sexta-feira, 22 de abril de 2016

Horrores de um circo - Nelson Motta


• No circo dos horrores os palhaços não têm graça, os equilibristas se esborracham no chão e os mágicos têm seus truques descobertos

- O Globo

Enquanto assistíamos à sessão do impeachment na Câmara, de vez em quando minha neta de 9 anos passava pela sala e olhava a televisão, assustada com os gritos daquele circo dos horrores. 

Casualmente eu cobria seus olhos com a mão e a levava para brincar com o gato na varanda. Não queria que ela tivesse na memória as imagens apavorantes de homens e mulheres medonhos e furiosos urrando boçalidades no microfone, achando que quem grita mais alto tem mais razão. Se ela me perguntasse, eu diria a verdade: são os nossos representantes para decidir os rumos das nossas vidas e do nosso país. E por que brigam e gritam tanto? Olha lá, eles mesmos estão dizendo: é por eles mesmos, pelas famílias deles, pelos amigos e companheiros deles, e talvez por uma vaguinha no novo governo.

Com todo respeito e gratidão pelos poucos homens e mulheres de bem que ali lutam por nós, se a Câmara é mesmo a cara dos brasileiros, nunca imaginamos que fôssemos tão feios e mal vestidos, mesmo com as roupas mais caras. Quando a estética se mistura com a ética, revela-se a feiura interior.

O que deu mais vergonha foi ver um bando de deputados do PP, que até ontem mamavam nas tetas do governo, votarem “sim”... pelo Brasil! E o mais engraçado foi saber que 14 deputados, que Lula havia seduzido com cargos, verbas e sua infalível lábia, driblaram o mago da política e votaram “sim”. Pelo Brasil, naturalmente. Mas nesse circo dos horrores os palhaços não têm graça, os equilibristas se esborracham no chão e os mágicos têm seus truques baratos descobertos.

Alguns, e algumas, gritavam tanto, tremendo o corpo inteiro, e, com pressão 18 por 12, explodiam em orgásmicos “siiiim” ou “nãããão” e desabavam, exaustos, nos braços dos companheiros. Me lembravam a piada antológica de “Harry e Sally”, depois do orgasmo fake de Meg Ryan na lanchonete: — Quero tomar o que eles tomaram. Pelo restabelecimento da concordância verbal, pelo fim do implante capilar mal feito, pela volta do plural à língua portuguesa, pelas plásticas e botoxes que não deformem os plastificados, pelo fim da tinta acaju, eu voto sim: Fora Eduardo Cunha!

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