sábado, 20 de outubro de 2018

"Histeria", por Jorge Zaverucha



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Há certa histeria rondando a política brasileira. O alarmismo é alavancado por setores acadêmicos e midiáticos (in)ternacionais. Faz-se uma previsão épica do tipo civilização ou barbárie. Além de moralmente pretensiosa, peca por não alcançar a complexidade do momento atual.
O principal bordão diz que Bolsonaro é um “risco à democracia”. Não se especifica o tamanho deste risco (pequeno, médio ou grande?) nem em que aspecto a nossa avacalhada democracia seria atingida. A inexatidão conceitual prevalece. Subtendendo que Bolsonaro golpearia as instituições ou erodiria as mesmas ao ponto de lançar o país nas trevas. Seria o novo Chávez com sinal trocado.
Chávez, antes chegar ao poder, tentou derrubar o presidente por duas vezes. Já Bolsonaro, nos últimos 30 anos, viveu obscuramente no Parlamento. Suas ações restringiram-se a uma série de discursos antidemocráticos. Contudo, há uma outra possibilidade. Ele seguir os passos do peruano Ollanta Humala. Considerado um militar radical de esquerda, disputou a primeira eleição com apoio de Chávez. Perdeu. Distanciou-se dele, e ganhou a segunda eleição. Terminou seu mandato sem maiores problemas. Já na Turquia, Erdogan começou como líder moderado e hoje é exemplo de autoritarismo. A dinâmica do jogo forja o comportamento dos atores políticos. Para um lado ou para outro.
É preciso distinguir militar como indivíduo do militar como instituição. Os interesses que acompanham estas duas unidades de análise nem sempre são convergentes. Bolsonaro, como indivíduo, não possui autonomia para ir contra os interesses das Forças Armadas como instituição. Ele sabe que, em caso de golpe, pode perder o emprego, pois um general da ativa tomaria as rédeas do poder. Capitão só manda em general no mundo civil...
As Forças Armadas aprenderam com 1964. Na visão da instituição, os militares foram convocados a golpear a democracia. E depois largados no meio do caminho. O ponto de Equilíbrio de Nash (situação em que os atores políticos não abandonam suas posições com receio de que possam piorá-las) é as Forças Armadas não almejarem o ônus de ser governo deixando a democracia eleitoral para os civis. Em troca, os civis asseguram aos militares o papel de garantidores da lei e da ordem mantendo seu poder tutelar. Além de garantir os enclaves autoritários, muitos deles insculpidos na Constituição de 1988. Não há sinal de que este equilíbrio esteja para ser rompido. A não ser que venha a ocorrer uma situação de anomia, como lembrou o general Mourão. Situação plausível caso nossos problemas não sejam debelados.
O ruído existente deve-se muito mais ao desmonte do sistema político dominante nos últimos 30 anos. Há a emergência de onda conservadora como se viu nas recentes eleições para o Congresso. Em vez de caminharmos, indelevelmente, para o abismo, como dizem os histéricos, é possível que esteja ocorrendo um reequilíbrio de forças políticas sob o manto da democracia eleitoral. O ideal seria o surgimento de uma direita ilustrada. Não é o nosso caso. Bolsonaro não é um líder nem intelectualizado nem refinado. Mas, a população crê ser ele o único capaz de derrotar o PT.
A oposição tem chamado Bolsonaro de fascista. E até de nazista. Estranho este fascismo brasileiro. Bolsonaro quer diminuir o tamanho do Estado, prometendo privatizações; escolhe como ministro da Fazenda um liberal sem apelar para o corporativismo; o indivíduo está acima do coletivo no programa de governo, e ele não prega a formação de milícias paramilitares. Pelo contrário, já criticou, publicamente, atos de violência. É preciso reconhecer que Bolsonaro vem moderando seu discurso. Prometeu governar sob a égide da Constituição e criticou os que praticam atos de violência em seu nome. Além do mais, negocia, habilmente, a formação de sua base no Congresso, reforçando a ideia de que jogará de acordo com as regras democráticas. Minha dúvida é como se comportará caso tenha algumas propostas derrotadas pelo Congresso ou bloqueadas pelo Judiciário.
Jorge Zaverucha é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco
O Globo

Um comentário:

  1. Só uma pequena discordância, sem qualquer intenção de valor. Apenas referir que há um pequeno erro. Ao afirmar que «Capitão só manda em general no mundo civil...» o autor até poderá ter razão, pois não me recordo de nenhum exemplo em que tal tenha acontecido. Já todo um poderoso exército comandado por um cabo... acho que nos recordamos todos. ;)

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