quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Leandro Narloch: "Me recuso a acreditar que apropriação cultural seja uma polêmica"



Folha de São Paulo


Me recuso a debater apropriação cultural. Me recuso a acreditar que esse debate existe.

Minha timeline passou a semana pingando comentários sobre o caso da jovem com câncer que usava turbante no ônibus e foi abordada por mulheres que a acusaram de se apropriar de elementos da cultura negra.

Prefiro não acreditar nessa história. Prefiro acreditar que é uma fanfic, uma história falsa criada só para causar. Não pode ser verdade que pessoas considerem uma apropriação indevida usar uma peça de roupa.

Reprodução/Facebook
"Vou contar o que houve ontem, pra entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural:Eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo " olha lá a branquinha se apropriando dá nossa cultura", enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei "tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus.", Peguei e sai e ela ficou com cara de tacho. E sinceramente, não vejo qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade em, meu Deus!#VaiTerTodosDeTurbanteSimFoto dá negra branca mais chave que vocês conhecem, Juro que tentei tirar uma foto decente, mas não deu. Foi mal!"
Thauane Cordeiro, em foto postada em rede social


Perguntei a um amigo de esquerda o que a turma dele acha da tal apropriação cultural. "Qualquer um com mais de 28 anos acha essa polêmica uma tolice", disse ele, para meu alívio.

Bisbilhotei o perfil de blogueiras negras que reivindicam o monopólio de turbantes e cortes de cabelo. São adolescentes que intercalam críticas à apropriação cultural com dicas de beleza e comentários sobre peguetes. Poucas sabem onde botar a vírgula. Ufa! Não preciso levá-las a sério.

Mas um amigo que dava aula em Londres me deixou assustado. Disse que o debate existe mesmo, que já é um ato de rebeldia, em universidades americanas e europeias, uma branca ir para a aula de turbante ou cabelo black power. "Não é mais um ato sem significado, mas de alguém querendo polemizar."

"Só pode ser pegadinha!", respondi. Daqui um tempo professores de estudos culturais de alguma universidade estrangeira revelarão que tudo não passou de um experimento. Inventaram uma problematização absurda e resolveram testar a capacidade dela se difundir e fundamentar regras moralistas.

"Nosso estudo comprova a extrema facilidade da dispersão de narrativas de opressão que fundamentam a imposição de regras de conduta", dirão eles na conclusão de algum artigo científico.

Se eu fosse entrar nesse debate, teria que apresentar argumentos óbvios sobre a beleza da mistura de culturas, a ótima notícia que é brancos aderirem à moda afro, o fato de não existir cultura sem apropriação. É melhor deixar pra lá e não cansar o leitor com argumentos tão repetidos.

Vejam: os subterrâneos fétidos da internet abrigam a qualquer tipo de maluco. Se procurarmos direitinho, vamos achar de tudo: defensores do Hitler, do Kim Jong-un, dos drinques com coentro. Não dá pra se revoltar com qualquer um. 

Precisamos ser mais seletivos com nossas histerias virtuais.

O melhor é não entrar na polêmica. Se discutirmos qualquer bobagem, daqui a pouco vamos debater se a Terra se move, se dois mais dois é quatro, se é preciso proibir algumas marchinhas de Carnaval (ops, isso já estamos discutindo).

Como diz minha mãe, "vai carpir um lote e pagar umas contas pra parar de pensar bobagem". Nunca esse conselho foi tão útil.

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