sexta-feira, 7 de abril de 2017

Trump rasga rótulo de ‘isolacionista’ - Por Felipe Moura Brasil


Trump rasga rótulo de ‘isolacionista’

Ataque dos EUA na Síria confirma análise deste blog em entrevista a O Antagonista

I. O caso
Donald Trump, ao confirmar na quinta-feira (6) ter ordenado a ação militar dos Estados Unidos contra uma base aérea do regime sírio de Bashar Assad, rasgou mais um rótulo aplicado a ele pela imprensa: o de “isolacionista”.
Segundo o presidente, o alvo, em Homs, é o “aeroporto na Síria do qual se lançou o ataque químico” na terça-feira, que deixou mais de setenta mortos, entre os quais crianças.
“Assad sufocou indefesos”, disse Trump.
O republicano convocou “todas as nações civilizadas” a buscar o fim do “massacre e do derramamento de sangue” que assola a Síria, em guerra civil desde 2011.
II. O aviso
1) Em 19 de janeiro, no post “Explicando Trump“, que incluía a íntegra da minha entrevista ao site O Antagonista, fiz as seguintes distinções:
“(…) Trump, convém registrar, não é contra a existência (ou a liberdade):
– da imprensa livre por chamar de ‘Fake News’ (‘notícias falsas’) a CNN e o BuzzFeed;
– do estamento político por denunciar a corrupção em Washington;
– de intervenções militares por lamentar a Guerra do Iraque e buscar evitar qualquer conflito imediato com a Rússia;
– da imigração legal por propor medidas para reduzir a imigração ilegal;
– das zonas de livre comércio por cobrar acordos melhores e mais vantajosos para o povo dos Estados Unidos;
– nem muito menos da globalização (o fenômeno mundial de abertura ao livre comércio entre empresas e indivíduos de países distintos) por rejeitar o globalismo (a concentração de poder transnacional em uma elite de burocratas não eleitos), que é talvez o seu oposto, tendo sido a causa maior da saída do Reino Unido da União Europeia pelo Brexit.
Essas distinções são essenciais para compreender Trump antes de tomar qualquer posição sobre ele e suas propostas, mas a demonização voluntária feita pela imprensa (…) causa uma confusão dos diabos: uma espécie de confusão metonímica, na qual se confunde a parte com o todo e vice-versa.”
2) Destaco abaixo um trecho daquela gentil entrevista.
“O Antagonista – Sou um homem da Guerra Fria, sempre defendi a supremacia dos Estados Unidos e o dever dos americanos de defender o mundo livre contra as tiranias. Você não considera assustador o discurso isolacionista de Donald Trump, que exacerba o acovardamento de Barack Obama?
FMB: É cedo para me assustar, porque não encaixo exatamente na categoria do isolacionismo, seja econômico ou militar, o discurso de Trump até aqui.
Ele é um homem prático, um negociador pragmático que busca, com ameaças e estratégias ousadas, garantir maiores vantagens para o lado que defende em qualquer negociação, não um intelectual ou ideólogo com diretrizes doutrinárias a seguir independentemente do cenário circunstancial.”
Pois bem.
Alegadamente, diante do cenário circunstancial de um ataque químico que deixou mais de setenta mortos, entre os quais crianças, Trump deu a ordem para o bombardeio de retaliação.
O Antagonista, claro, está aliviado: “Viva os americanos”.
III. As reações
A despeito de numerosas teorias que já circulam nas redes, ainda é cedo para ter certeza sobre as próprias circunstâncias e os reais motivos e objetivos da intervenção militar dos EUA na Síriaou fazer juízo de valor a seu respeito, até porque nem todas as informações de Inteligência são tornadas públicas.
No entanto, como Trump, o isolacionismo e o intervencionismo dividem internamente tanto a esquerda quanto a direita americanas, as reações ao ataque são variadas.
A decisão de Trump está sendo apoiada por vários de seus mais ferrenhos adversários e críticos, seja no Partido Democrata, com Hillary Clinton e outros, seja no Partido Republicano, com John McCain e Marco Rubio, seja entre autores conservadores, como Ben Shapiro; mas também por apoiadores de Trump, como Mark Levin, Laura Ingraham e alguns comentaristas da Fox News.
A decisão está sendo esculhambada por vários dos maiores defensores de Trump, como a conservadora Ann Coulter, o colunista do site InfoWars Paul Joseph Watson e a turma do Breitbart, o site ligado a Steve Bannon, chefe de Estratégia da Casa Branca que, de modo sintomático, foi afastado por Trump do influente Conselho de Segurança Nacional (NSC) às vésperas da intervenção.
Já o radialista conservador Rush Limbaugh ofereceu, com ironia, aos “esquerdistas assustados” a seguinte explicação:
“A Síria mentiu para Barack Obama e [seu então secretário de Estado] John Kerry sobre ter se livrado de armas de destruição em massa… Este ataque foi tomado para defender a honra de Obama. A ‘Linha Vermelha’ de Trump foi terem mentido para o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Fica melhor assim?”
Obama havia estabelecido o uso de armas químicas na Síria como “Linha Vermelha”, isto é, o limite que Assad não poderia cruzar, embora não tenha retaliado o regime quando surgiu a notícia, ainda durante seu governo, de que Assad as usou.
Para o site Wikileaks, sempre acusado de associação com os russos, Trump teria caído em uma armadilha, enganado pelo complexo militar e pela burocracia governamental.
O presidente russo Vladimir Putin, aliado de Assad, foi mais incisivo: condenou o ataque dos EUA como “agressão a um Estado soberano” baseada em “pretextos inventados”, e ainda suspendeu a coordenação militar que tinha com os EUA na Síria.
Como a equipe de Trump vem sendo acusada de conluio com Putin para a vitória eleitoral, é curioso assistir à reação dos acusadores agora que os dois estão em lados opostos.
Naturalmente, portanto, surgem desde já as teorias de que Trump quis provar, com o ataque, o desprendimento em relação a Putin; e até de que tudo não passa de um teatro armado por ambos.
Com uma ou outra exceção, porém, o elemento mais comum entre imprensa, “especialistas”, adversários e, dessa vez, até defensores de Trump é a surpresa.
Para os leitores deste blog – que faz análise, não torcida –, mais uma vez surpresa não há.
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