
Kim Kataguiri, do MBL
Entrevistei os fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), que tem tido uma participação fundamental na organização das manifestações contra a presidente Dilma e o PT. Entre eles, temos o jovem Kim Kataguiri, de apenas 19 anos, mas que já acumula bagagem intelectual suficiente para humilhar o deputado Jean Wyllys quando o assunto é liberalismo e política, inclusive desafiando-o para um debate do qual o ex-BBB, naturalmente, fugiu. Sabe que seria massacrado, pois nada tem a oferecer além de slogans sensacionalistas e vazios.
Não é o caso da garotada do MBL. Dá para ver que há conteúdo ali, que existem pilares intelectuais que fundamentam o movimento, que não se limita a ser contra o lulopetismo, mas pretende também ser a favor da liberdade, bem dos mais preciosos mas que, infelizmente, ainda não foi experimentado no Brasil, um país com verdadeira tara pelo intervencionismo estatal. Abaixo, a entrevista:
Como surgiu o MBL e quem está por trás do movimento?
O MBL se iniciou em outubro 2014, logo após a vitória de Dilma Rousseff. Existia uma preocupação muito grande com os rumos do país após a reeleição da presidente, muito por conta de suas propostas de Reforma Política, “democratização” da mídia e as recentes revelações do escândalo do petrolão. Diante de uma oposição fragilizada e tímida, sabíamos que algo deveria ser feito para brecar o ímpeto totalitário do partido dos trabalhadores. Assim, reunimos algumas lideranças ligadas ao movimento liberal, como Fábio Ostermann, Kim Kataguiri, Paulo Eduardo Martins e Marcel Van Hattem e decidimos unificar nossos esforços dentro de um só grupo. Iniciamos os trabalhos através das manifestações de 1o de Novembro, levando às ruas milhares de pessoas insatisfeitas com os rumos do país após a reeleição da presidente. Foi o início de um bonito processo de empoderamento por parte da sociedade civil, que via-se impotente por conta do notável aparelhemento de praticamente todas suas instâncias de representação, sejam elas públicas ou privadas.
O MBL esperava a enorme quantidade de gente nas ruas? O que, em sua opinião, permitiu o surgimento dessa mobilização espontânea?
Esperávamos números substanciais, mas a quantidade superou todas as expectativas. Em especial as cidades do Norte e Nordeste nos surpreederam bastante, demonstrando que não existe mais abrigo para o PT e Dilma Rousseff. Creio que a característica mais gratificante dos eventos do dia 15/03 foi justamente esta abrangência territorial. De norte a sul, todo país pediu a saída da presidente. O sucesso das manifestações pode ser creditado a diversas razões, que vão desde ao trabalho intelectual de institutos, iniciativas e pensadores independentes até o completo descolamento entre a insatisfação popular e seus representantes na oposição. A situação de abandono obrigou a população a assumir um papel de protagonismo até então inimaginado. É claro que um escândalo com as dimensões do Petrolão e a crise econômica contribuem, mas é a primeira vez que vemos uma articulação oposicionista tão profunda e tão qualificada em todo território nacional.
O principal alvo das manifestações está claro: a presidente Dilma. O MBL acredita que o impeachment é uma boa solução?
Qualquer hipótese que represente a saída de Dilma Rousseff é válida, mas não nos parece estrategicamente adequado clamar pela renúncia da presidente – pelo simples fato de que a materialização institucional da insatisfação popular deve acontecer justamente no Congresso, e não no Poder Executivo. Ao pressionarmos os parlamentares para que coloquem em pauta este pleito, estamos influenciando diretamente no balanço de poder entre governo, oposição e base aliada, criando momento político para o impedimento ou mesmo a renúncia da presidente. Fundamentação jurídica e política para tanto já temos. Agora é hora de mobilização.
Além da postura “contra o governo”, o que mais o MBL defende? Qual é a agenda proposta pelo movimento?
O Movimento Brasil Livre é um grupo essencialmente liberal. Crê que a redução do Estado é o mecanismo mais eficiente para o combate à corrupção, e que a defesa de valores tão essenciais ao ser humano como a livre associação, liberdade de expressão e liberdade econômica se faz fundamental num momento de instabilidade política tão perigoso para nosso país. O Brasil já experimentou diferentes tipos de modelos econômicos ao longo de sua história – todos essencialmente intervencionistas, burocratizados e corruptos. Acreditamos que a falência do modelo petista e a derrocada da ilusão do “Brasil Potência” – caracterizado pela icônica capa do Cristo Redentor decolando na The Economist – devem servir de alerta: é hora de darmos uma chance para a liberdade em nosso país. Cremos que um debate mais qualificado acerca das privatizações, o repúdio às violações aos direitos humanos em países vizinhos como Cuba e Venezuela, um ajuste fiscal que implique em cortes orçamentários e não em aumento de impostos e a severa punição aos envolvidos no escândalo do petrolão são pautas decisivas para que o Brasil saia do atoleiro em que se meteu.
Por fazer clara oposição ao PT, o MBL acaba associado por alguns à defesa dos tucanos. O PSDB representa politicamente as ideias do MBL?
De forma alguma. O PSDB é um partido social-democrata, defensor de políticas estatizantes e extremamente omisso enquanto oposição. Vale-se do papel de de antagonista do PT – incensado pelo próprio partido dos trabalhadores – para angariar os votos oposicionistas sem de fato representar seus anseios e demandas. Nossa percepção é de que o momento atual é também negativo para o PSDB. A emergência de novas forças políticas e de ideias até então renegadas pelo tucanato influenciarão decisivamente o destino de tal partido. Resta saber se acordarão a tempo.
Vemos o “petrolão” na Petrobras, mas não vemos o “valão” na Vale. Até que ponto a privatização seria uma boa solução para o problema da corrupção?
Para o MBL, a existência de empresas estatais tão grandes como a Petrobrás, os Correiros e a Eletrobrás é um convite explícito para a corrupção e a roubalheira. O quadro se agrava quando sabemos que boa parte dessas empresas gozam também de monopólio em seus respectivos setores, legando à população a conta dos prejuízos causados pela ação de políticos criminosos. É inegável que se privatizada, a Petrobrás não estaria na situação em que se encontra, e os brasileiros não precisariam pagar o preço da corrupção petista no comando da estatal.
Muitos membros fundadores do MBL são jovens estudantes. Como está o clima ideológico nas universidades brasileiras? Ainda há hegemonia da esquerda ou é possível identificar ventos de mudança?
O clima é de bastante hostilidade tanto para as ideias liberais quanto para os liberais em si. Apesar disso, podemos ser otimistas porque a esquerda perdeu a hegemonia, uma vez que os liberais e conservadores tomaram coragem e estão defendendo abertamente suas ideias. A tendência é que ideias contrárias à esquerda ganhem cada vez mais espaço devido à derrocada petista que se iniciou.
Populistas costumam fazer promessas que concentram benefícios e mantêm os custos dispersos. O MBL luta pelo cidadão comum, aquele sem grupo organizado, sem privilégios estatais. É possível virar o jogo em uma luta tão desigual?
Sim, porque a população já viu que os custos dispersos acumulados pesam bastante no bolso. É clara a falência do sistema estatista e as pessoas estão buscando alternativas para ele. Basta defendermos nossas ideias da maneira mais simples, objetiva e carismática possível que o jogo pode facilmente, mas com muito trabalho, ser virado.
Aproveitando o gancho da pergunta acima, seria uma boa síntese do que o Brasil está vivendo afirmar que, finalmente, a maioria silenciosa está tendo alguma voz, antes sufocada por todas as “minorias” organizadas?
Sim, a antiga maioria silenciosa se transformou numa massa popular colossal que fez tremer o Palácio do Planalto no dia 15 de Março. Por mais organizadas e bem pagas que sejam as minorias governistas, não há força que pare uma população furiosa por ter sido enganada e roubada descaradamente durante anos não só por um partido político, mas por um modelo de Estado.
Algum de vocês tem pretensão política, pretende se candidatar nas próximas eleições?
O núcleo de São Paulo está, no momento, focado na defesa da república. Pensar em eleições agora tiraria nosso foco de algo que é muito mais importante do que as eleições em si: a defesa do próprio debate político. Dito isso, não temos nada contra membros do MBL que queiram se candidatar e inclusive os incentivamos. A política brasileira só tomará rumos diferentes se os liberais colocarem a mão na massa (política).
O que acham da iniciativa do Partido NOVO? Será que a direita finalmente terá um representante partidário que defende abertamente as ideias liberais sem medo?
Assistimos com grande entusiasmo o surgimento do NOVO. Esperamos que seja um partido muito bem sucedido para que represente a massa de liberais e conservadores que hoje praticamente não tem em quem votar.
Dia 12 de abril vem aí. Como estão as expectativas para as novas manifestações? Há algum receio de tentativa de infiltração de black blocs ou militantes pagos pelo PT para atrapalhar o evento?
Esperamos um público ainda maior do que o do dia 15. Não temos nenhum medo de infiltração de black blocs ou militantes pagos pelo PT porque já vimos que eles não tiveram coragem de agir no dia 15. Ninguém é louco de se contrapor a uma multidão indignada com o governo por um pão com mortadela.
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