seus comparsas, que já estavam presos. A juíza Clarice, a mais graduada responsável pelo episódio, não sofreu processo penal. Foi apenas aposentada, mas recorreu até chegar ao STF - que anulou em 2012 a punição, por julgá-la "excessiva". Hoje a doutora Clarice é juíza titular em outra comarca do Pará.

Este é o Brasil que não muda.


domingo, setembro 29, 2013


Perdendo no mérito - GUSTAVO FRANCO

O GLOBO - 29/09

Parece haver algo de muito suspeito no reino das políticas públicas quando o talento, o das empresas e também o das pessoas, deixa de ser reconhecido e recompensado.

A mensagem típica nas medalhas concedidas a estudantes e esportistas, "honra ao mérito", vem caindo em desuso com enorme velocidade, e dando lugar a uma nova cultura que canhestramente utiliza os dogmas da inclusão e da igualdade em detrimento de qualquer distinção pelo mérito; premiações e bonificações têm sido crescentemente tratadas como formas neoliberais de discriminação.

Tudo se passa como se a velha cultura do privilégio tivesse absorvido o "politicamente correto", com temperos de populismo, e criado uma "neo-ideologia" cujo princípio fundador seria o seguinte: como todos os homens e mulheres são iguais, qualquer diferença de desempenho escolar ou profissional configura a presença de "desigualdade" prévia ao exame que caberia ao Estado corrigir ou compensar.

O princípio será útil para os que precisarem explicar a seu filho adolescente que ele não vai entrar na universidade pública a despeito de uma boa nota do ENEM, pois a regra das quotas é tal que seu lugar será de alguém com o desempenho escolar muito pior.

Ouvi uma definição precisa desta patologia outro dia, do professor José Pastore, a propósito da economia em geral e do mundo do trabalho, sua especialidade: "O que está errado é o tratamento do mérito."

No caminho de nossa maior prioridade, o crescimento, há uma pedra, a produtividade, que permanece estagnada e nossos sindicatos não permitem que seus acordos coletivos incluam cláusulas prevendo remuneração proporcional ao desempenho. De onde pode vir o incentivo a fazer mais e melhor?

As bonificações têm sido um tema muito contencioso, por exemplo, nas negociações com sindicatos de professores, que resistem a esquemas remuneratórios que utilizem metas e avaliações. O noticiário sobre a greve dos professores do município do Rio de Janeiro registrou diversas faixas com dizeres como "abaixo a meritocracia". A que ponto chegamos.

A qualidade da educação e o aumento da escolaridade são temas cruciais quando se trata de produtividade, e as métricas de desempenho escolar mostram índices ruins para o país em comparações internacionais e, dentro de casa, uma grande diversidade entre municípios. Os estudiosos dizem que não é necessariamente uma questão de mais gasto, mais salário, computador e biblioteca. Tudo isso ajuda, mas a experiência parece mostrar que elementos que cabem dentro do que designa como "gestão", e que resultam de transparência, responsabilização e engajamento, têm papel crucial na qualidade do ensino. Não há nada trivial nessa delicada equação de esforços, na qual se constrói o alinhamento de incentivos.

Em um painel recente, o professor Ricardo Paes de Barros lembrou que cada ano adicional de escolaridade representava um acréscimo de cerca de 10% na renda permanente de um indivíduo, um acréscimo que pode chegar a 4 vezes nos casos de conclusão de alguns cursos universitários. Mas demonstrou que essa "taxa de retorno" da educação vem caindo principalmente em decorrência da política agressiva de aumento real do salário mínimo. No curto prazo é bom, pois reduz a desigualdade ao menos enquanto a inflação não destrói aumentos nominais de salários acima do crescimento da produtividade. Mas o incentivo a estudar parece diminuir se as remunerações passam a depender da caneta presidencial e não tanto do preparo e competência do indivíduo, e este será o efeito mais importante num horizonte mais longo.

No terreno das empresas, a ideia de meritocracia vai pior ainda. O Brasil ocupa a posição 130 de 185 países em termos de "ambiente de negócios", segundo o Banco Mundial, e a posição 100 em 177 países em "liberdade econômica" segundo o Wall Street Journal. E tem estado assim nos últimos 5 ou 10 anos sem nenhuma indicação de mudança.

A aversão ao empreendedor vem de longe. Referindo-se ao Segundo Império, o Visconde de Mauá dizia: "tudo gira, move-se, quieta-se, vive ou morre, no bafejo governamental". Naquele capitalismo preguiçoso e patrimonialista não havia propriamente empresário, risco e empreendedorismo: as empresas eram emanações do Estado. Pior: o fracasso apenas poderia ocorrer por descuido governamental. O lucro era a justa consequência da regulação, e o prejuízo pertencia aos assuntos do governo, que devia sempre assumir a responsabilidade por indenizar os prejudicados pela omissão oficial em ajudar.

A atualidade do diagnóstico de Mauá, ainda que como caricatura, é perturbadora. O esforço para escapar dessa cultura, sobretudo durante a época das grandes reformas seguindo-se ao Plano Real, tinha como eixo básico mais meritocracia e menos privilégio, simples assim, e era subversivo à direita e à esquerda.

No presente momento, é bastante claro que vivemos um retrocesso. O governo interrompeu qualquer reforma que envolvesse mais mercado, concorrência e liberdade, e passou a desenvolver uma espécie de clientelismo empresarial pelo qual políticas e benesses seletivas se generalizaram, a mais importante das quais a proteção contra o demônio da concorrência.

O grande erro aqui talvez seja o de imaginar que todo empresário sempre procura o conforto de um monopólio, ou de uma regulação protetora, e ao oferecer essas coisas, o "capital" (que as autoridades acham que se reduz a meia dúzia de empresários "chapa branca") estaria cooptado. Estaríamos a um passo de selecionar empresários por concurso público, com direito a estabilidade e benefícios.

É claro que esse governo não entende nada de capitalismo, ou quer inventar um novo e nem percebeu o tamanho das ambições empreendedoras que estão em todos os cantos do país. Suas relações com o capital têm sido tempestuosas, no mínimo, que o digam os milhões de empreendedores que estão suando a camisa nesse cipoal de impostos, fiscais e regulamentações. A mensagem, para esses, é que o campeonato não se decide no campo, na base da habilidade, jogo coletivo e pontos corridos, mas pelos cartolas em função de suas agendas. Basta ver como o governo trata os "times grandes".

Se o mérito não readquirir precedência, para pessoas e empresas, não vamos a lugar algum.

domingo, setembro 29, 2013


Ah! Esses planos de saúde - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 29/09O acesso à assistência médica privada é o terceiro maior sonho do brasileiro, atrás da casa própria e da educação. A cada quatro brasileiros, um possui plano de saúde. A principal motivação é a baixa qualidade dos serviços públicos. No entanto, a carteirinha do plano de saúde privado está longe de ser garantia de acesso a serviços de qualidade.

Apenas entre março e julho deste ano, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) recebeu 17 mil reclamações sobre a qualidade do atendimento de 41% das operadoras do setor. A maioria das queixas aponta descumprimento do prazo de agendamento nas consultas médicas e exames clínicos, recusa de cobertura a tratamentos de doenças e falta de autorização para procedimentos médicos.

Não falta quem argumente que esse volume de queixas é baixo. Mas, nessa matéria, os critérios são diferentes. A ocorrência de cem casos de dengue a cada 100 mil pessoas pode parecer insignificante num país de 200 milhões de habitantes, mas é suficiente para ser considerada epidemia. "No setor, uma queixa pode significar risco de vida", observa André Longo, diretor-presidente da ANS.

O Índice de Reclamações, calculado pela média das queixas contra uma operadora e do seu número de beneficiários, é a base para a ANS suspender a comercialização de planos de saúde mal avaliados desde dezembro de 2011.

Há um mês, no entanto, uma sentença judicial impede que a ANS suspenda a comercialização de 246 planos, por entender que a medida não dá direito de resposta às operadoras. "O que o beneficiário pensa ser uma falha quase sempre não passa de desconhecimento da lei ou das cláusulas contratuais", rebate Guilherme Valdetaro, advogado da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), que reúne 17 empresas do setor.

Longo refuta: "Mediamos os conflitos e 80% dos casos são resolvidos com as operadoras sem punições". Ele observa que a suspensão é a primeira de uma série progressiva de punições, como multas e intervenções na direção fiscal e técnica das operadoras.

O mercado de saúde suplementar está pressionado. Em dez anos, o crescimento da classe média elevou em 53% o número de beneficiários. Hoje, são 49 milhões de pessoas (veja o gráfico). A FenaSaúde se queixa da escalada dos custos. Entre 2007 e 2012, as despesas assistenciais das operadoras cresceram 91% (veja também as receitas no Confira). Somados custos com administração e impostos, diz a FenaSaúde, o setor acumulou prejuízo de R$ 1,3 bilhão em 2012.

"Há planos que recebem mensalidades de apenas R$ 30. Essa conta não fecha", pontua Libânia Paes, especialista em Administração Hospitalar da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Enquanto isso, crescem as filas nos prontos-socorros, faltam leitos nos hospitais e a marcação de consulta leva meses. "As redes de atendimento não cresceram da mesma forma. O setor inteiro sofre com o déficit de todo tipo e escassez de especialistas", reconhece Longo.

A conta pode não fechar, mas a fatura sempre chega para o consumidor, no boleto bancário e na espera de atendimento.

Irã, a ponta de muitos nós - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 29/09
Abertura aparente do novo presidente oferece a chance de resolver mais de uma crise no Oriente Médio

Em um mundo carregado de tragédias, o degelo EUA/Irã, simbolizado pelo telefonema de Barack Obama a Hasan Rowhani, oferece a melhor chance em anos de encaminhar soluções para problemas em todo o Grande Oriente Médio.

Não é só uma eventual saída para o impasse do programa nuclear iraniano, que, não encaminhado, deixa a sombra permanente de um conflito militar, até porque Obama agarra-se ao mantra de "todas as opções estão sobre a mesa", ameaça nada velada de um ataque para impedir que o Irã chegue à bomba.

Sem falar de Israel, cujos dedos coçam para atacar o Irã antes de que o programa nuclear ponha a bomba ao alcance.

Só desatar esse nó já seria um bom motivo para festejar o promissor início de conversas entre os EUA e o Irã, depois de 34 anos de pendências.

Mas pode haver mais efeitos colaterais, como deixa claro Fred Kaplan, colunista da "Slate".

"Durante anos, muitos observaram que os problemas no Oriente Médio estão tão intrincadamente relacionados que seria difícil resolver um deles isoladamente. Obama tem diante de si uma rara convergência de eventos, fatores e forças, graças à qual pelo menos alguns desses problemas podem ser atacados simultaneamente."

É claro que há riscos em embarcar em um otimismo exagerado em relação às reais intenções do novo presidente iraniano, Hasan Rowhani. Um deles é apontado por Max Boot, pesquisador-sênior do Council on Foreign Relations:

"Khamenei [o líder supremo iraniano] parece estar calculando que os EUA estão tão fracos agora (vide recentes eventos na Síria) que levantarão as sanções [que pesam sobre o Irã] e aceitarão as ambições iranianas de dominar o Oriente Médio em troca de uma redução cosmética no seu desenvolvimento nuclear".

Pode ser, mas outro pesquisador do Council, Stewart Patrick, sugere aceitar o jogo no pressuposto de que, "na diplomacia, como em muita coisa na vida, não arriscar é não ganhar".

Arriscar pode, por exemplo, trazer o efeito colateral de ajudar na crise síria. O Irã já se ofereceu como mediador entre o ditador Bashar Al-Assad e a oposição. Não é um mediador confiável porque ajuda o ditador com armas e homens, mas é um sinal de que quer trazer o conflito para o terreno que todos, Brasil inclusive, dizem ser o único possível: a negociação política.

Arriscar é, como contrapartida, correr o risco de que Rowhani seja outro Mohammad Khatami, o moderado que se elegeu presidente em 1997, prometendo uma abertura que não saiu do lugar pelo cerco a que foi submetido pelos conservadores, a linha dura do regime.

Mas "Etemaad" (Confiança), uma das raras publicações reformistas que sobreviveu no Irã, permite-se o otimismo de observar que "há uma diferença muito importante entre hoje e aquele momento [a ascensão de Khatami]: parece que Rowhani pôde obter a confiança e o apoio [dos conservadores]", o que jamais ocorreu com seu antecessor reformista.

Um pouco de otimismo faz bem ao mundo em que vivemos, nem que seja só para variar.

domingo, setembro 29, 2013


Insensatez e desfaçatez - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADÃO - 29/09Insensatez e desfaçatezNão dá para acreditar, mas essa verdade é bem brasileira. A União ofereceu a um pobre agricultor do Piauí, Nelson Nascimento, 67 anos, R$ 5,39 (isso mesmo) pela indenização de sua propriedade, que corta o traçado da ferrovia Transnordestina, uma das principais obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A quantia, equivalente a menos de um centavo por metro quadrado, é metade do custo de uma passagem para Nascimento tomar um ônibus, no quilombo Contente, e ir ao fórum da cidade, Paulistana, contestar o “rico dinheirinho”. A ferrovia, promessa do governo Lula, começou com o orçamento de R$ 4,5 bilhões, tem obras pela metade e o custo, hoje, seria mais de R$ 8 bilhões. Trata-se de um empreendimento privado, com execução pelo governo federal. A Secretaria de Transportes do Piauí, responsável pelas desapropriações, garante que o preço da indenização segue “as normas à risca”. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que firmou o convênio com a Pasta de Transportes do Piauí, confirma que o cálculo de R$ 5,39 obedeceu “a parâmetros usados em todas as desapropriações”.

A trombeta da Justiça anuncia o veredicto: o Estado de Direito vence por nocaute o Estado do Bom Senso. E assim, a nau da insensatez vai multiplicando seus hóspedes, a cada porto em que atraca, particularmente naqueles em que as águas do nosso oceano se apresentem revoltas, em função de choques entre as correntes humanas e os braços do Estado. As ondas acabam arrebentando sobre os diques do Judiciário, que, por sua vez, estribado na interpretação das normas, nem sempre consegue equilibrar a balança da justiça, usando o peso do entendimento de Spinoza, de que “justiça é uma disposição constante da alma a atribuir a cada um o que lhe cabe de acordo com o direito civil”. Pior é ver que a balança dos justiceiros, não raro, pende para um lado, desequilibrando o sistema de freios e contrapesos, engenhosa construção que o Barão de Montesquieu criou para harmonizar os Poderes. Um exemplo? O “palpitômetro” montado para combater o PL 4330/2004, que trata da terceirização de serviços, em debate na Câmara Federal, e que visa a formalizar a situação de 15 milhões de trabalhadores, hoje sob a égide da ultrapassada Súmula 331, do Tribunal Superior do Trabalho. 

Pois bem, o verbo contra esse projeto legislativo não apenas foi encampado pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), como recebeu o endosso de 19 ministros do TST, cuja assinatura em manifesto público escancara a tese de um pré-julgamento. Imagine-se como se comportaria a plêiade de altos juízes ante a eventual aprovação de uma lei pelo Poder a quem, de direito, cabe legislar. Sua decisão seria justa? Não estamos diante de um flagrante de controle prévio de constitucionalidade? Bacon, lá atrás (1561-1626), já ensinava que cabe ao magistrado jus dicere e não jus dare, interpretar leis e não dar ou fazer leis. Analisemos, porém, a hipótese de que o juiz, como cidadão da polis, pode ser qualificado como um ente político, agregando a condição de participar do processo político e opinar sobre os destinos da sociedade. Vamos ao cerne da questão. Não há dúvida sobre a identidade política do juiz, mas haverá de prevalecer em seu sistema decisório o múnus da judicatura, que abriga princípios e valores, a partir da integridade, virtude que os caracteriza. Em seu Espírito das Leis, Montesquieu alertava: “se o poder de julgar estiver unido ao Poder Executivo, o juiz terá a força de um opressor”. Imagine-se, agora, uma estrutura de administração da Justiça atrelada às pressões de grupos de interesses, de organizações corporativas, de lideranças políticas e deixando-se levar pelas correntes quentes das paixões. O momento nacional sugere que façamos um mergulho nessa hipótese. 

A insensatez faz-se presente na vida de outros figurantes da vida institucional. Entorta seus passos em variadas instâncias. Veja-se o caso do Ministério Público, com sua função essencial à Justiça, constituído por um batalhão de guerreiros em defesa da sociedade, muitos ainda jovens, mas tocados pela chama cívica. Projetos de magnitude, vitais para o desenvolvimento do país, são retardados ou mesmo inviabilizados em função de ações impetradas pelo MP, a partir de irregularidades apontadas na concessão de licenças ambientais. A recorrente indagação é: os processos não estariam contaminados por vieses ideológicos, visões ortodoxas, erros de análise ou mesmo falta de informações? Multiplicam-se queixas contra o IBAMA, o organismo de licenciamento ambiental. Recorde-se o caso da perereca de 2 centímetros, encontrada na Floresta Nacional Mário Xavier, em Seropédica, entre a presidente Dutra e a antiga Rio-SP, que atrasou em um ano e meio as obras do arco metropolitano - 77 km de pistas que ligam Itaboraí ao Porto de Itaguaí. Solução? Um viaduto sobre o lago das pererecas. Há mais de 1.600 processos de licenciamento em curso, o que gera suspeitas sobre as razões da excessiva morosidade. 

E a que se atribuir o fato de a Petrobras ter gasto, em 2009, US$ 1,18 bilhão na compra de uma refinaria em Pasadena, no Texas (EUA), que custou, em 2005, US$ 42,5 milhões? Má gestão ou “possível compra superfaturada de ações pela Petrobrás”, nos termos do MPF? Da insensatez para a desfaçatez, o salto é menor do que o da perereca fluminense. É só olhar para o Ceará. Ali, o governo do Estado pagou caro artistas contratados para shows. Chegaram a custar até oito vezes mais que os preços pagos noutros Estados. Na inauguração de um hospital, em Sobral, o cachê da cantora Ivete Sangalo foi de R$ 650 mil. Um mês depois, uma chuva derrubou a fachada do estabelecimento. Na abertura de um centro de eventos, o tenor Plácido Domingo embolsou R$ 3,1 milhões. Artistas desse porte devem ganhar isso mesmo. A questão é saber se um Estado carente de serviços básicos pode esbanjar seus parcos recursos. Ora, no Brasil, tudo é possível. 

DITADURA CLEPTOCRÁTICA TOGADA - RAFAEL BRASIL

A ditadura cleptocrática togada, do consórcio PT/ STF, se baseia nos princípios fundamentais de qualquer ditadura comunista. Terrorismo de e...