segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PARE DE CHORAMINGAR: 2016 FOI UM ANO EXCELENTE - FLÁVIO MORGENSTERN

2016 foi um ano cheio de acontecimentos marcantes. Apesar de duras derrotas, poucos anos foram tão comemoráveis. Por que a choradeira?
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O filósofo francês Paul Ricœur possui uma tese ousada para uma das questões filosóficas mais intrincadas de todos os séculos, que ainda teve uma complicação no século XX com a teoria da relatividade: o tempo. Para Ricœur, a única forma como o homem de fato “percebe” o tempo é pela narrativa. Ou seja, não olhando segundos passando no relógio, mas quando acontecimentos formando algum todo coerente, contando uma história, com alguma versão de começo, meio e fim são apreendidos e captados pela mente. Se algo pode confirmar a tese de Ricœur, este algo foi o ano de 2016.
Foi um ano “cheio”, mesmo tendo o mesmo número de dias, horas e segundos de outros anos. Por isso, é um ano marcante, que entra na história, ao contrário de outros anos. Não importa sua posição política, seus gostos, seus interesses: 2016 foi um ano com tantos acontecimentos que será muito mais lembrado do que 2015, 2014, 2013. Sua significância é maior. O que cravou em nossas memórias também.
No tempo público, da política, dos grandes atos que entram para a história, 2016 foi pródigo. Muito mais coisas que decidirão os rumos futuros da história aconteceram em países que variam de relevância entre Tailândia e Estados Unidos da América. Para não falar do Brasil.
Graças a isso, muitos lamentam 2016 como um ano cheio de tragédias, mortes, atentados terroristas e, claro, derrotas políticas para os que queriam os seus queridinhos no poder. Spoiler: se há algo em 2016 que o torna idêntico aos outros anos, foi o tanto de gente morrendo, entre as significativas e as mortes completamente sem sentido. Muitas tristezas, dores e despedidas difíceis ocorreram em 2016, mas em uma medida nada maior do que a habitual.
No cenário mundial, em 2016 o Estado Islâmico perdeu tanto território que, de um conglomerado com poder de mando em um território com o tamanho aproximado do da Grã-Bretanha, se tornou um arquipélago com diversos “vácuos” no meio de seu território.
O ditador russo Vladimir Putin, que combate o Estado Islâmico ao lado de Bashar al-Assad, poderia ter acendido o pavio da Terceira Guerra Mundial caso Hillary Clinton, que combate Bashar al-Assad ao lado dos rebeldes que também formam o Estado Islâmico, ganhasse as eleições. Felizmente, o resultado do pleito americano, lamentado por toda a mídia globalista que nada entende sobre isso, trouxe uma possibilidade de paz tão impensável para o mundo que vimos Putin num bom humor extremo e surreal: agüentou o assassinato de um embaixador na Turquia, o teatrinho de Barack Obama para afirmar que ganhou as eleições e mesmo dois graves acidentes aéreos de gosto duvidoso sem esboçar reação.
Os atentados terroristas são sempre horrendos e causam mortes a serem lamentadas, mas foram em um número e poder de fogo razoavelmente menor do que em 2015. Alguns, como o de Nova York, mostraram que, num cenário otimista, os terroristas islâmicos e sua jihad estão fazendo seu canto de cisne, sabendo que uma única vida ferida para o Ocidente será tratada como uma tragédia, mas sabendo que seu poder de fogo, comparado à França de 2015, ao 7 de julho de 2005 em Londres ou ao 11 de setembro de 2001 na América, é coisa do passado.
Os terroristas muçulmanos, diga-se, continuam chamando seus atentados não de terrorismo, mas de jihad. Em seus vídeos e comunicados, sempre chamam seus adversários de “Cruzados”, palavra nunca traduzida fielmente pela mídia. Antes de um atentado numa feira de Natal em Berlim, os salafistas que promovem tal jihad cuidaram de degolar o padre Jacques Hamel, de 84 anos, na Normandia. O recado não poderia ser mais claro: enquanto a mídia fala em “extremistas” que não têm “nada a ver com a religião islâmica”, o mundo continua numa guerra de civilizações: a shari’ah islâmica e seus combatentes de um lado, a civilização ocidental, que permite religiosidade, laicismo e um certo leque de pensamentos mais abrangentes de outro. Se algo deve ser lamentado em 2016 é a incapacidade das pessoas em afirmarem o óbvio, com medo de serem tachadas de xxxxxistas e @@@@@fóbicos pela mídia.
Globalismo, aliás, é a palavra de 2016: enquanto a mídia insiste a fingir que coisas o Brexit, a eleição de Donald Trump, a renúncia de Matteo Renzi, o repúdio à União Européia, à ONU, às normas do Banco Mundial (que controla a educação global) e mesmo ao FMI sejam uma tendência de “nacionalismo” e “protecionismo” comercial, o que esta tendência de repúdio a instituições burocráticas com poder de mando e sem voto demonstra é que o globalismo, que sempre precisou atuar sem poder ser notado, financiado entidades que variam do Occupy Wall Street ao PSDB, da eleição de Hillary Clinton ao Mídia Ninja, foi percebido. E agora começa a ser nomeado.
Quem percebe o globalismo, e sabe que ele é o inverso da globalização (a super-especialização comercial de cada país, permitindo que cada um, com seu governo independente e suas fronteiras muito bem definidas, comercializem entre si), passa a repudiá-lo. Mesmo sem a mídia dizer um pio, forçando todos a confundir o termo. Como um governo transnacional vai “funcionar”, desde sua base na London School of Economics, se partidos, variando do UKIP ao Alternative für Deutschland, têm sua plataforma mirando e nomeando seu inimigo avistado, mesmo sob uma campanha de desinformação ultrapassando as raias da calúnia da mídia?
O sentimento amargo de 2016 advém todo de uma única coisa: esta mídia, na qual todos nós já confiamos em algum percentual mais elevado antes de 2016, exagerou em sua dose de manipulação e, tentando dar um passo maior do que a perna, acreditou em seu poder de influência total na opinião pública, quando na verdade as pessoas, mesmo sem ter um contra-manual, perceberam seu engodo. Foi assim com Donald Trump. Foi assim com o Brexit. Foi assim com o “acordo de paz” com as FARC. Foi assim com o impeachment. Foi o ano em que a Veja passou a merecer o título de “ex-revista”.
Pessoas normais não têm como não ter um sentimento de luto por um ano em que os formadores de opinião, que uma vez ou outra já nos informaram sobre algo, se provaram um fracasso em um mundo mais complexo – quando não debandaram desabridamente para o lado inimigo. O que 2016 deixa de rastro de lágrimas é justamente tal sentimento, da traição ao desapontamento, de que um mundo que parecia ser mais fácil, de repente, se mostrou de uma complexidade absurda, e aqueles que estavam ao nosso lado estão em trincheiras inimigas, atirando em nós ao lado dos injustos.
E, no Brasil, tivemos o impeachment, um novo marco fundador. A partir deste momento, a narrativa política brasileira sempre tem como binômio básico não mais um discurso de “ricos” contra “pobres” que nunca se sustentou na realidade, mas saber se você estava de verde e amarelo na Paulista ou de preto quebrando coisas.
O impeachment, que parecia algo de somenos importância diante do tamanho da roubalheira do PT (por que não a impugnação de toda a candidatura? por que não a cassação do registro da sigla? por que dar sobrevida ao PT?) se mostrou, até para o mais pessimista, uma força simbólica maior do que qualquer grande realidade. O PT apostou por meses na narrativa de “golpe”, só comprada por ele próprio, para então passar alguns meses pedindo “eleições diretas”. Bastaram as eleições municipais, que escorraçaram o PT da relevância partidária brasileira, para os petistas ficarem completamente sem discurso. Quem pediria eleições diretas quando não se consegue ficar em quinto lugar? O impeachment, como processo jurídico e político, se revelou mais importante do que qualquer derrota apenas jurídica maior ao Partido dos Trabalhadores. Para piorar, opositores de última viagem do PT, como Eduardo Cunha, caíram junto na Lava Jato. Os petistas, ao invés de agradecer, tiveram de lamentar que sua mentira foi exposta ao público.
É graças a todo esse conjunto que este Senso Incomum, não muito mais velho do que 2016, acabou despontando entre o público leitor ávido por algo além da narrativa pronta da grande mídia. Por isso precisamos tanto de seu apoio em 2016, e precisaremos ainda mais em 2017, para continuar explicando o que a mídia desinforma e apresentando pensamentos novos e conteúdo que vá de encontro ao “consenso geral” que se mostra a cada dia atirando para mais longe do alvo.
2016 conteve algumas vitórias extremamente importantes, apesar de um rol de derrotas que foi o comum para os outros anos. É por isso que nós estranhamente estamos otimistas e agradecemos a todos pela companhia neste último ano, fiéis de que podemos, juntos, influenciar positivamente a mentalidade coletiva ainda mais em 2017.
Que tenhamos todos um grande ano! Feliz 2017 e continuem conosco! 🙂

Lições de um escândalo - Gustavo Loyola


- Valor Econômico

• A retirada do Estado da atividade empresarial seria um marco na batalha contra a corrupção

Diz o velho ditado que as dificuldades são criadas para que facilidades sejam vendidas. O escândalo desvendado pela Operação Lava-Jato tem exposto com clareza o liame entre a corrupção e as políticas públicas concebidas para interferir deliberada e injustificadamente no funcionamento normal dos mercados. O intervencionismo estatal tem sido a grande mãe da corrupção no Brasil.

As revelações trazidas pelas colaborações premiadas mostram como a ideologia por trás das políticas econômicas dos governos petistas se prestou bem aos propósitos dos corruptos e dos corruptores. Escondido sob o manto de expressões pomposas, mas vazias de significado econômico palpável, esteve sempre o objetivo principal do uso das instituições e das políticas do Estado para perpetuar um grupo político no poder e enriquecer seus integrantes. Desavergonhadamente, juntou-se o "útil ao agradável".

Uma característica das chamadas "dez medidas contra a corrupção" patrocinadas pelo Ministério Público é o seu estreito foco nos direitos administrativo e penal. Passa-se inadvertidamente à sociedade a noção de que a vitória contra a corrupção depende de maneira exclusiva do arrocho das penas e do aumento no poder investigativo policial e do MP.

Não discordo que tudo isso seja importante e necessário. Mas esse enfoque restrito provavelmente levará ao fracasso os nobres objetivos colimados pelo MP caso não venha acompanhado por reformas que removam os incentivos à corrupção criados por graça e obra da atuação intrusiva e caótica do Estado brasileiro. Claramente, está faltando a indispensável abordagem multidisciplinar ao problema.

No Brasil, o Estado é paquidérmico e fonte de ineficiências que perpassam por toda a economia. Está desenhado para ser o fornecedor de "meias-entradas", isto é, para conceder privilégios e tratamentos excepcionais para determinados segmentos ou empresas. Como assinalou Marcos Lisboa, "no Brasil o privilégio é a norma". Num país onde a regra é os grupos de interesses batalharem por privilégios estatais, não é de se estranhar que os esquemas de corrupção se multipliquem tal qual erva daninha.

A colaboração premiada de um ex-executivo de um grande grupo empresarial trouxe à luz um exemplo acabado de como a mentalidade da "meia-entrada" impulsiona a corrupção em nosso País. Trata-se da edição e tramitação de várias medidas provisórias estendendo benefícios fiscais e outras prebendas a setores econômicos. Segundo se noticia do teor da colaboração, teria havido pagamento de propinas a parlamentares na tramitação das medidas provisórias 449/2008, 472/2009, 563/2012 e 651/2014. Sobre quais temas versam tais medidas? Meias-entradas, obviamente. Dentre elas, a mais típica distribuidora de "meias-entradas" foi a MP 651, apelidada de "MP do bem", que custou em desonerações cerca de R$ 60 bilhões, segundo cálculos da Receita Federal.

A mera dissecção do processo de exame da citada MP 651 pelo Congresso Nacional nos dá bem uma ideia do festival de privilégios, concedidos ou tentados, que se escondeu por trás de uma medida que, segundo as autoridades econômicas de então, objetivava reduzir os custos produtivos. O aspecto mais perverso de tudo é que, dado o emaranhado tributário brasileiro, todos se sentem no direito de pegar carona numa medida que concede desonerações setoriais, ainda que estas possam ter justificativa econômica.

Uma rápida pesquisa no site do Congresso indica que houve emendas parlamentares estendendo benefícios de desoneração tributária aos seguintes setores, entre muitos outros: empresas auxiliares de transportes aéreos, serviços regulares de transporte coletivo urbano, serviços de reformas de pneumáticos, empresas produtoras de açúcar e de etanol, empresas do setor hoteleiro, empresas de engenharia e arquitetura, produtores de artefatos de couro, produtores de equipamentos de ginástica, produtores de castanha de caju, etc.! Como se vê, o jogo é este: "o privilégio é a norma".

Uma boa reforma tributária poderia evitar muito desse comércio de medidas legislativas que dão tratamento diferenciado para setores econômicos. Como assinalamos em artigo anterior, como o ambiente de negócios do Brasil foi tornado inóspito graças à má regulação estatal, os incentivos são para erigir normas específicas que protejam determinados segmentos e não para induzir à realização de reformas horizontais e abrangentes que construam instituições favoráveis ao sadio desenvolvimento capitalista.

Porém, a busca pelos privilégios da "meia-entrada" não é o único terreno fértil de incentivos à corrupção no Brasil. A ideologia estatizante é outro vetor relevante de propagação dessa doença moral em terras tupiniquins. Não foi por acaso que a Petrobras se tornou o eixo da roubalheira desvendada pela Lava-Jato. Nos anos petistas, a empresa estendeu seus tentáculos a setores como energia elétrica, etanol, petroquímica, além de ter-se tornado numa fomentadora opaca da opção ideológica pelo conteúdo local "coûte que coûte".

A retirada do Estado da atividade empresarial seria um marco na batalha contra a corrupção, talvez tão importante quanto o aperfeiçoamento da legislação administrativa e penal.

Por tudo isso, além de razões econômicas relevantes, como a aceleração do crescimento da produtividade e do investimento, torna-se cada vez mais urgente tocar adiante, entre outras, a reforma do Estado e a reforma tributária, que, sem dúvida, também mereceriam estar incluídas no rol das "medidas contra a corrupção", como uma das lições dos escândalos recentes.
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Gustavo Loyola é doutor em Economia pela EPGE/FGV, ex-presidente do BC

Tóxico ideológico – Editorial | O Globo


• Não se pode perder o foco, no debate, em que o sistema não reflete a realidade demográfica e econômica

Concentra-se no debate sobre a imprescindível reforma da Previdência, forçada por motivos aritméticos, uma série de equívocos derivados da intoxicação ideológica da defesa de um modelo de Estado tutor da sociedade, responsável único pelo combate à pobreza e desníveis sociais. É esta visão que plasmou a Constituição de 1988. Mas, hoje, já em 2017, com uma população de 220 milhões de habitantes, e numa crise fiscal ironicamente plasmada por uma política econômica assentada naquele tipo de visão míope de mundo, o Estado quebrou e o governo precisa fazer, entre outras reformas, a previdenciária. Só assim, poderá reequilibrar as contas públicas, base de qualquer processo de crescimento sustentável.

É tamanha a resistência a entender que o sonho de um “estado de bem-estar”, responsável por benevolências sem sustentação na realidade, virou pesadelo, que se torturam estatísticas, fazem-se piruetas intelectuais para esconder os fatos. Um exemplo, é defender que a previdência seria, ao contrário, superavitária. Mera pirueta estatística. Ora, não se pode segmentar o sistema previdenciário em urbano e rural, por exemplo, tampouco se considerar receitas que só existiriam com o aumento de uma já assombrosa carga tributária (36% do PIB), a mais elevada entre as economias emergentes e no nível da de alguns países desenvolvidos.

A dinâmica demográfica, não só no Brasil, é inexorável: as pessoas, ainda bem, vivem cada vez mais e, por isso, precisam contribuir mais tempo para os sistemas previdenciários. Nem mesmo economias fortes como a alemã resistem a esta fatalidade: há cerca de dez anos, o governo foi obrigado a mudar, nesta direção, a Previdência no país, flexibilizar leis trabalhistas etc. O chanceler social-democrata Gerhard Schröder enfrentou o mesmo tipo de resistência que se vê hoje no Brasil, mas conseguiu aprovar as reformas. Perdeu as eleições seguintes, porém a Alemanha voltou a crescer em bases saudáveis e resistiu à crise mundial deflagrada em 2008/2009 com baixas taxas de desemprego.

Não se pode perder o foco no debate brasileiro. Em primeiro lugar, deve-se ter consciência do enorme desequilíbrio das contas públicas como um todo: déficit nominal ainda próximo dos 10% do PIB (três vezes superior ao limite máximo permitido, por exemplo, pela União Europeia); saldo negativo primário (sem a conta de juros) de 3% do PIB; dívida pública escalando para mais de 70% do PIB, quando era 50% há pouco tempo. A insolvência fiscal já existe em termos potenciais. E o principal motor do desequilíbrio estrutural é o déficit previdenciário. Não vale argumentar com o peso dos juros, também elevado, mas estes oscilam (e estão em queda), enquanto o custo da previdência só aumenta. Roga-se que se perceba que um gasto total com aposentadorias (INSS e servidores públicos) acima de 10% do PIB, mesmo nível de países desenvolvidos com população mais velha que a brasileira, não é sustentável. Tudo porque, por fé ideológica, se resolveu distribuir uma renda inexistente.

Reformas sem parar – Editorial | Folha de S. Paulo


Em qualquer momento da história contemporânea do Brasil, um presidente que conseguisse aprovar leis que limitassem o aumento da despesa do governo federal seria autor de um feito notável. Fazê-lo durante uma das maiores crises econômicas, sob rejeição maciça, seria ainda mais impressionante.

Michel Temer (PMDB) está a meio caminho de ter êxito na empreitada, que depende de uma dura reforma da Previdência, sem o que o teto de gastos se torna inviável ou disfuncional.

Temer, porém, pretende ir além. Quanto mais abaladas suas bases políticas, mais reformas propõe.

Decidido a reforçar seus laços com os setores sociais restantes que o apoiam, o peemedebista redobra suas apostas de reformas econômicas. É um comportamento inverso ao do padrão dos governos, que em momentos de dificuldades em geral revertem populismo.

O presidente anunciou no final do ano a mudança nas leis do trabalho. Trata-se de alterações no âmago das relações sociais: as que definem rendimentos, distribuição de renda, poupança nacional e interações entre gerações. Ademais, anunciou que mexerá no sempre relegado entulho tributário e que vai apoiar a reforma política.

Temer resolveu se tornar imprescindível para quem acredita na necessidade urgente de refazer a regulação econômica do país —para grupos políticos que demandam a limpeza do terreno arruinado da economia a fim de governar um país mais ordenado e liberal a partir de 2019. Faria todos os "males", em posição de sacrifício ou de bode expiatório.

Recorde-se que o governo não fez aprovar apenas o teto. Com ainda maior rapidez, levou a cabo mudanças nas leis de estatais, do petróleo, de energia e tantas outras. Cumpre assim todas as promessas do núcleo do seu plano de governo.

Ocorre que tal programa, de vários méritos, não foi aprovado nas urnas. Temer sofre de grande desprestígio popular; quase dois terços dos cidadãos gostariam de eleger já outro mandatário. A atividade econômica continuará a regredir até meados de 2017.

Há mais. O governo federal adentrará o ano com a tarefa de administrar a catástrofe das contas de Estados e municípios, que absorverá recursos políticos e econômicos por meses a fio.

É quase certo que as delações de tantas operações anticorrupção vão desmantelar o restante do núcleo original do comando de Temer, se não causarem desarranjo ainda maior em Brasília.

A história de generais que abriram excessivas frentes de combate não costuma terminar bem. Não há como prejulgar o sucesso da estratégia nem como negar seu mérito, em tese. A princípio, no entanto, o ímpeto parece imprudente.

Made in Brazil - Fernando Gabeira


- O Globo

Por mais que se fale em ano novo, em vida nova, no fundo de cada um de nós está a certeza de que certas complicações atravessam o réveillon e prosseguem em nossas vidas. Na última semana de 2016, a Polícia Federal fez uma busca nas gráficas que serviram à chapa Dilma-Temer. Isso serviu para nos lembrar que o tema voltará em 2017 e com a dose de realismo fantástico que tempera nosso noticiário.

Temer vai dizer que as contas são separadas. Seus adversários dirão que é uma só, indivisível. Se forem separadas, o foguete explode apenas no colo de Dilma. Se forem uma só, a chapa vai para os ares e teríamos eleições indiretas. As próprias gráficas misteriosas já têm algo de fantástico. O dono de uma delas é um homem chamado Beckembauer Rivelino. Certamente o pai queria lembrar dos dois grandes craques. Um joga no ataque, outro na defesa. No próprio nome, atacante e defensor se equilibram, o menino já vem com salvaguardas para não jogar muito solto. Essa discussão sobre a chapa Dilma-Temer vai depender muito da política. A tendência é de que defensores do governo afirmem a tese da separação e críticos a da unidade indissolúvel.

Dilma e Temer unidos para sempre? Ele chegou a escrever uma carta que parecia um mimimi do tipo “você não se importa comigo”. Queria com isso revelar já naquela época que, apesar das aparências, não rolava nada nas relações políticas entre os dois. A temporada de 2017 promete no TSE. Mas nada parecido com a cena no STF que deve homologar e dar transparência à delação da Odebrecht. O que os americanos revelaram foi o bastante para sacudir a política no continente. As redes sociais foram inundadas com protestos e críticas em todos os nove países onde houve corrupção na América Latina. Estamos no epicentro de um escândalo mundial. No entanto, os dados divulgados nos EUA ainda são incompletos. Os políticos brasileiros foram chamados de brazilian officials e numerados de um 1 a 9. Quando esses números ganharem nome e cara, e isso só é possível com a transparência da delação, talvez se possa tomar consciência também da amplitude da aventura internacional do brazilian oficial número 1 e o esquema da Odebrecht. Ao divulgarem o que a Odebrecht pagou em propina e o quanto lucrou, os americanos lançaram um dado objetivo que foi, ao mesmo tempo, a semente da crítica, em toda a parte, e a base para a pressão sobre os governantes. Nesse particular, autoridades suíças, aliás, enfatizaram esse ângulo: para cada dólar investido em suborno, a Odebrecht conseguia quatro de lucro.

As investigações foram realizadas no Brasil. O país tem se mostrado aberto para compartilhar os dados com outros governos. No entanto, ainda assim ficam alguns ressentimentos no ar. Cedo ou tarde, o país terá de escrever na língua nativa a história dessa trama que envolveu países da América Latina e da África. Nunca nossa presença externa foi tão abrangente e lamentável. Embora o escândalo continental tenha tido pouca repercussão aqui, os diplomatas brasileiros, certamente, terão sensibilidade para o furacão. Ainda no campo da diplomacia, os documentos da política externa sobre a aventura também devem ser revelados no processo de transparência que virá. Não há razão para esconder, pois o essencial a polícia já conhece e estará descrito nas delações premiadas. A transparência agora não significa apenas dar nome aos culpados. Ela tem de estar à altura do grande fato histórico em nossa política externa e documentálo com precisão.

O ano de 2016 foi duro. E 2017 ainda nos espera com grandes tensões, mas pelo menos a promessa de que as coisas serão esclarecidas finalmente. Venha o que vier, terá pelo menos o condão de nos trazer à realidade, esclarecer tudo o que ainda se ignora. Será um grande momento de verdade pelo qual temos de passar no caminho da reconstrução.

A Odebrecht e o official número 1 bateram recordes de cifras, ganharam o campeonato mundial de corrupção. É uma ilusão supor que a História vá ignorar esse grande feito. Os americanos o acharam tão importante que se apressaram a divulgá-lo sinteticamente. Certos detalhes não interessam a eles, como o papel do BNDES em toda a trama, as manobras diplomáticas, os interlocutores, os discursos. No Brasil, a história completa precisa vir à tona. Ela representa um capítulo independente, foi objeto de investigações em Curitiba e Brasília e está presente em alguns dos 800 depoimentos da Odebrecht.

Num momento em que todos os nove países latinos atingidos começam também a investigar, dados novos podem surgir. E estará mais completa ainda a narrativa desse episódio inédito no Brasil: a multinacional da propina combinando empresa, diplomacia presidencial e o BNDES. Como disse, um filme à parte. Feliz Ano Novo.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Oremos! - Eliante Cantanhêde


- O Estado de S. Paulo

• Nada está uma maravilha, mas entramos 2017 com otimismo realista

Depois de tanto sofrimento e tanto sobressalto em 2016, que tal iniciarmos 2017 com alguma esperança e um otimismo realista? Não custa nada tentar, já que, como diria o Tiririca, pior do está não fica. Os sustos ainda serão muitos, porque a Lava Jato segue em frente, o Congresso que aí está continuará aí e a recuperação da economia vai continuar sendo um processo lento. Mas há algumas indicações de que, devagar e sempre, a coisa agora vai. Oremos!

A Lava Jato está completando três anos, com vários troféus inéditos: 24 peixes graudíssimos presos, 14 deles já condenados e dez na fila esperando sua vez, e a expectativa é de retorno de R$ 10 bilhões desviados para bolsos (e bolsas) criminosas. Mas o melhor nem é isso, é que a Justiça, o MP, a PF e a Receita conseguiram desvendar e seguir a trilha inteira de um esquema monumental de corrupção que atravessou continentes.

Como escreveu Fernando Gabeira, “os líderes comunistas do passado criaram internacionais para marcar posições políticas diferentes. A decadência chegou ao ponto de se criar a partir do Brasil uma internacional da corrupção” – e com o BNDES no centro do esquema. Se capitaneava essa “internacional da corrupção”, o Brasil passa a capitanear o combate à corrupção. Da vergonha, hoje, ao orgulho nacional, amanhã.

No Congresso, as coisas são como são. Eleitores de todo o País votaram naqueles partidos, deputados e senadores e, na nossa busca de otimismo realista, a sorte é que, pelo menos, o presidente Michel Temer já presidiu três vezes a Câmara. A situação política e econômica não virou uma maravilha da noite do impeachment para o dia da sua posse e a sua popularidade é abaixo do razoável, mas uma coisa é certa: se o X da questão é aprovar reformas no Congresso, como a PEC do Teto dos Gastos, arrisca-se dizer que Temer é o homem certo na hora certa.

Por fim, a economia. Está uma maravilha? Longe disso. Ficará uma maravilha em 2017? Longe disso. Os empregos jorrarão? Longe disso. Mas... já há sinais de luz no fim do túnel. Ainda tênue, tremelicando, mas indicando que o viés rumo ao abismo começa a ser revertido.

Numa comparação do Boletim Focus, do BC, a previsão de inflação de 2015 para 2016 era de 6,8%, acima da meta de 4,5% e até mesmo do teto da meta, de 6,5%. A de 2016 para 2017 é de 4,85%, bem próxima da meta real. Pode-se alegar que não há motivos para fogos e brindes, pois, com recessão, a inflação cai mesmo, de madura. Mas outros indicadores essenciais vão na mesma linha.

A previsão do dólar para 2016 era de R$ 4,21; a dos juros, de 15,25%; a do crescimento do PIB, de 2,95% negativos. Para 2017, é de dólar a R$ 3,50; juros a 10,50%; PIB de 0,50 positivos. Ou seja: as perspectivas parecem bem melhores do que já foram, o que projeta um 2017 ainda periclitante, mas mais animador.

Outra ressalva é que previsões nem sempre se confirmam, e aí mesmo tem-se o dólar (para ficar num único exemplo), que o Focus previa fechar R$ 4,21 em 2016 e fechou quase R$ 1 menos que isso. O importante no confronto entre as projeções para 2016 e para 2107, portanto, não é o número a número, mas a reversão de expectativas, de confiança, de potencialidades. As lentes veem um 2017 menos sombrio do que viram 2016. Ah! E o valor de mercado da combalida Petrobrás mais que dobrou em 2016. São sinais de alento.

Logo, deixo aqui votos de que o mundo esteja melhor em 2017, apesar da troca de Obama por Trump, que o Brasil atravesse bem a pinguela, apesar dos inevitáveis solavancos, que os 12 milhões de desempregados tenham melhor chance, apesar das dificuldades das empresas, e que o senhor, a senhora e todos nós possamos ser mais alegres e ter mais otimismo. Adeus, 2016! Feliz 2017!

NÃO PERCAM O VÍDEO: BRASIL PARALELO - O MARXISMO CULTURAL NO BRASIL.


DITADURA CLEPTOCRÁTICA TOGADA - RAFAEL BRASIL

A ditadura cleptocrática togada, do consórcio PT/ STF, se baseia nos princípios fundamentais de qualquer ditadura comunista. Terrorismo de e...