sábado, 21 de dezembro de 2013


sábado, dezembro 21, 2013


Mais riscos de inflação - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 21/12

A inflação não está tão controlada como vem declarando o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Os riscos de alta persistem.

É o que está no Relatório Trimestral de Inflação, um dos mais importantes documentos do Banco Central, que avalia todos os fatores que direta ou indiretamente têm a ver com a formação de preços. Desta vez, o Banco Central chama a atenção para a persistência de três principais riscos, não só de inflação, como, também, das expectativas dos formadores de preços em relação a ela.

O primeiro deve ser entendido como advertência ao governo. É o forte desalinhamento dos preços administrados, aqueles que dependem de autorização dos ministros para serem reajustados. Enquanto a inflação acumulada em 2013, até fim de novembro, atingiu 4,95%, os preços administrados foram corrigidos em apenas 0,9% e pedem atualização.

Fato notável é que esse discurso tromba com o do ministro Mantega. Para este, os preços dos combustíveis e da energia elétrica devem ser represados para segurar a inflação. Enquanto isso, o Banco Central afirma que esse atraso nos reajustes produz incertezas e, por tabela, inflação. Para as tarifas de energia elétrica, por exemplo, o Banco Central prevê um reajuste de 7,5% ao longo de 2014.

Outro risco tem a ver com a volatilidade nos mercados financeiros globais, provocados principalmente pelas condições precárias da economia da área do euro. Essa volatilidade tende a continuar a pressionar o câmbio interno (cotação do dólar) e, por esse canal, a aumentar em reais os preços dos produtos importados. Em contrapartida, a atividade econômica global, sobretudo nos Estados Unidos, deve melhorar e reduzir a atual tensão que toma os mercados e produz estragos na economia brasileira.

A terceira fonte de riscos para a inflação interna, aponta o Relatório, é o persistente aumento dos custos da mão de obra que, por sua vez, decorre da alta dos salários acima do aumento da produtividade da economia. Por trás desse quadro não estão apenas os aumentos mais generosos do salário mínimo, mas, também, "a margem estreita de ociosidade" do mercado de trabalho. Enfim, é o pleno-emprego concorrendo para aumento dos custos de produção e dos preços.

Denuncia, ainda, o impacto sobre a inflação produzido pelas negociações salariais, que atribuem "peso excessivo à inflação passada, em detrimento da inflação futura". Mas o Banco Central não deixa de pontuar que esses riscos tendem a se reduzir (não diz em quanto), graças a reajustes futuros mais baixos do salário mínimo e da remuneração dos funcionários públicos. Pelo que se vê, o Banco Central não levou em conta que, em ano eleitoral, governadores e governo federal tendem a ser mais pródigos com os servidores públicos.

No mais, o Banco Central avisa que o avanço econômico no período de 12 meses terminado em outubro de 2014 não deve ser superior a 2,3%. A novidade aí é que, diferentemente dos anos anteriores, em que embarcava em projeções otimistas para a atividade econômica, o Banco Central se contenta agora com número bem mais realista. Melhor assim.


Os vizinhos - ANDRÉ GUSTAVO STUMPF

CORREIO BRAZILIENSE - 21/12

O ministro Guido Mantega procura ser simpático. Faz previsões que jamais se cumprem. Mas, justiça seja feita, ele tenta. Reitera. E faz a aposta subsequente. Usualmente equivocada, mas isso já é outra história. Agora ele afirma que, em 2014, o Brasil deverá ter crescimento do Produto Interno Bruto acima de 2,5%. Essa estimativa é perigosa, já que ele não acertou em nenhuma das anteriores. Agora reduziu as próprias expectativas. Não devemos esperar muito de 2014 no campo da economia.

Mas é necessário ser justo. Ele é apenas a face mais visível do que acontece no Brasil. O poderoso The New York Times publicou editorial, em outubro de 2013, que lamenta a falta de investimentos públicos e privados na infraestrutura brasileira. Essa seria a justificativa para o baixo crescimento. Se confirmadas as projeções para 2013, a economia brasileira terá crescimento médio de 2% nos três primeiros anos desta década. Esse número revela forte desaceleração em relação ao período de 2004 a 2010, época em que o país viveu momento mais favorável nas últimas décadas: expansão média de 4,5%.

Economistas têm palavreado difícil. Denso, confuso e às vezes incompreensível. É fácil culpar a crise externa. Ela não aconteceu de um dia para o outro. Produziu a nuvem, que virou tempestade, depois furacão, terremoto e tsunami. O euro quase virou história, mas os países europeus estão lentamente se levantando. E a indústria norte-americana também está saindo do buraco. O desemprego, que há um ano estava em 10%, agora está na casa de 6,5%. O mundo não acabou. A Europa não se desintegrou nem os Estados Unidos se esfacelaram. As coisas estão entrando nos eixos lá fora. Aqui, não.

A lenta recuperação do mercado internacional deveria causar impacto semelhante em toda a América Latina. Afinal de contas, os problemas são os mesmos. Mas não foi isso que aconteceu. Previsões do Fundo Monetário Internacional informam que a crise provocou pequeno impacto nos países latinos. O crescimento médio da economia na região recuou de 4,4% para 4,1%, entre 2004 e 2011. A redução do crescimento econômico nacional é reflexo, portanto, dos problemas nacionais. Até 2010 o Brasil cresceu acima do resto da América Latina. Nos últimos três anos, ao contrário, os números nacionais ficaram dois pontos abaixo das principais economias da região, exceção para a Venezuela, que sofre com os dogmas do chavismo.

Os integrantes da Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru) saíram do crescimento médio de 3,5% entre 2004 e 2010 para 3,9% nos últimos três anos. Algumas características nos separam deles. A principal delas é a inflação. O fenômeno foi mais elevado no Brasil do que naqueles países. No período de 2004 a 2010, o Brasil teve inflação média de 5,3%, enquanto, nos vizinhos do Pacífico, o índice ficou em 4,2%. Em anos recentes, a média daqueles países se reduziu para 3,5%; no Brasil, pulou para 6,1%. Inflação produz incerteza, diminui o horizonte de planejamento, corrói a confiança, destrói reputações e gera ambiente adverso ao investimento.

Os três candidatos assumidos para a disputa à Presidência da República devem ter clareza de seus objetivos para poder arregimentar correligionários e votos. Não existem problemas estruturais no Brasil. Existe burocracia em excesso, corrupção instalada em vários níveis e planejamento inadequado. Exemplos são abundantes, se revelam dia a dia nos jornais - além dos eternos problemas com educação, saúde e segurança. Melhorando uns, os outros encontram seu espaço e suas próprias soluções. As diferenças entre ideologias estão pouco nítidas. Ninguém mais é contra a concessão ou a privatização. Virou moda. Então, é só fazer.


Os números manejados por institutos e organizações internacionais demonstram que a América Latina não está fora do circuito de países aptos para o desenvolvimento. Ao contrário. O Brasil que tenta solucionar seus problemas por caminhos heterodoxos não obtém resultados sequer assemelhados aos de países como Peru ou Colômbia. A América Latina não está condenada a ser marginal no processo econômico mundial. O ano de 2014 será muito difícil, já disse aqui mesmo. Mas sempre haverá espaço para bom senso e medidas sensatas. Não basta tentar adivinhar o futuro, é preciso construí-lo dia a dia, tijolo a tijolo. E sem nenhuma arrogância. Um passo atrás do outro.

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