terça-feira, 27 de setembro de 2016

Sou formado em Filosofia. E acho que ela deveria sair da grade obrigatória do Ensino Médio. Por Joel Pinheiro.

Sou formado em Filosofia. E acho que ela deveria sair da grade obrigatória do Ensino Médio.

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Fiz minha graduação na Filosofia da USP, onde também fiz o mestrado. Meu objeto de estudo era Tomás de Aquino, um filósofo e teólogo do século 13. Considero a Filosofia algo que poderia ajudar na formação de muita gente – mesmo de muitos que não vão querer cursá-la na faculdade – e adoro encontrar pessoas com os mesmos interesses que eu. As questões mais importantes da vida e do universo não podem ser respondidas com números e experimentos científicos; é o nosso pensamento que terá que encontrar respostas e formular novas perguntas.
Não sou, como podem ver, um cara de Exatas. Não quero transformar os jovens estudantes brasileiros em engenheiros e advogados. E, mesmo assim, sou contra a obrigatoriedade de Filosofia no Ensino Médio. Ué?
 
Sim, é isso mesmo. Não achei uma boa ideia quando tornaram a matéria obrigatória em 2008 e agora defendo que ela volte a ser opcional, como talvez aconteça graças à reforma educacional que o governo Temer quer passar. Não tenho opinião sobre o documento todo; algumas coisas me parecem boas – fim da burocracia inútil que era um graduado ter que tirar licenciatura para dar aula em colégio – e outras nem tanto, como o período integral para todo mundo.
Seja como for, a ideia de tirar Filosofia (e Sociologia) do currículo obrigatório faz todo o sentido. Em primeiro lugar por uma razão muito simples: nossos alunos não sabem ler.
Segundo pesquisa do Inaf, 92% dos brasileiros não estão plenamente alfabetizados. Isso significa que não conseguem ler e entender um texto minimamente complexo. O mesmo vale para habilidade com números: poucos sabem calcular uma fração ou uma mísera taxa de juros; e vai todo mundo pro crediário. O Brasil tem falhas muito profundas em seu ensino básico, que se refletem, por exemplo, em nossos resultados pífios em exames internacionais, como o PISA, em que ficamos na posição 60 de 76 países participantes.
Falhamos em passar para nossos jovens conteúdos elementares, essenciais para todo o resto. Com uma base sólida de leitura, escrita, matemática e pensamento lógico, sabendo formular argumentos e se expressar de maneira clara, a pessoa está capacitada para aprender qualquer outro conteúdo. Sem essa base, todo o resto fica comprometido. De que adianta discutir metafísica se o aluno não consegue seguir um texto argumentativo?
Obrigar as escolas a gastar seus recursos (não só dinheiro, mas também o tempo dos professores e a atenção dos alunos, que é escassa) em matérias não essenciais prejudica a capacidade de passar esse conteúdo primário, esse ferramental para todo o resto do saber.
Além disso, entre todas as matérias possíveis para se aprender na escola, quem disse que Filosofia é tão importante que precise ser obrigatória? Por que não economia, Direito, teatro, religiões, programação, astronomia, robótica? O MEC sempre cede à tentação de querer determinar nos mínimos detalhes como deve ser a formação de todo aluno brasileiro; quer uniformizar, padronizar, não permitir que nada fuja de seu controle. Desde a quantidade de dias e horas de aula até os conteúdos a serem aprendidos, está tudo no papel.
Ao invés disso, o MEC deveria se ater a um núcleo mínimo de conteúdos essenciais, cobrados de todas as escolas. De resto, liberdade. Cada escola poderia escolher como montar a formação de seus alunos, que matérias oferecer, quais professores contratar, etc. Isso permitiria que a educação – garantindo aquele mínimo sem o qual ninguém aprende nada – se moldasse a diversas realidades locais e mesmo, quando possível, à preferência dos alunos.
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Os recursos são escassos. Talvez ofertar Filosofia para todo o Ensino Médio não seja a melhor escolha para uma escola na qual a alfabetização e numeração ainda demandem esforços. Outra, com uma cultura, mais de Exatas, pode preferir contratar um físico quântico e não um filósofo. Cada escola tem que pesar, dentro de suas condições e oportunidades, como fornecer aos alunos a melhor formação que as circunstâncias permitem. Impor uma obrigação extra não cria recursos para as escolas; apenas compromete a liberdade de usá-los da maneira que se considera melhor. Não existe apenas uma resposta certa. Não é preciso que apenas um modelo seja aplicado em todo o país.
Sim, para as pessoas formadas em filosofia, os candidatos naturais à vaga de professor de filosofia no colegial, o fim da obrigatoriedade significará menos vagas de trabalho. Mas não sua extinção: muitas escolas continuarão com aula de filosofia. Seja como for, a educação brasileira tem a ganhar. Filosofia foi central na minha formação, e adoro compartilhá-la com jovens que também lutam com as grandes questões; mas isso não me leva à arrogância de afirmar que é o caminho absolutamente necessário a todos os estudantes do Brasil.

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