segunda-feira, 11 de agosto de 2014

COLUNAS - FERREIRA GULLAR E FERNANDO GABEIRA

Nas ruas do Rio - FERNANDO GABEIRA



Agora, predomina o vidro fumê e é mais fácil fundir o motorista com a fábrica de sua máquina e até o modelo


Pensei em escrever: precisamos parar para pensar o trânsito. Que bobagem. Já estamos parados há algum tempo. Não vou discorrer sobre mobilidade urbana, um tema tão em moda. Nem apenas lamentar os R$ 29 bilhões que o Rio perde com os constantes engarrafamentos. Meu objetivo é, modestamente, investigar as mudanças que se passam em nossa cabeça, quando passamos a viver, com frequência, os engarrafamentos. Aqui no Rio, têm sido mais intensos para mim. Consola-me a esperança de que a cidade está melhorando para 2016 e que, nas Olimpíadas, poderemos nos mover tão livre e levemente nas pistas como os atletas de todo o planeta.

Minha referência é um conto de Julio Cortázar: “A autoestrada do sul”. O grande, em todos os sentidos, escritor argentino descreve um engarrafamento gigantesco na volta a Paris pela estrada do sul. Cortázar observa a atmosfera nervosa dos motoristas e nomeia as pessoas de acordo com seus carros: a moça do Dauphine, o soldado do Mercedes. Com o transcorrer do conto, passa também a chamá-los apenas pelo nome do carro: Peugeot, Citroën, etc.

Isso tem a ver com minha experiência. No engarrafamento de Cortázar fazia muito calor e as janelas estavam abertas. Agora, predomina o vidro fumê e é mais fácil fundir o motorista com a fábrica de sua máquina e até o modelo.

Quantas vezes não vi me dizendo:

— Aquele Corsa está mal parado, um Fox sacana avança pelo acostamento.

Não é apenas supressão do outro, transfigurado em máquina, que a leitura de Cortázar sugere. Há mudanças na percepção de tempo e espaço. Olhamos o relógio, como os personagens do conto, e lamentamos que os minutos estejam se passando, de fato, para quem escapou do engarrafamento. No conto de Cortázar, os helicópteros das rádios ainda não orientavam os motoristas. Hoje, posso saber que o tempo não corre para mim, mas está tudo normal na Helder Câmara e que na Ponte Rio-Niterói, infelizmente, estão tão encalacrados quanto nós. O engarrafamento cria castas no uso do tempo. Mas também no espaço, transforma nossa percepção. O horizonte é um Frontier e um Idea, mas sempre existe uma árvore para contemplar. Aos poucos, você começa a se irritar com árvore porque ela não sai do lugar, como se ali não fosse o seu lugar para sempre. A árvore paga o preço de ser uma referência, de me dar a ilusão de que deveria se mover, quando na verdade somos nós que não saímos do lugar. Não estamos desemparados. As rádios fazem programas destinados a atenuar a tensão nas horas do rush. Num deles, ouço a entrevista de um escritor que se apaixonou pela professora e queria ser bancário para conquistá-la, pois era casada com um bancário.

Você ri, até imagina que com a lógica o garoto jamais seria bancário e muito provavelmente escritor. Mas no fundo mesmo o que você quer é que o Idea mova sua respeitável traseira e você possa, de novo, sonhar em chegar em casa, subir com os equipamentos e tomar o esperado banho.

Tanto cheiro de gasolina em alguns trechos. Um fósforo aceso lançado no ar pode produzir fagulhas, quem sabe uma pequena explosão.

Há um momento em que o próprio rádio nos abandona. São sete horas em Brasília. Começa “A voz do Brasil” e aquelas vozes entoando “O Guarani” quase nos convencem de que o tempo é ilusão diabólica.

Se um dia fosse filmar engarrafamentos, usaria “O Guarani” como trilha sonora. No momento em que ecoa em todas as rádios dos carros, você se dá conta de que a noite avança, esquece de onde veio e para onde vai: caiu num limbo. Os urbanistas prometem bairros planejados nos quais se diverte, trabalha e compra. Mas isso é para um futuro muito distante. A tecnologia nos permite contatos imediatos, um permanente WhatsApp. Com tudo isso, continuarei nas ruas pois gosto de ver, ouvir, tocar e sentir o cheiro. Temo cair num engarrafamento em 2016, pensando em todo o sacrifício que fizemos para que o esporte internacional floresça, que excelentes negócios se façam, que o turismo cresça etc.

Uma coisa é certa: não ficarei furioso. Aprendi que não existe sentimento mais inadequado num engarrafamento. Belos tempos os do Paulinho da Viola, o sinal fechado: “Olá como vai? Eu vou indo e você tudo bem? Tudo bem, eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro e você?”.

Pegamos nosso lugar no futuro. E daí? Se disser ao BMW ou Citroën do lado olá como vai, está arriscado a ouvir:

— Não seja ingênuo. Vou bem, mas a lugar nenhum, nem eu nem você: estamos engarrafados.

Se for sete horas em Brasília, pelo menos, ouviremos os acordes do “Guarani”. Ouvimos isso desde crianças, em todos os lugares do Brasil à mesma hora, exceto os que vivem em fusos diferentes. Mas a hora deles sempre chega, mais cedo ou mais tarde. Os acordes do “Guarani” são só uma abertura: a ópera tem quatro atos. Tocada num engarrafamento faria brotarem no asfalto os índios de José de Alencar, autor do romance que inspirou Carlos Gomes: Peri vendendo Biscoito Globo, cocadas e água mineral. O engarrafamento é uma armadilha no tempo, uma cola no asfalto. Nele aprendemos o valor de uma frase que é ao mesmo pergunta e resposta: o que fazer?

Guerrear é preciso? - FERREIRA GULLAR

Guerrear é preciso? - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 10/08


A TV mostra quarteirões transformados em ruínas por bombas e foguetes. Que sentido tem isso?


Diante das guerras que se travam hoje no mundo, sou obrigado a me perguntar por que, depois de séculos de massacres, o homem continua, como nos primórdios da civilização, a se armar e guerrear. Aliás, não apenas continua, torna-se mais capaz de matar, valendo-se de armas cada vez mais sofisticadas.

Logo me vem à mente a bomba atômica, que só não foi usada na escala que os belicistas pretendiam, porque, neste caso, quase ninguém sobreviveria. E os estadistas querem a guerra desde que ela não os atinja pessoalmente. Eles decidem por fazê-la, mas quem morre são os soldados e o povo em geral. Os chefões, quase nunca.

Costumo dizer que frequentemente me surpreendo com o óbvio, e isso acontece agora, quando a televisão me bombardeia diariamente com o número de mortos pelas bombas e foguetes na faixa de Gaza, na Síria, na Líbia, no Iraque, na Ucrânia.

Surpreendo-me com a quantidade de dinheiro que os países gastam com armamentos. E não só com armamentos, mas também com as forças armadas. Todos os países têm permanentemente centenas de milhares de soldados que constituem os efetivos militares. Eles fazem parte do Estado, como elemento fundamental dele, e constituem carreiras a que milhares e milhares de pessoas dedicam suas vidas.

Com isso, gastam-se fortunas, com a finalidade de fazer guerra. Claro, se for preciso. Mas a verdade é que essas forças são formadas e mantidas com essa finalidade: a defesa da pátria pelas armas, se for o caso. E por que isso? Porque a guerra é uma possibilidade permanente para os Estados, todos, sem exceção.

Mas por quê? Que os povos selvagens vivessem se matando, dá para entender. Por exemplo, os índios do Brasil neolítico, que eram nômades, viviam do que colhiam na natureza, eram obrigados a se deslocar para outras regiões em busca de alimentos. Se houvesse outra tribo ali, a guerra entre as duas era inevitável. Mas e hoje, por que a guerra?

As razões são as mais diversas. Ou é um louco como Hitler, que sonhava dominar o mundo, ou é concepção religiosa que leva líderes a atacar seus vizinhos, ou disputa de mercado. Mas, depois de tanta guerra que já houve, por essas e outras razões, resultando na morte de milhões de pessoas, parece que muito pouco o homem aprendeu com isso.

É certo que uma boa parte dos países --particularmente aqueles que sofreram na carne as consequências das últimas guerras-- evita lançar mãos das armas para impor seus interesses, mas mesmo estes continuam a produzir armamentos, cada vez mais sofisticados e mais mortais. A cada dia surgem notícias de aviões de guerra invisíveis aos radares, foguetes com velocidade e alcance inimagináveis, armas essas que anulam qualquer possibilidade de defesa.

Que significa isso, senão que a guerra é possível a qualquer momento, embora não se saiba entre que países e por que razão? Para que aquelas armas sejam concebidas e produzidas, os governos investem em pesquisa tecnológica e na formação de cientistas que dedicarão sua inteligência, seus conhecimentos e sua vida a produzir instrumentos de destruição. Mas não só os governos, há também empresas privadas que investem em armamentos, que vendem para diferentes países e com isso ganham fortunas. Muitos desses países mal têm recursos para atender as necessidades básicas de seu povo mas, ainda assim, compram armas e mantêm exércitos prontos para a guerra.

Desse modo, a guerra, quer ocorra ou não, é fator importante da economia mundial. Mesmo o Brasil, que não se caracteriza como um país belicoso, produz e vende armas para outros países. Deve-se concluir, portanto que a hipotética eliminação da guerra, por tornar a produção de armas desnecessária, não conviria a esses países, mesmo porque conduziria a uma grave crise na economia em escala planetária.

Isso, portanto, está fora de cogitação. E a televisão, a cada momento, dia após dia, nos mostra populações em pânico, mulheres desesperadas tentando escapar com seus filhos, das bombas que explodem à sua volta. E mostra também quarteirões inteiros de cidades transformados em amontoados de ruínas por bombas e foguetes. Que sentido tem isso?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DITADURA CLEPTOCRÁTICA TOGADA - RAFAEL BRASIL

A ditadura cleptocrática togada, do consórcio PT/ STF, se baseia nos princípios fundamentais de qualquer ditadura comunista. Terrorismo de e...