quarta-feira, novembro 20, 2013
STF não faz verão - DORA KRAMER
Sobre o tão falado efeito pedagógico do julgamento do mensalão a respeito dos meios e modos da política brasileira, Peter Hakim, coordenador de um grupo de intelectuais que estuda as relações entre Brasil e Estados Unidos, fez observação das mais pertinentes em entrevista a O Globo.
Para ele, educativo não é o impacto de um episódio que, de resto, pode se perder no tempo, e sim as lições que tiram dele e as práticas adotadas a partir desse ou daquele acontecimento.
Hakim cita o exemplo da Suprema Corte americana na decretação, em 1954, da ilegalidade da segregação racial nas escolas, "que não teria sido uma decisão histórica sem o movimento pelos direitos civis, o investimento no acesso à educação universal etc".
Em seguida, Peter Hakim lembra o impeachment de Fernando Collor, cujo impacto acabou se perdendo _ "O Brasil não aproveitou a ocasião como poderia" _ em boa medida por ter sido tratado como exceção.
Por esse raciocínio, o efeito de longo prazo do mensalão depende muito de o caso não ser tratado como "ponto fora da curva", mas como um passo que inicie uma caminhada na direção de "poderes mais independente e instituições mais honestas".
Falemos da nossa realidade específica, em que há outro fator: o público nem sempre consciente da respeitabilidade que lhe é devida de um lado e, de outro, precisa ser exercida.
Fernando Collor recuperou os direitos políticos e foi eleito senador. Dos condenados de agora, os que não renunciaram ou foram cassados ganharam novos mandatos nas urnas. Como esses, inúmeros casos. Para citar três: Paulo Maluf, Severino Cavalcanti e Natan Donadon, eleitos apesar de todos os pesares.
Portanto, esperar que o Supremo faça o serviço com um julgamento é contrariar a metáfora da andorinha que solitária não faz primavera nem verão.
Da onça. A manifestação do ex-presidente Lula da Silva aos companheiros de partido José Dirceu e José Genoino - "estamos juntos" - figurativamente tem sentido de solidariedade.
Objetivamente, nem tanto. Para quem foi o maior beneficiário da maioria parlamentar construída nos termos postos pelo STF, soa algo cruel a frase dita do lado de fora do presídio.
Para todos. Ninguém em sã consciência deixa de achar que o pedido de prisão domiciliar para José Genoino faz sentido e é justo. Uma questão de bom senso devido ao estado de saúde dele.
Outra coisa é a exploração política de petistas acusando o ministro Joaquim Barbosa de pôr em risco a vida de Genoino antes do aval de opinião médica.
Ademais, tal preocupação não se manifesta em relação a Roberto Jefferson cuja condição física em decorrência de um câncer no pâncreas também inspira cuidados.
Bem como deve haver sentenciados em situação parecida, submetidos inadequadamente às condições "medievais" (expressão do ministro da Justiça) dos presídios brasileiros para cuja melhoria o governo do PT não contribuiu nesses quase onze anos no comando dos instrumentos do Estado.
Correção. A nota de ontem sobre a prescrição das penas de Henrique Pizzolato continha imprecisão.
Os prazos correm enquanto não tiver início do cumprimento da sentença, mas não "no dobro" de cada pena e sim de acordo com a tabela do Código Penal que estabelece prescrição em oito anos para penas de até quatro e em 12 para acima de quatro e até oito anos.
Como a menor recebida por ele foi de três anos e a maior de cinco anos e 10 meses, se não for preso antes, Pizzolato terá os crimes prescritos em 12 anos.
Caindo as máscaras - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 20/11
Ao que tudo indica, as infiltrações de desordeiros mascarados nas manifestações que começaram em junho eram orquestradas por uma mistura de interesses
Aos poucos vão surgindo indícios de que o que antes eram vagas suspeitas existia de fato. Ao que tudo indica, as infiltrações de desordeiros mascarados nas manifestações que começaram em junho eram orquestradas por uma mistura de interesses partidários e marginais, que contratavam ativistas profissionais, remunerando-os pela agitação. O objetivo seria desestabilizar os governos do Rio e de SP. A PM paulista, por exemplo, descobriu que a principal facção criminosa, o PCC, tinha um plano de introduzir integrantes nas passeatas, embora os manifestantes tivessem considerado a denúncia como uma manobra da polícia para criminalizar os movimentos de protesto.
No Rio, as máscaras caíram mais claramente. Algumas condutas estranhas, depois de investigadas, foram reveladoras, como a do militante Baiano, que atuou com destaque nos atos Ocupa Cabral e o Ocupa Câmara. Recolhido a uma penitenciária, acusado de depredar patrimônio público, essa é sua sétima prisão desde junho. Nas outras vezes, foi acusado de desacato, agressão, desobediência e de atear fogo a um coletivo e a uma patrulha. Sem ocupação formal, ele se apresenta como membro não remunerado da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (Fist), constituindo assim um mistério os recursos de que dispõe para pagar fianças e viagens ao exterior. Segundo a Seção de Fiscalização do Tráfego Internacional da PF, em 15 meses, ele viajou três vezes aos EUA. Seu advogado alega que o cliente não está ligado a partidos e que as viagens foram financiadas pela “mulher norueguesa”. Não se sabe se movida apenas por amor. Mais contundente ainda foi a denúncia de Gordinho, 35 anos, ex-gerente do tráfico de drogas no Complexo do Alemão. Através de delação premiada, ele confessou que um dos comandos criminosos infiltrou bandidos nas manifestações para fazer quebra-quebra com a finalidade de enfraquecer o governo estadual e seu projeto de ocupação das favelas. A ideia seria parar a cidade. “Botamos o nosso povo pra se enturmar junto com eles, os playboys viciados, pra quebrar.” Ao analisar o fenômeno, a antropóloga Alba Zaluar já tinha registrado que “jovens usuários de drogas e pequenos repassadores estão sendo pagos para participar quebrando tudo”. Como a tática dos Black Blocs e Anonimous é destruir o capitalismo estilhaçando vitrines e incendiando ônibus, nada mais oportuno do que essa aliança de ocasião com os traficantes, que, por sua vez, estão dispostos a qualquer desatino para acabar com as UPPs e sua política de pacificação.
A histórica decisão do STF pode não significar o fim da impunidade, como creem alguns, mas é o mais duro golpe que ela já recebeu. O processo não merecia, portanto, o final que teve, com arbitrariedades contra os condenados, inclusive José Genoino, cardiopata e recém-operado. Como disse a OAB, a sua prisão em regime fechado “configura uma ilegalidade”. Só depois de muita pressão política, ele passou para o semiaberto de direito. A maldade soou como revanchismo.
Ao que tudo indica, as infiltrações de desordeiros mascarados nas manifestações que começaram em junho eram orquestradas por uma mistura de interesses
Aos poucos vão surgindo indícios de que o que antes eram vagas suspeitas existia de fato. Ao que tudo indica, as infiltrações de desordeiros mascarados nas manifestações que começaram em junho eram orquestradas por uma mistura de interesses partidários e marginais, que contratavam ativistas profissionais, remunerando-os pela agitação. O objetivo seria desestabilizar os governos do Rio e de SP. A PM paulista, por exemplo, descobriu que a principal facção criminosa, o PCC, tinha um plano de introduzir integrantes nas passeatas, embora os manifestantes tivessem considerado a denúncia como uma manobra da polícia para criminalizar os movimentos de protesto.
No Rio, as máscaras caíram mais claramente. Algumas condutas estranhas, depois de investigadas, foram reveladoras, como a do militante Baiano, que atuou com destaque nos atos Ocupa Cabral e o Ocupa Câmara. Recolhido a uma penitenciária, acusado de depredar patrimônio público, essa é sua sétima prisão desde junho. Nas outras vezes, foi acusado de desacato, agressão, desobediência e de atear fogo a um coletivo e a uma patrulha. Sem ocupação formal, ele se apresenta como membro não remunerado da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (Fist), constituindo assim um mistério os recursos de que dispõe para pagar fianças e viagens ao exterior. Segundo a Seção de Fiscalização do Tráfego Internacional da PF, em 15 meses, ele viajou três vezes aos EUA. Seu advogado alega que o cliente não está ligado a partidos e que as viagens foram financiadas pela “mulher norueguesa”. Não se sabe se movida apenas por amor. Mais contundente ainda foi a denúncia de Gordinho, 35 anos, ex-gerente do tráfico de drogas no Complexo do Alemão. Através de delação premiada, ele confessou que um dos comandos criminosos infiltrou bandidos nas manifestações para fazer quebra-quebra com a finalidade de enfraquecer o governo estadual e seu projeto de ocupação das favelas. A ideia seria parar a cidade. “Botamos o nosso povo pra se enturmar junto com eles, os playboys viciados, pra quebrar.” Ao analisar o fenômeno, a antropóloga Alba Zaluar já tinha registrado que “jovens usuários de drogas e pequenos repassadores estão sendo pagos para participar quebrando tudo”. Como a tática dos Black Blocs e Anonimous é destruir o capitalismo estilhaçando vitrines e incendiando ônibus, nada mais oportuno do que essa aliança de ocasião com os traficantes, que, por sua vez, estão dispostos a qualquer desatino para acabar com as UPPs e sua política de pacificação.
A histórica decisão do STF pode não significar o fim da impunidade, como creem alguns, mas é o mais duro golpe que ela já recebeu. O processo não merecia, portanto, o final que teve, com arbitrariedades contra os condenados, inclusive José Genoino, cardiopata e recém-operado. Como disse a OAB, a sua prisão em regime fechado “configura uma ilegalidade”. Só depois de muita pressão política, ele passou para o semiaberto de direito. A maldade soou como revanchismo.
A segunda fuga fácil do bancário do PT - JOSÉ NÊUMANNE
O Estado de S.Paulo - 20/11
Até os patos que nadam nos lagos plácidos defronte aos palácios de Brasília sabiam que Henrique Pizzolato evitaria cumprir a pena de 12 anos e 7 meses de cadeia que lhe cabe no processo do mensalão por ter autorizado repasse de R$ 73,8 milhões do Banco do Brasil, do qual era diretor de Marketing, para a compra de votos de parlamentares para apoiarem o governo. Afinal, no ano passado ele já tinha saído de circulação havia três meses quando o ex-procurador-geral da República Roberto Gurgel deu conta de seu sumiço e ele foi localizado na Itália. Em setembro de 2012, contudo, ele voltou a viver com a mulher no apartamento que comprara em Copacabana, do qual partiu há um mês e meio novamente rumo à Itália.
Então, ele já estava condenado quando deixou o País de carro, atravessando a fronteira paraguaia sem seus passaportes brasileiro e italiano. Em seguida teria ido para Buenos Aires, onde, com um sucedâneo do passaporte europeu que não entregou, embarcou sem empecilhos para Roma. Como é público e notório, a vigilância das fronteiras terrestres do Brasil - pelas quais passam sem problemas drogas e armas, além de contrabando de outros tipos, de cigarros baratos a bebidas finas - é uma ficção de terror na qual só um brasileiro com mais de 12 anos de idade acredita que existe: a presidente Dilma Rousseff. Ora, direis, leitores atentos, que uma vigilância rotineira feita por equipes de um agente por turno estaria apta a informar à Polícia Federal (PF) o paradeiro de um réu condenado em última instância. Mas a autoridade encarregada de apreender seus documentos não agiu de maneira eficiente e diligente.
Depois de ter interpretado cenas dignas de serem protagonizadas pelo inspetor Clouseau em A Pantera Cor de Rosa, com a busca em dois endereços e a espera da apresentação do condenado, a PF contentou-se em pedir ajuda à Interpol para cumprir o único mandado de prisão decretado pelo STF não executado no simbólico 124.º aniversário da República.
Nada indica que uma eventual intervenção da Interpol trará o bancário petista de volta à pátria para cumprir a pena que ficou devendo aqui. Um antecessor célebre dele, o banqueiro Salvatore Cacciola, só foi preso e extraditado por ter cometido o erro de sair da Itália para passar uma temporada no Principado do Mônaco. Ali foi preso e, extraditado, aqui cumpriu pena. Pizzolato não é idiota a ponto de repetir o erro. E a Itália, além de não firmar acordos de extradição, não tem nenhum motivo para atender excepcionalmente ao pedido de um país que difamou seu sistema judiciário ao soltar o assassino Cesare Battisti a pretexto de não ter ele recebido dela julgamento justo.
Mesmo não sendo um companheiro de escol como Dirceu ou Genoino, mas apenas um tarefeiro de Luiz Gushiken, inocentado por unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF), com direito a elogios do revisor do processo, Ricardo Lewandowski, Pizzolato não deve ser um alvo que o ministro petista da Justiça considere prioritário para algemar e prender. O melhor que lhe pode acontecer no belo país de suas origens familiares é ele gozar de merecido e conveniente ostracismo sem que a memória de seus malfeitos de alguma forma prejudique os interesses dos correligionários de se manterem no poder com a reeleição de Dilma Rousseff. Aliás, não há muito mais a fazer a não ser deixar o tempo passar. Afinal, não será fácil achar base jurídica para uma troca com os italianos do bancário corrupto pelo sanguinário revolucionário Battisti.
Mas não seria má ideia uma barganha com os italianos em que os "neoaliados" Fernando Collor e Paulo Maluf entregassem Battisti em Roma a Berlusconi, recebendo Pizzolato em troca. O brasileiro pode até ter os dedos manchados de verde pela tinta dos dólares que desviou, mas não de sangue de inocentes, caso dos do italiano.
De qualquer maneira, a ausência do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil entre os presos do Dia da República serviu para tornar mais eloquente o silêncio dessa instituição ante a fraude do funcionário que conspurcou seus mais de dois séculos de credibilidade com sua ação. O contencioso representado pelo desvio de recursos de uma empresa de propriedade do distinto público para os cofres de um partido político (o que foi contado em juízo pelo réu fujão) não mereceu sequer um pedido de desculpas de sua diretoria. Nem uma reclamação de sindicatos de bancários ou de entidades que representam os interesses dos lesados, acionistas minoritários ou mesmo contribuintes comuns reunidos pelo pomposo coletivo povo brasileiro.
Ao que parece, o selo nos lábios do único condenado que escapou ao cumprimento de pena deixando o território nacional à sombra da dupla nacionalidade não interessa apenas aos que eventualmente tenham participado do escândalo de corrupção, mas escaparam ilesos da execração pública e da condenação do STF. Os responsáveis pela facilitação da fuga do bancário petista - policiais ou seus superiores hierárquicos - parecem desfrutar impunidade similar à que ele obteve ao cruzar a fronteira com o Paraguai, protegidos pela cumplicidade dos altos escalões federais, que parecem mais empenhados em dar desculpas amarelas do que em cobrar responsabilidades. Até agora não se tem conhecimento de ao menos uma recriminação pública da chefe do governo ao seu ministro a que a Polícia Federal é subordinada.
Urge, enfim, destacar que a prisão dos outros condenados só ocorreu mercê da intransigência, nem sempre cortês ou educada, do relator do mensalão e também presidente do Supremo. Sem ela, dificilmente ocorreria. Se prevalecessem as "chicanas" e as "manipulações" de praxe, o cidadão brasileiro não seria confortado com a evidência de que nesta democracia todos devem mesmo ser tornados iguais pela lei.
Até os patos que nadam nos lagos plácidos defronte aos palácios de Brasília sabiam que Henrique Pizzolato evitaria cumprir a pena de 12 anos e 7 meses de cadeia que lhe cabe no processo do mensalão por ter autorizado repasse de R$ 73,8 milhões do Banco do Brasil, do qual era diretor de Marketing, para a compra de votos de parlamentares para apoiarem o governo. Afinal, no ano passado ele já tinha saído de circulação havia três meses quando o ex-procurador-geral da República Roberto Gurgel deu conta de seu sumiço e ele foi localizado na Itália. Em setembro de 2012, contudo, ele voltou a viver com a mulher no apartamento que comprara em Copacabana, do qual partiu há um mês e meio novamente rumo à Itália.
Então, ele já estava condenado quando deixou o País de carro, atravessando a fronteira paraguaia sem seus passaportes brasileiro e italiano. Em seguida teria ido para Buenos Aires, onde, com um sucedâneo do passaporte europeu que não entregou, embarcou sem empecilhos para Roma. Como é público e notório, a vigilância das fronteiras terrestres do Brasil - pelas quais passam sem problemas drogas e armas, além de contrabando de outros tipos, de cigarros baratos a bebidas finas - é uma ficção de terror na qual só um brasileiro com mais de 12 anos de idade acredita que existe: a presidente Dilma Rousseff. Ora, direis, leitores atentos, que uma vigilância rotineira feita por equipes de um agente por turno estaria apta a informar à Polícia Federal (PF) o paradeiro de um réu condenado em última instância. Mas a autoridade encarregada de apreender seus documentos não agiu de maneira eficiente e diligente.
Depois de ter interpretado cenas dignas de serem protagonizadas pelo inspetor Clouseau em A Pantera Cor de Rosa, com a busca em dois endereços e a espera da apresentação do condenado, a PF contentou-se em pedir ajuda à Interpol para cumprir o único mandado de prisão decretado pelo STF não executado no simbólico 124.º aniversário da República.
Nada indica que uma eventual intervenção da Interpol trará o bancário petista de volta à pátria para cumprir a pena que ficou devendo aqui. Um antecessor célebre dele, o banqueiro Salvatore Cacciola, só foi preso e extraditado por ter cometido o erro de sair da Itália para passar uma temporada no Principado do Mônaco. Ali foi preso e, extraditado, aqui cumpriu pena. Pizzolato não é idiota a ponto de repetir o erro. E a Itália, além de não firmar acordos de extradição, não tem nenhum motivo para atender excepcionalmente ao pedido de um país que difamou seu sistema judiciário ao soltar o assassino Cesare Battisti a pretexto de não ter ele recebido dela julgamento justo.
Mesmo não sendo um companheiro de escol como Dirceu ou Genoino, mas apenas um tarefeiro de Luiz Gushiken, inocentado por unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF), com direito a elogios do revisor do processo, Ricardo Lewandowski, Pizzolato não deve ser um alvo que o ministro petista da Justiça considere prioritário para algemar e prender. O melhor que lhe pode acontecer no belo país de suas origens familiares é ele gozar de merecido e conveniente ostracismo sem que a memória de seus malfeitos de alguma forma prejudique os interesses dos correligionários de se manterem no poder com a reeleição de Dilma Rousseff. Aliás, não há muito mais a fazer a não ser deixar o tempo passar. Afinal, não será fácil achar base jurídica para uma troca com os italianos do bancário corrupto pelo sanguinário revolucionário Battisti.
Mas não seria má ideia uma barganha com os italianos em que os "neoaliados" Fernando Collor e Paulo Maluf entregassem Battisti em Roma a Berlusconi, recebendo Pizzolato em troca. O brasileiro pode até ter os dedos manchados de verde pela tinta dos dólares que desviou, mas não de sangue de inocentes, caso dos do italiano.
De qualquer maneira, a ausência do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil entre os presos do Dia da República serviu para tornar mais eloquente o silêncio dessa instituição ante a fraude do funcionário que conspurcou seus mais de dois séculos de credibilidade com sua ação. O contencioso representado pelo desvio de recursos de uma empresa de propriedade do distinto público para os cofres de um partido político (o que foi contado em juízo pelo réu fujão) não mereceu sequer um pedido de desculpas de sua diretoria. Nem uma reclamação de sindicatos de bancários ou de entidades que representam os interesses dos lesados, acionistas minoritários ou mesmo contribuintes comuns reunidos pelo pomposo coletivo povo brasileiro.
Ao que parece, o selo nos lábios do único condenado que escapou ao cumprimento de pena deixando o território nacional à sombra da dupla nacionalidade não interessa apenas aos que eventualmente tenham participado do escândalo de corrupção, mas escaparam ilesos da execração pública e da condenação do STF. Os responsáveis pela facilitação da fuga do bancário petista - policiais ou seus superiores hierárquicos - parecem desfrutar impunidade similar à que ele obteve ao cruzar a fronteira com o Paraguai, protegidos pela cumplicidade dos altos escalões federais, que parecem mais empenhados em dar desculpas amarelas do que em cobrar responsabilidades. Até agora não se tem conhecimento de ao menos uma recriminação pública da chefe do governo ao seu ministro a que a Polícia Federal é subordinada.
Urge, enfim, destacar que a prisão dos outros condenados só ocorreu mercê da intransigência, nem sempre cortês ou educada, do relator do mensalão e também presidente do Supremo. Sem ela, dificilmente ocorreria. Se prevalecessem as "chicanas" e as "manipulações" de praxe, o cidadão brasileiro não seria confortado com a evidência de que nesta democracia todos devem mesmo ser tornados iguais pela lei.
Dura realidade - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 20/11
Nada mais peculiar às elites privilegiadas do que este escândalo que parentes e apoiadores petistas da trinca de líderes condenados do mensalão fazem diante da dura realidade de suas prisões. Tudo indica que não acreditavam que o desfecho ocorresse um dia, confiantes nas manobras protelatórias que sempre deram certo para os ricos e poderosos escaparem do cumprimento das penas atrás das grades.
Corno sempre, a elite encontra caminhos especiais, que existem só para elas, para amenizar seus pesares. Fingir-se de preso político é uma maneira de escamotear a verdade, continuar vivendo uma fantasia que há muito já foi rasgada nos duros embates da realidade política. Nem o PT é um partido revolucionário, nem seus líderes estão atrás das grades por questões políticas. Se fossem realmente presos políticos, quais seriam seus algozes no governo que dirigem há 11 anos?
Seriam dissidentes políticos acusados injustamente pelo grupo momentaneamente no poder, como ocorre muitas vezes na China ou em Cuba? Lula e Dilma estariam então por trás das transgressões de que acusam o Supremo tribunal Federal durante o julgamento e agora, na fase das execuções penais. É verdade que a presidente evita falar em público sobre o caso, para não se contaminar eleitoralmente, mas isso não chega a ser prova de que gostaria de ver seus "companheiros" atrás das grades.
E Lula, que promete sempre revelar verdades desconhecidas sobre o mensalão, e essa hora nunca chega? "Estamos juntos disse ele a Dirceu, numa solidariedade que exagera na retórica, deixando margem a que se considere que ele se sente metaforicamente preso, mas continua tomando banho quente. o movimento político que o PT promove para desmoralizar o presidente do Supremo tribunal Federal e, em consequência, todo o processo que levou para a prisão os mensaleiros de muito deixou de ser uma mera reação natural de perdedores.
A intenção política é desautorizar o STF. Os privilégios defendidos para a trinca de condenados - dos demais presos no mesmo processo, não se sabe de um protesto sequer - já se mostram abusivos nestes primeiros dias. Enquanto mulheres de presos do Complexo da Papuda acampam de madrugada para pegar uma senha que lhes permita visitar os parentes presos, amigos e parentes dos líderes petistas entram e saem do presídio mesmo sem ser dia de visita.
Mesmo a situação de José Genoino, que deve ser resolvida com a decretação de prisão domiciliar devido aos cuidados especiais de que necessita, não deixa de ser uma regalia, já que devem existir centenas, se não milhares, de presos na mesma situação de saúde frágil que não encontram o caminho da prisão domiciliar, ou nem mesmo têm domicílio.
Como erros não podem justificar outros, conceda-se a Genoino o direito que é negado a muitos outros presos. E, por falar em privilégios da elite, mais uma vez as condições precárias de nossas penitenciárias são motivo de críticas de autoridades e justificativas para os protestos, e até mesmo fuga. Do banho com água fria até a condição da comida, de tudo se reclama, como se apenas agora estivéssemos tomando ciência dessas precariedades e até desumanidades que ocorrem nas cadeias do país.
No transcorrer do julgamento do mensalão, quando ficava clara a possibilidade de os mensaleiros serem condenados à prisão, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que preferiria morrer a ter que passar muito tempo nas cadeias "medievais" brasileiras. Ontem, foi o Ministro Marco Aurélio Meio, do STF quem afirmou que é preciso "compreender a angústia de quem está condenado".
Para ele, referindo-se ao petista Henrique Pizzolato, é licito "à pessoa tentar escapar, principalmente conhecendo as condições desumanas das nossas penitenciárias". É patético ver a ação de petistas que um dia em 2005 subiram à tribuna da Câmara chorando de vergonha ao verem confirmadas as denúncias do mensalão e, hoje, voltam à mesma tribuna, a exemplo do que fez o deputado José Guimarães, irmão de Genoino, para simplesmente tentar negar a ocorrência de qualquer crime no episódio do mensalão.
Logo ele, que teve um assessor direto preso com dólares escondidos na cueca, no que ficou como a esdrúxula imagem marcante da comprovação dos desmandos que foram feitos em nome de um projeto político.
Corno sempre, a elite encontra caminhos especiais, que existem só para elas, para amenizar seus pesares. Fingir-se de preso político é uma maneira de escamotear a verdade, continuar vivendo uma fantasia que há muito já foi rasgada nos duros embates da realidade política. Nem o PT é um partido revolucionário, nem seus líderes estão atrás das grades por questões políticas. Se fossem realmente presos políticos, quais seriam seus algozes no governo que dirigem há 11 anos?
Seriam dissidentes políticos acusados injustamente pelo grupo momentaneamente no poder, como ocorre muitas vezes na China ou em Cuba? Lula e Dilma estariam então por trás das transgressões de que acusam o Supremo tribunal Federal durante o julgamento e agora, na fase das execuções penais. É verdade que a presidente evita falar em público sobre o caso, para não se contaminar eleitoralmente, mas isso não chega a ser prova de que gostaria de ver seus "companheiros" atrás das grades.
E Lula, que promete sempre revelar verdades desconhecidas sobre o mensalão, e essa hora nunca chega? "Estamos juntos disse ele a Dirceu, numa solidariedade que exagera na retórica, deixando margem a que se considere que ele se sente metaforicamente preso, mas continua tomando banho quente. o movimento político que o PT promove para desmoralizar o presidente do Supremo tribunal Federal e, em consequência, todo o processo que levou para a prisão os mensaleiros de muito deixou de ser uma mera reação natural de perdedores.
A intenção política é desautorizar o STF. Os privilégios defendidos para a trinca de condenados - dos demais presos no mesmo processo, não se sabe de um protesto sequer - já se mostram abusivos nestes primeiros dias. Enquanto mulheres de presos do Complexo da Papuda acampam de madrugada para pegar uma senha que lhes permita visitar os parentes presos, amigos e parentes dos líderes petistas entram e saem do presídio mesmo sem ser dia de visita.
Mesmo a situação de José Genoino, que deve ser resolvida com a decretação de prisão domiciliar devido aos cuidados especiais de que necessita, não deixa de ser uma regalia, já que devem existir centenas, se não milhares, de presos na mesma situação de saúde frágil que não encontram o caminho da prisão domiciliar, ou nem mesmo têm domicílio.
Como erros não podem justificar outros, conceda-se a Genoino o direito que é negado a muitos outros presos. E, por falar em privilégios da elite, mais uma vez as condições precárias de nossas penitenciárias são motivo de críticas de autoridades e justificativas para os protestos, e até mesmo fuga. Do banho com água fria até a condição da comida, de tudo se reclama, como se apenas agora estivéssemos tomando ciência dessas precariedades e até desumanidades que ocorrem nas cadeias do país.
No transcorrer do julgamento do mensalão, quando ficava clara a possibilidade de os mensaleiros serem condenados à prisão, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que preferiria morrer a ter que passar muito tempo nas cadeias "medievais" brasileiras. Ontem, foi o Ministro Marco Aurélio Meio, do STF quem afirmou que é preciso "compreender a angústia de quem está condenado".
Para ele, referindo-se ao petista Henrique Pizzolato, é licito "à pessoa tentar escapar, principalmente conhecendo as condições desumanas das nossas penitenciárias". É patético ver a ação de petistas que um dia em 2005 subiram à tribuna da Câmara chorando de vergonha ao verem confirmadas as denúncias do mensalão e, hoje, voltam à mesma tribuna, a exemplo do que fez o deputado José Guimarães, irmão de Genoino, para simplesmente tentar negar a ocorrência de qualquer crime no episódio do mensalão.
Logo ele, que teve um assessor direto preso com dólares escondidos na cueca, no que ficou como a esdrúxula imagem marcante da comprovação dos desmandos que foram feitos em nome de um projeto político.
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