domingo, 2 de março de 2014

O caminho da ponderação - EDITORIAL O ESTADÃO O ESTADO DE S. PAULO - 02/03

O caminho da ponderação - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 02/03
Durante as comemorações dos 20 anos do Plano Real no Senado Federal, seu criador, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não se deixou ficar sentado sobre os louros do sucesso da política monetária que comandou e revolucionou a economia nacional. Também se recusou a adotar uma retórica da crítica pela crítica aos adversários do Partido dos Trabalhadores (PT) que lhe sucederam na Presidência. Em vez disso, o tucano - eleito duas vezes em primeiro turno, tamanha foi a repercussão na vida do cidadão comum de seu plano de estabilização - tratou do futuro do País.
Em Brasília, Fernando Henrique Cardoso atuou como principal cabo eleitoral de um presidenciável do partido, o senador Aécio Neves, principal obstáculo à reeleição da presidente Dilma Rousseff. Para ele, o Brasil clama por mudanças, por gente nova, e há uma "fadiga de material". Não se trata, propriamente, de uma novidade espetacular, pois, desde as manifestações nas ruas contra a péssima gestão do Estado brasileiro, esse desejo de mudança é público e notório.

Assim que as multidões deixaram as ruas no meio do ano passado, os institutos de pesquisa saíram a campo para pesquisar e constataram que nada menos do que 66% dos brasileiros entrevistados exigiam mudanças na gestão pública. Na semana passada, esse clamor se fez ouvir de novo: o instituto MDA, em levantamento patrocinado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), revelou que o anseio continua o mesmo. Apenas 12,1% dos entrevistados aceitam a manutenção do estilo da atual administração federal. Enquanto isso, 23,1% preferem manter algumas das ações do governo Dilma e 25%, a maioria de tais iniciativas. A maior parte dos consultados, 43,7%, porém, reivindica uma mudança total do que está sendo feito pela aliança liderada pelo PT. Ao constatar isso, Fernando Henrique Cardoso chamou a atenção para os 12 anos de gestão petista, embora não os tenha citado de forma explícita.

O que explicitou, isso sim, foi o reconhecimento de que o Brasil carece muito de líderes jovens e capacitados a procurar o sucesso fora das fórmulas e soluções do passado, no qual modestamente se incluiu. "Minha geração já passou. Nós já morremos. Não dá mais. Tem de passar (as responsabilidades) para outra geração", disse ele.

Como qualquer brasileiro responsável, o ex-presidente está preocupado com o acirramento do debate político neste ano de eleições para a Presidência da República e os governos estaduais. Mesmo reconhecendo que a guerra nos palanques faz parte do jogo da democracia, nem sempre limpo (pois "sem emoção ninguém consegue transmitir nada"), ele fez votos para que esta campanha, pelo menos, "não seja de insultos nem de dossiês falsos, toda essa coisa".

Ele próprio contribuiu para esse apaziguamento ao discordar do presidenciável tucano Aécio Neves, ao seu lado, que prenunciou "anos difíceis" para o sucessor de Dilma, qualquer que seja ele, porque o País estaria "mergulhado num ambiente de desesperança e descrença no futuro". FHC contemporizou: "Eu me preocupo, mas não posso ser injusto e dizer que o governo não controla a inflação. A inflação, comparada com a do início do Plano Real, que era de 20%, 30% ao mês, agora é de 6% ao ano. (...) Agora o Brasil está com um compasso diferente do compasso do mundo. Tem que ajustar. Vamos ser otimistas. Eu sou otimista. Não temos que ficar apenas jogando pedra. Temos que construir".

Tal ponderação condiz com o conselho de mais velho dado a Aécio. "Temos um bom candidato. (...) Ele tem que dizer ao País: é isso, tem um caminho, o caminho é esse", pontificou o ex-presidente. Com sua bagagem de cientista social respeitado no mundo inteiro, ele tocou no ponto nevrálgico da fragilidade da oposição à atual aliança governista: a falta de propostas concretas que animem o eleitor a evitar o "mais do mesmo", que é, no fundo, o mote da campanha pela reeleição de Dilma. O eleitor quer mudar, sim, mas também exige garantias de que a mudança venha para melhorar sua vida

O coronel Avólio e seu serviço ao Exército - ELIO GASPARI

O coronel Avólio e seu serviço ao Exército - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 02/03

Militar contou à Comissão da Verdade o que viu no dia em que mataram o deputado Rubens Paiva


Armando Avólio Filho era um jovem tenente no dia 20 de janeiro de 1971, quando Rubens Paiva chegou preso ao DOI do Rio de Janeiro. Durante 43 anos seu nome foi tangencialmente associado a esse crime. Em 1996, pediu um conselho de justificação para livrar-se da suspeita. Seu pedido foi negado pelo ministro Zenildo de Lucena. Em diversas ocasiões mostrou seu interesse em esclarecer os fatos, mas os chefes da ocasião sempre ordenaram-lhe que ficasse calado, para proteger a instituição. Felizmente, protegendo a instituição, Avólio decidiu contar à Comissão Nacional da Verdade o que viu. Só o que viu.

Desse depoimento, revelado pelo repórter Chico Otávio, resulta que ele viu um tenente (Fernando Hughes de Carvalho) numa sala, com um homem destruído. Mais tarde associou-o a Rubens Paiva. Até aí o caldo é ralo, pois no DOI se apanhava e lá morreu de pancada o ex-deputado. No máximo, a responsabilidade deslizaria para um tenentinho que, além do mais, está morto. A principal revelação de Avólio, hoje um coronel reformado, está no fato de que, naquele dia, contou o estado do preso ao major José Antonio Nogueira Belham, comandante do DOI. Belham sabe o que acontecia no destacamento, mas nunca se meteu com os bicheiros e contrabandistas que bicavam no DOI do Rio. Seguiu sua carreira e chegou a general de divisão. No governo de Lula, já na reserva, ocupava a vice-presidência da Fundação Habitacional do Exército. Encrencou-se com as viúvas dos militares mortos no terremoto do Haiti e foi demitido.

Belham informa que no dia 20 de janeiro de 1971 estava de férias. (Nesse caso, a responsabilidade deslizaria para o vice-comandante, que está morto.) Estava de férias, mas estava lá. Esse fato, mencionado por Avólio, foi formalmente corroborado por um coronel (capitão à época), que morreu em janeiro.

Quem tirou o cadáver de Rubens Paiva de lá? Quem coordenou o teatrinho? (Num caso anterior, fracassado, foi o Centro de Informações do Exército, subordinado diretamente ao gabinete do ministro Orlando Geisel e comandado por seu chefe de gabinete.) Depois da revelação da presença de Belham na cena do DOI, a comissão viu a ponta de dois fios que levam a meada para cima. Afinal, tanto trabalho para responsabilizar um tenente morto seria um novo teatrinho, institucional. Nele, cultiva-se uma narrativa segundo a qual a tortura e os assassinatos eram coisa de agentes desautorizados (de preferência, mortos). Patranha. Eram uma política de Estado, dos presidentes, ministros e generais comandantes das grandes unidades. Para ilustrar: o tenente Hughes ganhou a Medalha do Pacificador no ano da morte de Rubens Paiva. Cada torturador foi um torturador, mas o conjunto dos torturadores foi um plantel formado, disciplinado e premiado por seus superiores, transformando jovens oficiais em assassinos.

Chegaram ao conhecimento de membros da comissão dois fatos. No primeiro, quando começou a operação de retirada do cadáver, durante a madrugada, as luzes foram apagadas. No segundo, contado por um militar, dois oficiais do CIE barraram-no na porta do DOI. Um deles está vivo.

Atitudes como a de Avólio nesse caso servem às Forças Armadas, tirando-lhe das costas a cruz das mentiras desmoralizantes que carregam desde o século passado. Ele tirou de sua biografia uma acusação que carregou em silêncio ao longo de décadas. Negaram-lhe a oportunidade funcional, mas o coronel falou na jurisdição competente. Pode parecer que seja pedir muito, mas se os atuais comandantes militares fizessem um elogio público a todos os oficiais que estão colaborando com as investigações, todo mundo ganharia. Podem até fazer um elogio genérico, abrangendo aqueles que mentem, não faz mal. Basta sinalizar que condutas como a de Avólio servem ao Exército.


SELFIE

Aconteceu em Belo Horizonte há quinze dias.

A senhora caminhava nas proximidades da Assembleia Legislativa e aproximou-se um homem magro, de camiseta, com uma faca:

--Vai passando a bolsa. Estou com fome.

--Passo, mas primeiro deixe eu tirar os documentos.

--Pode tirar, esse negócio de burocracia é uma bosta... Pera aí... A senhora não é a ministra?

--Sou.

--Foi mal. Pode ficar. Gosto muito da senhora, desde o tempo do governador Itamar.

--Você quer dinheiro para comer?

--Não, vá em paz. Agora, o que eu queria era tirar uma fotografia com a senhora.

--Isso não. Meu cabelo está muito desarrumado.

O cidadão guardou o celular e a ministra Cármen Lúcia seguiu em frente.

ALZHEIMER

O Ministério Público Federal colheu dezenas de depoimentos de civis e militares que estavam na incubadora e na cena do atentado do Riocentro, em 1981.

Quase todos os militares lembraram de pouca coisa. Um dos que mostraram ter melhor memória foi o coronel Edson Lovato, que começou seu depoimento esclarecendo que sofre do mal de Alzheimer e toma 13 comprimidos por dia.

VENDO O FUTURO

Pelo andar da carruagem, alguns deputados que formaram o "blocão" e querem azucrinar o governo instalando mais uma CPI da Petrobras daqui a dez anos estarão se defendendo no Supremo Tribunal Federal. Sustentarão que é improcedente a acusação segundo a qual formaram uma quadrilha. Pelo visto, terão bons argumentos, vindos de sábios da jurisprudência.


UM GOLPE DO ATRASO NOS PONTOS DE ÔNIBUS

Está em curso um novo golpe de marquetagem de prefeitos e cartéis de companhias de transportes públicos. É a colocação de painéis eletrônicos em pontos de ônibus, informando as previsões de horários de passagem dos coletivos por ali. Trata-se de uma bugiganga redundante, visto que hoje no Brasil há 271 milhões de telefones celulares e, com eles, pode-se obter essa informação, antes mesmo de se chegar ao ponto.

Houve época, quando não existiam os necessários aplicativos, em que esses painéis eram úteis (quando funcionavam). Se alguém quiser colocá-los nos pontos, pode fazê-lo, desde que os prefeitos não joguem dinheiro da Viúva nisso, nem os cartéis dos ônibus apresentem seus custos (e sua manutenção) nas planilhas com que vão buscar aumentos de tarifas. O que o passageiro quer deles é regularidade no serviço e conforto na viagem, e isso não dão.

Quando esses painéis são apresentados como um exemplo de políticas públicas modernas de prefeitos ou dos serviços dos cartéis, estão apenas confirmando o velho versinho do poeta Cacaso:

Ficou moderno o Brasil,

ficou moderno o milagre

Água já não vira vinho,

vira direto vinagre.

Batuque com pizza - ELIANE CANTANHÊDE FOLHA DE SP - 02/03

Batuque com pizza - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 02/03

BRASÍLIA - O país em plena folia e o Supremo Tribunal Federal de ressaca pelo recuo no julgamento do mensalão, que tinha quadrilha, mas agora não tem mais. Durma- se com um barulho desses.

O pior é que o Carnaval passa, a Quarta-Feira de Cinzas passa, o congestionamento da volta para casa passa, mas a ressaca e os megafones no Supremo ficam. A divisão, que já era estridente, tende a ficar ensurdecedora. Imagine o clima no elevador, no cafezinho, nos encontros compulsórios no corredor...

Quem acha que o julgamento do mensalão está na reta final, e que vamos todos virar a página e mudar de assunto, está redondamente enganado. Ainda falta muita coisa a decidir.

A primeira do cronograma é o veredito sobre os embargos infringentes no caso de lavagem de dinheiro, nos quais um outro petista de destaque, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, é diretamente interessado.

Na outra ponta, a definição do destino do mensalão tucano, que pega de jeito o ex-presidente nacional do PSDB e ex-governador de Minas Eduardo Azeredo. O plenário vai decidir que o Supremo tem de julgar o mérito? Ou vai despachar para a primeira instância?

E há, por fim, duas expectativas irritantes como zumbido no ouvido: uma eventual candidatura do presidente Joaquim Barbosa a qualquer coisa e a "revisão criminal" para inocentar de vez os mensaleiros ilustres, sobretudo José Dirceu. Os outros que se danem --ou se "donadoneiem".

O risco, para usar um termo da área política que ameaça se deslocar para a área jurídica, é de uma grande pizza. Os ministros vão insistir que são insensíveis à "voz do povo", mas a sociedade brasileira apoiou maciçamente o julgamento e as condenações e, apesar do estômago de avestruz, não vai engolir fácil a margherita.

Quem abre alas nesse Carnaval é o ministro Ricardo Lewandowski. E não vai faltar quem veja nele pitadas de queijo, tomate e orégano.

Olhe com quem anda - J.R. GUZZO REVISTA EXAME

Olhe com quem anda - J.R. GUZZO

REVISTA EXAME


Para o plano de nossa política externa de entender-se melhor com os países que lideram a economia mundial, seria útil afastar-se de ditaduras calamitosas transformadas em nossos melhores amigos



O BRASIL, TANTO QUANTO DÁ PARA ENTENDER QUANDO ainda se presta atenção no que dizem as autoridades do setor econômico, está verbalmente empenhado em desentender-se um pouco menos com os países que lideram a economia mundial. O astuto objetivo dessa nova estratégia, também ao que parece, c atrair mais investimentos para o país. Nosso governo, aparentemente, acaba de descobrir que o dinheiro disponível para ser investido na economia brasileira está nos países onde existe realmente dinheiro - e eles são. infelizmente, justo aqueles de que a diplomacia nacional menos gosta. Que azar, não é mesmo? Bem no momento em que o Brasil esta tão necessitado de receber dinheiro internacional para tentar uma retomada do crescimento, descobrimos que há 11 anos seguidos, desde que o PT foi para o governo, decidiu-se eliminar até o limite do possível qualquer simpatia em relação às "economias hegemônicas", ou coisa parecida - e que isso, finalmente, pode nos causar problemas. Basicamente. será preciso convencê-las agora de que o Brasil, no fundo, é muito gente fina - e, por falar nisso, não daria para separar algum e financiar uma hidrelétrica, por exemplo. ou fazer um trem andar numa dessas ferrovias que estão sendo construídas há 20 anos. já foram inauguradas sabe-se lã quantas vezes, mas nunca ficam prontas?

É preferível fazer isso, certamente, a atravessar a rua para criar caso com algum pais rico que está passeando na outra calçada, como o Itamaraty faz desde janeiro de 2003. Da mesma forma, seria útil para o plano mestre de nossa política externa afastar-se um pouco dessas ditaduras calamitosas que foram transformadas em seus melhores amigos - ou, pelo menos, não mostrar tanta excitação em bajular tiranetes de meia-tigela e aprovar automaticamente qualquer desatino que cometem, incluindo homicídio. Ninguém pode andar em tal companhia e, ao mesmo tempo, imaginar que será respeitado por países democráticos e de cofres cheios. Não se trata apenas de encantar-se com engenheiros do caos empenhados em sepultar suas desgraçadas economias - o que. aliás, já é péssima recomendação para quem quer ser ouvido no mercado internacional. Agora, como acontece no caso da Venezuela, o Brasil está aprovando, por escrito, o múltiplo assassinato de opositores por bandos armados a serviço do governo, a prisão de um líder de oposição que não cometeu a mínima ilegalidade e outras barbaridades. Ai, já é crime de quadrilha.

O possível esforço para interromper o afastamento em relação ao mundo desenvolvido até que não vai mal, embora também não chegue a ir bem - é tarefa muito difícil, neste governo, encontrar alguma coisa que realmente vá bem. A presidente Dilma Rousseff ainda está esperando um "pedido de desculpas" do companheiro Barack Obama, por causa do projeto de espionagem mundial executado pelos Estados Unidos - algo que não vai receber nunca. Continua achando que sabe mais do que a chanceler da Alemanha. Angela Merkel, e que os problemas do Brasil são provocados diretamente pelas economias ricas - embora não fique claro o que elas poderiam ter a ver com nossos 50 000 homicídios por ano, corrupção em níveis jamais vistos. índices miseráveis na capacidade de competir, semianalfabetismo, e por ai afora. Mas não há muito problema com isso tudo, pois ninguém leva a sério o que o Brasil acha ou não acha politicamente - o que se olha mesmo são os fundamentos econômicos. Já a cumplicidade com regimes celerados pode sair bem mais cara. É arriscado o Itamaraty assinar uma nota tão servil, falsa nos fatos e paraplégica na inteligência, como a que fez para apoiar o ditador da Venezuela homem com todos os vícios de seu antecessor e nenhuma de suas virtudes. Nenhum dos países de onde o Brasil espera investimentos se sente confortável com a instabilidade, a falta de princípios e o ambiente mental desconexo do governo Dilma - sinais emitidos em volume máximo por erros grosseiros como o apoio à Venezuela de hoje.

Arrecadação criativa - JOÃO UBALDO RIBEIRO O Estado de S.Paulo - 02/03

Arrecadação criativa - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O Estado de S.Paulo - 02/03

Não sei se é verdade e pode não passar de outra invencionice das que circulam na internet, mas já me contaram mais de uma vez que vem sendo aplicado o golpe da multa do lixo zero. A multa do lixo zero é a que o cidadão do Rio de Janeiro paga, se jogar ou juntar lixo em local não destinado a isso, como ruas e calçadas. O golpe da multa do lixo zero é quando um fiscal corrupto lhe comunica que achou, amassado no chão à porta de sua casa, um lixinho que só pode ser seu, já que se trata de um envelope aberto, com seu nome no endereço. Não adianta negar, a ligação é inequívoca. O golpista então propõe um acerto e, se você não topa molhar a mãozinha dele para os festejos de Momo, a multa completa lhe chega depois, ameaçando-o com todas as penas do inferno. Dá para recorrer, mas isto é também tido como pena do inferno.

Até aí nada demais, bem que pode acontecer. Creio consistente com nossa história desde a colônia a noção de que as multas foram sempre criadas com a finalidade de reforçar o orçamento do Estado e, principalmente, para remunerar com mais generosidade a estrutura de fiscalização, ainda que de forma pouco ortodoxa, como no golpe do lixo zero. Um estado cartorial, patrimonialista e inacreditavelmente burocrático tinha que manter, e continua a manter, mecanismos para beneficiar toda essa importante categoria sociopolítica, tão vital quanto os despachantes, agentes que aqui intermedeiam a relação do cidadão com o Estado, que do contrário a burocracia tornaria impossível. E, finalmente, suponho que terá alguma significação estatística a turma do "agrado", que movimenta vastas quantias, recebendo um "por fora" aqui, outro acolá. Conheci gente que ganhava oficialmente muito mal, mas não largava o emprego de jeito nenhum, por causa dos agrados, que constituíam o grosso de sua renda. Deve-se ter muito cuidado com julgamentos precipitados e, antes de condenar, procuremos observar todos os ângulos - eliminar de repente essas coisas e suas interseções poderia render uma grave convulsão social.

Olho aqui as fotos de um bloco imenso, apinhado numa grande avenida, e penso em como deverá andar o negócio das multas, neste carnaval. Talvez não tão bem quanto poderia. O besourinho paranoico que de vez em quando zumbe no meu ouvido me expõe rapidamente um possível progresso para a nossa estrutura de multas, em carnavais vindouros. Claro que, na confusão de um grande bloco, a multa do lixo zero vai ser muito difícil de aplicar, até porque numa aglomeração de gente que bebeu umas e outras, a saúde do multador não estará garantida. Isso deve doer no peito dos que furtam e se locupletam - quanto dinheiro escorrendo pelo ralo, que desperdício de recursos! Razão por que, me garante o besourinho, já haverão de estar coletando estatísticas para usar no próximo ano. É bastante simples. Definem-se algumas categorias estatísticas (lixinho, lixo e lixão, por exemplo) e faz-se um levantamento orientado por elas, em cada local de desfile de cada bloco registrado. Aí, no carnaval de 2015, não vai haver esse problema. O bloco poderá pagar, antecipadamente e em parcelas, até com um possível desconto, sua estimativa de multas de lixo. E, se o pessoal quiser bancar o engraçadinho e ultrapassar sua cota, paga outra multa, dura lex, sed lex.

Imagino que haverá um carnê. O proverbial bom humor carioca achará um nome para ele, talvez Carnê Hiena, considerando suas origens. E a ideia de multar antecipadamente os blocos se revelará boa demais para não ser estendida a outras frentes e não duvido que, aterrorizado pelas garras da lei e sem poder dormir pensando em suas transgressões, o cidadão tope fazer um carnê hiena individual, que lhe trará inúmeras vantagens. Em primeiro lugar, comodidade, porque as multas serão automaticamente abatidas da conta do carnê, sem necessidade de mexer-se um dedo. Em segundo lugar, economia, porque o pagamento integral, logo no começo do ano, renderá um substancial desconto e, mais ainda, as multas abatidas diretamente do carnê também terão desconto. Além disso, o planejamento financeiro público será grandemente facilitado, com o simples uso da habitual equação R=A-(P+B), em que R é a receita, A é a arrecadação, P é a propina e B é o custo burocrático, sem risco de grandes erros. Como é bem possível que, seduzido pelo dinheiro das multas, um alegre aí qualquer proponha que se possa dedurar casos de lixo pelo Disque-Denúncia, talvez seja mesmo prudente pensar num carnê hiena pessoal.

E, finalmente, podemos cravar mais um ponto para o Brasil, nessa questão de multas. A condenação dos réus do mensalão ao pagamento de multas fez criar-se todo um novo horizonte penal, com o surgimento das vaquinhas para pagar o que os condenados devem. Não se pode negar que é uma inovação e também prevejo que terá ramificações. A primeira destas deverá ser o surgimento de corretores de vaquinhas. Nada mais adequado, para exemplificar nosso engenho jurídico, bem como o empreendedorismo nacional. Para ter sua multa paga através de uma vaquinha, o sujeito não precisará, necessariamente, dispor de prestígio político ou social, não é democrático. Um bom corretor de vaquinhas quebraria esse galho, mediante uma comissão razoável.

Mesmo quando não houver multa envolvida, o Estado poderá arrecadar, se pegar a moda de transferir as penas. Muita justiça social com redistribuição de renda poderá ser feita por essa via. Por exemplo, Fulano é rico, foi condenado a dez anos de cadeia e quer pagar a Sicrano, que é pobre, para cumprir a pena no lugar dele. O Estado então estabelece um mínimo para o rico pagar, uma parte substancial da renda dele. E o dinheiro vai para o pobre, mas não sem antes o imposto de renda descontar 37% do bruto e ser cobrada a elevadíssima taxa de terceirização de pena. Nós ainda chegamos à perfeição.

O Brasil bruto, na medida - VINICIUS TORRES FREIRE FOLHA DE SP - 02/03

O Brasil bruto, na medida - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 02/03

Somos um dos países mais homicidas do mundo, mas estatísticas não contam a história toda

O BRASIL É UM país mais embrutecido. Mata-se por motivo fútil ou motivo algum de modo mais brutal. A brutalidade não é apenas física; evidencia-se sintomaticamente "na deseducação, no rebaixamento individual e coletivo dos costumes, em muito do que os meios de comunicação tomam como modernidade, na política. Até onde a elevação do trato entre suas excelências parecia inexaurível no Supremo".

Esse é o resumo da tese exposta por Janio de Freitas em sua coluna do domingo passado nesta Folha ("Brasil Embrutecido"). Parece difícil discordar.

No entanto, como se mede o embrutecimento? Ou, pelo menos, como qualificar essa impressão de selvageria suscitada tanto pelo linchamento de rua como pela truculência no Supremo, passando por indignidades corriqueiras de "políticos" e corrupções empresariais?

A gente pode começar pelas violências mais mensuráveis. Tiveram repercussão casos recentes de tentativas de linchamento, de meninos de rua laçados, de brigas de torcida e de assassinatos chocantes (o cinegrafista, o torcedor do Santos, a mulher empurrada no metrô).

O Brasil está mais violento? O que dizem estatísticas, que não contam a história, mas podem documentar a tentativa de escrevê-la?

O Brasil está mais homicida? Sim. Mas não faz muito sentido responder a questão levando em conta um universo vasto como "Brasil". Nem reagir à barbárie com histeria legislante autoritária.

A taxa de homicídios no Brasil está mais ou menos estável desde 1997-98, em torno de 27 homicídios por 100 mil habitantes. A taxa subiu sem parar desde os 12 por 100 mil em 1980 até 1998, parece. "Parece", pois até meados dos anos 1990 a subnotificação era mais grave, e os critérios estatísticos, piores.

Essa taxa coloca o Brasil entre as nações mais bárbaras (entre os 90 para os quais há dados), abaixo de oito países centro-americanos, Colômbia, Venezuela e África do Sul. A seguir, nós e o México. Nossa taxa é 25 vezes a da Europa Ocidental; seis vezes a americana.

Mas a violência varia pelo Brasil.

Neste século a violência homicida diminuiu muito em São Paulo, de 42 por 100 mil para 13,5 por 100 mil (até 2011), um caso de progresso, mistura de policiamento melhor com sociedade mais ativa, que merece um artigo.

Houve melhoras relativas em alguns outros Estados, que no entanto continuam com taxas assustadoras (Rio e Pernambuco).

Neste século, na média do Brasil afora São Paulo, a taxa de homicídios aumentou, em especial no Nordeste, embora Nordeste seja também variado. O Piauí é um dos três Estados menos violentos do país; Alagoas, o mais letal, tem taxa de 72 por 100 mil.

Passados quase 30 anos de democracia (o regime da lei e da civilização progressiva), 20 anos de relativa estabilidade econômica, 10 anos de renda em alta e desigualdade em queda, a brutalidade homicida cresceu.

Diminuíram a mortalidade infantil, a morte precoce de idosos, a morte por doenças primitivas. Há mais escola, ruim, mas há (antes havia menos escola, aliás pior).

Mas nosso cotidiano mostra que somos ainda não só brutos, mas ainda opressivos, desiguais, desordenados, ineficientes e deseducados.

domingo, março 02, 2014 Rabo de sardinha - RODRIGO CONSTANTINO REVISTA VEJA



domingo, março 02, 2014

Rabo de sardinha - RODRIGO CONSTANTINO

REVISTA VEJA 
Quando se trata de política externa, há quem prefira ser cabeça de sardinha e quem prefira ser rabo de baleia. No primeiro caso, o país assume a liderança de um grupo menor; no segundo, aceita ser liderado para fazer parte de uma aliança mais abrangente. O PT preferiu ser rabo de sardinha. Essa é a melhor metáfora para definir a atual postura geopolítica do Brasil. O Merco-sul é uma camisa de força ideológica que afeta negativamente nossa economia. Enquanto países como Peru, Colômbia, Chile e México criaram a Aliança do Pacífico e fecharam diversos acordos bilaterais de livre-comércio, o Brasil insiste na fracassada união aduaneira com os bolivarianos.
Um a um, os países do Mercosul afundam em crises de enorme proporção. E por onde anda Marco Aurélio Garcia? Por que o Itamaraty está tão calado ultimamente? José Miguel Vivanco, diretor da ONG human rights Watch, falando sobre a desgraça venezuelana, denunciou a omissão do governo brasileiro, que, segundo ele, não age como o líder regional que pensa ser.

De fato, chama atenção o ensurdecedor silêncio de nossos diplomatas e governantes. A única leitura que se pode extrair disso é que o Brasil não é líder nem mesmo do minguado bloco do Mercosul. O governo brasileiro conseguiu nos transformar em saco de pancada de seus companheiros de ideologia.

Evo Morales abusa do Brasil e sempre sai impune. Chegou a enviar tropas para invadir instalações da Petrobras em seu país, e ficou por isso mesmo. Violou nossa soberania ao vistoriar um avião da FAB em 2011. Como prêmio, recebe empréstimos do BNDES e a cumplicidade do Itamaraty ao manter aprisionado um senador de oposição por mais de 400 dias em nossa embaixada em La Paz.

A Venezuela é outro país que pode sempre contar com a conivência de Brasília. Com muita pompa, foi anunciada a bilionária refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, uma parceria entre a Petrobras e a PDVSA, a estatal de petróleo venezuelana. Após vários anos sem esta pingar um só dólar, a refinaria acabou incorporada pela Petrobras, com grandes prejuízos.

Retaliação? Nem pensar. O Brasil tem sido um incansável aliado do chavismo e fez de tudo para que a Venezuela entrasse no Mercosul, apesar de não atender às exigências do bloco, a começar pela cláusula democrática. Lula chegou a gravar mensagem de apoio para a campanha de Nicolás Maduro, intrometendo-se em assuntos internos do país.

O resultado está aí: a Venezuela mergulhou em uma guerra civil, a economia vive em convulsão com hiperinflação, e o caos social é total, com a violência fora de controle. É possível encontrar as impressões digitais do PT nessa confusão toda, e não podemos esquecer que esse é o modelo que o partido defende. A Argentina, que também caminha rapidamente para uma tragédia, já ignorou cláusulas tarifárias do Mercosul sem resposta à altura por parte do Brasil. Sua política industrial restritiva, impondo barreiras ao comércio com o Brasil, chegou a afetar duramente nossa indústria automobilística, e nada foi feito.

A ditadura cubana recebe afagos - e muitos recursos - do governo petista. O BNDES financiou o Porto de Mariel na ilha, coisa de bilhão. A presidente Dilma argumentou que foi uma decisão estritamente econômica, endossada por Marcelo Odebrecht, o maior beneficiado pela transação. Alguém acredita?

Como ficou claro, o governo petista fez uma escolha ideológica. Transformou nossa política externa em uma extensão de seus interesses partidários, mesmo que, para tanto, nossa economia fosse sacrificada. E nem vamos falar de outras questões, como os direitos humanos, ignorados no programa Mais Médicos, que importa cubanos na condição de escravos.

Tudo isso tem custado muito caro. Nossa balança comercial está negativa. O Brasil perde a oportunidade de estreitar laços com países desenvolvidos, por puro preconceito ideológico. Prefere se unir aos fracassados bolivarianos, ou perdoar a dívida de países africanos a pretexto de obter deles apoio para conseguir assento no Conselho de Segurança da ONU.

O governo faz "caridade" com dinheiro do povo, estimula a sobrevida de regimes nefastos e ainda prejudica nossa economia. Poderia, como fizeram o governo do Chile e o do Peru, optar por se integrar ao mundo civilizado, mesmo com lugar apenas na cauda. Poderia pelo menos liderar o bloco regional. Em vez disso, o PT, com sua cabeça de bagre, fez do Brasil um rabo de sardinha.

O governo brasileiro poderia, como fizeram o do Chile e o do Peru, optar por se integrar ao mundo civilizado, mesmo com lugar apenas na cauda. Em vez disso, o PT, com sua cabeça de bagre, fez do Brasil um rabo de sardinha

DITADURA CLEPTOCRÁTICA TOGADA - RAFAEL BRASIL

A ditadura cleptocrática togada, do consórcio PT/ STF, se baseia nos princípios fundamentais de qualquer ditadura comunista. Terrorismo de e...