quarta-feira, 18 de julho de 2018

ÉLIO GASPARI TROPEÇA NA HISTÓRIA - Rafael Brasil

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Esta semana, o jornalista, e por que não dizer historiador, Élio Gaspari, comparou a prisão de Lula com o recolhimento de Getúlio em uma fazendinha em São Borja, quando silenciosamente fomentou sua volta ao poder, desta vez nos braços do povo. É sempre perigoso certos paralelismos históricos, sobretudo no calor dos acontecimentos, quando se sabe que Gaspari, sempre foi um homem de esquerda, e como muitos, estão desnorteados com a brutalidade dos fatos de corrupção sistêmica, aparelhamento do estado e aviltamento das parcas instituições democráticas que ainda temos.

Getúlio poderia ser preso pelos crimes que cometeu quando ditador, não por roubalheira. Mas foi eleito senador e foi o principal cabo eleitoral de Dutra, seu quase desafeto. Ao se recolher , colheu os frutos da impopularidade de Dutra, preparando a sua volta.
Lula está preso e por crimes comuns, de corrupção e lavagem de dinheiro. Da cadeia pode até levar seu poste para o segundo turno, mas vai ser difícil enfrentar a rejeição da classe média. Ainda mais que não se vê nenhum movimento de massas ou coisa parecida a se organizar para defender o ex presidente pelas vias , digamos, não institucionais. Como diria Marx, a História não se repete. Aliás, muitos outros disseram a mesma coisa antes dele, mas com outras palavras.

EM QUEM VOTAR? RAFAEL BRASIL

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Noves fora a eleição para presidente, em quem votar? O aviltamento da cultura refletiu em cheio na política, e o poder econômico impediu que homens de bem entrassem na jogada, afinal a atividade política se tornou uma jogada há tempos. Está difícil votar em gente honesta. É preciso uma grande reforma do estado e da política, ou seja, nossa república terá que ser reinventada. Faltam líderes políticos à altura da tremenda crise em que nos encontramos. Como diria Lênin, o que fazer?
Aliás, por falar em líderes, um dos mais populares líderes messiânicos está preso, e está metido até o gogó em zilhões de processos e denúncias de ladroagens mil. Da cadeia, maquina a sucessão presidencial, e certamente vai enterrar de vez seu maldito partido e a esquerda, mas o buraco é bem mais embaixo. O aparelhamento do estado dará muita dor de cabeça a quem quer que seja contra o estamento burocrático estatal, ou seja, do sistema, ou o que quiserem chamar. 
A briga está apenas começando. Ou o Brasil enfrenta o estamento burocrático do estado, ou o mesmo mata de vez o país, aliás há tempos vem matando. Teremos muito chão pela frente, quem duvida?

domingo, 15 de julho de 2018

"O declínio dos medalhões da política", por Ruy Fabiano


A pouco mais de dois meses das eleições, configura-se um fenômeno sem precedentes na política brasileira: os grandes partidos, hegemônicos há décadas, não conseguem emplacar seus pré-candidatos. PT, PSDB, MDB, DEM: todos patinam nas pesquisas.
Nomes de peso na vida pública, como o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), o ex-ministro Henrique Meirelles (MDB) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), não chegam a pontuar dois dígitos nas pesquisas. Preocupado, o ex-presidente FHC tentou encontrar um nome de consenso para unir o centro político.
Constatou que o centro político hoje nem chega a existir. Ou por outra, confunde-se com algo vagamente denominado Centrão, amontoado de siglas fisiológicas que integram o baixo clero. Também ali não há nomes ou consensos. Só interesses, muitos interesses.
O pânico dos medalhões da política é a aversão crescente do eleitor aos políticos e à política tradicionais. O discurso institucional, conciliador, já não o sensibiliza – e, ao contrário, o irrita.
O volume e a gravidade dos problemas nacionais – corrupção, desemprego, insegurança pública e ganância estatal por tributos – desmoralizam a retórica clássica, o que talvez explique, ao menos em parte, o êxito da candidatura Jair Bolsonaro, do inexpressivo PSL.
Contra todas as expectativas, ele se mantém líder disparado nas pesquisas, beneficiário do colapso do establishment político, levado ao paroxismo pela Lava Jato. Algumas já o colocam como vencedor no segundo turno, o que até há pouco parecia impensável.
Sem apoio de governos ou prefeituras, e sem qualquer base em sindicatos ou entidades de porte da sociedade civil – e, ao contrário, alvo da hostilidade de todos eles -, capitaliza os desacertos e mazelas do assim chamado sistema.
É o único dos presidenciáveis, goste-se ou não, capaz de levar multidões a recepcioná-lo nos aeroportos de todo o país.
Simboliza, neste momento, o espírito de vingança do eleitor. Vingança contra a degradação das instituições, que o tinham como o patinho feio da política nacional, o que, diante da reviravolta dos quatro últimos anos, reverteu em seu benefício.
É ele o coveiro da Nova República, que, a partir de 1985, marca o retorno do poder civil, após duas décadas de regime militar.
O eleitor inicial de Bolsonaro postulava soluções simplistas para questões complexas, quase todas focadas na segurança pública. Hoje, esse espectro ampliou-se e agrega amplas camadas da classe média, mais preocupadas em remover políticos corruptos que propriamente em saber o que será colocado em seu lugar.
Diante desse potencial eleitoral, Bolsonaro começou a atrair empresários e financistas. A presença do economista liberal Paulo Guedes como seu principal assessor econômico – e, na eventualidade de vitória, futuro ministro da Fazenda – sinalizou aos empresários que, ao menos nesse setor, não haverá aventuras.
Sua performance na sabatina dos presidenciáveis na Confederação Nacional da Indústria, há uma semana, confirmou essa assertiva. Foi de todos o mais aplaudido, chegando mesmo, em alguns momentos, a ser ovacionado.
O que se tem, neste momento, é apenas um instantâneo da realidade. A campanha, com o horário gratuito de rádio e TV, ainda não começou. Os demais candidatos projetam ali uma expectativa de reviravolta, já que Bolsonaro terá apenas segundos de exposição.
Mas as redes sociais e o agravamento da crise – política, econômica e moral -, sem dúvida, jogam a favor do capitão-deputado.
Ruy Fabiano é jornalista 
Com Blog do Noblat, Veja

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Ricardo Noblat: Abraço dos desesperados


- Blog do Noblat | Veja

A aliança meia-sola do PT com o PSB

A senadora Gleisi Hoffmann (PR), presidente do PT, desembarca, hoje, no Recife para tentar selar a sorte do seu colega Humberto Costa (PT) e do governador de Pernambuco Paulo Câmara (PSB).

Os dois são candidatos à reeleição – Costa para o Senado. Os dois apostam na aliança PT-PSB. Mas para que isso ocorra, os dois precisam se livrar da candidatura de Marília Arraes (PT) ao governo do Estado.

Vereadora, neta de Miguel Arraes e prima do ex-governador Eduardo Campos, Marília é a maior defensora de Lula em Pernambuco. Na semana passada, Lula disse que se fosse eleitor em Pernambuco votaria nela.

Nas pesquisas de intenção de voto, Marília está a curta distância de Câmara. Caso dispute a eleição, tem chances de enfrentar Câmara no segundo turno – e, nesse caso, com apoio do resto da oposição a ele.

É esse risco que Câmara quer evitar. O governador reservou em sua chapa uma vaga de senador para Costa, que sequer teria votos para se eleger deputado federal. O PT, contudo, quer mais do que isso.

Quer que o PSB como um todo, não só a seção pernambucana do partido, apoie a candidatura de Lula a presidente. E aí reside o nó. O PSB na maioria dos Estados tende a apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PDT).

Gleisi conversou a respeito, ontem, em Brasília, com Carlos Siqueira, presidente do PSB. Conversará no Recife com Câmara e com Renata Campos, a viúva de Eduardo, que manda muito no partido.

Se o PT se contentar apenas com o apoio à candidatura de Lula do PSB de Pernambuco e de mais alguns poucos Estados do Nordeste, o acordo poderá ser sair. O resto do PSB iria com Ciro. Do contrário, vai, Marília!

terça-feira, 10 de julho de 2018

Ricardo Noblat: A história do golpe do PT para soltar Lula


- Blog do Noblat

Mesmo que não desse certo, a Justiça ficaria mal, como ficou

Foi tudo pensado e discutido à exaustão com a direção do partido, advogados de defesa de Lula e com o próprio Lula. Começou quando na semana passada, por meio de um amigo comum, o desembargador Rogério Favreto avisou ao deputado Paulo Pimenta (PT-RS) que seria o responsável no fim de semana pelo plantão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre.

Favreto e Pimenta são amigos de longa data. O desembargador foi filiado ao PT durante 19 anos e fez sua carreira à sombra do partido. Conheceram-se em Porto Alegre, Favreto como advogado, Pimenta como prefeito de Santa Maria e depois como deputado estadual. Voltaram a se encontrar em Brasília – Favreto como assessor de Lula presidente, Pimenta como deputado federal.

O aviso da Favreto para Pimenta embutia a sugestão de que ele, como plantonista, acataria um pedido de habeas corpus para soltar Lula. Pimenta, primeiro, conversou a respeito com o deputado Waldih Damous (PT-RJ). Depois com o deputado Paulo Teixeira (PT-SP). Os dois aprovaram a ideia. A senadora Gleisi Hoffmann, presidente do partido, foi consultada em seguida e, de início, hesitou. Seria uma jogada arriscada.

De todo modo, segundo Gleisi, nada poderia ser feito sem que antes fossem ouvidos alguns dos advogados que defendem Lula e naturalmente o encarcerado. Roberto Teixeira e Cristiano Zanin, seu genro, deram seu aval à trama. Não se associariam a ela porque são autores de outras ações que pedem a libertação de Lula e que tramitam em tribunais superiores. Pegaria mal para eles. E duvidavam do sucesso da trama.

Submetido o assunto ao exame de Lula, primeiro ele disse não. Achava impossível que um simples despacho de um desembargador de plantão fosse capaz de tirá-lo da cadeia. Mas depois de horas de discussão com Gleisi e com os advogados, acabou convencido de que pouco teria a perder. Se ficasse solto por algumas horas, teria tempo para gravar vídeos a serem divulgados quando voltasse a ser preso.

De resto, uma eventual soltura, mesmo que revogada depois do fim do plantão de Favreto, serviria para desgastar a imagem da Justiça e reforçar a dele, de perseguido por ela. Como é possível que a Justiça libere tantos condenados, mande para prisão domiciliar tantos outros, e somente ele continue preso? – perguntou-se Lula. É um falso argumento, esse, mas à história do golpe tentado pelo PT não importa.

Meia hora depois do início do plantão de Favreto na última sexta-feira, Pimenta, Damous e Teixeira protocolaram no tribunal o pedido de liberdade de Lula. No dia seguinte, ficaram sabendo que Favreto aprontara seu despacho, mas que preferira só enviá-lo à Polícia Federal no domingo de manhã cedo. Antes das 10h do domingo, uma cópia do despacho foi levada em mãos para Lula.

A notícia de que Lula seria solto só se tornou pública por volta do meio-dia. Àquela altura, o contragolpe já estava em marcha. De férias em Portugal, o juiz Sérgio Moro telefonou para a delegado da Polícia Federal em Curitiba e disse que não era para soltar Lula. Acionou o ministro Thompson Flores, presidente do tribunal, que por sua vez informou a Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública, que Lula permaneceria preso.

O resto é história conhecida.

Míriam Leitão: A pena de plantão


- O Globo

O que houve no domingo não foi uma crise no Judiciário, mas sim um evento destoante prontamente resolvido no próprio tribunal regional e que nem chegou à última instância. As idas e vindas da ordem de soltura de Lula ficará como ato sem cabimento de um desembargador que tentou usar de forma equivocada o período em que respondeu pelo tribunal como plantonista. A questão do Judiciário é mais grave.

Hoje o temor que existe é de politização das decisões de alguns dos magistrados de instâncias superiores. O sinal mais revelador desse risco foi dado pelo ministro Dias Toffolli, que vai assumir em setembro a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF). O que pesa sobre o país é a dúvida sobre a sua primeira lealdade. Se será às leis e à Constituição ou às convicções com as quais foi para o STF. O evento de Porto Alegre é apenas um alerta de como se pode usar de forma errada um poder temporário dado à instituição e não à pessoa que exerce o cargo.

É óbvio para qualquer iniciante em Direito que o assunto da prisão de Lula já estava afeto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Esta era a instância. Está também claro de que o argumento que sustentava a tese da urgência da decisão do desembargador Rogério Favreto não fazia sentido. O ex-presidente Lula já se declarou pré-candidato há muito tempo, não é de hoje, portanto não se justifica que o desembargador use a manhã de um domingo, no qual ele respondia pelo tribunal, para desfazer o que fora feito. O TRF-4 julgou Lula, analisou todos os recursos, e o assunto subiu ao STJ.

O evento foi resolvido não sem muito ruído. O juiz Sérgio Moro é de primeira instância e portanto não tem poder para desfazer uma ordem de desembargador, mas o que ele fez foi alertar que o juiz natural teria que ser ouvido, no caso o desembargador João Pedro Gebran Neto, que se pronunciou, sim, a favor da manutenção do preso em custódia. Mais espantoso foi o outro passo de Favreto, de insistir na libertação de Lula. O presidente do TRF-4, Thompson Flores, restabeleceu a ordem em sua jurisdição. O evento poderia se esgotar aí, uma decisão extemporânea de um desembargador, que foi corrigida a tempo pelo presidente do tribunal regional. Porém os fatos recentes alimentam a preocupação com os rumos do Judiciário no Brasil.

Ser juiz de primeira instância é resultado de concurso. Daí para diante, a escolha começa a ficar cada vez mais política. Presidentes escolhem desembargadores e indicam ministros de tribunais superiores. Tudo funciona perfeitamente quando o indicado não acha que deve pagar com a toga o posto a que chegou. A independência do Judiciário é para que o magistrado possa tomar suas decisões, desconsiderando a conjuntura política que sempre será mutante.

O problema, como disse o ministro Carlos Velloso, são os exemplos dados no Supremo Tribunal Federal, em que alguns ministros têm tomado decisões à despeito do que foi decidido pelo plenário. Além disso, há as decisões controversas. É difícil explicar a libertação de Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa, suspeito de ser o operador do PSDB, decidida pelo ministro Gilmar Mendes. É igualmente difícil entender o voto do ministro Dias Toffolli no caso do exministro José Dirceu, condenado duas vezes pelo mesmo crime de corrupção, no Mensalão e na LavaJato, através de um habeas corpus de ofício. O temor do país é que alguns dos ministros do Supremo estejam decidindo de acordo com convicções e lealdades políticas. Isso precisa ser esclarecido porque em pouco mais de dois meses o ministro Dias Toffolli ocupará a presidência do STF em momento de muito conflito político no país.

O país não pode viver no sobressalto da pena de plantão. Tem que confiar na segurança do Estado de Direito. Não pode temer ou ter esperança no desembargador de plantão ou no ministro ao qual caberá a presidência do STF. Todo o poder que têm juízes, desembargadores e ministros não emana de quem os indicou ou do grupo com o qual ele pessoalmente se identifica, mas sim das leis e da Constituição do país. Se isso se perder, o país terá tido um aprofundamento fatal de sua crise. O fundamental é que cada magistrado saiba qual é a sua primeira lealdade

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Denis Lerrer Rosenfield: A cacofonia da autoridade


- O Estado de S.Paulo

A Nação hoje enfrenta dúvidas sobre quem governa, quem decide em última instância

Um erro tornado comum entre nós consiste em identificar, se não em confundir, a ideia de democracia com processos eleitorais, como se ela a esses se reduzisse. Para além do exercício pleno da liberdade - liberdade de ir e vir, liberdade de pensamento e expressão, liberdade de organização partidária e sindical - há questões de fundo de ordem institucional que dizem respeito à autoridade estatal.

Um dos problemas que o País enfrenta concerne a quem governa, isto é, quem decide em última instância. Há todo um desenho constitucional que estabelece a separação de Poderes, a partir do compartilhamento da autoridade, bem como suas distintas prerrogativas e competências.

Acontece que esse belo desenho termina por não ser efetivo quando os Poderes, além de outros que procuram afirmar-se, não só não se entendem, como abrem espaço a diferentes tipos de arbitrariedades. Não basta um texto que todos dizem respeitar se ele se mostra incapaz de regrar as relações sociais, econômicas e políticas em proveito do bem coletivo.

Formalmente, o País é organizado constitucionalmente em três Poderes, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Quando observamos a realidade, contudo, constatamos que, materialmente, a organização efetiva é bem diferente, com mais outros três Poderes se acrescentando aos iniciais, a saber, o Ministério Público, o Tribunal de Contas da União e a Polícia Federal. Como se não fosse suficiente, alguns destes são constituídos de micropoderes internos que se arrogam independência de suas autoridades hierárquicas.

O Ministério Público aparece não somente como um Poder independente, como tem a pretensão de invadir o espaço de outros Poderes. A partir de uma hermenêutica criativa, cada promotor, por exemplo, passou a gozar de uma independência individual como se fosse a expressão concreta de uma autonomia funcional. As portas ficam escancaradas para cada indivíduo interpretar a lei como bem entender.

O caso das delações em cascata, absolutamente sem controle, é um exemplo de como uma máquina de denúncias invadiu a competência dos demais Poderes, lançando nomes inocentes ao opróbrio. Delações não acompanhadas de provas são ineptas, porém os vazamentos já se tornam nesse meio tempo uma condenação pública.

As duas denúncias ineptas do ex-procurador-geral Rodrigo Janot contra o presidente da República lançaram o País numa profunda crise, tornando inviável a reforma da Previdência, condição sine qua non da tão necessária transformação do Brasil. No papel tudo parecia muito bonito, pois respaldado na luta contra a corrupção; mas, na verdade, o maior prejudicado foi o próprio País. Dentre os seus efeitos, destaque-se o fortalecimento dos privilégios de estamentos estatais que resistem a qualquer mudança.

A Polícia Federal segue os passos do Ministério Público, tentando ganhar para si maior protagonismo, como se fosse um Poder independente. Também ela é composta por micropoderes que se concretizam na ação de delegados que prestam contas apenas a si mesmos. Por exemplo, prorrogam indefinidamente investigações e inquéritos, como se fosse perfeitamente normal, pondo o investigado na posição de culpado potencial, que se vê sem defesa e desguarnecido. Novamente a justificativa consiste na luta contra a corrupção a embelezar qualquer ação, numa invasão constante dos direitos individuais e, conforme o caso, no desrespeito às prerrogativas de outros Poderes.

O Tribunal de Contas da União, de órgão auxiliar do Poder Legislativo, está, na prática, tornando-se um Poder autônomo, ao qual os outros devem prestar contas. Nada contra a formação técnica de seus quadros, muito aprimorada nos últimos anos, exemplar em seus pareceres, mas estamos diante de questões institucionais que não podem ser contornadas. Veja-se o imbróglio dos acordos de leniência quando diferentes Poderes da República se digladiam acerca de quem tem a competência final sobre a matéria, produzindo uma grande insegurança jurídica.

O Poder Legislativo talvez seja o mais desmoralizado dos Poderes, por terem vários de seus membros contas a prestar à Justiça. Acontece que a opinião pública não mais discrimina entre parlamentares honestos e desonestos, como se todos fossem iguais e pertencessem a uma mesma classe política corrupta. Pior do que o pior dos Poderes Legislativos é a ausência de Poder Legislativo.

Assinale-se, ainda, que o próprio Legislativo é responsável por sua própria perda de poder. Incapaz de resolver os seus problemas internamente, recorre a todo momento ao Supremo para que decida sobre o que fazer em cada questão pontual que se apresenta. O STF é provocado sistematicamente por parlamentares e partidos, que abdicam, assim, de suas prerrogativas, colocando-se numa posição de servidão voluntária.

O Supremo tem aproveitado o espaço que lhe tem sido ofertado, ocupando todas as brechas que se lhe apresentem. A lei, que deveria ser o seu limite, é passível de toda sorte de interpretação, produzindo uma hermenêutica criativa tendo como único suporte uma suposta luta pela regeneração nacional. Ministros brigam em público, como se suas palavras fossem a expressão de uma interpretação sacrossanta. Não há sacralidade que aguente!

Esse Poder, por sua vez, é constituído por 11 poderes internos, cada um deles agindo conforme os seus próprios critérios. Como se não bastasse, ministros decidem monocraticamente qualquer questão que estimam constitucional, e mesmo ética, como se lhes coubesse decidir sobre questões de moralidade pública, independentemente de qualquer amparo constitucional.

O resultado de tudo isso é a diluição da autoridade estatal. Uma verdadeira democracia não conseguirá sobreviver a tamanha balbúrdia política e constitucional.
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Denis Lerrer Rosenfield professor de filosofia na UFRGS.

sábado, 7 de julho de 2018

Ruy Fabiano: STF: sem juízes e sem juízo


- Blog do Noblat | Veja

Supremo nunca teve o protagonismo político de hoje

Em nenhum outro momento da História do Brasil, o STF teve o protagonismo político de hoje. Da mesma forma, jamais sua imagem e credibilidade estiveram tão desfavorecidas perante a população. Não são situações desconexas: uma coisa decorre da outra.

Na medida em que se auto-investiu da condição de poder moderador – figura que, inexistente na república, cabia ao imperador na monarquia -, desfez-se da moderação, relativizou a Constituição e desceu ao vale-tudo do varejo político-partidário.

Usurpou prerrogativas dos demais Poderes, legislando, vetando leis e, até mesmo, nomeação de ministros de Estado. O Direito tornou-se um detalhe, a ser acionado quando convier.

Exemplo claro disso deu-se no espaço de uma mesma semana. No dia 3, o ministro Dias Toffoli negou habeas corpus a Evanildo José Fernandes de Souza, morador de rua que furtou e depois devolveu à loja uma bermuda de R$ 10.

A Defensoria Pública da União recorreu à tese da irrelevância do furto e ao fato de o morador ter devolvido a mercadoria. Toffoli foi implacável: tratava-se de reincidência – e ponto.

Evanildo cumprirá pena de 1 ano e sete meses. Já José Dirceu, reincidente dos reincidentes – condenado no Mensalão e duas vezes no Petrolão por desvios multimilionários –, foi posto em liberdade pelo mesmo Toffoli, sem que a defesa do condenado o pedisse.

Não há irrelevância, nem devolução do roubo. E não é só: um dia antes de condenar o morador de rua, Toffoli, usurpando as prerrogativas do juiz da causa, Sérgio Moro, mandou tirar a tornozeleira eletrônica de José Dirceu. Nada de medida cautelar.

Trata-se agora de um homem livre, embora condenado duas vezes, em segundo grau, e já cumprindo pena. Pode agora, se quiser, comparecer à 24ª reunião do Foro de São Paulo, em Havana, no próximo dia 19. Não se sabe se irá, mas não será o STF a barrá-lo.

Toffoli integra a 2ª Turma do STF, onde, ao lado de Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, tem sido sistemático na defesa e libertação dos réus políticos da Lava Jato. Em circunstâncias normais (algo que inexiste há muito tempo), nem poderia julgar José Dirceu, a quem deve não apenas o cargo, mas a própria carreira.

Foi seu chefe de gabinete, advogado e assessor. A ele, deve a nomeação ao cargo de Advogado Geral da União, de onde, ainda por meio dele, foi guindado à mais alta Corte de Justiça do país – ele que fora reprovado em dois concursos para juiz de carreira.

Toffoli não é um caso isolado. Seu colega de Turma, Gilmar Mendes, disse recentemente que seu gabinete tornou-se ponto de encontro do PT, que o apelidou de “pátio dos milagres”.

Wadih Damous, líder do PT na Câmara, disse que Gilmar, antigo adversário do partido, “é hoje nosso aliado”. Quanto a Lewandovski, rasgou a Constituição no impeachment para garantir os direitos políticos de Dilma Roussef, hoje candidata ao Senado.

A esse grupo, soma-se o ministro Marco Aurélio, que, em entrevista a uma TV portuguesa, considerou injusta a prisão de Lula, indispondo-se assim contra decisão da própria Corte que integra.

Nenhuma anomalia, no entanto, é maior e mais espantosa que a simbolizada no que teremos daqui a dois meses: um presidente da mais alta Corte de Justiça do país – superior hierárquico de todos os juízes – que não conseguiu, por duas vezes, passar num concurso para dar os primeiros passos na profissão.

Não se trata apenas de juízes: está faltando juízo ao STF.
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Ruy Fabiano é jornalista