domingo, 30 de junho de 2013

FUTEBOL E POLÍTICA - RAFAEL BRASIL

A seleção brasileira ganhou a copa das confederações, torneio patrocinado pela FIFA. Ganhou com raça e talento, a melhor seleção do mundo, e não é porque perdeu que deixará de ser a melhor, pelo menos no momento. O que senti foi que, a raça dos jogadores refletiu o nacionalismo da massa, nestes tempos de manifestações contra nosso "modelo" digamos, sócio político institucional. Como a seleção é do povo, coube aos jogadores salvarem um dos patrimônios nacionais mais populares, que é jogar bem o futebol. Na copa das confederações, começamos por baixo. Como aliás na copa de setenta, quando a seleção saiu do Brasil vaiada. O selecionado de certa forma lavou a alma do povo, com humildade , determinação e muita garra. Ao contrário dos políticos e administradores do Brasil, que são mesquinhos, cínicos, corruptos e covardes. A começar pelos integrantes e aliados do governo. Por falar nisso, Dilma nem apareceu com medo de vaia. Lula está na tocaia, fritando a sua ex gerentona palanqueira. No momento, boa parte do povo pede sua volta, assim atestam as pesquisas. Mas, campanha é campanha, e Lula vai se desvencilhar facilmente de sua criatura? E como vai esconder suas inúmeras ramificações do seu grande rabo de palha, com mensalão, caso Rosemary, filho milionário, beijos em Sarney, Maluf, e o escambau, tudo isso vai ficar sendo escondido do povo? E se o mesmo ganhar, como a volta do rei Sebastião, como vai governar, sem nenhum paradigma? Veremos como vão desenrolar os acontecimentos. Que Deus salve o Brasil. E viva a seleção!

DORA KRAMER: 'APROPRIAÇÃO INDÉBITA'


‘Apropriação indébita’, por Dora Kramer

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO
DORA KRAMER
Quando o presidente do Senado  alvo de processo no Supremo Tribunal Federal por peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos posa como um dos principais condutores do processo de ouvidoria das ruas que reclamam, entre outras coisas, por uma trava da corrupção, há uma patente dissonância entre as mensagens e a confiabilidade dos candidatos a mensageiros.
O senador Renan Calheiros, suas suspeitas circunstâncias e a insensibilidade do Senado ao reconduzi-lo à presidência são componentes da bomba que explodiu em forma de exaustão. As excelências seguem tentando ignorar essa evidência; por cinismo ou impossibilidade de questionar institucionalmente um papel cuja legitimidade a Casa conferiu a ele, não importa.
Fato é que Calheiros no papel de arauto das ruas é o retrato resumido e invertido de todos os que agora reagem como se não tivessem nada a ver com a mensagem, tentando fazer bonito sem reconhecer tudo o que fizeram de feio nem se dispor a garantir que daqui para frente tudo vai ser diferente.
O senador é apenas parte do cenário de desfaçatez e apropriação indevida dos reclamos. Nele atua um elenco enorme no Legislativo com seus atos secretos e convivência cordial com processados, investigados e condenados; no Executivo, com catequese ufanista e exuberante ineficiência emoldurada por 39 ministérios.
Esses atores contaram com a passividade da sociedade, que realmente parecia eterna, incurável e contagiosa. Quando a massa resolveu mudar o tom da conversa de maneira contagiante, transformaram-se todos subitamente em porta-bandeiras dos avanços como se não fossem eles mesmos os mestres-salas do atraso.
O Judiciário, a despeito de suas deformações sobre as quais dão notícia privilégios corporativos e maus serviços prestados no dia a dia, merece ressalva na figura do Supremo Tribunal Federal.
Foi o primeiro a perceber que era preciso abrir os ouvidos às demandas da sociedade e por isso foi acusado, pelos mesmos engenheiros de obra feita de agora, de praticar ativismo indevido e usurpar poderes dos Poderes inativos. Demorou, é verdade, mas deu uma resposta efetiva ao não permitir mais protelações na execução da pena do deputado Natan Donadon.
As demais providências  pactos, cancelamentos de reajustes, anúncios de investimentos, endurecimento de leis e um plebiscito sem fio terra  por ora são terrenos vendidos em paraíso imaginário. Produtos de uma hiperatividade de ocasião.
E até que se corrijam falhas, se reconheçam erros cometidos e se firme um compromisso em torno de procedimentos totalmente diferentes, não merecem credibilidade. Tanto soam oportunistas esses valentes soldados de causas até então solenemente ignoradas, que não há disposição de trégua à vista.
O governador Eduardo Campos, de Pernambuco, fez esse alerta. Não atraiu muita atenção e ficou perdido em meio a declarações e reações desencontradas de autoridades que, conforme apontou, ainda atuam no modo analógico enquanto a sociedade já opera “no sistema digital”.
É um aviso importante para todas as forças políticas, de governo e de oposição: pegar carona nos movimentos não será suficiente para que nenhuma delas consiga capitalizar eleitoralmente o descontentamento.

CARLOS ALBERTO SAREMBERG: 'A CONTA VAI PARA O POVO'


30/06/2013
 às 13:09 \ Feira Livre

‘A conta vai para o povo’, um texto de Carlos Alberto Sardenberg

PUBLICADO NO GLOBO
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Que tal um aumento de 15% na conta de luz a partir da semana que vem? Pois é o que os consumidores do Paraná deveriam pagar se o reajuste não tivesse sido cancelado pelo governador do estado, Beto Richa.
A rigor, ele não poderia fazer isso, mesmo sendo uma estatal estadual a principal distribuidora de energia, a Copel. A empresa é pública, tem ações negociadas na Bovespa e o reajuste foi determinado pela Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel, conforme a estrita regra do jogo.
Mas, sabe como é, 15% na conta de luz quando os manifestantes contra as tarifas de ônibus nem voltaram para casa? Conversa daqui e dali, todo mundo quebrou o galho.
A Aneel não poderia revogar a nova tarifa, mas topou suspender seu “efeito financeiro”, eufemismo para cobrança. A empresa, cujas ações despencaram quando saiu essa notícia, garantiu ao mercado que será ressarcida de algum modo, não sabendo quando, nem como.
Acontece que os custos da Copel efetivamente subiram ─ e não por culpa dela. A inflação fez uma parte do estrago, mas o custo maior veio da compra de energia mais cara.
Foi o seguinte: choveu pouco, os reservatórios das hidrelétricas ficaram em níveis muito baixos e o Operador Nacional do Sistema, órgão federal que administra o setor, mandou ligar as usinas térmicas, movidas a carvão, diesel e gás, cujo produto é mais caro.
Em resumo, por causa da seca, a energia elétrica ficou mais cara no Brasil ─ e isso logo depois de a presidente Dilma ter feito a maior propaganda com a redução que havia imposto nas contas de luz.
Deu a maior confusão, uma sucessão de prejuízos: as hidrelétricas não puderam gerar, mas tinham que entregar energia, por contrato; distribuidoras tiveram que pagar mais caro.
A conta deveria ir para os consumidores, mas a presidente não queria. Assim, inicialmente, arrumaram um arranjo financeiro, com prejuízos para geradoras e distribuidoras, mas uma hora a conta deveria ser passada aos consumidores finais, empresas e residências.
Era agora. Além da Copel, nada menos que 17 distribuidoras, divididas por 13 estados, têm reajustes agendados no calendário oficial da Aneel para julho e agosto. (A Light, só em 7 de novembro.)
O presidente da Empresa de Pesquisa Energética, estatal federal que planeja o setor, Mauricio Tolmasquim, disse que não há orientação do governo para suspender os aumentos tarifários. Ou seja, a Aneel continuaria a formalizar os reajustes.
Mas ninguém acredita que serão aplicados, ainda mais depois do precedente da Copel. Caímos assim em um caso clássico: tarifas congeladas por razões políticas, mas custos em alta por causa da inflação e de falhas do sistema. Se continuar assim, a consequência também é clássica: param os investimentos e o serviço piora.
Os governos ─ federal e estaduais ─ podem assumir parte da conta, deixando de recolher os impostos. O maior imposto na conta de luz é o ICMS, estadual. (Nada menos que 29% no Paraná, por exemplo.)
Acontece que os governos também estão sob pressão popular para, numa ponta, aumentar gasto em transporte, educação e saúde, e, na outra, reduzir impostos.
Muita gente acha que basta eliminar a corrupção e lucros excessivos das empresas para que todos os objetivos sejam alcançados. Infelizmente não é assim. Há corrupção, certamente, e deve haver gorduras em muitas tarifas de diversos setores, mas o problema maior é a falta de investimentos e de produtividade. Ou seja, é preciso colocar dinheiro novo em todo o setor de infraestrutura.
O governo federal e muitos estaduais decidiram-se pelas privatizações exatamente em busca de capital e eficiência. Mas é claro que o setor privado vai agora pensar muito antes de entrar em qualquer negócio, considerando a pressão popular e política contras as tarifas ─ a receita do setor.
Eis a difícil situação em que estamos nos metendo. As pessoas estão certas na sua bronca: pagam caro (nas tarifas e nos impostos) por serviços ruins. Não aconteceu por acaso, mas por anos de gestão pública ruim — com gastos elevados em custeio, pessoal e previdência e muito baixos em investimentos, sem abertura de espaço para o investimento privado.
Acrescente a inflação que o governo federal deixou escapar e, para o problema ficar completo, só falta o festival de gastos que o Congresso está preparando. Derrubar tarifas é politicamente inevitável. Mas do jeito que está sendo feito, vai levar a mais déficit público, juros maiores, mais inflação e menos crescimento. Ou seja, a conta vai de novo para o povo.

RUTH DE AQUINO: LULA VERSUS DILMA


Lula versus Dilma - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo?

Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça. Lula é seu nome. O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para protestar contra uma herança maldita. Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no país e no exterior? Só aparece na boa? Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar? O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o ex-presidente do Senado sob o argumento de que "Sarney não pode ser julgado como homem comum"... O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, "o novo"... O Lula que se uniu "aos picaretas do Congresso"... O Lula que quis reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe seu bloco na rua numa hora dessas? Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem Palocci, Lula impôs seu nome.
A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a colocou nessa roubada de "mãe do PAC". Sabe que recebeu uma herança de corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de re-presentatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais, impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes, cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos. O Brasil já era assim quando ela foi eleita.
O Lula presidente se lamentava da "herança maldita" de Fernando Henrique Cardoso. Dilma não pode dizer nada nem parecido. Lula teve oito anos para mudar o caráter do Brasil para melhor. Tinha tudo. Tinha uma história de defesa da liberdade e dos direitos humanos, tinha credibilidade e a legitimidade do voto, tinha nas mãos a esperança de tantos jovens aglutinados pela estrela do PT. E por tantas bandeiras no ar. A ética. A educação e a saúde de qualidade ao alcance de todos. As creches, o transporte de massa. Mas Lula achou que o Bolsa Família seria suficiente.
Os jovens que protestam agora, em paz ou com raiva, mal chegavam aos 10 anos de idade quando a eleição de Lula emocionou o Brasil. A geração YouTube deveria rever a bela cerimônia em que FHC passou o poder a Lula. Se, na última década, a oposição fracassou com a juventude, imagine a autocrítica do PT. Um partido que inchou com siglas infiltradas e perdeu companheiros de raiz. Uns saíram por racha ideológico, outros por convicção de que nada mudaria na essência, e outros ainda porque foram processados, cassados e condenados.
Os jovens brasileiros de 16 a 18 anos, para quem o voto é facultativo, se afastaram das urnas e, até umas semanas atrás, pareciam alienados. Eles não acreditam nos partidos. Quem de bom-senso ainda acredita, a não ser os que ganham o pão - e os dólares - com a política partidária? Por isso a ideia de candidatura avulsa, endossada pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa, ganha força. Joaquim defendeu um "recall" nacional dos políticos. Já pensou se os eleitores passam a ter o direito de revogar mandatos e de expulsar políticos de cargos? Renan continua com aquele sorrisinho pregado no rosto em todas as fotos. Até quando, Calheiros? Na semana passada, Dilma virou a Geni. Tudo que disse e desdisse levou pedra de aliados e oposicionistas. Uns vândalos. Constituinte, plebiscito, referendo, pactos, apelos, nada pegou bem, nem com a maquiagem e o penteado que custaram R$ 3.125. A presidente está isolada por seus pares e ímpares. Sua sorte é que, até agora, não há líderes oposicionistas com discurso consistente para o futuro do país. Aécio Neves converteu-se a uma pálida sombra do que poderia ser. Marina Silva virou uma analista em cima do muro, com o aposto de "evangélica". Eduardo Campos desistiu do combate às claras e age nos bastidores à espera de uma derrapagem fatal.
E Lula... Bem, Lula recebeu alguns jovens em seu instituto. A aliados, diz-se que acusou Dilma de cometer "barbeiragens" na articulação e na resposta à nação. Lula é hoje a pedra mais incômoda no sapato alto da presidente.

ÉLIO GASPARI: ' A PASSEATA DE 1968 FOI O FIM DE UM CICLO'

GERAL

A passeata de 1968 foi o fim de um ciclo, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo
Na semana passada, enquanto as multidões continuavam nas ruas, ecoou a memória da Passeata dos Cem Mil, de 26 de junho de 1968. A geração daqueles dias, com sua magnífica experiência, atribuiu-se uma capacidade de explicar o presente fazendo paralelos com o que viveu. Assim, além de não se explicar o presente, frequentemente muda-se o passado.
No dia 26 de junho de 1968, aconteceram duas coisas. Às 4h30m da madrugada, o soldado Mario Kozel Filho, de 18 anos, estava na guarita de sentinela do QG do II Exército, no Parque do Ibirapuera, e viu uma caminhonete C-14 vindo em direção ao portão do quartel.
Desgovernada, ela parou num muro. O soldado foi ver o que era, e a C-14, com 50 quilos de dinamite, explodiu e matou-o. Horas depois, numa bela tarde do Rio, a passeata saiu pela avenida.


Contavam-se nos dedos as pessoas que gritavam “O povo unido jamais será vencido” dando importância à Vanguarda Popular Revolucionária, que explodira a bomba no Ibirapuera.
Seis meses depois, o governo baixou o AI-5, ninguém foi para a rua, e o Brasil entrou no seu pior período ditatorial. Não foi a passeata que levou a isso. Ela era o fim de um ciclo. A bomba e o interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época foram o início de outro.
Festejando-se a memória da passeata, varreu-se para baixo do tapete a lembrança de um erro catastrófico. Passaram-se 45 anos, e centenas de pessoas que participaram de atos terroristas maquiaram-se como combatentes da causa democrática. Lutavam contra uma ditadura, em busca de outra, delas.
É o caso de se perguntar: o que é que isso tem a ver com o que está acontecendo no Brasil de hoje? Nada.
O professor Pedro Malan já disse que no Brasil não só o futuro é imprevisível, mas também o passado.
O sumiço da bomba do Ibirapuera na memória do 26 de junho de 1968 mostra que ele tem razão. Quem queria golpear a democracia? Cada um tem direito a responder como bem entender.
O que não se pode é achar que há 45 anos tanto o marechal Costa e Silva como os tripulantes do comboio que levou a bomba ao QG do Ibirapuera quisessem defendê-la.

REINALDO AZEVEDO: DILMA É VAIADA EM EVENTO DE EVANGÉLICOS



30/06/2013
 às 6:19

Dilma é vaiada em evento de evangélicos que reúne centenas de milhares de pessoas. Ou: Os protestos e a exaltação dos que respeitam a ordem democrática e o estado de direito

Sei que a questão mexe com o fígado de muitos dos nossos ditos “progressistas”, que suportam, claro!, a diferença desde que os diferentes se calem e não digam o que pensam. Neste sábado, em São Paulo, a Marcha para Jesus, organizada por igrejas evangélicas, reuniu, segundo os organizadores, 2 milhões de pessoas. Digamos que estejam exagerando. A Polícia Militar fala em 800 mil. É gente que não acaba mais. O tratamento dado por nossa imprensa, quando se ocupa do assunto, é discreto — e, se possível, sempre por um viés que tenta caracterizar aquela massa como expressão do atraso. Atenção! Até as 18h — depois disso, não sei, mas é provável que tenha se mantido —, não havia sido registrada uma só ocorrência policial. Nada! “Esse Reinaldo é um reaça! Elogia povo pacífico na rua!” É isto mesmo! ELOGIO OS QUE DE FATO SÃO PACÍFICOS, NÃO AQUELES QUE INSTRUMENTALIZAM A VIOLÊNCIA DOS LOBOS PARA POSAR DE CORDEIROS.
Atenção! Dilma não estava presente, mas foi sonoramente vaiada. Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, que em janeiro de 20112 afirmou que o PT tinha de disputar influência com os evangélicos, compareceu ao evento e resolveu discursar. Ao citar o nome de Dilma, ouviu-se uma vaia de fazer inveja àquela que o Maracanã estava reservando para a soberana. Carvalho mudou de assunto e passou a falar de temas mais pios, religiosos. Aí, até foi aplaudido. Entre os presentes, havia faixas como “Procura-se Lula”. Outra anunciava, informa o Globo Online“Manifestação pacífica tem limite. Fora baderna e vandalismo”. A imprensa teve de noticiar, claro! Mas uma marcha da maconha com 200 gatos-pingados teria recebido, como já recebeu, mais destaque. É fato, não conjectura.
É evidente que aquela massa que estava na rua — maior do que em qualquer manifestação de protesto destes dias — tem convicções morais e políticas mais conservadoras do que a agenda influente da imprensa. Mas deve, por isso, ser ignorada ou, então, tratada com menoscabo? Por quê? Em que país do mundo democrático o conservadorismo é tomado como sinônimo de anomalia, como uma posição ilegítima, um crime de lesa-democracia? Não faz tempo, em plena quarta-feira, evangélicos juntaram outros milhares em Brasília num protesto contra o controle da mídia e em favor da liberdade de opinião, da liberdade de expressão, da família tradicional e do direito à vida. Também naquele caso, houve certo esforço para esconder o evento. É assim que se pratica a democracia nos EUA, na França, na Alemanha, na Itália, na Suíça, na Suécia, no Japão? Não! Assim se pratica democracia, deixem-me ver, em Cuba, na Venezuela, na China…
Feliciano
O noticiário que se ocupou da marcha, mais uma vez, resolveu dar grande destaque ao deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que esteve presente, subiu numa espécie de trio elétrico, mas não discursou. Vestia uma camiseta com a inscrição: “Eu represento vocês” — alusão, é evidente, àquela tolice do “não me representa” que tomou corpo entre os que o combatem. Ora, é claro que ele não representa quem quer derrubá-lo. Entre as faixas, uma era esta:
 
E é mesmo verdade, só que incompleta. A invenção é dos ativistas gays, mas em parceria com a imprensa. Já expliquei aqui por quê. E pouco me importa o quanto se vitupere por aí, não vou condescender com uma mentira. Não existe projeto nenhum de cura gay. O que existe é um Projeto de Decreto Legislativo que derruba o parágrafo único do Artigo 3º e o Parágrafo 4º de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia. Eis a íntegra dos dois parágrafos. Volto depois.
“Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”
Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.
Voltei
Como se nota, ninguém toca no caput do Artigo 3º. É o que interessa. O Parágrafo Único e o Artigo 4º são dois requintes do abuso e interferem de modo absurdo no trabalho dos profissionais e nas escolhas dos pacientes. Não existe esse grau de interferência de um conselho profissional em nenhum lugar do mundo. Afirmar que existe um “projeto de cura gay” faz supor que alguém apresentou uma proposta com esse fim na Câmara. É mentira!
Antes que prossiga: os leitores — católicos, evangélicos, agnósticos, ateus etc. — conhecem a minha opinião: não acredito em “cura gay” porque não acho que seja doença. Nessa área, as pessoas são o que são em toda a sua complexidade. E ponto! Mas também não acredito no autoritarismo e na mentira.
Qual é o mal fundamental do parágrafo único e do Artigo 4º? A chance que se abre para a perseguição a profissionais que não rezem segundo a cartilha do conselho — sela ela qual for. Ora, passará a ser considerada tentativa de cura aquilo que alguém achar que é. Onde estão as notas técnicas, os critérios?
Vergonha
É uma vergonha que a própria imprensa designe esse projeto de “cura gay”, sem atentar para o seu próprio trabalho. Imaginem uma resolução que trouxesse a seguinte restrição: “Jornalistas ficam proibidos de escrever coisas que atentem contra a democracia e o estado de direito”. É evidente que eu também acho que jornalistas não devem fazer essas coisas. Mas quem julga? Quem se oferece para ser o tribunal? Lembro que, quando alguns pterodáctilos do lulo-petismo queriam criar ao Conselho Federal de Jornalismo, era mais ou menos isso o que se pretendia fazer. Deu para entender agora? Ainda não? Então tento mais um exemplo.
Médicos existem para curar pessoas e, entendo eu, para salvar vidas, certo? E que tal uma resolução genérica assim: “Médicos jamais adotarão procedimentos que ponham em risco a vida do paciente”. Seria a porta aberta para toda sorte de perseguição odienta. Todas as ditaduras comunistas tinham — e têm, as que restam — uma lei que pune os que “atentam contra a revolução”. Mas o que é “atentar contra a revolução”??? Em Cuba ou na China, por exemplo, basta que se defenda a democracia.
O caput do Artigo 3º, que é preservado, basta para que se não se trate a homossexualidade como patologia. O que não é aceitável — e é isso que fazem os trechos que o PLD quer derrubar — é que profissionais fiquem sujeitos a uma espécie de tribunal de consciências. Os jornalistas não quereriam isso para si mesmos; os médicos também não. Profissional de nenhuma área gostaria de se submeter ao arbítrio.
A partir de 2014, teremos uma história oficial no Brasil: a contada pela “Comissão da Verdade”, que tem tudo para ser um amontoado de mentiras. Imaginem um conselho que adotasse a seguinte resolução: “Historiadores não mais escreverão livros e textos benevolentes com a ditadura militar”. Seria aceitável?
Dia desses, em seu programa, Jô Soares falou de modo um tanto indignado, meio furioso, sobre o tal projeto da “cura gay”. Parece-me que também ele não sabia direito do que se tratava. Que tal uma resolução assim do um suposto Conselho Federal de Humoristas?“Os humoristas não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação a homossexuais, negros, mulheres, religiões, portadores de deficiências, gordos, magros, míopes, estrangeiros…”
Quem distinguiria uma simples piada do “reforço um preconceito”? No caso dos psicólogos, quem vai arbitrar a diferença entre uma mera opinião divergente e uma transgressão de conduta profissional?
“Isso não tem importância! Porque dar espaço a isso?” Tem, sim! Um lobby, por mais bem-intencionado que seja, não tem o direito de dizer que existe aquilo que não existe — e não existe um “projeto da cura gay”. E a imprensa, por mais amiga de causas que seja, também não tem o direito de sustentar que é aquilo que não é.
Se essas farsas prosperam sem resistência, outras prosperarão. As pessoas têm todo o direito de ter uma opinião e de se opor ao PLD. Mas que se oponham, então, ao que existe, não ao que não existe.
Para encerrar
Os evangélicos faziam marcha na Avenida Paulista. Dado o número de pessoas, foram convidados a realizá-la em outro lugar. Aceitaram. Neste sábado, a caminhada saiu da Praça da Luz e foi até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira, na Zona Norte de São Paulo. O itinerário foi previamente fornecido à Prefeitura e à Secretaria de Segurança Pública. As forças da lei puderam, portanto, se organizar para que o evento provocasse o menor transtorno possível.
O nome disso? Respeito à ordem democrática e ao estado de direito.
Por Reinaldo Azevedo

CELSO MING: 'O MINISTRO E A CUCA'

O ministro e a cuca - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 30/06

Às vezes, os curtos-circuitos de comunicação são causados apenas por diferença de tom. Mas, no caso do ministro da Fazenda, Guido Mantega, é mais que isso. Ele parece enxergar diferente dos demais.

O tom é essencial na comunicação. Muitas vezes, é mais importante do que o conteúdo do que é dito. Tomemos as nossas tradicionais cantigas de ninar. Quem se apega apenas às letras fica horripilado. É a cuca que está logo ali, pronta pra pegar o nenê; é o pai que está na roça e a mãe, também longe, no cafezal, situação que aponta para uma solidão inexorável; é o assustador boi da cara preta, também predador de pequenos. Essas coisas foram, e ainda são, marteladas sobre almas desprotegidas... E, no entanto, a criança dorme. Por quê? Porque o tom aconchegante prevalece sobre os horrores da letra.

É por isso, também, que as análises de economia e política precisam sempre perseguir o tom correto, sob pena de pôr a perder o essencial.

Um dos problemas do ministro Mantega na comunicação com o público é o tom inadequado com que diz as coisas. Ele ignora os problemas que não poderia ignorar, especialmente quando o País e a economia, como agora, estão alvoroçados, esfolando renda e patrimônio financeiro.

Não é apenas o tom errado. As intervenções do ministro Mantega são frequentemente tomadas por exasperante irrealismo. Depois de ter afirmado que não vira nas manifestações nenhum cartaz contra a política econômica, no pronunciamento de quarta-feira na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, Mantega apontou coisas que só ele vê.

Ele garantiu, por exemplo, que a inflação está caindo e que vai convergir para a meta ainda neste ano. Vá lá, pode ser que, de um mês para outro, fique mais baixa. Mas é inevitável que pelo menos "no curto prazo", como aponta o Banco Central, a acumulada em 12 meses estoure o teto. A projeção do Banco Central para a inflação deste ano é 6,0%, enquanto a meta é 4,5%.

Depois de passar meses a fio prometendo entregar um crescimento do PIB em torno de 4,0% a 4,5%, Mantega limita-se agora a avisar que o País avançará neste ano "mais do que em 2012", como se fosse feito extraordinário crescer mais do que o mísero 0,9% obtido então. Hoje, sabemos, vai ser difícil o PIB evoluir em 2013 mais de 2%.

O ministro também deitou louvação no "novo mix de políticas econômicas" colocado em prática no governo Dilma. Esse mix é um fracasso. Não garante crescimento sustentável do PIB acima de 3%; produz inflação que, no momento, perfura o teto da meta; provoca séria deterioração das contas externas; não segura os juros baixos, perseguidos tão obsessivamente; e, finalmente, é responsável por avarias nas contas públicas. Esse é outro ponto do qual o ministro discorda. Para ele, o equilíbrio orçamentário é exemplar, embora a percepção dos que se debruçam sobre o assunto seja a de que a política fiscal é uma bagunça, como até mesmo o ex-ministro Delfim Netto tem advertido. O próprio Banco Central projeta um resultado fiscal mais baixo do que o ministro.

Fica difícil a criança dormir ao ouvir cantigas com esse tom e conteúdo

MIRIAM LEITÃO: 'BOA INCERTEZA'

Boa incerteza - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 30/06

As manifestações de rua vão afastar investidores do Brasil? Essa é a pergunta que pode estar rondando muitas cabeças. A resposta é não. Se o Brasil fosse uma ditadura, um movimento como esse elevaria o risco de ruptura institucional. Sendo uma democracia sólida, a consequência é tornar mais incerto o resultado da eleição de 2014. Nada contra a Dilma, mas essa é a boa incerteza.

Para a democracia, não é bom ter garantia, com dois anos de antecedência, do resultado de uma eleição. E tudo parecia que estava assim. Os índices de popularidade elevados, apresentados pelos institutos de pesquisa de opinião, deram ao governo confiança excessiva. A campanha para a reeleição teve uma estreia intempestiva com a presidente usando cadeia nacional de rádio e TV, a que tem direito como chefe de Estado, para discursos de candidata. Pior: acusou os que divergem dela de torcerem contra o país. O Estado sou eu, parecia querer dizer.

Os que duvidavam do cenário que ela descrevia nos pronunciamentos, comparou com o "velho do Restelo", de Camões, querendo dizer que os que não concordavam com ela eram pessimistas, conservadores e não viam o novo mundo.

O que os manifestantes brasileiros mostraram, em sua maioria, é que há uma série de motivos para insatisfação no cotidiano da vida brasileira: na educação, saúde, combate à corrupção, transporte, no desempenho do Legislativo e na ameaça que pesava sobre o Ministério Público.

A reação foi a que deve haver numa democracia sólida: os poderes começaram a se mexer diante dos sinais de descontentamento e apresentaram propostas de mudanças. Nem todas boas, mas louve-se a atitude de sair do marasmo em que o país se encontrava, ficando com a conjuntura econômica um pouco pior a cada dia, e a governante, com ouvidos abertos apenas ao seu publicitário. Quem poderia imaginar ver o plenário da Câmara cheio, em atividade, e a população protestando contra gastos excessivos em estádios, no meio do jogo Brasil x Uruguai, no país do futebol? Alguma coisa mudou para melhor no Brasil.

Ondas de manifestação na França, nos Estados Unidos, na Inglaterra chamam a atenção, ocupam espaço no noticiário, mas ninguém acha que isso alterará a ordem institucional. No Parlamentarismo, mudanças de governo fazem parte das regras institucionais. Acaba de acontecer na Austrália. Não é crise. Nos países árabes, os manifestantes derrubaram governos, que precisavam mesmo cair, mas o momento seguinte foi caos político e até guerra civil, como na Líbia.

Por isso, mesmo com os excessos e episódios lamentáveis em algumas passeatas, o que houve até agora foi o normal nas democracias. Lembra aos senhores governantes que nada está garantido de véspera e que o eleitor não se torna um ser incorpóreo nos quatro anos entre uma eleição e outra. As respostas que estão sendo dadas pelos governantes não são necessariamente boas, nem têm efeito imediato. O recuo generalizado nas tarifas este ano não resolve a qualidade do transporte público, nem do preço. As tarifas são calculadas por fórmulas opacas, premissas duvidosas, e repasses de custos mal verificados. Se a redução da tarifa for coberta por mais subsídio, fica na mesma. O contribuinte paga.

Se o transporte público é gratuito, o dinheiro sai dos impostos. Imagina só transporte de trabalhador que deixaria de ser pago pelas empresas para ser quitado pelos cofres públicos? Um alívio para as empresas, mas um custo para o governo. Redução de imposto sobre diesel, que é poluente, faz menos sentido do que incentivo ao uso do biodiesel. Mais relevante seria buscar um sistema de transporte mais racional, com menos ônibus, e modais mais eficientes e menos poluentes.

Uma coisa é certa: neste debate ficou claríssimo o quanto o governo errou ao dar a montanha de dinheiro que deu para o carro particular e o subsídio à gasolina nos últimos anos. Dinheiro que, se aplicado em transporte público, estaria transformando a vida nas cidades.

Se as tarifas públicas forem congeladas é evidente que haverá menos investimento, ou porque novos empresários não entrarão no setor ou porque as empresas ficarão descapitalizadas.

Mas o grande ganho do movimento das ruas foi fortalecer a democracia e tirar o governo da certeza da vitória prévia.

JOÃO UBALDO RIBEIRO: 'CUIDADO COM SEBASTIÃO'

Cuidado com Sebastião - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 30/06

Que dias temos vivido, hein? De monotonia é que não podemos fazer queixa. Continuo achando que ninguém sabe como surgiu e em que vai terminar a confusão das últimas semanas, mesmo depois que o Congresso foi tomado por uma operosidade nunca vista, apressando-se em aprovar medidas antes quase impossíveis. Apareceram palpites em grande variedade, mas nenhum me convenceu muito ainda. Recebo e-mails alarmistas e alarmados, leio artigos e reportagens, ouço comentaristas de televisão e assisto a vídeos na internet, e a profusão de diagnósticos e prognósticos chega a entontecer. Complica-se isto com a circunstância inquietante de que, se levarmos em conta todas as denúncias que não cessam de pipocar, seremos forçados a inferir que não se pode acreditar em nada, até naquilo que testemunhamos pessoalmente, pois o que vemos, ou até o de que participamos, pode não ser mais que a ação de inocentes úteis que não sabem o que fazem, ou uma farsa para ocultar interesses escusos de grupos e organizações daninhas, ou o que lá se queira pensar.

Na mídia, claro, não se pode confiar. Jornais, rádios e televisões são mantidos no cabresto do governo, que lhes fornece anúncios e comerciais bilionários, além de abrir facilidades fiscais e fechar os olhos a graves irregularidades. Paradoxalmente, a mídia, no ver do mesmo governo e seus correligionários, é golpista e a voz das elites conservadoras, que tudo fazem para derrubar um governo de raízes populares, devendo por isso mesmo ser submetida a “controle social”. Voltando ao outro lado, a mídia está toda aparelhada por militantes a serviço do governo, em todas as redações, são eles os que realmente mandam, só se publica ou vai ao ar o que o governo quer. Trocando de lado outra vez, os colunistas e comentaristas têm todos o rabo preso, um porque é funcionário fantasma do gabinete de um político, outro porque é um carreirista puxa-saco dos patrões e ganancioso, outro porque é um conhecido fascista — ou comunista, conforme — e por aí vai, parece uma gangorra.

É uma situação terrível, porque, por mais que não se queira, a mídia sempre nos alcança. Mesmo que não atentemos em qualquer noticiário ou comentário, o vizinho, o colega de trabalho e o pessoal do boteco não fazem o mesmo e terminamos vítimas indiretas da má informação. Claro, se não podemos acreditar na mídia, também não podemos acreditar no vizinho, porque ele, como os amigos do boteco, tiram da mídia suas informações e, não raro, até suas opiniões. Não podemos acreditar cegamente nem em nós mesmos, porque é muito difícil, ou impossível, fugir da influência do que circula na mídia e não há como avaliar o que, em nossa maneira de pensar sobre fatos como as manifestações de rua, não terá tido origem na mídia.

A tanta razão para desconfiança e dúvida some-se o atabalhoamento em que ficaram os governantes. Em algumas ocasiões, lembrava uma sátira ou uma comédia de pastelão. Também confrange os súditos serem informados de que, na hora do aperto, a presidenta amarelou e procurou o ex-presidente e atual presidento, para saber o que fazer, como umaadolescenta em busca do apoio paterno. Além de tudo o que essa dependência patética representa, o sujeito fica, pelo menos no meu caso, um pouco envergonhado com essas coisas, aquele tipo de vergonha que a gente sente pelos outros. Em seguida, ela apareceu para se pronunciar, virando a cabeça para lá e para cá enquanto falava, como quem lê o teleprompter com certa dificuldade. Ou será que ela não sabia bem o que significavam as palavras que repetiu em voz alta? Talvez não soubesse mesmo, naquelas horas nervosas, porque, no dia seguinte, como todos viram, ela disse que não disse o que todo mundo pensou que ela dissera — e eis aí mais um exemplo de como a verdade tem andado cada vez mais fugidia.

Mas, se as ilações, hipóteses e explicações agora circulando ainda não conseguem ser inteiramente convincentes e ainda paira no ar alguma iminência de monta, por enquanto não notada, o fato é que a ruidosa e universal rejeição a políticos e partidos que vem marcando as manifestações acendeu uma luzinha vermelha na mente dos governantes, tanto assim que eles vêm procurando atender às demandas com uma presteza que nos deixa de queixo caído. Também eles não sabem em que tudo isso vai terminar e, pelo sim, pelo não, tratam de corrigir como podem aquilo que não só o povo aponta, mas eles há muito sabem que está errado.

Aguilhoados pelos verdadeiros donos da soberania, os governantes mudaram sua postura habitualmente arrogante, indiferente ou cínica e baixaram a cabeça, diante da rebelião dos governados. As instituições também vêm funcionando e cumprindo seu papel. Ou seja, não é necessário nenhum radicalismo, basta que passemos a abandonar os costumes e práticas que têm caracterizado nossa vida política e contra os quais deveremos estar em permanente vigilância e possível mobilização. É primarismo advogar que sejamos governados “diretamente” pelo povo, através de decisões coletivas tomadas através de internet, porque isso só iria redundar nas decisões apressadas, emocionais e inconsequentes que as multidões, mesmo as eletrônicas, costumam tomar — e uma situação assim redunda em anarquia. Tampouco podemos ceder ao impulso, talvez atávico, de esperar a volta do rei Sebastião, que nos libertará, com virtude, carisma e amor ao povo, de todas as nossas aflições. Creio que já há aspirantes a esse posto, mas onde estava Sebastião, quando começaram as manifestações e as mudanças já obtidas? Estava malocado, esperando a hora de dar o bote e abocanhar o que não foi feito por nenhum Sebastião, mas pelo povo. Não se pode garantir que o povo não seja outra vez engabelado, mas venham com outra conversa, que o velho papo já não cola.

TOSTÃO: 'NÃO É FINAL DO MUNDIAL'

Não é final do Mundial - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 30/06

Se perder, a Espanha, pelo que joga e jogou durante os últimos anos, continuará superior ao Brasil. Não se mudam os conceitos por causa de um jogo. O Brasil, mesmo se for derrotado, já mostrou que, em casa, é forte candidato ao título mundial.

Em uma decisão, é impossível prever o comportamento emocional dos jogadores. A maioria fica mais tensa. A ansiedade, até certos limites, é benéfica. O corpo aumenta a produção de algumas substâncias químicas, e o jogador fica mais atento, esperto e com mais força física. É o doping fisiológico.

Se a ansiedade for muito intensa, o atleta fica mais agressivo, tem mais pressa de chegar ao gol, a bola bate na canela, além de perder a capacidade de antever o lance e de perceber, em uma fração de segundos, a movimentação dos companheiros e adversários. Quem joga em casa corre um pouco mais de risco de ficar mais tenso.

O Brasil tem boas chances de vencer porque possui ótimos zagueiros, especialmente Thiago Silva, e a Espanha não tem um grande atacante.

Os excepcionais armadores espanhóis não se destacam também pelas finalizações, além de entrarem pouco na área, com exceção de Fàbregas, que talvez não jogue. Dificilmente, o time espanhol fará mais de um gol.

O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha marca mais à frente e, se o time brasileiro desarmar, com frequência, no meio-campo, os velozes Neymar, Oscar e Hulk terão mais espaços nos contra-ataques. A Itália fez isso bem, contra a Espanha, e criou várias chances de gols.

O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha não tem meias, pelos lados, que protegem os laterais. Daniel Alves e Marcelo terão espaço para avançar e fazer duplas, pelas laterais, com Hulk, Oscar e Neymar.

O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha está muito desgastada, pelo calor, pelo jogo na quinta-feira e pela prorrogação.

O Brasil tem usado bem a vantagem de atuar em casa, está com mais gana e se preparou para a competição, com muita seriedade, pela responsabilidade diante da torcida e porque quer recuperar o prestígio.

A Espanha possui também muitas chances de vencer porque é melhor, mais experiente, sofre poucos gols, tem ótimos zagueiros e goleiro, excepcionais armadores, um lateral, Jordi Alba, que avança muito bem.

A Espanha costuma comandar a partida, ficar com a bola, paralisar o adversário, até alguém penetrar para receber e fazer o gol. Felipão, para tentar equilibrar o meio-campo, tem a opção de escalar Hernanes, no lugar de Hulk ou de Oscar.

É um jogo muito esperado, uma decisão, mas não é final de Copa do Mundo nem motivo para comemorações nas ruas, no Brasil e na Espanha.

FERREIRA GULLAR: 'A VEZ DO POVO DESORGANIZADO'

A vez do povo desorganizado - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 30/06

Os políticos se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício

As manifestações de protesto ocorridas nas últimas semanas em numerosas cidades brasileiras são, sem sombra de dúvida, um fenômeno novo na vida política do país, nos últimos 20 anos.

Causou surpresa a muita gente --inclusive a mim-- que o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de transporte urbano tenha provocado tamanha revolta e mobilizado tanta gente.

É que essas manifestações traziam consigo outras motivações que não se revelaram no primeiro momento. Logo pôde-se ver que o aumento das tarifas foi apenas o detonador de um descontentamento maior que põe em questão o próprio sistema político que nos governa.

Ouvi e li opiniões segundo as quais trata-se de um fenômeno internacional, uma vez que, em vários países, protestos populares têm se repetido com frequência. Trata-se, creio eu, de uma opinião equivocada, já que as razões desses protestos são diferentes de país para país. O que há de comum neles é a influência das redes sociais, que possibilitam mobilizações em tal escala.

No caso do Brasil, por exemplo, está evidente que a revolta é contra os políticos em geral, sejam de que partidos forem, pertençam ao governo ou à oposição. Isso se tornou evidente em diversos momentos quando militantes deste ou daquele partido tentaram se manifestar: foram vaiados e até espancados. Foi o caso do PT que, oportunista como sempre, tentou tirar vantagem da situação e se deu mal.

Mas de onde vem esse horror aos políticos? A resposta é óbvia: eles se tornaram uma casta que se apropriou da máquina do Estado em seu próprio benefício.

Essa máquina, que é mantida com o dinheiro de impostos escorchantes, eles usam para empregar seus parentes e companheiros de partido, para enriquecer a si e a seus familiares, manipulando licitações e contratos de obras públicas --e usam isso, sobretudo, para se manter no poder.

Essa situação tornou-se particularmente insuportável depois que Lula assumiu o governo e pôs em prática uma política populista que veio agravar ainda mais aqueles fatores negativos da vida política brasileira. Quem nele acreditava viu, decepcionado, que ele ignorou os compromissos éticos assumidos e aliou-se a figuras como Maluf e o bispo Macedo --sem falar na compra, com dinheiro público, de partidos corruptos.

Essa aliança, com o submundo político, de um líder que surgiu como uma esperança de renovação, só poderia conduzir as pessoas em geral --e particularmente os que confiaram nele-- à desesperança total quanto ao futuro da nação.

O mais grave é que, somando-se isso à política assistencialista que adotou, tornou-se eleitoralmente imbatível. Assim, sem outra saída, os inconformados foram para as ruas. Nessa rejeição ao poder constituído e aos políticos em geral, o povo descontente pode não saber ainda por onde vai, mas sabe por onde não vai.

Não por acaso, a maioria desses manifestantes é de classe média. Não foram os pobres dos subúrbios que vieram para as ruas protestar, pois recebem Bolsa Família e melhoraram de vida. Quem está insatisfeita e revoltada é a parte da sociedade que só perdeu com o populismo lulista, uma vez que o dinheiro público, em lugar de ser investido em hospitais, escolas e serviços públicos, foi e é usado em programas assistencialistas e demagógicos.

Por outro lado, o lulismo cooptou as entidades representativas dos trabalhadores e dos estudantes (a CUT e a UNE), que, contrariamente a suas origens e à sua história, agora impedem manifestações contrárias ao governo. Desse modo, tanto os trabalhadores quanto os estudantes não têm quem os represente na luta por suas reivindicações.

Por isso, meses atrás, afirmei nesta coluna que a única solução possível seria o povo desorganizado ir para as ruas, já que não conta com as organizações que deveriam representá-lo. É o que acontece agora: o povo desorganizado está nas ruas. Desmascarada, a CUT tentou juntar-se aos manifestantes, mas foi repelida por eles.

Sem alternativa, a presidente Dilma promoveu uma reunião com governadores e prefeitos para aparecer como porta-voz dos inconformados, e propôs medidas que não se sabe quando nem se serão mesmo postas em prática.

LUCINHA PEIXOTO: 'O DIA EM QUE A PRESIDENTA DILMA EM 10 MINUTOS CUSPIU NO ROSTO DE 370.000 MÉDICOS BRASILEIROS'

domingo, 30 de junho de 2013


"O dia em que a presidenta Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros"




Eu, ontem, escrevi no Mural da A Gazeta Digital (AGD) que começava o dia vendo a página daquele blog chamada de Deu nos Blogs. E hoje fiz isto outra vez. Arrependi-me. Hoje é domingo, dia de missa e de descanso e não queria começar o dia chorando. Mas, foi o que eu fiz ao ler o texto abaixo escrito por uma médica (link do Blog do Josias) chamada Juliana Mynssen da Fonseca Cardoso, do Rio de Janeiro.

Eu dei a esta postagem o mesmo título do artigo da médica que também pode ser visto (aqui) no site do Conselho Federal de Medicina: “O dia em que a presidenta Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros”. E foi mesmo. A presidenta quer resolver os problemas da Saúde no Brasil, importando médicos, como se o problema da área fosse este. Que se tente, através do Ministério da Saúde, alavancar a candidatura do Padilha a governador de São Paulo, tudo bem, e até dou razão ao conterrâneo Carlos Sena em defender a ideia nas redes sociais, pois falar é livre. Mas, colocar isto em discurso presidencial e com o intuito de resolver problemas que não dizem respeito à área é puro acinte.

Há outros argumentos, além dos da carta, para ser contra à vinda de médicos estrangeiros para o Brasil, e sabendo-se que isto é apenas um biombo para encobrir as promessas da presidenta aos cubanos, para melhorar um pouco a situação dos médicos naquele país, os argumentos abundam. Beira à desfaçatez.

Fiquem então com a carta da médica, e se der vontade de chorar, como deu em mim, o façam, pois, a situação deste país, está mais para choro do que para riso. Refreio-me no choro, abro um sorriso ao ler que a popularidade da presidenta caiu, e se Deus quiser continuará caindo, chegando ao seu lugar, que sempre foi próxima de zero. Obrigada, Doutora Juliana.

“Há alguns meses eu fiz um plantão em que chorei. Não contei à ninguém (é nada fácil compartilhar isso numa mídia social). Eu, cirurgiã-geral, ‘do trauma’, médica ‘chatinha’, preceptora ‘bruxa’, que carrego no carro o manual da equipe militar cirúrgica americana que atendia no Afeganistão, chorei.

Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similiar aos que prendemos plantas (diga-se: samambaias). Ao seu lado, seu filho. Bem vestido. Com fala pausada, calmo e educado. Como eu. Como você. Como nós. Perguntava pela possibilidade de internação do seu pai numa maca, que estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Esperou, esperou, e toda vez que abria a portinha da sutura ele estava lá. Esperando. Como eu. Como você. Como nós. Teve um momento que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse “não é para mim, é para o meu pai, uma maca”. Como eu faria. Como você. Como nós.

Pensei ‘meudeusdocéu, com todos que passam aqui, justo eu… Nãoooo….. Porque se chorar eu choro, se falar do seu pai eu choro, se me der um desafio vou brigar com 5 até tirá-lo daqui’.

E saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca retirada da ala feminina.

Já levei meu pai para fazer exame no meu HU. O endoscopista quando soube que era meu pai, disse ‘por que não me falou, levava no privado, Juliana!’ Não precisamos, acredito nas pessoas que trabalham comigo. Que me ensinaram e ainda ensinam. Confio. Meu irmão precisou e o levei lá. Todos os nossos médicos são de hospitais públicos que conhecemos, e, se não os usamos mais, é porque as instituições públicas carecem. Carecem e padecem de leitos, aparelhos, materiais e medicamentos.

Uma vez fiz um risco cirúrgico e colhi sangue no meu hospital universitário. No consultório de um professor ele me pergunta: ‘e você confia?’.

‘Se confio para os meus pacientes tenho que confiar para mim.’

Eu pratico a medicina. Ela pisa em mim alguns dias, me machuca, tira o sono, dá rugas, lágrimas, mas eu ainda acredito na medicina. Me faz melhor. Aprendo, cresço, me torna humana. Se tenho dívidas, pago-as assim. Faço porque acredito.

Nesses últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias brigamos por um país melhor. Menos corrupto. Transparente. Menos populista. Com mais qualidade. Com mais macas. Com hospitais melhores, mais equipamentos e que não faltem medicamentos. Um SUS melhor.

Briguei pelo filho do paciente ajoelhado. Por todos os meus pacientes. Por mim. Por você. Por nós. O SUS é nosso.Não tenho palavras para descrever o que penso da ‘Presidenta’ Dilma. (Uma figura que se proclama ‘a presidenta’ já não merece minha atenção).

Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente na cadeira, eu a ouvi.

A ouvi dizendo que escutou ‘o povo democrático brasileiro’. Que escutou que queremos educação, saúde e segurança de qualidades. ‘Qualidade’… Ela disse.

E disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil….

Para melhorar a qualidade…?

Sra ‘presidenta’, eu sou uma médica de qualidade. Meus pais são médicos de qualidade. Meus professores são médicos de qualidade. Meus amigos de faculdade. Meus colegas de plantão. O médico brasileiro é de qualidade.

Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade.

O dia em que a Sra ‘presidenta’ abrir uma ficha numa UPA, for internada num Hospital Estadual, pegar um remédio na fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos.

Não cuspa na minha cara, não pise no meu diploma. Não me culpe da sua incompetência.

Somos quase 400 mil, não nos ofenda. Estou amanhã de plantão, abra uma ficha, eu te atendo. Não demora, não.

Não faltam médicos, mas não garanto que tenha onde sentar. Afinal, a cadeira é prioridade dos internados.


Hoje, eu chorei de novo.”