Não, Galvão, não é “uma partida para ser esquecida”
Não, Galvão, não foi um dia atípico em que a Alemanha jogou muita bola e o Brasil, não. Foi uma vitória fácil de uma seleção muito superior à brasileira, sempre superestimada – assim como seus jogadores – por tudo que faz contra times ruins.
“A Alemanha não é (tão) melhor que o Brasil, o Felipe não entende nada de futebol”, dizia-me um monte de comentaristas que agora ou estão calados, ou colocando a culpa do vexame nas ausências de Neymar e Thiago Silva, com os quais, com sorte, o Brasil teria perdido de quanto?
Seis? Cinco? Quatro?
Neymar teria feito contra esta Alemanha que atropelou o Brasil o que não fez contra a Colômbia, contra o Chile, contra o México? Thiago Silva teria marcado Müller dentro da área no lugar de David Luiz no primeiro gol alemão após o escanteio – o primeiro retrato do time de garotos desnorteado que sucumbiria insolente ante uma seleção adulta? Ou seria Neymar o marcador?
É verdade que Felipão precisou de 5 gols no primeiro tempo para mexer no time, mas o que é isso para quem precisou de quase seis jogos para tirar o artilheiro dos campeonatos de várzea nacionais Fred, que teve de ouvir os gritos da torcida de “Ei, Fred, VTNC!” pouco antes de sair de fininho no segundo tempo para a entrada tardia do negligenciado Willian?
Pior do que escalar o time errado, deixando o meio-campo aberto para deleite dos meias alemães, e pela enésima vez sem poder de infiltração no ataque (o que acontecia mesmo com Neymar, afinal os três gols do Brasil nas oitavas e quartas vieram de bola parada), é Felipão (junto com Parreira) ser tão teimoso em seus erros, em que pese a decência de assumir a responsabilidade pelo fracasso.
Joachim Löw, muito mais inteligente, escalou Klose e deslocou Müller para explorar a avenida Marcelo, de modo que foi só correr para o abraço, não sem a colaboração de Fernandinho (que entregou uma saída de bola de presente) e… bem, de todo o resto do time, estático diante do tique-taque alemão, como o Santos de Neymar diante do Barcelona de Messi.
Escrever sobre Alemanha 7 x 1 Brasil é repetir toda a radiografia do futebol brasileiro que fiz após Barça 4 x o Santos, no artigo “O Brasil à luz do Barcelona“. Na Alemanha de Löw, como no Barça de Guardiola, “todos se apresentam… atacam… defendem… marcam… cobrem… se movimentam em blocos compactos… ninguém precisa resolver o jogo sozinho. Todos sabem que o time encontrará os espaços certos, na hora certa, avançando com força total, sob o comando de Xavi [Schweinsteiger, no caso]… que marcar exige atenção geral… que só é possível ter fôlego para tudo isso quando se valoriza a posse de bola. Todos, enfim, sabem jogar futebol.” Está aí o zagueiraço Hummels, que não me deixa mentir.
Já no Brasil, há muitos anos, apesar de um ou outro zagueiro razoável, temos jogadores grotescamente incompletos: laterais-esquerdos cujo maior mérito é serem canhotos; volantes incapazes de acertar passes; meias que não sabem marcar ou finalizar; dribladores que não distinguem a hora de tocar a bola; artilheiros que não jogam fora da área; e por aí vai, no festival de limitações técnicas compensadas pela exaltação obsessiva de uma especialidade qualquer, raramente efetiva contra times bons.
É uma pena que as desculpas da ausência de Neymar e Thiago Silva, bem como a falta de entrosamento da zaga, sejam usadas para amenizar a tremenda inferioridade de um treinador e de todo o elenco em relação aos do adversário, o primeiro de alto nível que a seleção brasileira enfrentou na Copa. Inferioridade, reitero, na precisão do passe e da finalização (que o digam Paulinho, Marcelo e Hulk!), na movimentação sem a bola, na criatividade do meio-campo, na versatilidade individual, no jogo coletivo, na inteligência, na frieza, na personalidade.
“O Brasil sempre tira as lições erradas das aulas humilhantes que recebe”, escrevi após a derrota do Santos no Mundial. A partida contra a Alemanha, mesmo que seja lembrada, já resultou em parte na mesma coisa: a exaltação obsessiva de quem dela esteve de fora.
Nem 7 remédios em domicílio dão jeito no deslumbramento nacional.
Mas sim, eu avisei.
Felipe Moura Brasil - http://www.veja.com/felipemourabrasil
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