domingo, 22 de fevereiro de 2015

CARLOS BRICKMANN: Dilma está sozinha no olho do furacão — e foi exatamente assim que Collor caiu


CARLOS BRICKMANN: Dilma está sozinha no olho do furacão — e foi exatamente assim que Collor caiu

(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)
Solidão: em seu partido e em seu governo, a presidente Dilma não tem mais “companheiros” (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)
Notas da coluna de Carlos Brickmann publicada neste domingo em diversos jornais
Carlos BrickmannO presidente da Câmara é do PMDB, que apoia Dilma e tem meia dúzia de ministros. E ninguém se surpreenderá se der andamento privilegiado aos pedidos de impeachment que a oposição promete fazer.
Marta Suplicy é de seu partido, o PT, foi ministra de seu governo. Tem falado muito sobre Dilma, nunca para elogiá-la. A oposição, óbvio, é contra Dilma; e, mesmo que não seja muito oposicionista, gosta de falar mal dela. Lula, que a criou, ensurdece o país com seu silêncio, enquanto ela é massacrada. Até José Dirceu, o mais petista dos petistas, dos que acham que nem Lula é ortodoxo como deveria, abre fogo contra Dilma.
Em seu blog – ou seja, por escrito, e assinado, para ninguém ter dúvidas – o Guerreiro do Povo Brasileiro diz que aquela a quem chamava de “companheira de armas” sustenta uma política econômica que coloca o Brasil “na contramão do mundo desenvolvido”. É exatamente o que pensa a oposição, embora faça a mesma crítica pelo motivo oposto. Dilma está sozinha, no olho do furacão.
Aliás, Dilma não está sozinha: sozinha estaria melhor. Tem a seu lado Aloízio Mercadante, Pepe Vargas, Miguel Rosseto, mais aquele senhor generoso que arranjou crédito subsidiado, dos bons, para Val Marchiori. E não foi este colunista, nem o caro leitor, que nomeou e mantém José Eduardo Cardozo no Ministério da Justiça. Quem gosta de sapato apertado não pode queixar-se dos calos.
Dilma tem a força política dos recém-eleitos. Mas é preciso lembrar que Collor não caiu por seus (inúmeros, e graves) defeitos. 
Caiu por estar sozinho.
A crise que nos rodeia
Este colunista não é pessimista nem otimista: é jornalista. Considera-se realista. Se todos os setores políticos se afastam de quem tem ainda quatro anos de mandato e dispõe de mais de cem mil cargos sem concurso para preencher como quiser, algum motivo têm.
No Brasil, já houve quem visse onça confraternizar com leitão, mas esta deve ser a primeira vez em que alguém vê o PMDB se afastar de quem tem nomeações a oferecer. E a crise continua: fora as denúncias contra políticos acusados de envolvimento no Petrolão, que vêm sendo adiadas há meses, há as demissões – tanto as causadas pela paralisia econômica quanto as promovidas pelas empresas acusadas no caso.
Há ainda o fantasma do HSBC, em que oito mil brasileiros foram identificados como proprietários de algo como 8,5 bilhões de dólares — alguns, legalmente; outros, não. A lista completa está em poder de um repórter brasileiro, que não a divulga por não conseguir distinguir os legais dos ilegais. Mas na hora em que conseguir separá-los, quem estará lá?
Custe o que custar
Esta será uma semana difícil para a presidente. O PMDB quer votar a proposta de emenda constitucional que eleva de 70 para 75 anos a idade máxima de aposentadoria para o ministro do Supremo (PEC da Bengala), o que impedirá Dilma de nomear cinco futuros ministros.
Discute-se o veto à correção plena da isenção de Imposto de Renda para assalariados (Dilma gostaria de corrigir a isenção abaixo da inflação, para aumentar a receita do Governo). São derrotas possíveis – e boa parte dos deputados pendulares já avalia o valor de seu voto.

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