sexta-feira, 22 de março de 2019

Guten Morgen 73: Como sobreviver à faculdade - Flavio Morgenstern

Guten Morgen 73: Como sobreviver à faculdade

Agora que você passou no vestibular e viu como a faculdade é por dentro, está decepcionado e intoxicado de maconha. Saiba como manter a sanidade e os estudos em nosso podcast
1.2kShares
Loja Senso Incomum
Guten Morgen, Brasilien! Já que educação, MEC, doutrinação, Ricardo Vélez, ideologia e quejandos estão em voga (para não falar eternamente do diploma de Olavo de Carvalho), vamos dar um manual de como sobreviver à essa entidade acadêmica, erudita, científica e dona da verdade e das maiores bocas-de-fumo do planeta: a Universidade. Se você acabou de passar na faculdade, seus problemas mal começaram. Sobreviva com nosso podcast.
As faculdades, ou o mundo acadêmico em si, perderam completamente o sentido original contido na palavra “Universidade”: um conhecimento universal, uma busca por uma unidade coerente entre disciplinas absolutamente distantes como Física e Crítica Literária. Hoje, o debate é dominado por “especialistas”, ou seja, aqueles que se aprofundam em apenas um tema, e geralmente o entendem cada vez menos quanto mais o estudam, justamente por só lerem uma coisa.
Ao invés de acadêmicos serem mais inteligentes do que os eruditos do passado, cada vez mais inventam uma desculpa para lerem menos: algo não foi publicado em um jornal acadêmico relevante, o professor não gosta de tal autor, há um “consenso acadêmico” que não permite discutir certos temas, ou simplesmente “ninguém na faculdade leva tal livro a sério”, o que faz com que certos assuntos sejam lidos por todos, exceto por universitários, que se gabam de, ehrr, estudarem mais do que os não-iniciados.
Essas são apenas algumas das contradições do atual academicismo, que acredita que atingiu a maior verdade do Universo por ter aprendido a usar as normas da ABNT no Word. Fora a marofa de maconha e gente que se aproveita para nunca mais se vestir bem na vida, damos um breve passeio pela história da educação a da pedagogia desde a Paidéia grega (sempre inventamos um motivo pra falar de Grécia Antiga…), a educação no Império Romano, até o surgimento das Universidades na Idade Média.
E para quem acha que as faculdades hoje são o supra-sumo da sabedoria “científica”, vamos analisar como e por que, bem ao contrário do que se acredita, o conhecimento criado e descoberto nas Universidades pode ter avançado tecnologicamente desde então, mas decaiu e muito em matéria filosófica – aquilo que, justamente, dá unidade e coerência ao conhecimento.
Da paidéia a Harvard, e das Universidades medievais à educação global unificada, vamos admitir o que ninguém admite: as faculdades, com todos os méritos que possuem e excelentes programas e professores, são uma entidade decadente no mundo atual.
A produção é de Filipe Trielli e David Mazzuca Neto no estúdio Panela Produtora, com produção visual de Gustavo Finger da Agência PierGuten Morgen, Brasilien! 
—————
Confuso com o governo Bolsonaro? Desvendamos o nó na revista exclusiva para patronos através do Patreon ou Apoia.se.

"Reflexões sobre um voto a mais", por Fernando Gabeira


"Reflexões sobre um voto a mais", por Fernando Gabeira

A Lava Jato fez cinco anos com impressionantes números internos e grandes repercussões na política continental, algo que não se destaca muito aqui, no Brasil. Mas na semana do aniversário sofreu uma derrota: por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que crimes conexos ao caixa 2 vão para a Justiça Eleitoral.
Os políticos acusados de corrupção terão um alívio. A Justiça Eleitoral não está aparelhada para investigar, dificilmente colherá provas. Alívio maior ainda é saber que, mesmo com excesso de provas, como no julgamento da chapa Dilma-Temer, ela decide absolver.
Há um novo marco adiante: a votação da prisão em segunda instância. Se o grupo que resiste à Lava Jato vencer, trará alívio não só para investigados, como também para os presos.
A Lava Jato vinha de uma semana difícil com a história da fundação que usaria R$ 2,5 bilhões para combater a corrupção. Era dinheiro da Petrobrás a ser devolvido ao Brasil pelos Estados Unidos. Os procuradores compreenderam rápido que era melhor recuar da ideia e deixar que o dinheiro seja usado de acordo com prioridades democraticamente definidas. Mas os adversários souberam aproveitar o tropeço. 
O ministro Gilmar Mendes chegou a afirmar que havia intenções eleitorais na decisão dos procuradores de usar o dinheiro contra a corrupção. E levou o nível da tarde ao de um programa do Chaves, chamando os procuradores de gentalha.
Creio que os ministros perceberam que derrotar a Lava Jato ia custar a todos uma certa oposição social. E de fato houve reação nas redes e na rua. Algumas reportagens indicavam que era uma reação de bolsonaristas contra o STF. Penso que transcende um grupo determinado.
Dias Toffoli compreende que está diante de uma situação grave. As sessões são públicas, a rede comenta e ataca os ministros. No entanto, sua reação de determinar inquérito no Supremo e escolher um delegado para conduzi-lo deu a impressão de estar com medo e isolado.
Com medo porque, de fato, o nível de agressividade aumenta, até com posições que fariam Rui Barbosa virar no túmulo: acabar com o STF. Isolado porque o Supremo é um órgão superior, existem estruturas judiciárias próprias para isso. Por que desprezá-las? Elas só desenvolvem inquéritos sobre acusações específicas, não uma hostilidade difusa contra os ministros.
Na verdade, Toffoli deu uma carteirada. Como em toda carteirada no Brasil, no princípio as pessoas ficam meio surpresas. Em seguida, pensando bem, conseguem ver as coisas nas dimensões legais.
O inquérito determinado por Toffoli pode ser contestado legalmente e, sobretudo, no campo político. Até que ponto procuradores e parlamentares que preparam uma CPI da Lava Toga não podem interpretar isso como uma tentativa de intimidação?
Não será o fim do mundo entregar os crimes conexos ao caixa 2 à Justiça Eleitoral, muito menos acabar com a prisão após julgamento em segunda instância. Se vão fazer isso, aguentem o tranco, sem apelar para saídas autoritárias. Quem anda pelas ruas não ouve críticas ao STF apenas de seguidores de Bolsonaro. Há algo mais amplo e potencialmente agressivo. E se a reação for essa que Toffoli lançou, as coisas podem ficar muito piores. Em vez de as pessoas lutarem contra juízes que veem apenas como cúmplices dos políticos, eles vão ser vistos também como autoritários e antidemocráticos.
Algumas previsões eleitorais temiam passos autoritários do governo. O Supremo e o Parlamento seriam contrapesos democráticos. Se o próprio Supremo avança o sinal, aumenta uma percepção de insegurança. Não creio que os parlamentares se vão intimidar.
O caminho escolhido por Dias Toffoli agrava a situação. Abre-se uma perspectiva para uma luta mais áspera ainda. Já chegamos ao nível do programa vespertino Chaves com a gentalha, gentalha de Gilmar. No programa, gentalha é um achado; no diálogo institucional, uma barbárie.
A Lava Jato continuará com apoio popular. A entrada de Sergio Moro no governo ainda é uma incógnita. Ela é baseada no propósito de ampliar o trabalho da operação, levá-la além dos seus limites com um conjunto de leis e uma nova atitude do Executivo. Todavia não é garantido que os parlamentares respaldem majoritariamente suas propostas. E parece haver no governo uma luta interna com potencial desagregador. As notícias que vieram de Washington, sobretudo a entrevista de Olavo de Carvalho, revelam uma linguagem também corrosiva, em especial quanto aos militares.
Se a maioria ocasional entre os ministros prevalecer e derrotar de novo a Lava Jato, certamente haverá reações. Toffoli mostrou-se um pouco sem norte nesta primeira etapa. Se insistir nesse tipo de resposta, tende a sair enfraquecido.
Uma nova derrota da Lava Jato também terá repercussões no Congresso e, pelo que ouço, o tom lá contra alguns ministros do STF tem a mesma carga emocional das ruas. Uma CPI da Lava Toga tem o potencial de trazer uma grande pressão, criar tensões institucionais. A luta ainda está longe do desfecho, mas vejo que pode ser áspera, com os políticos estimulados pelas ruas. O aspecto delicado é que ela tem o potencial de pôr em confronto, ainda que parcialmente, duas instituições com que contávamos como contrapeso democrático.
Será preciso muita maturidade para avançar daqui para a frente, máxime neste momento crucial de luta entre diferentes maneiras de tratar a corrupção. Não deveriam ser tão excludentes. Quando um ministro se coloca como inimigo da Lava Jato, perde a isenção, propõe, na verdade, um duelo com a maioria da sociedade e parte substancial do Congresso.
Tomar sucessivas decisões impopulares com um estilo de briga de botequim é uma escolha. O próprio STF, instituição destinada a resolver conflitos, transformou-se num núcleo conflitivo. Uma fábrica de crises entre um e outro chá.

O Estado de S.Paulo

domingo, 17 de março de 2019

"Cidade imensa e triste", por Mario Vargas Llosa


Resultado de imagem para mario vargas llosa frasesVim a Londres pela primeira vez em 1967, para lecionar no Queen Mary’s College. Levava uma hora de metrô para chegar à universidade, a partir de Earl’s Court, e outra para voltar. Usava essas duas horas para preparar as aulas e corrigir os trabalhos dos alunos. Descobri que gostava de ensinar, que não me saía mal e aprendia muito lendo – por exemplo, Sarmiento, cujo ensaio sobre o gaúcho Quiroga passou a ser, desde então, um de meus livros de cabeceira. 

Londres
A música liderava a vida cultural de Londres nos anos 60  Foto: Kirsty Wigglesworth / AP
A Londres daqueles dias era muito diferente de Paris, onde vivi os sete anos anteriores. Ali se falava de marxismo e revolução, de defender Cuba contra as ameaças do imperialismo, de acabar com a cultura burguesa e substituí-la por outra, universal, na qual a sociedade toda se sentisse representada. 
No Reino Unido, os jovens perdiam o interesse pelas ideias, pela política e a música passava a liderar a vida cultural. Eram os anos dos Beatles e dos Rolling Stones, da maconha, dos trajes chamativos e dos cabelos até os ombros. Uma nova palavra, hippies, havia se incorporado ao vocabulário universal. 
Havia passado meus seis primeiros meses em Londres vivendo num distante e tranquilo bairro cheio de irlandeses, Clicklewood, mas logo, sem mesmo saber, aluguei uma casinha no próprio coração do universo hippie, Philbeach Gardens, em Earl’s Court. Eram benignos e simpáticos e lembro-me da surpreendente resposta de uma garota a quem me ocorreu perguntar por que andava sempre descalça: “Para me livrar de uma vez de minha família”. 
Todas as tardes em que não tinha aulas, eu passava na belíssima sala de leitura da British Library, que então ficava no Museu Britânico – escrevendo Conversa na Catedral e lendo Edmund Wilson, Orwell, Virginia Woolf e, por fim, Faulkner e Joyce em inglês. Tinha muitos conhecidos, mas poucos amigos, entre eles Hugh Thomas e os Cabrera Infantes, que, por pura casualidade, vieram morar a poucos metros de minha casa. No ano seguinte, passei a lecionar no King’s College, muito mais perto de casa. Trabalhava mais, mas o salário era melhor. 
Naqueles anos, passei a ter muito carinho e admiração pela Inglaterra. Também fui deixando de ser socialista e me convertendo, pouco a pouco, no que ainda tento ser, um liberal. Esse sentimento aumentou com as coisas extraordinárias que Margaret Thatcher fez no governo. Na época, eu lia muito Hayek, Popper, Isaiah Berlin e, sobretudo, Adam Smith. Fui a Kirkcaldy, onde ele havia escrito A Riqueza das Nações. De sua casa, só restou um pedaço de muro, com uma placa. O museu local só tinha dele um cachimbo e uma caneta. 
Em Edimburgo, em compensação, pude depositar um buquê de flores na Igreja onde ele está enterrado e passear pelo bairro onde os vizinhos o viam vagabundear durante seus últimos anos, distraído, distante do mundo, com seus passos de dromedário, totalmente absorto em pensamentos. 
Em meus antigos tempos de Londres, no final dos anos 60, não tínhamos televisão, embora tivéssemos um rádio, e só saíamos uma vez por semana, nas noites de sábado, para ir ao cinema ou ao teatro, porque a senhora da Maby Minders que vinha ficar com as crianças nos custava o olho da cara. 
Entretanto, apesar das limitações, creio que éramos muito felizes, e é possível que, não fosse por Carmen Balcells, teríamos ficado para sempre em Londres. Meus dois filhos e minha futura filha seriam três ingleses. Tenho certeza, porém, de que seria contra o Brexit e teria militado ativamente contra semelhante aberração. 
Eu me dava muito bem com meu chefe no King’s College, o professor Jones, especialista no Século de Ouro. Naquele fim de ano acadêmico, ele me propôs que, no ano seguinte, eu substituísse uma vez por semana um professor de espanhol de Cambridge que sairia de férias e eu aceitei. Então, sem se anunciar, Carmen Balcells bateu como um furacão à minha porta.
Havia sido apresentado a ela em Barcelona por Carlos Barral, que explicou que ela se ocuparia de negociar no exterior meus direitos autorais. Pouco depois, porém, a própria Carmen me contou que havia deixado de trabalhar na editora Seix Barral, porque a missão de uma agente literária era representar os autores ante (e contra) o editor, e não o oposto. Gostaria eu de tê-la como minha agente? Sem dúvida. E as coisas ficaram mais ou menos por ali.
E o que ela veio fazer em Londres? “Vim ver você”, respondeu. “Quero que renuncie imediatamente à universidade e à Inglaterra e quero que todos vocês venham viver em Barcelona. O King’s College toma muito de seu tempo. Garanto que você pode viver de seus livros. Eu me encarrego disso.”
É provável que eu tenha dado uma gargalhada e lhe perguntado se ela havia enlouquecido. Viver de direitos autorais era uma bobagem, pois eu levava dois ou três anos para escrever um romance e, se tivesse de escrevê-lo em seis meses para dar de comer a meus filhos, sairia um livro ilegível. 
O que eu não sabia era que quando Carmem punha uma coisa na cabeça era melhor fazer o que ela queria ou então matá-la. Não havia meio-termo. Em me lembro de que discutimos horas e horas e ela me contou que García Márquez já estava em Barcelona vivendo de seus livros – ela havia ido ao México para convencê-lo. E decretou que não sairia de minha casa enquanto eu não dissesse sim. 
Venceu-me pelo cansaço. Na mesma tarde, fui dizer ao professor Jones que iria para Barcelona e, dali em diante, viveria de meus direitos autorais. Ele era um homem bem educado e não me disse que eu era um imbecil fazendo tal disparate, mas vi em seu olhar que pensou isso.
Não me arrependo nada de ter ouvido Carmem Barcells, pois os cinco anos que passei em Barcelona foram maravilhosos. Ali nasceu minha filha Morgana, na clínica Dexeus, e graças a Santiago Dexeus eu a vi nascer. 
A cidade se converteu, graças principalmente a Carmen e a Carlos Barral, na capital da literatura latino-americana por um bom tempo, e lá voltaram a se encontrar e a conviver os escritores espanhóis e os hispano-americanos, que se davam as costas desde a Guerra Civil
Nós que passamos aqueles anos na grande cidade mediterrânea não esqueceremos nunca o entusiasmo com que sentíamos chegar o fim da ditadura e a sensação reconfortante de saber que, na nova sociedade democrática, a cultura teria um papel fundamental. O pensamento é livre!
A Espanha ainda não prestou a Carmen Balcells as homenagens que ela merece. Carmen, sozinha, decidiu que, com suas grandes editoras e sua antiga tradição de alta cultura, caberia a Barcelona reunir muitos escritores latino-americanos e, reconciliando-os com os espanhóis, unir a cultura e a língua num só território cultural. 
Os editores, pouco a pouco, começando com Carlos Barral, passaram a ouvi-la. Como fez comigo, ela levou muitos escritores a se instalarem em Barcelona, onde, naqueles anos, começavam a chegar jovens sul-americanos, como antes chegaram a Paris, porque era ali que fazia sentido fantasiar histórias, escrever poemas, pintar e compor. 
Desde o Brexit, me senti profundamente fraudado e a Inglaterra foi se apagando de minha memória. Entretanto, nestes dias, talvez porque já esteja velho, lembrei com saudade os anos que aqui passei e mais uma vez contradigo aquele poeta brasileiro do qual Jorge Ewards tanto gostava, que chamou Londres de “cidade imensa e triste” e disse de si mesmo: “Foste lá triste e voltaste mais triste”. / Tradução de Roberto Muniz

* É prêmio Nobel de Literatura

sábado, 16 de março de 2019

"O colapso da moderação", por Ruy Fabiano


O STF é a última cidadela de um establishment político-institucional que, embora moralmente arruinado, luta para sobreviver – mais que isso, manter seu status quo e as regras que o sustentam.
Esse establishment, sem a exceção de nenhum dos poderes, foi gradualmente desmascarado pela operação Lava Jato, que levou à cadeia figurões da política e do meio empresarial. Os maiorais.
Expôs as relações incestuosas entre o público e o privado e a transgressão contínua, quase rotineira, a uma cláusula pétrea constitucional segundo a qual “todos são iguais perante a lei”.
Millôr Fernandes, décadas atrás, dizia que alguns são mais iguais. 
Atualizando-o, pode-se dizer que lutam – e o STF é a trincheira final – para que essa igualdade desigual seja preservada.
A Lava Jato expôs as vísceras desse sistema e, ao fazê-lo, despertou o ânimo da população, que se insurgiu em sucessivas manifestações de rua – as maiores da história – denunciando sua índole corrupta e subversiva, clamando por sua remoção.
O impeachment de Dilma Roussef foi a consequência inicial e a eleição de Bolsonaro a continuidade desse processo (que não cessou). A população, em sua maioria, viu nele o candidato que melhor expressava o sentimento anti-establishment.
A hostilidade da mídia e do coronelato cultural a seu nome, que precede a posse e acompanha cada um de seus atos, apenas os inclui, na percepção do público, entre os que resistem às mudanças, merecedores, eles sim, do estigmatizado rótulo de reacionários.
Nada simboliza mais essa degradação institucional que o encarceramento, a partir de juízes de primeira instância, de um ex-presidente da República, Lula, ao lado de ex-governadores (quatro do Rio de Janeiro e um do Paraná), ex-deputados (inclusive um ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha), ex-senadores, ex-ministros.
Ao lado deles, os donos das maiores empreiteiras do país, algumas ostentando o rótulo de multinacionais, com tentáculos estendidos a outras nações e continentes. E a fila não acabou.
Aguardam nela, em face dos mesmos delitos, outros figurões, entre os quais, dois ex-presidentes – Dilma Roussef e Michel Temer -, parlamentares com mandato, banqueiros e… juízes.
O ex-governador Sérgio Cabral, condenado (até aqui) a mais de um século de cadeia (o que o obrigará a retornar a Bangu na próxima encarnação), resolveu abrir o bico e chegar ao pessoal da toga.
No Senado, prepara-se uma CPI para investigar o Judiciário e acaba de ser impetrado mais um pedido de impeachment contra Gilmar Mendes (há outros, contra Dias Toffolli, Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski). No Congresso, há ainda um pacote anticrime, do ministro Sérgio Moro, que, entre outras coisas, fortalece o combate à corrupção nos altos escalões do Estado.
Diante disso, não surpreende a decisão do STF de remeter ao TSE os crimes de corrupção que possam, de algum modo, apresentar um viés eleitoral. Nocaute à Lava Jato: quase todos os enquadrados por ela alegam caixa dois para justificar propinas e superfaturamento de obras. Reduz-se assim (ou mesmo elimina-se) a fila dos réus e viabiliza-se a liberação dos já encarcerados, a começar por Lula.
Achou ruim? Cuidado: o presidente do STF, Dias Toffolli, anunciou que irá punir os que, inconformados, protestem contra esses atos. Em gesto inédito (quase tudo neste momento é inédito), o STF julgará em causa própria os que achar que o ofenderam.
Eis que o autointitulado Poder Moderador da República perdeu de vez a moderação.
Ruy Fabiano é jornalista 

sexta-feira, 8 de março de 2019

"Venezuela inspira cuidados', por Fernando Gabeira

Resultado de imagem para gabeira jornalista
Fui quatro vezes à fronteira com a Venezuela. A última jornada, entrega de caminhões com comida e remédio, acompanhei de longe. A sensação que tenho é de que algumas pessoas superestimaram a possibilidade da queda imediata de Maduro. Esperam um nocaute numa luta que só poderia ser ganha por pontos. E de certa forma a luta foi ganha. A violência contra os manifestantes e o incêndio dos caminhões contribuíram para isolar um pouco mais o ditador bolivariano.
Numa luta ganha por pontos, o vencedor também sofre alguns golpes. O grupo de países que apoiou Juan Guaidó utilizou um grande símbolo, que é a ajuda humanitária, mas parece ter-se esquecido de que outras crises surgem constantemente no mundo. E um dos princípios da ajuda humanitária é exatamente não usá-la para proselitismo político.
Se entendi bem os informes acerca da reunião sobre a Venezuela na Colômbia, havia uma divergência latente entre a posição brasileira e a norte-americana. Creio que essa divergência pode ser encontrada numa frase que os americanos usam com frequência: todas as opções para derrubar Maduro estão sobre a mesa. A julgar pelo general Hamilton Mourão, que representou o Brasil, há pelo menos uma opção que não nos interessa: a intervenção militar.
Há muitas razões para o Brasil descartar essa hipótese. Uma delas é o fato de termos uma fronteira comum e uma série de questões que precisam ser resolvidas bilateralmente. Um clima de guerra poderia atrair milhares de novos refugiados. Apesar do indiscutível poderio militar dos EUA e das forças bem equipadas da Colômbia, a vitória rápida na Venezuela não é tão previsível.
O centro de todas as táticas, no momento, é tentar descolar as Forças Armadas venezuelanas da ditadura de Maduro. Daí a insistência nas promessas de anistia e o apelo aos oficiais para que pensem no futuro. No entanto, a resistência a uma intervenção militar não surgiria apenas nas Forças Armadas. Há os paramilitares organizados por Maduro e possivelmente orientados pelos cubanos. E há uma polícia política que só teria a perder com a queda do regime.
Mesmo entre os militares há os que parecem imunes a qualquer proposta de anistia. São os generais que ocupam postos no governo e obtêm neles grandes vantagens financeiras. Podem até achar interessante a ideia de uma velhice tranquila. Mas dificilmente se disporão a perder os ganhos materiais que recebem de Maduro em troca de apoio.
É um caminho complicado. Guaidó definiu-o bem, afirmando que a ditadura não cairá por si própria. Não só Maduro pode refugiar-se no seu bunker em Miraflores, como existem centenas de pessoas dispostas a se imolar pelo socialismo do século 21.
O general Mourão também disse algo que me parece correto: a Venezuela não consegue sozinha se livrar desse esquema de dominação. Se Maduro não renuncia, a intervenção militar é inviável e a Venezuela não pode resolver a parada sozinha, o que nos resta como alternativa?
Guaidó marcou nova manifestação para amanhã. Ele, que parece ter capturado a simpatia de grande parte do povo, seguirá nesse caminho. Mas sabemos que nem sempre as manifestações se mantêm quando não conseguem resultados práticos. Elas tendem a refluir com o tempo, para reaparecer adiante, às vezes com mais força.
Articular a pressão interna e externa parece-me no momento a melhor saída, ainda que tome mais tempo. O sofrimento do povo venezuelano é um dado que leva muitos ao desejo de rapidez e nocaute.
Nem sempre soluções fulminantes são as menos dolorosas. Há outras ditaduras no mundo. Algumas são tratadas pela comunidade internacional com certa tolerância. Não só a Arábia Saudita, como a Coreia do Norte são objeto de táticas diferentes dos EUA. Há nisso tudo outra questão delicada: combinar com os russos. E os chineses. Ambos financiam a Venezuela e possivelmente têm sua dívida paga com petróleo. Assim como é necessário tranquilizar os militares com anistia, seria preciso convencer os russos e chineses de que não terão perdas econômicas com a mudança.
Não sei qual é a posição de Guaidó sobre isso. Mas como seu objetivo é conduzir a transição para a democracia, realizar eleições, não só ele, como outros atores da oposição vão precisar se manifestar sobre isso. Naturalmente, Maduro e a cúpula do governo podem também ser alcançados por uma política de anistia e retirada segura da Venezuela.
Imagino como algumas pessoas podem torcer o nariz para essas hipóteses. Combinar com os russos? Deixar Maduro escapar do país? São as contingências de uma vitória por pontos, diferente de simples nocaute.
Supor um caminho mais radical e de curta duração pode trazer sérias consequências, e não só as sangrentas de uma guerra no continente. São também as constantes decepções das pessoas que acreditam que um regime comunista, apoiado pelos cubanos, vai deixar a cena, refugiando-se numa embaixada ou pura e simplesmente partindo num avião de carreira.
Não creio que o Brasil deva temer uma posição moderada. Afinal, embora exista um esforço muito amplo para derrubar Maduro, as consequências do processo violento vão ser mais sentidas nos países vizinhos. Outro dia, em Pacaraima, segui uma ambulância militar venezuelana. Quando chegou a Boa Vista foi direto para o Hospital Geral e desembarcou um jovem soldado que precisava de ajuda.
Isso me fez pensar. Se até os militares cruzam a fronteira em busca de ajuda médica, qual o papel de Roraima num cenário de guerra? Volta e meia há apagões em Boa Vista. A energia vem da Venezuela. Estamos prontos para substituí-la?
O próprio Maduro, ao condenar a ajuda humanitária, de certa forma poupou o Brasil. Disse que tinha dinheiro para comprar nossa carne, nosso arroz e nosso leite em pó. Não é verdade, mas é uma nuance. E, em política, nuance conta. Ele não ignora que o Brasil quer derrubá-lo. Mas distingue o método dos adversários.

O Estado de São Paulo

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

COMUNISMO MATA, SÓ IDIOTA NÃO SABE - RAFAEL BRASIL

Imagem relacionada


Comunismo mata e muito. Desde os massacres nunca dantes vistos, na já autocrática Rússia dos Tzares, feitos por Lênin, ainda nas primeiras semanas do golpe que antecedeu a guerra civil, aos genocídios e autocracias aqui na América Latina contemporânea. Cuba, Nicarágua e agora o desastre venezuelano.
Muitos dizem que comunismo acabou, mas podemos chamar de comunismo a idéia leninista de que a elite do partido em questão é portadora da verdade histórica, e como diria Gramsci, o partido seria o condutor das massas, o moderno príncipe. O portador do socialismo, o paraíso na terra, que aliás Marx não deixou uma linha sequer de como seria feito. E o motor de tudo isso seria a luta de classes, agora transfigurada em supostas minorias contra maiorias nem  sempre explicitadas. 
Afinal, mudam as teorias ao calor dos movimentos dialéticos da política e da história, ou seja, o comunismo é um movimento político de grande envergadura que sobrevive mais na periferia do capitalismo, em outras palavras é coisa de subdesenvolvido. E aqui na América Latina foi uma catástrofe de grande envergadura. Brasil, Venezuela, Argentina, Peru, Equador, Bolívia, Nicarágua além do Uruguai, entraram na onda. Curiosamente o Paraguai não seguiu os outros e foi o que mais se desenvolveu, com a devida ajuda das máfias chinesa e outras, claro. Cuba permaneceu como uma espécie de vanguarda deste exército de bandoleiros políticos.
O comunismo é muito atrativo para os jovens, afinal, todos se entusiasmam por lutar pelo bem da humanidade. Mas como disse diversas vezes nosso grande Nélson Rodrigues, a juventude é a fonte da imbecilidade. Enfim, o problema agora é reconstruir sociedades inteiramente corrompidas pelo estado, e tentar implantar o velho e bom capitalismo nestas plagas. Claro, o capitalismo está longe de ser perfeito, mas com democracia é certamente o sistema menos ruim, justamente por não ser um sistema. Digamos, mais um estilo de vida. Mas isso é tarefa de décadas. Afinal, nossa imbecilidade é uma construção de séculos, não é Nélson Rodrigues? KKKKK!

A ZOADA DO HINO - RAFAEL BRASIL

Resultado de imagem para bagunca e violencia nas escolas charges.


Me diverti muito nas redes sociais nos últimos dias. Foi a questão do hino, que foi sugerido pelo ministro da educação Velez Rodriguez, de todos cantarem e até filmarem estes eventos cívicos, que estávamos acostumados no passado, e que nas últimas décadas de ensino "progressista" foi praticamente abolido, afinal, nas nossas universidades, nacionalismo ficou fora de moda, virou até coisa de direitista fascista e xenófoba, naturalmente.
A besteira do ministro, que logo foi consertada, foi botar o slogan da campanha, que aliás no início pensei que era mentira dos oposicionistas, o que hoje chamam de fake. E também de filmar, isso acho besteira, pois filmar hoje é uma coisa mais do que banal, aliás por que não filmar muitos professores dando aulas? Assim como as mazelas das nossas escolas, que aliás não são poucas, e até para vermos como funciona uma sala de aula com o pobre do professor, que passou a ser opressor, não ter autoridade nenhuma sobre alunos livres de punição, e por isso mal educados e autoritários? Filmar é uma ótima idéia, assim como antigamente punir alunos mal criados e mal educados, pra dizer o mínimo.
Pórém, o mais ridículo, foi uma penca de professores esquerdistas ficarem fazendo faniquitos por causa do hino, insinuando que obrigar a cantar o mesmo seria coisa de fascista. Até o governo do estado, envolvido até o gogó com corrupção, emitiu uma nota, com aplausos de muitos professores, dizendo que não era pra cumprir a determinação de cantar o "maldito" hino nacional. 
Em suma , foi bom essa besteirada toda, para medir o grau de ignorância em que nos meteram. O óbvio passou a ser o exótico, e vice versa. Temos que lutar pelo óbvio, aliás em quase tudo. E temos que seguir a intuição milagrosa do homem comum, de quem falou magistralmente o Grande jornalista britânico do início do século XX, Chesterton. O homem comum está salvando o país, mas as elites falantes reagem, e com raiva. Uma raiva histérica, e claro, ridícula. Alguém duvida?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A GUERRA AINDA NEM COMEÇOU - Rafael Brasil

Resultado de imagem para guerra da midia contra bolsonaro


A guerra do governo contra o establishment apenas está começando, e nunca na nossa história recente um governo foi tão hostilizado pela mídia e as chamadas classes falantes. Primeiro a reforma da previdência, depois a reforma do estado com muitas privatizações e desregulamentações, mais do que necessárias para atrair investimentos, em poucas palavras, fomentar o velho e bom capitalismo no país. Além do pacote contra a violência, mais do que urgente, precisamos, e o povo está compreendendo, de mais sociedade e menos estado. E, claro, mais educação.
Enquanto escrevo, muitas corporações se movimentam para manter seus inúmeros privilégios, como o judiciário e os altos escalões das burocracias, federal, estadual e municipal, com seus marajás dormindo em berço esplêndido, desde tempos imemoriais.
E a batalha pela educação que está em pandarecos, nem tanto pela falta de dinheiro, mas com os inumeráveis desperdícios e pedagogias mais do que equivocadas como o sócio construtivismo, e a horrenda ocupação militante da educação pela esquerda. Isto é trabalho para décadas, mas sem educação não iremos a lugar algum.
Como sempre por aqui deixam tudo pra depois do carnaval. Os demagogos de sempre, os fisiológicos da velha política e a esquerda, jogam no quanto pior melhor. Sem a reforma da previdência continuaremos ladeira abaixo, com a consequente quebradeira total dos estados e municípios. Todos perdem, sobretudo os mais pobres. É isso aí. Vamos acompanhar os acontecimentos e ver como o governo vai lutar a guerra da comunicação. Na campanha, as redes sociais foram fundamentais. Agora também, mas todos vão perder, eis a questão. Afinal, vão-se os anéis ficam os dedos. Mas a questão é cortar privilégios. E o governo deve se empenhar nesta guerra midiática. A ver.