sexta-feira, 7 de junho de 2013

DEMÉTRIO MAGNOLI E DORA KRAMER - LÍBANO E POLÍTICA NACIONAL



06/06/2013
 às 13:09 \ Feira Livre

‘De Tahir a Taksim’, de Demétrio Magnoli

PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA
DEMÉTRIO MAGNOLI
“Os que nomeiam esses eventos como a Primavera Turca não conhecem a Turquia”, exclamou o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, enquanto as manifestações se espalhavam nacionalmente, a partir da Praça Taksim, no centro de Istambul. O espectro de uma outra praça – Tahir, no Cairo – atormentava Erdogan e animava os manifestantes. Taksim não é Tahir, mas as duas praças convergem, por vias diversas, à condição de símbolos de uma segunda primavera no Grande Oriente Médio. O que está em jogo é a oportunidade histórica da reforma do Islã, por meio da plena aceitação das liberdades públicas e individuais.
Na Praça Tahir, em fevereiro de 2011, o pêndulo se inclinou em definitivo quando os trabalhadores entraram em cena, precipitando a queda do ditador Hosni Mubarak. O levante da Praça Taksim começou pelas classes médias, como em Tahir, mas os trabalhadores ensaiaram uma greve geral já no quinto dia dos protestos. Taksim não é Tahir, por motivos políticos (o governo de Erdogan não é uma ditadura) e culturais (a Turquia não faz parte do mundo árabe). Contudo, Erdogan age como quem “não conhece a Turquia” – ou, ao menos, conhece apenas uma Turquia simplificada, que é islâmica, otomana e imperial.
A pátria ideológica e cultural de Erdogan é uma Turquia amputada dos 90 anos de história da república secular, europeísta, fundada por Kemal Ataturk. A fagulha da Primavera Árabe acendeu-se na palha seca de anos de depressão econômica. Na Turquia, ao contrário, a revolta eclodiu após uma década de forte crescimento econômico. O motor original das manifestações foi um projeto de substituição do Parque Gezi por um complexo de edificações comerciais, culturais e religiosas, mas a revolta levantou voo quando a violenta repressão policial evidenciou uma desconexão política fundamental: nas ruas, os cidadãos dizem que existe uma outra Turquia, cujos valores são desrespeitados pelo governo.
“Nós somos filhos de Ataturk”, dizem os cartazes de Taksim. Ataturk, o “pai dos turcos”, reinventou a Turquia como Estado-Nação, renunciando à visão imperial otomana. O plano de Erdogan para a área do parque inclui a demolição do Centro Cultural Ataturk e a construção de um simulacro de um antigo quartel otomano. Na raiz da revolta encontra-se a ampla oposição pública ao envolvimento da Turquia na guerra civil síria – ou seja, ao renascimento neo-otomano acalentado pelo governo. Mas isso não é tudo nem o principal. Ataturk aboliu o califado, separou a escola da mesquita, conferiu às mulheres direitos iguais aos dos homens. Sob Erdogan, no alto funcionarismo público, mensagens não muito ocultas instruem as mulheres a se vestirem em padrões tradicionais, as escolas reintroduzem cursos corânicos, adverte-se contra o beijo em lugares públicos e uma nova lei restringe o comércio de bebidas alcoólicas. “Nos exames, surgem diversos itens ideológicos adaptados aos apoiadores do governo”, disse um estudante secundarista envolvido nos protestos de Taksim. A Praça Taksim não é a Tahir original, mas parece-se com a segunda Tahir, onde as correntes seculares egípcias desafiam o tradicionalismo islâmico do governo da Irmandade Muçulmana.
Desde 2001, quando Erdogan fundou o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), o país engajou-se num experimento histórico de vastas implicações. No novo partido, abrigaram-se correntes islâmicas oriundas dos estilhaços de partidos fundamentalistas condenados à ilegalidade, além das novas elites urbanas desencantadas com a corrupção do antigo partido dirigente nacionalista ancorado na herança de Ataturk. Ao longo de uma década de governo, o AKP usou os acordos da candidatura turca à União Europeia para quebrar a armadura do chamado “Estado Profundo”, o sistema de poder da cúpula militar kemalista, e introduzir uma coleção de reformas democráticas. Ironicamente, o partido de origens islâmicas deflagrou uma segunda “europeização” da Turquia.
Há dois anos, numa coletiva de imprensa, líderes partidários rejeitaram o adjetivo “islamista” convencionalmente associado ao AKP. Na ocasião, o ex-ministro da Educação Huseyin Çelik definiu-o como um “partido democrático conservador”, enfatizando que o conservadorismo “circunscreve-se aos temas morais e sociais”. Filtrou-se da entrevista a ideia de uma “democracia islâmica”, um conceito ambíguo que faz sucesso entre as facções modernizantes da Irmandade Muçulmana egípcia.
“Erdogan é um político muito ousado e muito autoritário, e não mais ouve ninguém, mas precisa entender que a Turquia não é um reino”, observou um cientista político da Universidade do Bósforo. Num indício de inquietude, Erdogan apontou o partido kemalista de oposição como responsável pelo levante. A revolta que se estende pela Turquia não tem a marca de um partido, abrangendo jovens e velhos, homens e mulheres, turcos e curdos, esquerdistas e liberais. Não é a nação inteira que se levanta, mas é quase toda a sua face resolutamente secular. Os protestos têm cobertura limitada dos veículos de comunicação, pois o governo Erdogan aprendeu a manipular de acordo com as suas conveniências as leis de segurança nacional do “Estado Profundo” kemalista que permitem processar jornalistas com base em acusações de ressonâncias orwellianas.
A Praça Tahir foi o símbolo das revoluções democráticas que saltaram de um país árabe a outro, derrubando ditaduras e provocando reformas em anacrônicas monarquias. Hoje, porém, em nome do Islã e no vácuo político criado pela Primavera Árabe, iracundos fundamentalistas tentam tolher as liberdades civis e seitas de fanáticos perseguem as mulheres que ousam mostrar o rosto em público. A Praça Taksim está enviando uma mensagem, que será ouvida muito além da Turquia, de resistência ao inverno fundamentalista. Erdogan pode dizer o que quiser, mas isso é, sim, uma Primavera Turca.


05/06/2013
 às 13:58 \ Feira Livre

‘Cru e quente’, de Dora Kramer

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA
DORA KRAMER
Ditados simplificam pensamentos, desconsideram as nuances de cada situação, mas convém não desprezá-los como porta-vozes da experiência.
Sobre os malefícios da afobação, por exemplo, há vários. Citemos apenas dois: um diz que a pressa é inimiga da perfeição; outro alerta o apressado para o risco de comer cru e quente o seu repasto.
O ex-presidente Luiz Inácio da Silva ignorou tais conselhos quando, no início do ano, aproveitou um encontro do PT para reiterar a candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição.
Segundo alguns autores, a ideia era estancar o falatório sobre a possibilidade de ele mesmo ser o candidato à Presidência em 2014. Outra versão reza que Lula pôs a eleição na roda para mudar a pauta naquele momento voltada para as peripécias de Rosemary Noronha no governo enquanto desfrutou de sua bênção e proteção.
A motivação pouco importa. A questão agora é o efeito colateral que Lula, com sua celebrada intuição política, não pesou nem mediu. Abriu o debate da sucessão como fez em 2008 ao lançar a “mãe do PAC” à cena no mês de fevereiro, com a mesma antecedência.
E acaba aí a semelhança. A situação da economia era outra, o humor dos aliados era bem melhor, o comandante tinha ascendência sobre a tropa, não havia oponentes no campo governista e aos políticos em geral interessava sentar no banco do carona de Lula.
Não é raro ouvir nos partidos ditos situacionistas que devem muito ao ex-presidente, mas que Dilma deve à ajuda deles em grande parte a sua eleição.
Nesse cenário inteiramente diverso é que a antecipação da campanha mostra suas consequências nefastas. Animou a oposição a sair da toca, abriu espaço e deu justificativa à dissidência de Eduardo Campos e semeou inquietação antes do tempo entre os que deveriam estar concentrados na tarefa de renovar o contrato com o eleitorado.
Houve um erro de cálculo: antecipada a sucessão presidencial, anteciparam-se as demais campanhas e com elas a crise de aflição que assola deputados, senadores e governadores na busca de boas posições no jogo.
Abafa o caso. A fim de não criar confusão com o PSD que pode lhes render boas alianças estaduais no ano que vem, os tucanos pararam de criticar Guilherme Afif Domingos pelo acúmulo das funções de ministro em governo do PT e vice-governador em administração do PSDB.
De onde farão cara de paisagem durante os dois dias em que Afif assumir o Palácio dos Bandeirantes na próxima semana, quando Geraldo Alckmin irá a Paris.
Para fins de conveniência eleitoral, a tucanagem compara a situação àquela em que o vice ocupa também uma secretaria no governo. Fazer de conta que é igual não isenta a realidade de dizer que uma coisa é uma coisa. Outra coisa é a expressão do cinismo em estado sólido.
Redemoinho. A inflação cresce, o poder de compra decresce, o endividamento aumenta, o crédito farto desaparece, a confiança no governo estremece e as pesquisas começam a registrar curva de popularidade descendente.
São os sinais objetivos que os apostadores do mercado eleitoral levam em conta para avaliar as chances de Dilma Rousseff na reeleição e fixar a cotação das ações de seus oponentes.
A especulação gera fatos, alimenta profecias que se autorrealizam e leva as forças políticas à dispersão. O governo tem agora um olho na economia outro nos próximos quatro meses, até início de outubro, quando se encerra o prazo para mudanças e/ou filiações partidárias para os candidatos às eleições

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