Para o ex-presidente do Banco Central, não há como tapar o sol com a peneira em relação ao escândalo do petrolão (Foto: Sergio Moraes/Reuters)
“LEVY ESTÁ MUITO ISOLADO”
Entrevista publicada em edição impressa de VEJA
Reverter a crise de confiança pela qual o Brasil passa depende de uma mudança completa nas atitudes e prioridades da política econômica – tarefa complexa, para a qual o governo Dilma Rousseff talvez não esteja preparado. Quem afirma é o economista e ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Para ele, nem mesmo o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem cacife para resolver o problema. “Ele está muito isolado“, diz Armínio, na entrevista que deu à editora Malu Gaspar.
Quais são as chances de recuperar a confiança dos investidores no Brasil?
A grande dificuldade dessa situação é que ela foi construída justamente pelo grupo que está no poder. E ele vem conduzindo os assuntos econômicos de forma equivocada. Já há algum tempo afirmo que o modelo que temos hoje está fadado ao fracasso. Os resultados estão aí. É um modelo que não entrega investimento, crescimento nem aumento de produtividade.
O senhor quer dizer que o governo Dilma precisa mudar suas convicções sobre a economia?
Teria pelo menos de mudar de atitude. A questão é que, quando não há convicção no que se está fazendo, como agora, não há como despertar confiança. Mas esperar isso deste governo talvez seja pedir demais.
O ministro Joaquim Levy não representa essa mudança?
Trazê-lo para o ministério foi positivo, mas ele está muito isolado. Seu trabalho está concentrado na questão fiscal. Isso é um remendo. É necessário muito mais.
O que exatamente?
Precisamos mudar o rumo em quase tudo o que importa. É uma agenda extensa. Estou falando de fazer a reforma tributária, de destravar o investimento em infraestrutura e de modificar o funcionamento do mercado de crédito, atacando a presença maciça dos bancos públicos. Ela é hoje muito além da conta.
Devemos, enfim, rever o modelo de inserção do Brasil na economia mundial. Trata-se de um tremendo desafio. Mesmo o ajuste que o Levy está se propondo a fazer já é difícil. No ano passado, as coisas descarrilharam totalmente. Ainda que dê certo, será insuficiente.
Quer dizer que o ministro Levy está enxugando gelo? Não há saída que não a recessão?
A situação tende a piorar, sim. A economia está ainda ameaçada por eventos externos, como a crise energética, que tem origem no desenho do setor. Ela não se corrige do dia para a noite. O governo também enfrenta uma série de dificuldades políticas. A própria investigação policial sobre o petrolão, que é fundamental, tem impacto na economia.
Quando se analisa tudo isso em conjunto, fica claro que não foi à toa que a Petrobras perdeu o grau de investimento. Os investidores olham o Brasil com muita preocupação. A taxa de juros efetiva sobre a dívida, aquela que se apura quando se levam em conta os subsídios que o governo dá, chega a quase 20%. É uma coisa incrível. Uma situação muito complexa, para a qual não vejo solução rápida.
Nesse cenário, é inevitável que o Brasil perca o grau de investimento?
Ainda é cedo para chegar a essa conclusão, mas certamente existe o risco.
A revista The Economist diz que os países com a nota do Brasil estão em condições melhores.
É verdade, mas há que lembrar que também estão na mesma faixa países com muitos problemas, como a Rússia. A situação lá também não é de dar inveja. O fato é que o Brasil perdeu aquele charme de país emergente que vinha reencontrando o caminho para o crescimento.
O senhor acha que as instituições estão falhando?
De modo geral, não. Nossas principais instituições vêm passando por testes duros e têm se saído bem. No caso do mensalão, o Ministério Público, a polícia e o Judiciário fizeram seu papel. O petrolão ainda estáem jogo, mas os investigadores têm sido corretos. E a imprensa tem tido um papel crucial. O que me deixa preocupado é ver o ex-presidente Lula fazer aquele discurso raivoso sobre a Petrobras. Da maneira como ele colocou as coisas, as instituições ficaram ameaçadas. Foi um discurso antidemocrático, de falta de apreço por um ambiente aberto ao debate.
Que efeitos a crise da Petrobras terá sobre o resto da economia?
A Petrobras é um gigante, responsável por uma parte importante do investimento no Brasil. Sua crise, portanto, tem impacto indireto na confiança geral. É difícil medir, mas certamente ele será sentido sobre toda a cadeia de fornecedores. Isso é muito sério. Não há como tapar o sol com a peneira.
A possível quebra das empreiteiras pode piorar o quadro econômico?
É inevitável que, durante as investigações, algumas empreiteiras enfrentem dificuldades e saiam do mercado. Certas pessoas acham que isso não será problema porque a mão de obra disponível será facilmente absorvida por outras empresas que as substituirão. Só que essa transição não acontece da noite para o dia.
Vejo pela frente momentos difíceis. A economia vai sofrer. Mas o país não vai quebrar por causa das empreiteiras. Apesar dos desdobramentos do petrolão, a faxina é essencial para dar uma nova chance ao Brasil.
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