segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Luiz Felipe Pondé: "Idosos com Facebook deixam marketing do bem com lágrimas nos olhos"



Ricardo Cammarota/Editoria de arte
Ilustração Pondé


Folha de São Paulo


O que vem a ser o marketing do bem? O marketing do bem é, antes de tudo, uma derivação da esquerda empacotada para o mundo corporativo. Vai bem em palestras caras e dá aos colaboradores a impressão de que podem fabricar armas e ainda assim salvarem o mundo investindo em árvores. Nesse mundo de Deus e do Diabo, tudo pode, contanto que paguemos a fatura do Visa.

Mas essa disciplina também se aplica aos comportamentos individuais. E são esses que mais me interessam como tendência contemporânea. Já disse outras vezes que estou seguro de que, num mundo vindouro, verão nossa época como uma das mais irrelevantes da história, justamente porque somos estragados pelo conforto.

O conforto como categoria (quase) universal produziu uma alienação profunda da realidade. A riqueza em larga escala (apesar do mimimi com a desigualdade social, que é em si um "mercado" à parte) garantiu a existência do maior número de seres humanos mimados que já habitou a face da Terra. O marketing do bem é a "ciência" de cabeceira desses mimados. Quando pensam, são inteligentinhos. 

Quando pensam em si mesmos, são bonzinhos. Quando se enfurecem, postam #repúdio!

A primeira marca do marketing do bem é a mentira como procedimento argumentativo. Jamais enuncie algo que comprometa o conforto moral ou psicológico de quem ouve você. Fazendo isso, você tem uma grande chance de sempre ter aquele que "te segue" como seu consumidor de ideias.

Um praticante desse tipo de marketing sempre investe na ideia de que as novas gerações são mais "evoluídas" e resolvem melhor os problemas clássicos da vida, descritos em ideias como os sete pecados capitais (que considero, ainda, uma das melhores formas de narrar os seres humanos em seus momentos mais difíceis).

Dizer que os mais jovens são mais evoluídos implica um autoelogio, porque os pais e professores desses mais jovens são, evidentemente, os responsáveis por eles serem mais evoluídos. Ao mesmo tempo, dizer isso garante que esses mais jovens permanecerão como consumidores do mercado daqueles que "creem nessa evolução" política e moral.

A substância primeira da moral pública sempre foi a hipocrisia, porque a mentira sustenta o cotidiano quase o tempo todo. É quase uma forma de boa educação em almoço de domingo em família. O marketing do bem nega esse fato (sabido por qualquer pessoa não mentirosa) afirmando que o bem pode ser um produto que acompanha o cheque especial ou uma linha especial de crédito num banco cor-de-rosa. Idosos com Face deixam o marketing do bem com lágrimas nos olhos.

Sendo ele, o marketing do bem, uma derivação do pecado capital da vaidade (ou orgulho, ou soberba), sua primeira intenção é obscurecer as dimensões contraditórias da realidade, por exemplo, que 7 bilhões de pessoas querendo ser felizes implicam, necessariamente, a insustentabilidade desse desejo em nível de massa.

Sabe-se há muito tempo que a esquerda é um fetiche do capitalismo. A verdade desse fato se encontra, antes de tudo, na publicidade dos bancos e na própria adesão dos publicitários ao discurso do bem social e político. Não se encontra qualquer contradição entre as formas mais "avançadas" de branding e a plataforma de qualquer populismo do bem. Negar o lucro como valor absoluto no mundo corporativo é uma das marcas mais "avançadas" do marketing do bem.

O selo dessa forma de marketing é reconhecível a léguas de distância. Mais recentemente, odiar Trump. Trazer flores nas mãos para manifestações.

"Acreditar" num mundo sem guerras. Apoiar tudo que tenha a marca ONU. 

Afirmar-se sem preconceitos. Negar as diferenças que fazem diferença. Propor diálogo com terroristas. Negar o conflito entre modos de vida em lugares como a Europa Ocidental. Praticar qualquer forma de espiritualidade redutível a "energias" e a alimentação sem glúten ou lactose. Sonhar com um mundo matriarcal no qual não existem mães monstruosas. Defender valores "femininos" para pessoas que não querem ter filhos. Nas escolas, sonhar com um mundo de banheiros "livres e iguais" –#haja saco!

"Exclusividade racial", por Ruy Castro


Reprodução/Facebook
"Vou contar o que houve ontem, pra entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural:Eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo " olha lá a branquinha se apropriando dá nossa cultura", enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei "tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus.", Peguei e sai e ela ficou com cara de tacho. E sinceramente, não vejo qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade em, meu Deus!#VaiTerTodosDeTurbanteSimFoto dá negra branca mais chave que vocês conhecem, Juro que tentei tirar uma foto decente, mas não deu. Foi mal!"
Thauane Cordeiro, em foto postada em rede social

Folha de São Paulo
Correu o país a história da jovem Thauane, branca, 19 anos, hostilizada num ônibus em Curitiba por mulheres negras por estar, segundo estas, se apropriando da cultura afro ao usar um turbante. Thauane alegou que sofria de leucemia, e o turbante escondia sua perda de cabelo causada pela quimioterapia. Espero que, depois de recuperada, Thauane continue a usar turbante –não como um estandarte de guerra, mas por achá-lo um bonito acessório.

Bem, se até turbantes já foram convertidos em símbolos de identidade racial, vamos ter de rever tudo. No futebol, por exemplo, fica proibido aos jogadores brancos fazer gol de bicicleta, como Leonidas da Silva, cobrar falta com folha seca, como Didi, e comemorar um gol com o soco no ar, como Pelé –são exclusividades da cultura negra. Na culinária, os restaurantes não poderão mais servir feijoada, moqueca, farofa, angu, quiabo, jiló, cocada, quindim e rapadura a clientes brancos.

Lindas palavras de origem africana e há séculos incorporadas à língua brasileira, como cafuné, bunda, camundongo, xodó, zoeira, macumba, moleque, banguela, babaca, catimba, fuzuê e gandaia terão de ser abolidas do vocabulário branco. Quanto aos músicos brancos, mantenham distância do berimbau, da cuíca e do ganzá.

Aliás, a música popular será um problema. Ritmos de origem negra como o samba, o jazz, o blues, a salsa, o rap, o funk e dezenas de outros não poderão mais ser tocados em shows frequentados por brancos. E o rock, como ficará?

Inventado lá atrás por negros pioneiros como Muddy Waters, Howlin' Wolf, Chuck Berry, Bo Diddley e Little Richard, quem se apropriou e enriqueceu com ele foram Elvis Presley, John Lennon, Mick Jagger, David Bowie, Eric Clapton e milhares mais.

Acho que os negros americanos deveriam pedir o rock de volta.

"Temer e a moralidade pública", por Denis Lerrer Rosenfield

"Temer e a moralidade pública", por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de São Paulo

A sobrevivência de ministros não pode estar acima do interesse nacional


A política brasileira obedece, hoje, a um imperativo de ordem ética. A corrupção dos agentes políticos é condenada veementemente, não se admitindo mais nenhum crime dessa natureza. A derrocada do PT e o impeachment da ex-presidente Dilma são frutos de todo um amadurecimento da sociedade, da opinião pública.
As manifestações de rua corroboraram essa mudança, selando o destino do governo anterior. Mudanças de moralidade pública foram exigidas. O governo que a elas não se adequar corre um sério risco de legitimidade e mesmo de existência.
A ascensão do presidente Temer inscreve-se num processo de renovação política baseado em duas ideias orientadoras: a da racionalidade econômica e a da renovação ética. A sociedade já não admite mais do mesmo. 
No que diz respeito às medidas econômicas, o novo governo apresenta uma face reformista, contrastando com os governos anteriores, que levaram o País à ruína. Privilegiou a relação com o Congresso, ciente da necessidade de aprovação dessas reformas essenciais. 
Em pouco tempo, muito foi feito: a aprovação da PEC do Teto do gasto público, visando a equilibrar despesas e receitas; o encaminhamento da reforma Previdenciária, imprescindível para o equilíbrio das contas públicas; o encaminhamento da modernização da legislação trabalhista, sem a qual o País ficará preso a uma época revoluta; a profissionalização da gestão da Petrobrás, tornada um antro de corrupção partidária e pessoal; e assim por diante. 
Já no que tange à questão ética, o novo governo deixou a desejar. Vários ministros com problemas judiciais e delatados vieram a fazer parte de sua equipe. Não deveriam ter sido escolhidos. A percepção da sociedade foi de que nada havia mudado nesse quesito. A imagem presidencial foi duramente afetada.
O afastamento de alguns logo nos primeiros meses mostrou o descompasso entre o governo e a sociedade. As delações da Odebrecht potencializaram esse problema, que ficará ainda mais agudo quando elas vierem a público, seja por vazamentos ou pelo levantamento do sigilo.
Tornou-se premente uma atitude presidencial que fizesse face a essa questão, não blindando ninguém. O Brasil é muito maior que seus governos. A sobrevivência de ministros não pode estar acima do interesse nacional. 
Foi necessário estabelecer uma linha de corte que desse voz à sociedade e assegurasse as condições de governabilidade. Nenhum governo pode indefinidamente responder a uma delação por semana, pois se algumas são fundadas, outras não são.
O critério estabelecido pelo presidente foi afastar provisoriamente ministros envolvidos na Lava Jato que sejam denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O afastamento será definitivo quando acolhida a denúncia pelo STF e o ministro se torna réu. 
Dois problemas são, assim, evitados: a permanência indefinida de um ministro até ter sua condenação transitada em julgado, o que leva anos, e a não aceitação de qualquer delação como critério de afastamento. Este deve estar alicerçado num conjunto consistente de provas, tal como elaborado pelo Ministério Público (MP). 
Note-se que o discurso presidencial foi principalmente dirigido à sociedade, com o claro intuito de estabelecer um diálogo com a opinião pública. A mensagem foi pública, não apenas endereçada ao Congresso.
Mandou, ao mesmo tempo, um recado a seus ministros: se for comprovado seu envolvimento com crimes da Lava Jato, serão obrigados a partir. De nada servirão as tentativas insossas de alguns de se eximirem de delações simplesmente dizendo que não foram condenados ou que rechaçam com veemência as acusações.
As reações de certos meios de comunicação foram, porém, despropositadas, a serviço de filopetistas interessados em atacar o governo Temer. Convém notar que alguns jornalistas chegaram a afirmar que o presidente tinha apenas blindado seus ministros, o contrário da mensagem presidencial, que reiterou apoio à Lava Jato. Mais sensatos, outros observaram que Michel Temer pusera uma corda no pescoço de vários de seus assessores. 
Partindo da “tese” da blindagem, os defensores de tal posição produziram medianas das denúncias apresentadas pela PGR ao STF para simplesmente dizerem que, sendo estas superiores a um ano e meio, ninguém será afastado. Ora, a denúncia do ex-deputado Eduardo Cunha demorou cinco meses, o que significa dizer que um movimento semelhante da sociedade e das ruas obrigaria ministros envolvidos a se afastar no próximo mês de julho, se não antes. 
É, doravante, responsabilidade da PGR e do STF produzir denúncias e julgar. Deverão prestar contas à Nação de seus atos e de sua morosidade. Se nada fizerem em relação aos acusados, serão cúmplices da impunidade. A atenção da sociedade voltar-se-á contra eles e poderão, então, tornar-se alvos de manifestações populares. 
O procurador Rodrigo Janot deverá ter a celeridade dos promotores de primeira instância em Curitiba e no Rio de Janeiro, sob pena de converter-se em símbolo da procrastinação. Se optar pela lentidão, o “Fora Janot” poderá ganhas as ruas. 
O País ver-se-á diante de uma nova configuração política, com a opinião pública se defrontando com os mais diferentes tipos de fatos e focando sua atenção não mais apenas no governo, mas, também, no MP e no STF.
No próprio Ministério Público e no Judiciário produzir-se-ão vazamentos com o intuito não somente de pôr em questão vários ministros, mas também visando a acelerar as denúncias e o seu acolhimento pelo Supremo. Os ministros começarão a sangrar desde a divulgação das delações até sua conversão em denúncias. E entre estas e seu acolhimento, a posição deles se tornará insustentável.
A partir da linha de corte introduzida pelo presidente Michel Temer, não há blindagem possível, uma vez que a sociedade se manifeste e a imprensa e os meios de comunicação em geral cubram adequadamente os processos em curso.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

ROBERTO FREIRE VS. RADUAN NASSAR NO PRÊMIO CAMÕES 2016: NOCAUTE NOS PORTUGUESES - Fernando Henriques

A esquerda transformou a cerimônia do Prêmio Camões, criado para celebrar a boa literatura, em palco da politicagem mais rasteira. Entenda o que ocorreu na premiação do autor de extrema-esquerda Raduan Nassar.
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Raduan Nassar não estava errado em manifestar todo seu desconhecimento político e econômico (ele é da turma que pronuncia “neoliberalismo” a sério), ou em exibir desavergonhadamente seu desprezo pelo Estado Democrático de Direito e os ditames que o validam, na cerimônia do Prêmio Camões 2016, realizada na última sexta-feira, dia 17 de fevereiro, pelos governos do Brasil e de Portugal.
Errados, sim, estavam todos aqueles que em algum momento decidiram premiar um escritor aposentado que, nos dias que correm, se limita a escrever panfletos políticos. Deu no que deu: um discurso recheado de chavões e lugares comuns, além de totalmente descolado da realidade. Nassar não só repetiu a batida (e milhares de vezes refutada) tese de que o Governo Temer é um governo golpista e ilegítimo como, indo além, sugeriu que somos governados por um governo repressor e ditatorial  como se ditaduras premiassem seus opositores.
Ao menos o episódio serviu para nos mostrar como o desejo do ex-escritor de protestar contra um governo “golpista” rivaliza de perto com seu apreço pelos euros recebidos. Nada menos que 100 mil euros! Loco sí, pero no tonto!
De diferente nisso tudo, apenas o incomum fato de uma crítica da esquerda ter sido criticada.
Houve resposta. O ministro da cultura brasileiro, Roberto Freire, teve a palavra final no evento e o folclórico Raduan Nassar ouviu em alto e bom som que seu posicionamento foi descabido e ilegítimo principalmente por ele não rejeitar o prêmio financeiro, 50% pago pelo governo que ele chamou de golpista.
Não é por acaso que, após a saída do traiçoeiro Marcelo Calero, assumiu o Ministério da Cultura um político esbravejador e combativo como Roberto Freire.
Desta vez, mesmo em um evento onde grassam intelectuais  ou seja, um ambiente dominado pela esquerda , a esquerda teve que ouvir a crítica de um político um tanto menos esquerdista, apesar de ainda o sê-lo.
Roberto Freire não se fez de rogado e se posicionou à altura da baixaria, prosseguindo com a deselegância que foi a descaracterização de tal evento literário, convertido em politicagem.
A resposta era necessária. Afinal, às vezes a verdade vem de baixo e, sim, atinge.
Claro que Folha de São Paulo e companhia colocaram na conta do ministro toda culpa pelo infeliz episódio, tratando com espanto o fato de ele ter respondido o protesto do Pepe Mujica brasileiro, também conhecido como Raduan Nassar.
Mas a verdade, exposta em nota posterior do Ministério da Cultura, é que um movimento organizado de simpatizantes do governo petista deposto jogou, propositalmente, o evento na lama. Freire se limitou a reagir, como é de seu feitio, para defender não apenas o governo atual, que integra, como o estado democrático de direito e o processo que depôs legalmente os verdadeiros golpistas.
Seja como for, nossos conterrâneos protagonizaram uma briga política que os portugueses, co-organizadores da festa, não precisavam ter presenciado. Fica a lição: da próxima vez, ofereçam o prêmio para alguém que tenha mais apreço pelas letras do que pela militância política.

Lula, o favorito POR RUY FABIANO


Lula, o favorito
POR RUY FABIANO
18/02/2017
Há um intrigante paradoxo em torno da figura de Lula: não viaja em avião de carreira, evita locais públicos e só fala em ambientes restritos à sua militância para evitar a hostilidade pública, de que tem sido alvo desde que exposto pela Lava Jato.
Não obstante, pesquisas eleitorais, como a mais recente, da CNT, o apontam como favorito à presidência da República. Venceria todos os presidenciáveis até aqui conhecidos, de Aécio Neves a Bolsonaro, passando por Marina Silva, Serra, Ciro Gomes e Alckmin.
Ora, alguém que ostenta tal favoritismo deveria, bem ao contrário, enfrentar de peito aberto ruas, aeroportos, restaurantes, estádios de futebol (aos quais Lula, ardoroso torcedor, não comparece desde antes da Copa do Mundo), pois, no mínimo, teria a seu favor a maioria dos circunstantes.
O que se depreende disso? Ou essa maioria mora em outro país (ou planeta) ou simplesmente é fictícia. Mesmo no Nordeste, onde se concentrou, nos idos tempos, o grosso do seu eleitorado, o quadro mudou. Há um vídeo no Youtube que registra uma chegada de Lula ao aeroporto de Fortaleza, pontuada por vaias e palavrões.
Ele próprio havia prometido viajar por todo o país denunciando o “golpe” do impeachment e, ao que parece, mudou de ideia. As poucas viagens que fez foram nos termos acima mencionados: em jatinho particular, com aparições restritas a uma plateia amestrada.
Estranho favoritismo. Há quatro meses, seu partido foi fragorosamente derrotado nas eleições municipais em todo o país. Venceu apenas numa capital, Rio Branco, cujo estado é governado há duas décadas por uma mesma dinastia, a dos irmãos Viana.
Perdeu em toda parte, inclusive no berço petista do ABC paulista. Em São Bernardo, cidade onde mora há décadas - e onde iniciou sua carreira de líder sindical -, não conseguiu emplacar nem sequer um enteado para o modesto cargo de vereador.
O PT definha e vê na ressurreição do mito Lula sua última cartada. Perdido por um, perdido por mil. Prestes a prestar contas à Justiça, réu em cinco processos e sem o guarda-chuva do foro privilegiado, Lula pôs em cena a figura do perseguido político.
Prepara emocionalmente a militância – reduzida, mas ruidosa e violenta – para tornar sua iminente prisão um fator de turbulência pública. Tem a seu favor a simpatia (ou o receio) do próprio presidente Temer, a quem chama de golpista, mas não hesita em estender a mão e a apoiar nos embates dentro do Parlamento.
Em todos os seus pronunciamentos, faz-se de vítima, papel que não dispensava mesmo quando dava as cartas. Nenhuma chance é desperdiçada, nem mesmo, como se viu, o velório de sua esposa, transformado em palanque político. Para contrabalançar essa imagem de fragilidade, cuidadosamente construída, nada como ostentar pesquisas que o mostrem como amado pela população e perseguido pelas elites de sempre. A melhor defesa é o ataque.
A recente pesquisa da CNT – cujo presidente, Clésio Andrade, seu amigo, é investigado também pela Lava Jato - tem a vantagem, como as anteriores, de não precisar comprovar nada.
Não há eleições à vista, nem candidatos lançados, nem o tema está na pauta. O indicador mais recente são as eleições municipais de quatro meses atrás, cujo resultado não chancela o das pesquisas.
Mesmo assim, obtém repercussão na mídia, que a militância reverbera, nas redes sociais, na tentativa de mostrar que as denúncias – e a condição de réu em cinco processos – são inconsistentes, parte de um complô obscurantista para tirar de cena “o melhor presidente que o Brasil já teve”, nas modestas palavras do próprio Lula.
Enquanto isso, o escândalo Odebrecht, que tem o ex-presidente no centro da trama, começa a pipocar em diversos outros países da América Latina. Inclusive na sua Venezuela

Lobos e vovozinhas - Fernando Gabeira

Lobos e vovozinhas - Fernando Gabeira

- O Globo

Deve haver muitas formas de paranoia. Conheço pelo menos duas. A que usa os fatos, deformando-os para parecerem uma grande ameaça. E a que tem um tal dinamismo interno que chega a dispensar os próprios fatos. Não considero que nenhuma dessas formas está presente quando se afirma que a Operação Lava-Jato está ameaçada. Não é preciso estar muito longe de Brasília para perceber isso. Por acaso, estou, relativamente perto, no Brasil central. Mas de qualquer ponto do país, a sucessão de projetos de anistia e blindagem é impressionante. P ara mim, tudo ficou muito claro quando escolheram Lobão para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Não tenho mais idade para duvidar: seus braços são tão longos, vovozinha; seus olhos são tão grandes; sua boca é tão grande vovozinha. É o Lobão, ponto.

A mais nova tentativa é de Romero Jucá. Um projeto para blindar presidentes da Câmara e do Senado. Segundo ele, não podem responder por crimes anteriores à sua posse no cargo. Na verdade, estende para os dois a mesma prerrogativa do presidente da República.

Se analisamos o conteúdo de todos os projetos mencionados — anistia, proibição de o TSE punir partidos com contas irregulares — tudo vai na mesma direção: legislar para se safar.

Leio que a Lava-Jato em Curitiba ficou satisfeita com a escolha de Alexandre de Moraes para o STF. Inclusive acredita que ele vota pela prisão de acusados julgados em segunda instância: algo que realmente evita que as pessoas recorram em liberdade por anos a fio.

No entanto, um ministro do supremo não julga apenas a Lava-Jato. Ele continua no seu posto por anos. Lewandowski e Dias Toffoli julgaram o mensalão e seguem firmes tratando de muitos casos. Recentemente, Toffoli soltou o ex-ministro Paulo Bernardo numa decisão polêmica.

Temer parece ter sentido a reação em defesa da Lava Jato. E anunciou esta semana as regras que deveria ter anunciado no primeiro dia de governo. A partir de agora ministros denunciados se afastam e, caso se tornem réus, deixam o governo.

Não acredito que essa permanente tentativa de blindagem dos políticos será atenuada. Nem vejo dinamismo no STF para julgar todos os casos com alguma rapidez. Isso não significa que muitos não possam ser condenados no futuro. Mas deixa para 2018 uma única ferramenta de transformação: o voto.

Apesar de a sociedade brasileira ter amadurecido, não creio que apenas o voto poderia fazer com que o Congresso passasse, de alguma forma, a considerar as aspirações do país de uma forma prioritária. Ele pode realizar reforma econômicas, evitar a quebradeira e ajudar o Brasil a reencontrar seu caminho. Mas não abre mão dos privilégios e do velho esquema de corrupção que o domina há tanto tempo.

Na juventude, costumava ironizar o lema de um partido brasileiro, chamado UDN: o preço da liberdade é a eterna vigilância. Vivíamos num tempo de Guerra Fria, mas ainda assim perguntava: se não não temos um segundo para relaxar, que tipo de liberdade é essa?

Hoje, não mais num contexto de luta ideológica como no passado, combatemos ladrões em todos os pontos do espectro político. Não é possível baixar a guarda. Diria até que uma ponta de paranoia é necessária, porque mesmo quando não parecem estar tramando algo, estão em plena atividade. As ligações telefônicas entre a cúpula do PMDB, reveladas por Sérgio Machado, eram uma clara tentativa de sabotar a Lava-Jato, algo que agora fazem abertamente.

Renan Calheiros encarna como ninguém essa tentativa. Ele é investigado em 12 processos, alguns antigos, e agora passa a ser investigado por obstrução à Lava-Jato, junto com a cúpula do PMDB. Quanto tempo levará para ser julgado nos casos investigados? Quanto tempo levará para ser julgado por obstruir as investigações?

Eles não param nunca. Quando não estão roubando, estão obstruindo a investigação, ou, em certas horas, fazendo as duas coisas simultaneamente. E o ritmo do STF é feito para que se movam em paz, seduzindo os que aspiram à reforma econômica, mobilizando os que descobriram direitos legais de acusados, depois que a elite começou a ser presa, enfim vão formar um grande caldeirão destinado a cozinhar a sopa da mesmice brasileira.

Não creio que seja paranoia observá-los constantemente e denunciá-los nas ruas. Diria até que não devemos nos preocupar tanto por estar batendo neles: eles sempre sabem porque estão apanhando.

Por mais ridícula e despreparada que pareça, a classe política brasileira é mestre universal na arte de sobreviver às denúncias. Eu mesmo me equivoquei. Sempre denunciei o Sérgio Cabral como se fosse um simples corrupto que comprava mansões e se divertia em viagens no exterior. Jamais imaginei que estava lidando com o maior ladrão da História do Brasil e que todas aquelas viagens eram também viagens de negócios para administrar sua fortuna.

A resistência no Brasil não pode ser acusada de paranoia. Diante dos adversários calejados ela às vezes se parece com a ingenuidade do Chapeuzinho Vermelho.

A impopularidade de Temer – Editorial | O Estado de S. Paulo

A impopularidade de Temer – Editorial | O Estado de S. Paulo

O governo de Michel Temer não pode ceder à tentação de se desviar do caminho da responsabilidade fiscal na vã tentativa de reverter o grande mau humor dos brasileiros em relação à sua administração, detectado em recente pesquisa de opinião.

Lançar-se ao populismo inconsequente neste momento, a fim de ganhar a simpatia do eleitorado, significaria uma desastrosa marcha atrás num processo que vem se revelando bem-sucedido em seu propósito de superar, com consistência, a monumental crise econômica legada pela imprudência lulopetista. Mais do que nunca, Temer precisa demonstrar firmeza de propósito e conduzir o País a porto seguro, sem cogitar – como já se ouve, aqui e ali, de auxiliares do presidente – de criar uma “agenda positiva”, que é o nome que se dá a iniciativas que resultam quase sempre em aumento dos gastos públicos.

A pesquisa em questão, feita pela MDA para a Confederação Nacional do Transporte (CNT), mostra que apenas 10,3% dos brasileiros aprovam o governo, contra 14,6% em outubro. Já os entrevistados que consideram a administração ruim ou péssima subiram de 36,7% para 44,1% no período. Também o desempenho pessoal de Michel Temer piorou. Hoje, 24,4% dos entrevistados aprovam o presidente; em outubro, eram 31,7%. A rejeição a Temer subiu de 51,4% para 62,4%.

Parece evidente que Temer está sendo responsabilizado pela piora de alguns indicadores econômicos vitais, especialmente o do desemprego, que atinge hoje mais de 12 milhões de pessoas, sem contar outros tantos milhões que deixaram de procurar emprego em razão do desalento. Sem dispor de uma comunicação eficiente, o governo Temer não consegue demonstrar ao cidadão comum que as medidas tomadas para reequilibrar as contas, reduzir a inflação e preparar o terreno para a retomada da economia funcionam de maneira gradual e que não é possível, num passe de mágica, recolocar o País nos trilhos.

Assim, Temer paga em popularidade – que nunca foi grande – por seus acertos, já que os erros, como todos os brasileiros minimamente informados sabem, foram cometidos, em escala jamais vista, pela presidente Dilma Rousseff. O presidente tem diante de si uma escolha crucial: pode se conformar em não ser popular e terminar seu mandato entregando um país com as contas arrumadas, pronto para voltar a crescer – feito pelo qual certamente será reconhecido no futuro –, ou pode dar ouvidos àqueles que apostam em distribuição de “bondades” para melhorar sua imagem.

Ao atalho do populismo geralmente recorrem os que julgam que o dinheiro público é infinito. O Brasil, aliás, está na atual situação de penúria em razão justamente desse tipo de mentalidade, que, no entanto, ainda angaria muitos votos, especialmente nas regiões mais pobres. É por essa razão que o ex-presidente Lula da Silva, a despeito de sua responsabilidade direta pela atual crise, aparece na pesquisa da CNT como líder entre os possíveis candidatos na eleição presidencial de 2018.

A pesquisa indica que a intenção de voto em Lula cresceu em todos os cenários, inclusive no segundo turno. É evidente que uma sondagem como essa, a mais de um ano da eleição, não serve para prever resultados, especialmente quando se observa que, na pesquisa espontânea, em que não são apresentados nomes aos entrevistados, quase 70% disseram que não têm candidato ou que votarão em branco ou nulo. Mas o aspecto que salta aos olhos é que Lula – mesmo tendo sido o presidente cujo governo começou a romper o pacto da responsabilidade fiscal necessário à estabilidade, mesmo tendo sido o inventor de Dilma Rousseff, a pior governante da história brasileira, mesmo tendo sido, portanto, o mentor intelectual da grande crise que engolfou o País – inspira nostalgia em uma parte considerável dos eleitores.

Para esses eleitores, a volta de Lula à Presidência seria suficiente, como por encanto, para o Brasil retornar a sua “época de ouro”. É claro que o chefão petista, que nunca desceu do palanque, nada faz além de alimentar essa fantasia, dia e noite. Diante disso, o que se espera dos atuais governantes do País, que precisam lidar com a realidade, é que não se deixem impressionar por esse apoio a Lula, pois quem não tem responsabilidade pode prometer o que quiser.

O furacão Odebrecht - Mario Vargas Llosa*

O furacão Odebrecht - Mario Vargas Llosa*

- O Estado de S. Paulo

Casos de corrupção em países da América Latina são chance para regenerar a democracia

Algum dia teremos de erigir um monumento em homenagem à empresa brasileira Odebrecht, porque nenhum governo, empresa ou partido político fez tanto quanto ela desvelando a corrupção que corrói os países da América Latina, nem trabalhou com tanto ânimo para fomentá-la.

A história possui todos os ingredientes de um grande thriller. O empresário brasileiro Marcelo Odebrecht, dirigente da companhia, condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, com seus principais executivos, depois de passar algum tempo entre as grades manifestou, para ter sua pena rebaixada, sua disposição em relatar todas as safadezas que cometeu – no Brasil, chamam isso de delações premiadas.

Ele começou a falar e da sua boca – e das bocas de seus executivos, saíram cobras e venenos que fizeram tremer todo o continente, a começar pelos seus presidentes, atuais e anteriores. Marcelo Odebrecht me lembra o tenebroso Gilles de Rais, o valente companheiro de Joana D’Arc, que, chamado pela Inquisição da Bretanha para responder se era verdade que havia participado de um ato de satanismo com um cômico italiano, disse que sim, e, além disso, havia violado e assassinado mais de 300 crianças porque apenas cometendo tais horrores ele sentia prazer.

A empresa Odebrecht gastou cerca de US$ 800 milhões em propinas pagas a chefes de Estado, ministros e funcionários de governos para ganhar licitações e obter contratos que quase sempre eram escandalosamente supervalorizados, permitindo à companhia contabilizar lucros enormes. Isso vinha ocorrendo há muitos anos e, por acaso, nunca haveria uma punição se entre seus cúmplices não houvesse um grande número de diretores da Petrobrás, petrolífera brasileira que, investigada por um juiz fora do comum, Sérgio Moro, que abriu a caixa de Pandora – aliás, é um milagre que ainda continue vivo.

Ramificações. Até o momento, há três mandatários latino-americanos implicados nos negócios sujos da Odebrecht fora do Brasil: os do Peru, da Colômbia e do Panamá. E a lista só começou. Quem está na situação mais difícil é o ex-presidente peruano Alejandro Toledo, a quem a Odebrecht teria pago US$ 20 milhões para conseguir os contratos de dois trechos da Rodovia Interoceânica que une, através da selva amazônica, Peru e Brasil.

Toledo, que está fora do Peru na condição de foragido, foi condenado por um juiz à prisão preventiva de 18 meses, enquanto o caso é investigado. As autoridades peruanas comunicaram o fato à Interpol e o presidente Kuczynski telefonou ao presidente americano, Donald Trump, pedindo sua deportação para o Peru – Toledo tem um emprego na Universidade Stanford. O governo israelense informou que não o receberá em seu território enquanto não ficar esclarecida sua situação legal. Até agora, Toledo tem se negado a retornar ao Peru, alegando ser vítima de perseguição política, algo em que nem seus mais inflamados partidários – e são poucos – acreditam.

Fico muito entristecido com esse envolvimento de Toledo porque, como lembrou Gustavo Gorriti em um dos seus excelentes artigos, ele liderou com grande carisma e coragem há 17 anos a formidável mobilização popular no Peru contra a ditadura assassina e cleptomaníaca de Alberto Fujimori, tendo sido um elemento fundamental para sua derrubada.

Não apenas eu, mas toda minha família, o apoiamos com entusiasmo. Meu filho Gonzalo gastou todas as economias que possuía na grande Marcha de los Cuatro Suyos, em que milhares, talvez milhões, de peruanos manifestaram em todo o país em favor da liberdade.

Meu filho Álvaro deixou todos os seus afazeres para apoiar em tempo integral a mobilização em favor da democracia e, depois da derrubada de Fujimori, participou da campanha presidencial de Toledo até o primeiro turno, e foi um dos seus colaboradores mais próximos. Mas depois algo estranho sucedeu: ele rompeu com Toledo, de maneira precipitada e ruidosa. Alegou ter ouvido em uma reunião algo que o alarmou muito: Josef Maiman, o magnata israelense, afirmou que queria comprar uma refinaria que pertencia ao Estado e um canal de TV.

Maiman, segundo denúncias da Odebrecht, atuou como testa de ferro do ex-presidente e serviu de intermediário, fazendo chegar às mãos de Toledo pelo menos 11 dos US$ 20 milhões recebidos para favorecer a empresa na obtenção de contratos públicos. Quando isso ocorreu, achei que a suscetibilidade do meu filho Álvaro era exagerada e injusta e até nos distanciamos um pouco. Hoje, peço desculpas a ele e o aplaudo por suas suspeitas e o olfato justiceiro.

Espero que Toledo retorne ao Peru por vontade própria, ou que o tragam para o país, e seja julgado com imparcialidade. Diferente do que se verificou na ditadura fujimorista, hoje isso é perfeitamente possível. E se for declarado culpado que pague pelos roubos e a traição cometida contra milhões de peruanos que votaram nele e o seguiram em sua campanha pela democratização do Peru contra os usurpadores e golpistas.

Tive bastante contato com Toledo naqueles dias e me parecia um homem sincero e honesto, um peruano de origem muito humilde que pelo esforço tenaz havia – como gostava de dizer – “derrotado as estatísticas”. Eu tinha certeza de que ele faria um bom governo.

O certo é que – safadezas à parte, se ocorreram – tudo foi feito muito bem, pois nos seus cinco anos de governo foram respeitadas as liberdades públicas, a começar pela liberdade de uma imprensa que entrou em choque com ele, e pela boa política econômica, de abertura e incentivos ao investimentos, que propiciou o crescimento do país.

Tudo isso foi esquecido desde que foi descoberto que ele havia adquirido imóveis caros, embora tenha alegado que tudo fora comprado por sua sogra com dinheiro do célebre Josef Maiman. Desculpas que, em vez de eximi-lo de culpa o comprometeram ainda mais.

Onda. As delações premiadas da Odebrecht constituem uma oportunidade magnífica para os países latino-americanos punirem severamente os governantes e ministros corruptos das frágeis democracias que substituíram, na maior parte dos nossos países – exceção de Cuba e Venezuela – as antigas ditaduras.

Nada é mais desmoralizador para uma sociedade do que ver que governantes que chegaram ao poder com o voto do eleitor comum aproveitaram seu mandato para enriquecer, infringindo leis e vilipendiando a democracia. Hoje, a corrupção é a maior ameaça ao sistema de liberdades que vem prosperando na América Latina depois dos grandes fracassos das ditaduras militares e dos sonhos messiânicos dos revolucionários.

É uma tragédia que, no momento em que a maioria dos latino-americanos começa a se convencer de que a democracia liberal é o único sistema de governo que garante um desenvolvimento civilizado, na convivência e na legalidade, o roubo frenético cometido por governantes corruptos conspire contra essa tendência positiva. Aproveitemos as delações premiadas da Odebrecht para puni-los e demonstrar que a democracia é o único sistema capaz de regenerar-se a si mesmo. / Tradução de Terezinha Martino

*É Prêmio Nobel de Literatura