Estou lendo a biografia de Roberto Campos, Lanterna em Popa. O livro não é só autobiográfico, mas uma peculiar história do Brasil e do mundo, sob uma ótica liberal, do período entre-guerras, e no Brasil da formação do estado e da economia desde o período varguista.
Roberto Campos não só é um autor, mas sobretudo foi um protagonista de todo este processo. Na maior parte dos tempos, como um crítico ferrenho do estatismo nacionalista brasileiro. Como protagonista, embaixador, ministro do governo Castelo Branco no início do regime militar, e depois um ferrenho adversário e crítico dos defensores do que ele chama, parafraseando o historiador britânico Paul Johnson, de século coletivista. Primeiro com o nacionalismo nazi-fascista, à direita. Depois com socialismo de tipo soviético, desembocando para as mais diversas formas de nacionalismo e populismo, tão comuns na esquecida América Latina. Esquecida, em parte, porque pobre e subdesenvolvida.
Sobre o Brasil, no prefácio ele lamenta, dizendo: "No palco brasileiro, há que reconhecer que minha geração fracassou. Tendo tudo para atingir a grandeza, o Brasil patina na mediocridade. Tendo tudo para ser rico, o país hospeda milhões de miseráveis. Houve momentos em minha juventude e maturidade em que ambas as coisas - a grandeza e a riqueza - pareciam atingíveis antes do fim do século. Hoje, o sonho de um Brasil GRANDE POTÊNCIA no ano 2000 se esvaiu. Estamos atrasados em nosso RENDEZ-VOUS com a história".
Depois de ressaltar as esperanças de abertura com a criação do mercado comum europeu, coincidindo com a era JK em meados dos anos 50, e a outra antes da crise do petróleo em 1973, nos anos sessenta, coincidindo com o chamado "milagre brasileiro", ele vaticina que infelizmente "o Brasil, num auto isolamento decorrente de políticas errôneas, ficou marginalizado na terceira onda mundial de crescimento, entre 1984 e 1990, quando subiram ao proscênio os países do Leste asiático".
No final do prefácio ele afirma magistral e didaticamente o caso da pobreza, não só material, mas sobretudo política e intelectual do Brasil, afirmando: "Há países naturalmente pobres mas vocacionalmente ricos. Há outros que têm riquezas naturais porém parecem ter vocação de pobreza. às vezes fico pensando, com melancolia, que talvez estejamos neste último caso. Não nos faltam recursos naturais. Mas sua mobilização exige abandonarmos nossa grave e renitente tradição inflacionária, e um grau maior de abertura internacional. Nossa pobreza não pode ser vista como uma imposição da fatalidade. Parece antes uma pobreza consentida, resultante de um mau gerenciamento e negligência na formação do capital humano".
Roberto Campos foi duramente achincalhado pelos esquerdistas e pelos nacionalistas durante toda a vida. Sempre nadou contra a corrente, com muita ironia e inteligência. Como deputado, já em cadeira de rodas, votou a favor do impeachment do então presidente Fernando Collor. Até sua morte foi um intransigente defensor das idéias liberais. Intransigente, mas com muito brilho e ironia. Realmente um grande brasileiro, que quem sabe, um dia a história resgatará com honra e glória. Saravá!
Este artigo é dedicado ao meu querido irmão, por acaso tio, que mora em Natal , o advogado e grande figura humana Romero Tavares Souto Maior. Um abraço grande Mero.
Nenhum comentário:
Postar um comentário