quarta-feira, 30 de maio de 2018

‘É um movimento contra a corrupção e contra os políticos’, diz Gabeira sobre paralisação


Para jornalista e ex-deputado federal, greve dos caminhoneiros abre chance de união dos brasileiros por retomada de ‘sentimento de Nação’

Marcelo Godoy | O Estado de S.Paulo

O jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira classifica o movimento dos caminhoneiros como uma “revolta difusa” contra “o que chamam de roubalheira” e “contra os políticos”. “Mas não tem uma visão do que colocar no lugar.” Para Gabeira, o movimento abre a chance de os brasileiros se unirem em torno da ideia de uma cultura, a retomada de um “sentimento de Nação”, sacudindo o “País de fantasia” na qual se encerraram políticos e elite burocrática. Em entrevista ao Estado, o jornalista aprofunda sua análise sobre o momento do País. Leia os principais trechos.

• Em seu artigo A falta que um governo faz, em O Globo, o sr. diz que a retomada de um sentimento de Nação pode sacudir a “ilha da fantasia” de Brasília. Por quê?

Eu acredito que é uma oportunidade, pois é muito difícil ver o País se desmanchando. Ficou claro o processo de ausência de uma ação do governo de antecipação, de informação de negociação no princípio. Depois ficou clara a vulnerabilidade do País. Eles criaram uma situação que tornou difícil até a intervenção das Forças Armadas.

• Por que o sr. acha que apesar dos acordos anunciados pelo governo o movimento não parou?

Não parou porque a imprensa não está vendo o movimento em sua amplitude. A imprensa vê nele um movimento econômico, mas na verdade ele é um movimento econômico e político. Muitos caminhoneiros e grupos que participam desse movimento esperavam uma mudança do próprio governo. Desejam uma mudança do governo. Existe um conteúdo político que foi esvaziado. Ninguém fala que, além de todas as reivindicações, eles querem um novo governo.

• O que seria esse novo governo? Falou-se muito que alguns pretendem a volta de um regime de força, uma ditadura militar.

Eu acho que eles não têm noção do que seria o novo governo. Aqueles que articulam essa ideia veem na volta dos militares uma alternativa, mas ao mesmo tempo a gente ouve e sente uma revolta difusa contra o que chamam de roubalheira. É ao mesmo tempo um movimento contra a corrupção e contra os políticos, mas não tem uma visão do que colocar no lugar.

• Existiria um certo moralismo autoritário difuso no movimento?

Existe uma visão potencialmente autoritária que coincide com uma noção apressada e falsa de que o processo democrático fracassou. Não que eu não dê razão a quem acha que o sistema partidário e político está na ruína, mas eu não acho que o sistema democrático fracassou.

• O sr. acha que esse movimento pode evoluir como em 2013 para uma rejeição à política?

Até o momento quase todo apoio que ele recebeu foi difuso e mais ou menos voltado à condenação dos políticos. Há uma parte de gente que não está ligada ao preço do diesel e às condições de trabalho dos caminhoneiros que acha que vale a pena (protestar) porque o governo não presta. Essa é uma atitude comum e se manifesta na entrega de alimentos e material de infraestrutura para os caminhoneiros. E há o apoio dos motoristas de aplicativos, de táxis e de vans escolares que encaminharam uma espécie de apoio econômico e esperam se beneficiar com essas conquistas.

• Quando o sr. diz que o preço da gasolina não precisava ser tão alto, aborda a questão sobre a quem o Estado serve. O sr. considera que as pessoas também estão questionando isso?

Eu acho que sim, embora não o façam de uma forma articulada, elas questionam os gastos e a roubalheira da política, mas, simultaneamente, o que reivindicam representará o aumento de gastos do Estado. A melhor maneira de tratar o assunto, além de ter um serviço de inteligência, coisa que andou longe nesse caso, é ter uma visão de como diminuir o preço por meio da redução de impostos. Houve uma ideia brilhante que surgiu que é ter uma espécie de gatilho que, aumentando o preço do petróleo, diminua o imposto para garantir o equilíbrio. Isso devia ser feito antes pelo governo.

• Por que o sr. acha que a política não conseguiu vislumbrar essa crise que se avizinhava?

Primeiro porque os políticos criaram um universo distante do mundo real e frequentam muito pouco esse mundo real. Depois, mesmo se frequentassem, o objetivo deles está voltado para as suas respectivas eleições ou, no caso de um grupo pequeno, entre os quais incluo o presidente da República, à sobrevivência em relação à Lava Jato. Esse conjunto de preocupações com os interesses eleitorais e sobre como escapar da polícia dificulta muito ter uma visão da realidade brasileira.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Denis Lerrer Rosenfield *: O fator conservador


- O Estado de S.Paulo

Partidários da liberdade de escolha, do trabalho e do mérito pessoal podem decidir eleições

O Brasil entrou definitivamente na discussão eleitoral, que se apresenta sob a forma de uma pré-campanha que não deixa de ser uma campanha propriamente dita. Os candidatos tomam posição no tabuleiro ao sabor das conveniências, destacando-se questões de valores e de costumes, fundamentando até a luta contra a corrupção. Os partidos tradicionais procuram, porém, evadir-se dessas questões, engolfados que foram no redemoinho de prisões e condenações decorrentes de práticas criminosas.

Apesar da urgência da pauta de reformas econômicas, a sociedade veio a perceber a questão da moralidade pública e dos valores como prioritária. Se muitas vezes falta a amplos setores da população clareza sobre assuntos econômicos, sobram-lhes certezas sobre temas de valores e costumes. Mais concretamente, o eleitorado brasileiro é composto por uma parcela com opiniões consideradas conservadoras que, por ser significativa do ponto de vista numérico, pode muito bem decidir a eleição ou, num primeiro turno competitivo, ser decisiva para levar determinado candidato ao segundo.

Conforme pesquisas, posições conservadoras aparecem como majoritárias entre a população brasileira. Algumas estimam que 85% dos brasileiros se mostram favoráveis à redução da maioridade penal, 79% são contrários à legalização do aborto no País, 56% são contra o ensino de questões de gênero nas escolas e 51% rejeitam o Estatuto do Desarmamento. Outras constatam que 66% dos brasileiros são contrários à liberação do uso da maconha, droga atualmente ilícita. Quando recortamos as respostas segundo um critério confessional, eleitores religiosos, especialmente evangélicos, expressam índices ainda maiores de respostas em relação às questões mensuradas.

Embora o politicamente correto não cesse de produzir impacto em meios de comunicação que se empenham em transmitir essas ideias, o setor conservador destaca-se cada vez mais na sociedade brasileira.

O impacto dos que se autointitulam “progressistas” é principalmente veiculado por grupos de esquerda, que encontraram nessas ideias um refúgio decorrente do fracasso do projeto socialista, apesar de continuarem, muitos deles idolatrando o castrismo e o chavismo, com as ditaduras e os desastres econômicos que lhes são inerentes. Acontece que os manifestos de artistas e intelectuais exibem, cada vez mais, sua ineficácia e falta de coerência. São grupos minoritários que procuram impor sua posição por meios jurídicos e não democráticos. Não aceitam, por exemplo, plebiscitos ou referendos sobre temas relativos a questões morais e de costumes.

Os conservadores, por sua vez, têm conquistado espaços cada vez maiores na sociedade, tendo ganho adesão substancial. Temas como direito à legítima defesa, aborto, educação de gênero, redução da maioridade penal e pena de morte/prisão perpétua são hoje muito debatidos. Há toda uma demanda dos que se ressentem da insegurança pessoal e patrimonial, com a criminalidade assomando à casa de cada um. Difícil encontrar alguém que não fale de assaltos, roubos e assassinatos. Os valores morais foram diluídos. Condenam coerentemente a corrupção que tomou conta do Estado brasileiro.

O avanço conservador se faz mais sensivelmente sentir no segmento evangélico da sociedade, embora não lhe seja exclusivo. Ao contrário, por exemplo, do setor católico, eles são hierarquicamente estruturados, com os fiéis seguindo majoritariamente as orientações de pastores, bispos e primazes de cada uma das denominações religiosas. Têm na defesa dos costumes e da moral o eixo central de sua pregação, fazendo-se representados politicamente no Legislativo e no Executivo. Muitos sustentam também posições liberais na economia, não aceitando políticas estatizantes. São partidários da liberdade de escolha, do trabalho e do mérito pessoal.

Os evangélicos, segundo o censo IBGE 2010, somavam naquele então 22,5 milhões de pessoas. Em 2000 eram 15,4 milhões. Em dez anos seu crescimento se aproxima de 50%, sendo possível estimar que sejam hoje mais de 30 milhões. Isto é, seu peso numérico é expressivo, além de agirem coletivamente em função de suas convicções e seus valores.

Sua igreja amplamente majoritária é a Assembleia de Deus, com seus templos se disseminando por todos os rincões do País, seguindo em orações, cultos e leituras dominicais as diretrizes de seus líderes. A Igreja Universal, por sua vez, possui todo um império de comunicação, a Rede Record, com jornais, rádios e emissoras de televisão cobrindo todo o território nacional. Outros grupos evangélicos possuem outros veículos de comunicação e programas próprios. Sua influência é considerável. A formação da opinião pública evangélica, e para além dela, é feita por todo esse sistema de pregação, culto e mídia, veiculando ideias conservadoras e as opções políticas correspondentes.

A Igreja Católica, por sua vez, tem fortalecido sua ala conservadora, apesar de sua participação política ter sido feita nas últimas décadas mediante posições esquerdizantes, representadas em boa medida pela CNBB. Não convém esquecer que a Teologia da Libertação e seu apoio ao MST e ao PT foram pilares até agora de sua atuação. A pantomima do ato “religioso” de Lula, antes de sua prisão, contou com a sustentação desses setores mais à esquerda. De qualquer maneira, também setores da hierarquia católica se têm distanciado dessas posições, abraçando o campo defensor dos costumes tradicionais e da moralidade.

Nesse contexto, coloca-se como uma questão central dos políticos em geral e dos presidenciáveis em particular: que posição assumir diante de uma pauta conservadora que terá nesta eleição, muito provavelmente, um peso maior que o das últimas eleições.

O que têm os candidatos a dizer a esse respeito?
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* Professor de filosofia na UFRGS.

domingo, 27 de maio de 2018

Elio Gaspari: ‘Greve de caminhoneiros’. Onde?


Elio Gaspari: ‘Greve de caminhoneiros’. Onde?

- O Globo

De uma hora para outra, houve uma greve de caminhoneiros e o presidente da Petrobras, Pedro Parente, tornouse o responsável por dias de caos. Duas falsidades.

O que houve não foi uma greve de caminhoneiros, mas uma doce parceria com os empresários do setor de transporte de cargas rodoviárias. Diante dele, o governo capitulou. A repórter Míriam Leitão mostrou que só 30% dos caminhões pertencem a motoristas autônomos. Na outra ponta estão pequenas empresas subcontratadas e grandes transportadoras. Uma “greve de caminhoneiros” pressupõe greve de motoristas de caminhão. Isso nada tem a ver com estradas obstruídas.

Pedro Parente não provocou o caos. Desde sua posse na presidência da Petrobras, ele descontaminou-a do caos que recebeu. Na base dessa façanha esteve uma nova política de preços, acoplada ao valor do barril no mercado internacional. É assim que as coisas funcionam em muitos países do mundo. Se o preço do diesel salgou a operação do setor de transporte de cargas, o problema é dele, não de uma população que foi afetada pelo desabastecimento e agora pagará a conta. Os empresários sabiam muito bem o tamanho da confusão que provocariam.

O sujeito oculto da produção do caos foi o governo de Michel Temer. No seu modelito Davos, orgulhou-se da política racional de preços dos combustíveis. Já no modelito MDB-DEM-PP-PR-PPS, fez de conta que ela não teria custo político. Deveria ter provisionado um colchão financeiro para subsidiar a Petrobras, mas essa ideia era repelida pelos sábios da ekipekonômica. Diante do caos, descobriram que o colchão era necessário.

O governo tolerou a bagunça e associou-se ao atraso. A primeira reação de Temer deveria ter sido a responsabilização dos empresários, desmistificando a ideia de “greve dos caminhoneiros”. Bloqueou estrada? Reboco o caminhão, caso ele não pertença ao motorista. Queimou o talonário do policial que multou o veículo? Prendo-o. Só mudou o tom e exerceu a autoridade na sexta-feira, usando a força federal para desobstruir estradas.

Desde o primeiro momento tratou-se do caso com o gogó, deixando que o problema deslizasse para a Petrobras e seu presidente. Conseguiram piorar a discussão, beneficiando grupos de pressão, com o dinheiro dos outros.

A lição de Pedro Parente para os sábios
Na entrevista teatral e inútil que os ministros deram na quinta-feira, o doutor Carlos Marun defendeu a capitulação do governo diante da suposta greve dos caminhoneiros, referindo-se ao que denominou de “realidade brasileira”.

Teve toda razão, mas essa realidade está aí há 518 anos.

Em 2013, o prefeito Fernando Haddad aumentou as tarifas de ônibus e foi para um evento em Paris com o governador Geraldo Alckmin. Numa esticada noturna, cantaram “Trem das Onze”. Deu no que deu. O economista Edmar Bacha, conselheiro econômico do candidato Alckmin, cunhou a expressão Belíndia. Hoje se vê que os economistas belgas precisam aprender a viver com a realidade da Índia.

A política de preços da Petrobras estava certa. O que faltou foi combinar com os russos, com o setor de transporte de cargas rodoviárias, com as empresas e, finalmente, com os motoristas de caminhão. Faltou sobretudo acautelar-se. Perplexos, os belgas acordaram na Índia.

Pedro Parente foi satanizado até mesmo pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDBPB), que o acusou de “arrogância” e pediu sua demissão. O senador Eunício de Oliveira (MDB-CE) seguiu na mesma linha, e o candidato a presidente Henrique Meirelles, corifeu do liberalismo de Temer, foi gloriosamente evasivo.

Pedro Parente fez o que devia como presidente da Petrobras. Quem desafiou a “realidade brasileira" foram Temer, sua ekipekonômica e a claque belga que os aplaudia.

sábado, 26 de maio de 2018

"Caos", por Eliane Cantanhêde


O Estado de São Paulo




O “Partido dos Caminhoneiros” conseguiu o que MST, MTST, CUT e partidos de oposição ao governo Temer ameaçaram e não tiveram força para fazer, nem mesmo com a prisão de Lula: paralisar o País. É uma nova força política que pode ser qualquer coisa, menos um movimento de esquerda.
Assim como em junho de 2013, o protesto dos caminhoneiros também teve combustão espontânea, sem partidos por trás ou líderes carismáticos e estridentes. Ambos surgiram de repente, pegando todo mundo de surpresa e jogando o governo contra a parede.
A motivação dos milhares de pessoas que foram às ruas em junho de 2013 foi o aumento das tarifas de transportes urbanos. A dos caminhoneiros neste maio de 2018 é o aumento diário dos combustíveis, principalmente do diesel. Os dois protestos encontraram ambiente propício, foram uma fagulha em palha seca e incendiaram os governos de Dilma, primeiro, e de Temer agora. O Brasil nunca mais foi o mesmo depois daquele junho. E muita coisa pode mudar a partir deste maio.
Em 2013, homens e mulheres, jovens e velhos, gente de esquerda e de direita lotaram as ruas, e o que menos contou foram partidos e ideologias. Em 2018, há um acordo tácito entre os patrões e caminhoneiros, que fecharam estradas, produziram um efeito cascata e ameaçam com o colapso.
Litros de leite jogados fora, montanhas de hortaliças murchas, prateleiras vazias nas farmácias, tanques secos nos postos de gasolina, falta de água mineral e de combustível de aviação nos aeroportos… E os preços disparando. O que começou como um protesto de um setor, de uma categoria, virou um movimento nacional.
Produtores rurais, empresas privadas e serviços públicos foram atingidos em cheio. E o que dizer do cidadão e da cidadã, já irados com a corrupção, desconfiados com as eleições, mal-humorados com o governo e estarrecidos com o aumento da gasolina? A crise, latente, explodiu de cima a baixo.
Como só iria acontecer, o governo Temer, já tão fraco e a caminho do fim, virou o principal alvo de várias frentes autônomas e conflitantes: caminhoneiros, confederações (como a dos Transportes e da Agricultura), Congresso, a própria Petrobrás e a mais poderosa de todas, a opinião pública.
O estopim da crise foi o aumento do preço internacional do petróleo, a disparada do dólar e o trauma da Petrobrás, que afundou com Lula e Dilma não só pela corrupção, mas também pela manipulação política (ou populista) dos preços. Só que faltou cuidado.
Assim como aumento de impostos, o de combustíveis é coisa para governos fortes, o que, definitivamente, não é o caso. Para piorar, a Petrobrás não apenas impôs o aumento, como impôs um aumento diário! Pode até fazer sentido empresarial, mas foi de uma audácia política incrível. E na hora errada.
Temer ficou entre os protestos e a política de preços independente da Petrobrás. Parente ficou entre uma solução política e uma sinalização perigosa para o mercado e para os investidores da companhia, que ontem caiu 14% na Bolsa. E o fim do mundo é (ou seria) ele ir embora.
Em ano eleitoral, o Congresso, à frente Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, aproveitou para tirar uma casquinha na crise e espicaçar ainda mais o Planalto. E os governadores? Tiraram o corpo fora.
O maior problema no fim deste governo (e no início do próximo) é a crise fiscal, o rombo das contas públicas. Como cortar impostos do diesel sem cobrir o buraco com alguma outra receita? Tira de um lado, tem de pôr do outro. E isso não é uma “maldade liberal”, é um dado aritmético e uma realidade social: quando 2 + 2 não somam 4 na contabilidade pública, quem quebra a cara é quem mais precisa do Estado brasileiro.

Fernando Gabeira: A falta que um governo faz


- O Globo

O Brasil mostrou-se vulnerável. Um plano elementar de defesa garantiria com escolta armada a saída dos caminhões com combustível

A crise que paralisa o país neste ano eleitoral é um estímulo para que as pessoas compreendam a falta que um governo faz num país.

O governo tinha condições de prever a paralisação. Possui recursos para a inteligência e, sobretudo, tinha uma posição privilegiada para entender a evolução da crise: desde julho do ano passado estava negociando com os caminhoneiros.

Portanto, falhou nesse quesito. Sua saída seria ter um plano para permitir que, apesar da greve, o país funcionasse no essencial. Mas nunca se aprovou uma estratégia de defesa nacional, apesar de o projeto ter uma década de existência.

O Brasil foi pego de calças na mão. Mostrou-se um país vulnerável. Um plano elementar de defesa garantiria com escolta armada a saída dos caminhões com combustível. Isso aconteceu em Curitiba e, parcialmente, deu certo para manter o transporte urbano em ação, aliviando o peso dos que se deslocam para trabalhar.

O Brasil poderia estar menos dependente da gasolina. Mas congelou o projeto que impulsiona os biocombustíveis. Seduzidos pelas descobertas do pré-sal, acorrentamos nosso destino ao combustível fóssil.

Da mesma forma, o Brasil poderia ter mantido e desenvolvido suas ferrovias. Mas caiu na ilusão tão comum no Novo Mundo: uma nova opção tecnológica remete as outras para os museus.

O preço da gasolina não precisava ser tão alto. Cerca de 45% são impostos. A máquina dos governos em Brasília e nos estados não dispensa esse dinheiro porque jamais soube reduzir seus custos.

Os políticos e a elite burocrática ainda não caíram na realidade. A máquina administrativa é de um país ilusório, muito mais rico do que o país de concreto, que todos habitamos de carne e osso.

É esse país da fantasia que precisa desaparecer com a sua máquina do Estado catapultada para o mundo real. Vivemos um momento de avanços tecnológicos que poderia tornar o enxugamento dos gastos mais fácil que no passado.

Não creio que gastando mais com o país e menos com o seu governo arriscaríamos a competência ou mesmo a dignidade dos cargos.

No país real, a dignidade de uma elite governante também se mede pelo seu esforço em ser austera, pela decisão de compartilhar nossas limitações cotidianas. E não por construir um oásis particular no deserto de nossa desesperança. A ausência de um governo revela também a nossa fragilidade quando não dispomos desse instrumento. De repente, o Brasil parou, somem os alimentos, em alguns lugares também a água mineral.

É como se o país trocasse de mãos. Não só estradas, como refinarias foram bloqueadas. Uma coisa é fazer greve, outra intervir na vida dos outros e do próprio governo. Os lances ilegais não foram punidos, nem apurados os indícios da presença das grandes empresas na greve. Paradoxalmente, num momento de fragilidade como esse a sociedade encontra uma possibilidade de mostrar sua força.

Para muitos, o que se passa no universo político não interessa, o melhor é deixar de lado e cuidar da própria vida. Mas eis que uma paralisação como essa revela claramente que não existe vida própria, blindada contra os descaminhos da elite dirigente. Gasolina, alimentos, água de beber tudo isso invade a existência pessoal com seus vínculos familiares.

A greve foi um momento em que nos sentimos muito sós. Mas abre a chance de nos reunirmos em torno da ideia de um país, uma cultura, enfim, de retomar algum nível de sentimento nacional. Isso passa por uma grande sacudida no país da fantasia.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O silêncio da esquerda sobre a tragédia da Venezuela


Com Blog do Noblat, Veja


Se não condena, se pelo menos não critica, é porque a esquerda brasileira, ou a maior fatia dela, é insensível, ou concorda e até apoia o que acontece na Venezuela sob o governo do reeleito presidente Nicolás Maduro, o herdeiro do coronel Hugo Chávez.
Dela não se ouve uma única palavra de solidariedade aos venezuelanos que sofrem com a tragédia do seu país. Ali, entre 20015 e 2016, a mortalidade infantil aumentou 30,12%. Cerca de 30% dos médicos e enfermeiros emigraram. Faltam 80% dos remédios necessários.
A cesta básica que o Governo vende a preço controlado só chega a pouco mais de 12 milhões de pessoas, um terço da população. 64,3% dos venezuelanos entrevistados disseram ter perdido 11 quilos de peso em 2017. Isso significa que a maioria passa fome.
Lula e Chávez foram grandes amigos. Lula deve a Chávez uma milionária ajuda para que se elegesse presidente em 2002. O que Chávez morreu devendo a Lula não se sabe. Sabe-se que a Lula, Maduro deve o dinheiro da Odebrecht que irrigou sua penúltima campanha presidencial.

"A orfandade dos partidos", por Ruy Fabiano

"A orfandade dos partidos", por Ruy Fabiano

Veja

O colapso dos partidos, iniciado com a devassa judicial ao PT e, a seguir, estendido às demais siglas (MDB, PP, PSDB, PDT etc.), impôs ao quadro eleitoral um cenário de paradoxos e perplexidades.
O primeiro deles é a falta de candidatos competitivos, à altura das estruturas partidárias disponíveis. Os favoritos nas pesquisas – Jair Bolsonaro e Marina Silva – são de partidos ou insignificantes (PSL) ou um pouco mais que isso (Rede).
Os grandes e médios partidos têm dinheiro (o grosso das verbas do fundo eleitoral), tempo de rádio e TV e, em grande parte, apoio logístico e estrutural de governos estaduais, prefeituras, sindicatos etc. Mas seus candidatos não empolgam ninguém.
Exemplo eloquente é o do ex-governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin. Perde em seu próprio estado, que já governou por três vezes, para o deputado Bolsonaro, que é do Rio.
Pior: não consegue selar alianças nem com os seus parceiros históricos, MDB e DEM. Até o seu vice, Márcio França, do PSB, que o sucedeu no governo paulista, hesita (eufemismo de evita) em aderir. Produz no máximo declarações dissimuladas.
O problema não é (só) do candidato, mas do partido. É claro que o perfil politicamente desidratado de Alckmin agrava o problema, mas não o explica por inteiro. O PSDB está sem discurso.
No caso do PT, o quadro é inverso. Há uma falange de nomes postulando substituir Lula, mas nenhum emplaca. Todos foram testados – em pesquisas internas e externas: Jacques Wagner, Gleisi Hoffmann, Fernando Haddad etc.
Como o partido não tem o hábito de selar coalizões em que não seja o protagonista, rejeita a ideia de figurar como vice em chapa alheia. Houve especulações que envolveram os nomes de Ciro Gomes, Marina Silva e Joaquim Barbosa, cujo efeito foi dividir e exacerbar os ânimos entre as facções partidárias.
Lula, o único capaz de uni-las, está preso, sem chances de concorrer, a menos que, nos cinco meses que distam das eleições, o partido imponha ao país uma revolução que não logrou obter em 14 anos de governo. Nesse caso, não seriam necessárias as eleições.
O governador cearense Camilo Santana tentou esta semana dizer o óbvio: já que não há um nome competitivo no partido, que tal se aliar a Ciro Gomes, que não faz outra coisa senão buscar essa aliança? O resultado foi aumentar o estresse entre as facções.
Em tal ambiente, o ex-presidente Fernando Henrique busca unir o que chama de “centro democrático e reformista”. E a dificuldade começa em definir o que isso seja: “Não deve ser confundida com o Centrão”, diz ele, referindo-se ao bloco informal de parlamentares, mais afeito ao jogo fisiológico.
Para o eleitor, no entanto, a política brasileira é um imenso Centrão, que inclui todos os grandes partidos. FHC, no entanto, acredita na viabilidade de mudar esse quadro. E anuncia para o fim deste mês um manifesto que destaque a necessidade de unir o tal “centro democrático”, encabeçado por PSDB, DEM, MDB e PTB.
Falta apenas um detalhe: quem seria o candidato? Nenhum desses partidos tem um nome competitivo. E apenas um temor os une: o favoritismo, até aqui, da candidatura de Jair Bolsonaro.
Ruy Fabiano é jornalista

sábado, 19 de maio de 2018

Fernando Gabeira: Coxinhas e mortadelas

- O Globo


Grupos formam uma oposição até bem-humorada. Mas quadro muda quando os mais radicais abusam das expressões fascista e comunista


Com a prisão de Lula, Palocci e, agora, José Dirceu, o PT sofre um duro baque. Os dois outros grandes partidos, PSDB e MDB, agonizam mais lentamente. Precisamente as escaramuças para driblar a Justiça e escapar da Lava-Jato, diante de uma plateia atenta, vão levá-los à perda de credibilidade.

Imaginam que ninguém percebeu que Gilmar Mendes soltou seus operadores. Gilmar funciona como um juiz de futebol que apita uma inexistente falta de ataque dentro da área. No futebol chamamos a isso de perigo de gol. Em termos jurídicos, é perigo de delação premiada.

José Dirceu, o último a ser preso, concedeu uma entrevista muito sensata e inteligente sobre a vida na cadeia, como sobreviver, como se comportar. Ele acha que a esquerda voltará ao poder, porque é esse o fio da história.

É perfeitamente possível que, num processo de alternância democrática, a esquerda volte ao poder. No entanto, é difícil para os velhos militantes abrirem mão desse fio da história, da crença de que ela tem um rumo e desembocará no destino previsto.

Isto, por mais que seja revestido de um verniz científico, é na verdade um contrabando religioso no pensamento político. Se a história tem um script determinado, o papel dos atores também é facilmente explicável, uns a favor outros contra o suposto rumo da história.

É um tipo de pensamento que facilita a divisão grosseira entre nós e eles. Contribuiu a seu modo para o desgaste de nosso tecido político, do avanço da intolerância.

Coxinhas e mortadelas, na verdade, formam uma oposição até bem-humorada. Uma oposição entre carne branca e vermelha que talvez viaje no nosso inconsciente antropofágico.

Hans Staden, um mercenário alemão que passou nove meses entre os tupinambás, foi certamente o primeiro coxinha da história. Quase o comeram. Escreveu um livro que arrebatou a Europa, um best-seller para a época.

Nos dias atuais, a sublimação do desejo de devorarmos uns aos outros não deixa de ser um avanço. No entanto, o quadro muda quando os setores mais radicais no espectro usam e abusam das expressões fascista e comunista.

Tanto o fascismo como o comunismo, cada um no seu estilo, deixaram milhões de mortos, em regimes onde a liberdade também foi sepultada. Quem é chamado de fascista ou comunista sente-se, no caso de não sê-lo, bastante ofendido.

Mas isso não é o principal efeito colateral dessa leviana troca de acusações. O fascismo é uma experiência histórica bem definida. O primeiro efeito colateral negativo de acusações infundadas é banalizá-la e, portanto, desativar sua rejeição e torná-la mais perigosa caso apareça no horizonte.

O outro efeito colateral das acusações recíprocas é a falsa sensação de que comunismo e fascismo são o verdadeiro antagonismo na sociedade brasileira.

A ambos interessa que o antagonismo seja esse. No entanto, ele mascara os diversos pontos em comum que os regimes comunistas e fascistas partilham: repressão política, partido único e suas consequências.

E esconde o verdadeiro adversário do fascismo e do comunismo: a democracia, solução negociada dos nossos problemas.

A esquerda usou grande parte de sua energia para se defender, e deixou de lado os problemas nacionais. É uma ausência que não só reduz suas chances da alternância no poder: empobrece o debate sobre a reconstrução nacional.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Da liberdade à vitimização - PAULO CRUZ

Da liberdade à vitimização

Luiz Gama empunha a bandeira dos Liberais Dissidentes. Angelo Agostini/Reprodução
Luiz Gama empunha a bandeira dos Liberais Dissidentes. Angelo Agostini/Reprodução
“Eu disse uma vez que a escravidão nacional nunca havia produzido um Terêncio, um Epicteto, ou sequer um Espártaco. Há agora uma exceção a fazer: a escravidão entre nós produziu Luiz Gama, que teve muito de Terêncio, de Epicteto e de Espártaco”. (Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira)

No último domingo, 13 de maio de 2018, aniversário de 130 anos da Abolição da Escravatura no Brasil, o programa Fantástico, da Rede Globo, não veiculou uma reportagem comemorativa; não exaltou a gloriosa luta abolicionista; não falou de Abílio Cesar Borges, Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, João Clapp, José de Seixas Magalhães, Luíza Regadas, Chiquinha Gonzaga e tantas outras figuras importantíssimas do movimento pela abolição dos escravos. Mesmo as menções à Princesa Isabel e a D. Pedro II, personagens fundamentais no processo da abolição, foram, infelizmente, num tom crítico exacerbado. O Fantástico escolheu falar sobre o racismo, que persiste, de acordo com a historiadora Lilia Moritz Schwarcz (USP) – figura onipresente em absolutamente todo o noticiário sobre o assunto –, por ser uma das consequências diretas da Lei Áurea, por esta “ter sido tão conservadora” – como se a promulgação de uma lei pudesse dar conta dos desdobramentos psicológicos de mais de 300 anos de escravidão.
O programa sustentou sua tese colocando placas com frases racistas, recentes e do passado, em locais movimentados da cidade de São Paulo, e pedindo para que os transeuntes as lessem. O resultado foi, no mínimo, curioso. Alguns não conseguiram lê-las até o final, considerando-as ofensivas demais para serem verbalizadas; outros disseram que, infelizmente, continuamos sustentando os mesmos separatismos do passado; outros ainda, ao lerem, sentiram-se tão emocionados que não puderam conter as lágrimas – voltarei a esses últimos, que eram negros, mais abaixo. Mas uma coisa é certa: a rejeição do racismo por parte de todos os entrevistados foi absoluta.
Fica a pergunta: como esse país pode ser racista?! Será que se algum entrevistado manifestasse o seu racismo publicamente, o programa não teria feito questão de mostrá-lo para, definitivamente, provar que o racismo existe? Mesmo as pessoas acusadas de racismo, como um professor da Escola Técnica Federal e um aluno da FGV, mostrados pelo programa, afirmaram, categoricamente, não serem racistas. E, se mentem, é mais uma prova da consciência que têm do quão condenável é tal comportamento. Os neonazistas, por exemplo, fazem questão de exibirem suas suásticas; e a Ku Klux Klan continua com suas reuniões regularmente nos EUA. Aqui, o “racista”, isolado, se esconde, pois sua atitude é condenada pela esmagadora maioria da sociedade.
A professora Lilia Schwarcz, reafirmando a tese de seu livro Nem preto, nem branco, muito pelo contrário (Claro Enigma), diz que o racismo persiste no país porque, durante muito tempo, assumimos a postura de pensar que o racista é sempre o outro, negando o problema. Ela toma a confusão das pessoas em não se dizerem racistas – mas, na mesma proporção, conhecerem pessoas racistas – como um racismo não assumido. Mas eu apostaria que essa confusão se dá por outro motivo: a dificuldade que temos para definir o que é racismo. Explico. O que leva uma pessoa a chamar outra de “macaco”, nem sempre denota uma noção consciente de raça; pode ser somente um desejo gratuito de ofender – por saber que o outro se sente ofendido ao ser chamado assim. Os motivos que levam um empresário a não contratar um funcionário negro, mesmo tendo mostras evidentes de sua superioridade profissional frente a um candidato não-negro, demonstra inicialmente, apenas um caso flagrante de mau empreendedorismo. Ou alguém que, apesar de ter amigos negros, não queira que sua filha se case com um negro, demonstra um preconceito que pode ter origem no próprio comportamento de seus amigos negros, ou, ainda, por uma tentativa de, tomando o racismo como uma realidade abjeta, querer proteger a filha de possíveis constrangimentos futuros.
Na obra supracitada, a historiadora diz, citando o grande Thomas Sowell, que mesmo que a definição de “raça” seja complicada – e o próprio Sowell demonstra que essa dificuldade suscita um sem-número de controvérsias –, o problema não se torna uma “falsa questão”, advertência com a qual concordo. Por outro lado, Sowell também afirma, em Intellectuals and Race, que “raça”, mais do que uma categoria social ou cultural, se transformou numa “indústria, com sua infraestrutura própria, suas subdivisões, incentivos e agendas”. A proliferação de departamentos acadêmicos e de pesquisa, de ONG’s, de um mercado específico baseado nessas categorias, faz com que os interessados no racismo como problema tratem de, cada vez mais, reafirmá-lo a fim de manterem suas posições. Negar o “racismo estrutural” seria ruir a estrutura que os sustenta.
Agora volto aos jovens negros que, lendo as frases racistas, choraram. Fiquei triste por perceber que o Movimento Negro, após descobrir conceitos como “microagressão”, vem transformando os jovens negros em verdadeiros fracos, incapazes de sentir orgulho de sua cor e presas fáceis de um sentimentalismo nocivo. “O sentimentalismo”, diz o psiquiatra britânico Theodore Dalrymple, em Podres de Mimados (É Realizações), “é a expressão da emoção sem julgamento. Talvez ele seja pior do que isso: é a expressão da emoção sem um reconhecimento de que o julgamento deveria fazer parte de como devemos reagir ao que vemos e ouvimos […] O sentimentalismo é, portanto, infantil (porque são as crianças que vivem em um mundo tão facilmente dicotomizável) e redutor da nossa humanidade”.
A reação daqueles jovens no Fantástico, diante de frases escritas em cavaletes, longe de qualquer possibilidade real de perigo, de ofensa, de racismo, no safe-space da Rede Globo, foi chocante para mim. Foi a constatação de que algo muito errado aconteceu a essa juventude. Outra jovem contou que se sentiu um objeto de pesquisa de sua professora, quando esta pediu para tocar em seu cabelo e disse – estupidamente, é verdade: “sempre quis tocar no cabelo de um negro”. Outra aluna entrevistada disse, em seguida, que “o racismo também está nessa microagressão”. Nesse caso, a pressão do Coletivo AfriCásper (!) – grupo criado “com o intuito de proporcionar a troca de informações, a realização de discussões relacionadas aos temas de interesse da comunidade negra, e também a interação da mesma com o ambiente universitário” – foi tão grande que, de acordo com informações de sites ligados ao Movimento Negro, a professora foi demitida.
O termo “microagressão” foi cunhado pelo psiquiatra americano Chester Middlebrook Pierce e popularizado pelo psicólogo Derald Wing Sue – que, recentemente, lamentou o uso excessivo e persecutório do termo, evidenciado numa planilha que circulou no site de algumas universidades americanas, listando exemplos de microagressões –, e vem sendo usado como ferramenta de vitimização da mais irrelevante e contraproducente geração de negros da História.
O efeito que tal conduta provoca é totalmente contrário ao esforço descomunal das gerações anteriores, que lutaram para criar uma identidade positiva da “raça negra”. Lembro-me da alegria que senti ao comprar a primeira Revista Raça, e ver negros sorridentes, bem-sucedidos, muito bem-vestidos (com roupas de grife), esbanjando beleza e bom gosto. Lembro também dos “Bailes Black”, das rodas de samba, das festas de família, ambientes nos quais o racismo era uma impressão – embora indelével – incapaz de minar nosso orgulho e nossa consciência. A agenda do Movimento Negro atual é projeto de poder, uma ideologia nociva que está transformando o mundo num caldeirão de ódio e ressentimento.
Luiz Gama, o grande advogado e abolicionista, é que poderia ser um exemplo para esses jovens coitadistas. Vendido como escravo pelo próprio pai, Gama conseguiu sua alforria e, de maneira obstinada, tornou-se o “advogado dos escravos”, com mais de 500 ações de libertação de escravos ganhas em sua brilhante carreira. Gama também era poeta, e manifestava em seus versos a enorme convicção de sua importância, carregada de uma altivez absolutamente genial. Em sua obra Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, publicado em 1861, no poema de abertura, Prótase, ele “confessa”:
Sobre as abas sentado do Parnaso,
Pois que subir não pude ao alto cume,
Qual pobre, de um Mosteiro à Portaria,
De trovas fabriquei este volume.
[…]
Grosseiras produções d’inculta mente,
Em horas de pachorra construídas;
Mas filhas de um bestunto que não rende
Torpe lisonja às almas fementidas.

Em seguida, dá uma lição espetacular de erudição e inventividade, em Lá Vai o Verso:
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei incontinente
O fio das idéias fui traçando.

As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.

Oh! Musa de Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d’urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
As vias me conduz d’alta grandeza.

Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões – aurifulgentes
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
O obscuro poder da parvoíce
E a fama levar de vil sandice
Às longínquas regiões da velha Báctria!

Quero que o mundo me encarando veja,
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta da Marimba augusta;
E, qual Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo –
As ferrenhas palhetas vai brandindo
Com estilo que preza a Líbia adusta.

Misturando a exaltação da poesia clássica, evoca, não as musas do Olimpo, mas da Guiné, demonstrando, surpreendentemente, um grande conhecimento da cultura africana.
Sobre o racismo que sofria, também faz troça em Quem sou Eu?:
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta…
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes…

Colocando, desse modo, todos os seres humanos – brancos, negros, pobres, ricos etc. – no mesmo patamar.
De acordo com a professora Elciene Azevedo, autora do livro biográfico Orfeu de Carapinha (Unicamp):
“O tom dado por Luiz Gama a seus poemas, longe de trazer uma imagem lamentativa do negro, ligada ao trabalho forçado e à vitimização do escravo, conduzia o leitor a um mundo negro dissociado do trabalho compulsório e valorizado em seus aspectos culturais. Por isso mesmo seus versos deviam ser um meio bastante eficaz de não só de denúncia como também de uma inovadora proposta social. Pode-se dizer a construção de uma identidade africana fundamentada na positivação do negro, e o argumento de que todos neste país de certa forma possuíam ascendência africana, são dois lados de uma mesma moeda”.
É exatamente isso que falta a esses jovens e ao Movimento Negro como um todo. Um senso de positivação não rancoroso; uma consciência negra não cativa de ideologias europeias que só fizeram diminuir o valor do negro na cultura brasileira em vez de exaltá-lo.
Que Deus nos ajude a mudar esse triste quadro.