sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A ESCOLA PÚBLICA VAI BEM, OBRIGADA - Paula Rosiska

Se a principal missão que lhe foi atribuída é incluir a todos, até mesmo os que não querem estudar, ela tem cumprido com sucesso.
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No último dia 4 foi noticiado no Jornal Hoje que, das 100 escolas brasileiras com melhor desempenho no ENEM, apenas 3 são públicas. Os apresentadores, num tom que misturava decepção e preocupação, anunciaram uma matéria com as 3 escolas que se destacaram e o diagnóstico foi: “O diferencial? A escola tem jornada ampliada, com aulas à tarde duas vezes por semana”. Em seguida, a diretora fala sobre a visão e os valores da instituição, naquele pedagogês que faz qualquer professor com mais de 5 anos de carreira revirar os olhos de tédio.
Nossa, que fácil, não? Basta aumentar a quantidade de horas que o aluno passa na escola e a qualidade do ensino será uma consequência? Então por que o ensino hoje é muito inferior ao dos anos 50, quando as crianças passavam somente três horas e meia na escola, durante 180 dias letivos?
Fato é que o jovem de hoje não está lá muito a fim de aprender. No excelente artigo de Paulo Cruz para a Gazeta do Povo lemos:
Nossos governantes ignoram que o aluno atual não quer estudar. Ele vai à escola para “socializar”, como dizem os pedagogos; vai pelo Bolsa Família, pelas drogas, pela namorada, pela merenda; menos pelo ensino. Esperar que ele vença o niilismo de sua geração e escolha qual disciplina prefere é superestimar sua capacidade, hoje movida quase que exclusivamente por uma espécie de prazer suicida. Generalizo, mas não muito. Sem falar no total cerceamento politicamente correto das sanções disciplinares: o aluno faz o que quer.
Para economizar o salário de profissionais especialistas, bem como a construção de instalações adequadas para alunos com deficiência, alguém teve a ideia de colocar todos juntos nas escolas regulares e chamar de inclusão. Numa turma com 30 alunos de 6 anos de idade, há autistas, portadores de Síndrome de Down e de transtorno global de personalidade, alunos com baixa visão e baixa audição.
Evidentemente que a única professora da sala é responsável por selecionar materiais em braile, aprender libras, criar atividades diferenciadas para os deficientes mentais e dar conta dos outros 25 que estão correndo pela sala, aos berros. E, provavelmente, dentre os que não possuem nenhuma deficiência, estarão os alunos que mais trazem problemas à turma: os violentos, os provocadores e os que não se contentam em apenas não realizar nenhuma atividade durante o dia inteiro, mas dão um jeito de impedir que os outros façam também, escondendo seu material, rasgando suas folhas, etc.
A história se repete até o nono ano, quando alguns desses alunos que já apresentavam comportamentos inaceitáveis (bater em colegas e professores, depredar a escola, espalhar fezes por todas as paredes dos banheiros) tiveram tempo o bastante para perceber que nada lhes aconteceria. Então está na hora de ganhar um dinheirinho, e eles passam vender drogas para os colegas. O professor reza antes de entrar na sala, porque sabe que fatalmente será desrespeitado por esses jovens. Não se pode expulsá-los, pois o ECA diz que todos devem ter acesso ao estudo.
A reprovação é um caso a se pensar. É um prêmio. Ele passará mais um ano gastando o dinheiro do contribuinte, com transporte, material, merenda, água, luz e, de brinde, manterá sua clientela. Promovê-lo é injusto com os coitados que tentaram estudar numa sala em que ele era o ditador e não permitia que as aulas acontecessem. Sim, há sempre esse impasse.
Você reprovaria este aluno e conviveria com ele mais um ano ou daria um jeito de promovê-lo?

Professores se queixam dessa situação – a altíssima quantidade de professores com doenças psiquiátricas não é resultado dos baixos salários, embora os sindicatos pareçam se importar somente com isso – e os “pensadores” da Educação, aqueles que ficam no conforto do lar se lembrando do seu tempo de escola, vão dar palestras nas jornadas de qualificação profissional. Nesses encontros, entre algumas metáforas cafonas do tipo “alunos são como borboletas no casulo, um dia rompem a casca e voam com beleza por aí”, dizem que basta ter um pouco de amor para fazer a diferença.
Ou seja: para esses gênios, a coisa não dá certo porque não há amor no profissional que está sendo agredido por adolescentes. Não há amor no coração do profissional que optou pela carreira em turmas regulares e agora é obrigado, sem ter formação para tal, a atuar como especialista em todos os tipos de deficiência. Não há amor na pessoa que se esforça, gasta o pouco que recebe comprando projetores, amplificadores, folhas de sulfite e quaisquer outros materiais que nunca são encontrados (ou sempre estão quebrados) nas escolas para tentar oferecer aulas melhores e ainda se vê competindo com os fones vazando a música alta dos ouvidos de quem não está prestando a menor atenção em qualquer coisa.
Também são esses especialistas em Educação que, se perguntados sobre o baixíssimo desempenho das escolas públicas nas avaliações nacionais, prontamente dirão que é necessário qualificar os professores, para que estejam em consonância com as novas tecnologias e as necessidades dos jovens de hoje.
Falam isso pensando, talvez, nos alunos da novela Malhação. E claro, nos poderes mágicos da educação em tempo integral, que oferecerá aos estudantes do ensino médio da maioria das escolas do país a oportunidade de passar mais tempo em sala de aula para mexer no WhatsApp (ou conversar, namorar, ouvir música, dormir, etc).
Imagem que circula atualmente no Facebook
Imagem que circula atualmente no Facebook
Há tempos se determinou que a escola pública deve incluir a todos. O professor é chamado de educador e vai ter de ensinar o que algumas famílias têm deixado de ensinar. Vai ter de entender os chiliques, os ataques de raiva, as agressões, a apatia, a vontade de não fazer nada, o deboche, o linguajar chulo, os palavrões gritados nos corredores. Porque todas aquelas pessoas ganharam o status de “estudantes”, ainda que jamais estudem, apenas por terem preenchido a ficha de matrícula. E nada lhes pode ser cobrado, sequer os vidros que quebram de propósito, até diante das câmeras. Os verdadeiros estudantes que lá estão também precisarão de doses infinitas de paciência e motivação para continuar frequentando as aulas, observando injustiças, apanhando dos colegas e tentando ouvir as explicações ou se concentrar na leitura em meio ao barulho infernal.
O papel da escola pública, portanto, não é mais o de ensinar. É o que ficar com as pessoas lá dentro e lhes dar um certificado ao término do ciclo. Ela tem cumprido bem o papel que lhe foi destinado. Estranho mesmo é a cara de surpresa e preocupação quando constatam que não há qualidade de ensino. É meio óbvio, mas vamos a um trecho da reportagem da Veja sobre isso:
“Das 100 primeiras escolas no ranking do MEC, como já era esperado, 97 são particulares e apenas três públicas – todas as três federais, instituições que recebem mais dinheiro e fazem estreita peneira para o ingresso. No grupo das 1000 melhores, 49 são públicas, resultado ainda pior do que o do ano anterior: no ranking de 2014, eram 93.”

Teste rápido:
As escolas que têm melhor desempenho nos testes são aquelas que:
a. Empregam professores que têm amor.
b. Possuem jornada integral e os melhores computadores do universo.
c. Selecionam os alunos que nela estudarão.

Acertou quem marcou a letra c. Bons resultados dependem muito mais de bons alunos do que de bons professores, haja vista que o profissional pode ter pós-doutorado na área e o carisma do Silvio Santos, mas se a turma não o deixa abrir a boca nem para dar bom dia, todo o seu conhecimento e técnica serão inúteis.
Quem tem os melhores alunos, o faz por meio de processos seletivos. Toda seleção é uma exclusão. Portanto, se o objetivo é incluir até mesmo quem não quer estudar, é impossível ter excelentes resultados. A comparação entre escolas públicas regulares e ETECs ou federais é extremamente injusta sob esse aspecto. Essas selecionam a clientela pelo nível de conhecimento enquanto aquelas não podem sequer se dar ao luxo de não aceitar a matrícula de alunos com histórico de violência ou indisciplina.
A escola pública é exatamente aquilo que muitos educadores, intelectuais, governantes e pais almejavam antigamente: responsável pelo leite, pela merenda, pelo material, pelo uniforme, pelo lúdico, pela socialização, pelo nenhum-a-menos, pela convivência, pelo coletivo… E, às vezes, quando dá, pelo ensino.
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