segunda-feira, 22 de maio de 2017

8 segredos da JBS que podem implodir a República - COM SPOTINIKS

8 segredos da JBS que podem implodir a República

Imagine a cena:
A maior operação de combate à corrupção da história do país está a uma semana de completar seu terceiro ano. Nesse meio tempo, operações das mais diversas colocaram em xeque algumas das maiores empresas do país, em especial aquelas que tiveram, ao longo dos últimos anos, fortes relações com o governo. Não mais que seis meses antes, o presidente da segunda maior delas foi levado para depor, acusado de corrupção.
 
Neste cenário de caos institucional, você, um presidente impopular, que já presenciou a queda de ao menos dois ministros e a prisão de um senador da república por conta de gravações de áudio, decide se encontrar para discutir o pagamento de propina em uma reunião secreta com este mesmo empresário, em pleno palácio de governo. Parece cena de filme, certo? Errado.
Convenhamos: se algo assim ocorresse em uma das suas séries ou filmes favoritos, sua primeira reação seria duvidar, achar forçado, irreal. Afinal, como pode uma mente ardilosa o suficiente para chegar ao posto mais alto da república tomar uma atitude tão estúpida? A resposta é simples: não pode, exceto se você achar que seus espectadores são mais estúpidos ainda. Funciona assim na TV e no cinema e, ao que parece, na política.
Compondo esta cena bizarra, o presidente da J&F, Joesley Batista (nenhuma relação com Eike Batista). Segunda maior empresa do país em faturamento, a J&F é o que, no mercado financeiro, se costuma chamar de joint-venture, um nome pomposo para designar a criação de uma empresa que une a experiência de dois grupos distintos, no caso, a velha Friboi da família Batista e a expertise dos políticos brasileiros em desviar recursos e favorecer empresas amigas.
Com este pequeno empurrão, a J&F cresceu e se tornou dona da maior processadora de carne do mundo, a JBS, da maior fábrica de papel e celulose do planeta, a Eldorado celulose, e de um dos maiores símbolos brasileiros, as Havaianas. Tudo isso turbinado com muito dinheiro saído do seu bolso.
Na prática, a empresa é um resultado direto de alguns dos maiores males do país nos últimos anos e, justamente por isso, sua queda, ou ao menos a de seus responsáveis, é um exemplo perfeito de como a república como conhecíamos pode desmoronar a qualquer momento.
A delação de Joesley e seu irmão, Wesley, já está encaminhada, mas antes de pegar a pipoca e se preparar para as cenas dos próximos capítulos, fizemos um resumão do que você precisa saber sobre a empresa e o que pode ser esclarecido pelos irmãos.

1) O empurrão de R$ 9,3 bilhões do BNDES para que a JBS concentrasse o setor.

Criar grandes empresas brasileiras que pudessem competir no exterior e dar uma imagem mais competitiva ao país era, em tese, a ideia por trás da chamada política de campeões nacionais. Na prática, o BNDES, banco federal escalado para a missão, escolheu a dedo, de maneiras mais que duvidosas, empresas que mereceriam certo apoio para se destacarem em seus setores.
Nesta onda de dinheiro com juros abaixo da inflação (que, segundo o Tribunal de Contas, custou aos brasileiros R$ 194 bilhões), nenhuma empresa se beneficiou tanto quanto a já conhecida Odebrecht. No top 3 de maiores beneficiários porém, a JBS não faz feio, ocupando um segundo lugar, logo à frente da EBX de Eike Batista. Em comum, todos os três envolvidos hoje em operações da polícia federal que investigam o pagamento de propinas aos políticos responsáveis por escolher os tais campeões.
Graças ao dinheiro barato disponibilizado pelo banco, a JBS realizou uma série de aquisições de outras empresas, tornando-se quase hegemônica em sua área. Foram nada menos que 17 aquisições, incluindo a Bertin, segundo maior frigorífico do país à época.
Como resultado, o banco estatal ajudou a empresa a diminuir a concorrência no setor no Brasil, o que, segundo a teoria econômica, colabora fortemente para um aumento de preços.

2) A JBS usou o seu dinheiro para se tornar a maior processadora de carne dos EUA também.

Não satisfeita com o mercado brasileiro, a JBS acabou contando com um empurrão inusitado: financiamento do governo brasileiro para realizar aquisições no exterior. A JBS tornou-se a maior processadora de carnes dos Estados Unidos com a compra da centenária Swift e posteriormente da Pilgrims.
Entre julho de 2007 e dezembro de 2009, o banco desembolsou R$ 5,6 bilhões para financiar aquisições feitas pela JBS. Em alguns casos como da compra da Pilgrims, o banco foi responsável por financiar 99% da operação.
Em outras palavras, o banco estatal brasileiro criado para gerar desenvolvimento econômico e social no país, aceitou financiar, com dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador, uma aquisição que gerou exatos zero empregos no Brasil.

3) O governo é dono de 1/3 da JBS, a maior doadora de campanhas do país.

Ao contrário da maior parte dos casos envolvendo o banco federal, a relação com a JBS foi mais profunda. Não apenas o banco decidiu emprestar bilhões, como também topou tornar-se sócio da empresa. Para realizar aquisições no exterior, a JBS emitiu aqui as chamadas debentures, uma espécie de título emitido pelas empresas que garante juros a quem compra e, em determinados casos, uma opção de converter o valor final em ações.
No final das contas, por meio da BNDESPar, uma empresa de participações do banco, nada menos que 31% da empresa acabou indo parar diretamente nas mãos do governo. Por que um governo que enfrenta déficits ano a ano e cogita aumentar impostos mantém em carteira ações de um frigorífico? Isso só Joesley e Wesley podem esclarecer.
O certo é que, se tudo isso não é bizarro o suficiente, o fato de a empresa ter se tornado a maior doadora de campanhas eleitorais do país completa a lista. Foram, segundo o próprio Joesley, 1.890 políticos que receberam valores da empresa.
Tudo isso em uma ascensão meteórica, saindo de R$ 220 mil doados em 2002 para R$ 366,8 milhões em 2014, nada menos do que 39,5% do lucro líquido da empresa em 2013.
Entre 2006 e 2014, nada menos do que R$ 463 milhões saíam dos cofres da empresa direto para partidos políticos, apenas por vias conhecidas.

4) Quando a dona da JBS decidiu comprar a dona da Havaianas e fez isso sem gastar um único centavo.

Que a operação Lava Jato complicou a vida de algumas das maiores empreiteiras do país não é nenhuma novidade. Grandes grupos criados para explorar tudo aquilo que dependesse, em última instância, da palavra de um político, as empreiteiras brasileiras cresceram e se expandiram além das suas fronteiras naturais, a construção civil.
Empresas como Odebrecht tornaram-se sócias de estádios de futebol, saneamento, agricultura e produção de etanol. Outra delas, a Queiroz Galvão, possui até mesmo investimentos em uma fazenda de camarão.
A segunda maior delas porém, a Camargo Corrêa, tornou-se conhecida por deter um símbolo nacional dos mais conhecidos: a Havaianas, controlada pela sua subsidiária, a Alpargatas.
Graças à crise e à decisão de se desfazer de alguns dos seus principais negócios, a empreiteira – fundada por Sebastião Camargo, um dos responsáveis por erguer Brasília (onde, conta-se, os empreiteiros bolaram alguns dos mais hilários modos de ludibriar o governo e superfaturar obras, como a estratégia de fazer um mesmo caminhão de areia passar cinco vezes por um fiscal, para ser computado como cinco caminhões) -, que controlava a Alpargatas desde 1982, colocou a empresa à venda.
Na ponta compradora, um dos poucos campeões nacionais que não haviam falido ou estavam enfrentando a Lava Jato, a J&F, dos irmãos Batista.
Para comprar o controle da Alpargatas por R$ 2,67 bilhões, a empresa recorreu não ao seu caixa, mas a outro banco estatal, a Caixa Econômica Federal, que topou financiar 100% da operação.
O que leva a Caixa a financiar este tipo de operação é um segredo daqueles que todos parecemos saber a resposta. Um pequeno detalhe: tudo isso ocorreu logo depois da Caixa garantir que o estaleiro de Eike Batista pagasse sua dívida com o banco em 40 anos.

5) Quando a J&F construiu a maior fábrica de celulose do mundo e o governo pagou quase tudo.

Diversificar os negócios para além do setor de processamento de carne também fez parte dos planos ambiciosos da família Batista. Além de investir em bancos, na indústria de alimentos processados, couro e mídia (com a compra do canal rural), a holding que controla as empresas do grupo decidiu se aventurar por um setor quase completamente novo: papel e celulose.
A ideia era construir, no estado do Mato Grosso do Sul, a maior fábrica de celulose do mundo, com capacidade para processar 1,5 milhão de toneladas por ano, além de uma opção para expandir para até 4 milhões (ainda em aberto e provavelmente incerto agora).
Para levantar tamanho empreendimento, os irmãos Batista tiveram de recorrer a uma engenharia financeira que contou com as fontes mais diversas. Buscaram, junto ao BNDES, R$ 2,7 bilhões, além de R$ 900 milhões junto ao FI-FGTS (um fundo de investimentos do FGTS que adquire participações em empresas) e mais R$ 550 milhões por parte dos fundos de pensão da Petrobras e da Caixa Econômica.
Segundo apurou a Polícia Federal, a operação junto ao FI-FGTS, que nos planos da empresa deveria ter se estendido até R$ 1,5 bilhão, ocorreu em função de um pagamento de propina da ordem de R$ 33 milhões.
Ainda segundo a apuração da PF na operação Greenfield, a operação causou prejuízo de R$ 1,1 bilhão apenas para a Petros, por conta de contabilidade duvidosa do fundo na operação.

6) A mesada que Michel Temer pediu para ajudar a empresa a roubar a Petrobras.

Ainda na onda de diversificação do grupo e se aproveitando de um momento de crise, onde vendas de empresas tornam-se mais fáceis, a J&F decidiu investir no setor de energia. Por meio de uma subsidiária sua, a empresa adquiriu o controle da EPE (Empresa Produtora de Energia) e participação na GasOcidente, no final de 2014.
A EPE possuía como único ativo a usina térmica de Cuiabá, responsável por produzir 529 MW de energia por ano. Alugada pela Petrobras, a usina rendia US$ 1 bilhão por ano à estatal, que importava o gás natural da Bolívia e o utilizava para produzir energia.
Com a compra, os irmãos Batista tentaram um acordo com a YPFB, estatal boliviana que produzia o gás. Sem sucesso, acabaram fechando acordo com a Petrobras.
Como a estatal revendia a um preço acima daquele que pagava aos bolivianos, a usina começou a causar certo prejuízo. Sem conseguir um acordo com a estatal, os novos donos decidiram ir até quem manda de fato.
Eis o motivo pelo qual Joesley decidiu negociar junto a Temer: forçar a Petrobras a vender a um preço igual ao de compra.
Para desenrolar o caso, Temer indicou seu ex-assessor e deputado pelo Paraná, Rodrigo Rocha Laures. Com a ajuda de Laures, Joesley acabou resolvendo seu pequeno impasse, pelo que ficou combinado uma pequena ajuda mensal a alguém de ordem superior ao deputado. Um pagamento de R$ 500 mil mensais durante os 20 anos em que vigoraria o acordo entre a Petrobras e a térmica de Joesley.

7) Joesley e JBS tinham espaço até mesmo para indicar ministros no governo Temer.

Cerca de um em cada 30 políticos eleitos na última eleição contaram com algum tipo de apoio da JBS. Isso se você decidir contar com todo e qualquer vereador, deputado, governador, senador, presidente e vice, do Caburaí ao Chuí.
Se decidir focar em Brasília, a bancada da JBS corresponde a 23% da câmara dos deputados. Além da campanha da ex-presidente e do futuro ex-presidente, atual ocupante do Palácio do Planalto.
Caso você decida checar a lista, irá encontrar nomes suficientes para se manter ocupado por quase duas horas, caso resolva citá-los um a um, além das mais variadas siglas.
Liste os mais importantes ocupantes de cargos políticos em Brasília e é possível rastreá-los até a JBS. Até mesmo Henrique Meirelles, ministro da fazenda, já foi ligado à empresa. Ao contrário dos demais políticos, porém, trabalhou diretamente para a empresa, mais especificamente para o Banco Original e a J&F (todos os demais conhecidos até aqui trabalharam apenas indiretamente).
A relevância de Joesley e a trupe dos Batista é tão grande que o recém empossado ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcos Pereira, do PRB, recorreu a Joesley para lhe apresentar o então presidente da Confederação Nacional da Indústria, em maio de 2016.
Da CVM, responsável por fiscalizar a JBS na bolsa de valores, ao Banco Central, Receita Federal e Procuradoria da Fazenda Nacional, tudo parecia estar à disposição do então todo poderoso da segunda maior empresa do país.
Graças à intermediação de Temer, que garantiu que o mesmo Rodrigo Rocha Laures poderia falar de tudo com Joesley, o empresário viu que negociar algo no governo era muito mais simples do que se poderia pensar.

8) Você sabe o que é SWAP? Pois a JBS lucrou 12,7 bi às suas custas com ele.

Você provavelmente nunca ouviu ou se importou com estas pequenas quatro letras, mas para o mercado financeiro elas possuem uma relevância imensa. Swap é um meio pelo qual um empresário pode proteger-se contra uma eventual queda do preço do dólar e garantir um preço certo para suas exportações.
Por envolver o Banco Central como agente negociador, a possibilidade de ganhos em operações neste estilo são imensas, afinal, trata-se claramente de apostar contra o governo.
 
Quando o ex-ministro da fazenda Guido Mantega decretou que quebraria a cara quem apostasse que o dólar subiria aos R$ 4,00, não foram poucos os empresários que decidiram apostar nisso. Dentre eles, a JBS, a maior ganhadora nessa história toda.
Apenas em operações cambiais, a empresa ganhou R$ 12,7 bilhões, enquanto o governo perdeu R$ 120 bilhões (somando todas as demais operações).

O novo Brasil e a Lava Jato | Cláudio de Oliveira


Há quem diga que a Operação Lava Jato traz um novo Brasil, pois estaria passando o país a limpo e fazendo prevalecer o império da lei, essência do regime democrático.

Sabemos que a Lava Jato é de iniciativa do Ministério Público que, avalizada pelo Poder Judiciário, determinou à Polícia Federal proceder as investigações. A elas não podem se opor nem o Legislativo nem o Executivo, sob pena de crime de obstrução à Justiça.

Os limites das investigações são a lei e a Constituição. Eventuais abusos foram e deverão ser coibidos pelas instâncias superiores do Judiciário, entre elas, o Supremo Tribunal Federal.

Se a Lava Jato e o Judiciário fizerem prevalecer o domínio da lei, de fato, estarão contribuindo para o aperfeiçoamento institucional do país, isto é, para o novo Brasil.

Mas, poucos se dão conta de que a Lava Jato não é causa, mas consequência de um novo Brasil, surgido com a redemocratização do país, institucionalizada pela Constituição de 1988. Sem ela e sem democracia, não teríamos a Lava Jato.

A Constituição de 1988 deu autonomia e mais poderes (inclusive de investigação) ao Ministério Público, que assim não ficou constitucionalmente subordinado nem ao presidente da República (chefe do Executivo), nem ao presidente do Congresso (chefe do Legislativo), nem ao presidente do Supremo (chefe do Judiciário).

Ainda que tenha sido indicado pelo presidente da República e aprovado pelo Congresso, depois de eleito pelos promotores públicos em lista tríplice, o chefe do Ministério Público, o Procurador-Geral da República, não pode ser removido de sua função, a não ser pela observância de estritas cláusulas legais.

Quem propõe a volta dos militares, na verdade, deseja acabar com as investigações da Lava Jato. Em nehum lugar do mundo, ditaduras respeitam a lei e a Constituição, nunca deram autonomia ao Ministério Público, não permitem que a sua própria Polícia Federal investiguem os seus ministros e o seu próprio presidente da República, e buscam tirar a independência do Poder Judiciário.

Paulo Maluf, prefeito e governador nomeado pelos presidentes-generais, é prova cabal de que ditaduras não punem políticos amigos. Ele foi detido na França e, se sair do Brasil, corre o risco de ser preso pela Interpol. Só não está preso porque ainda precisamos aperfeiçoar as nossas instituições democráticas. E não acabar com elas.

Quem achava que podia continuar a fazer a política do “rouba, mas faz”, celebrizada por Adhemar de Barros e Paulo Maluf, não se deu conta de que temos um novo Brasil. Não só pelos evidentes avanços institucionais promovidos pela Constituição de 1988, como a autonomia do Ministério Público e o dispositivo constitucional do Projeto de Lei de Iniciativa Popular, o qual permitiu a apresentação e a aprovação da Lei da Ficha Limpa, proposta pela sociedade civil.

O novo Brasil é resultado também de uma população mais urbana e esclarecida, com um quantidade nunca antes vista de pessoas bem informadas, seja por maior escolaridade, seja por maior acesso ao conhecimento e à informação, trazido pela revolução das comunicações, seja pela ampla liberdade de expressão, manifestação, informação e circulação de ideias, garantida pela Constituição de 1988.

Os políticos que não entenderam esse novo Brasil devem ser julgados e, se condenados, seus crimes punidos conforme a lei e o Código Penal. Como dever ser em qualquer país democrático e, portanto, civilizado. Ditadura, nem de direita nem de esquerda. Nem na Venezuela, nem em Cuba, nem no Brasil. Democracia sempre. Remédio melhor não há.

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Cláudio de Oliveira, jornalista e cartunista.

Luiz Felipe Pondé: "Legamos a nossos filhos mais sintomas do que valores"




Ricardo Cammarota/Folhapress
Folha de São Paulo


Os inteligentinhos hoje devem ir brincar no parque porque vamos falar coisa de gente grande.

Você quer saber se você é inteligentinho? Se começar a ficar incomodado e, para resolver isso, convencer-se de que a "educação que está dando para seu filho" fará dele uma pessoa mais tolerante, mais evoluída e mais ética, você é um inteligentinho.

Se acreditar que "a educação que está dando para seu filho" fará ele escolher sua religião e seu "gênero" de forma "autônoma e consciente", você é um inteligentinho.

Dizer frases do tipo "a educação que estou dando para meu filho" já é coisa de gente boba. Mas, quando você de fato acredita nisso, você é mesmo inteligentinho.

Legamos a nossos filhos mais sintomas do que valores. A psicanálise sabia disso, mas hoje, como tudo mais, aderiu ao marketing existencial e político. Em termos de ferramenta para pensar a realidade histórica, a psicanálise hoje é parte do sintoma e não da solução. Mais atrapalha do que ajuda.

De certa forma, a literatura de autoajuda é mais honesta do que psicanalistas pensando o mundo para salvá-lo. Pelo menos a autoajuda se sabe barata e vulgar. Os psicanalistas se acham chiques e sólidos em sua histeria cega (uso histeria aqui no sentido freudiano do termo –quem não souber o que é que olhe no Google).

O parricídio é um tema clássico na literatura especializada. Freud e Dostoiévski são dois dos maiores exemplos de quem pensou nisso.

Freud achava que "Os Irmãos Karamázov", de Dostoiévski, era o maior romance da literatura ocidental porque havia compreendido plenamente o complexo de Édipo. Dostoiévski pensava o parricídio tramado por seu filósofo Ivan Karamázov como profecia acerca da modernidade.

O projeto da modernidade era matar o pai como uma repetição festiva do macabro assassinato do pai da horda primitiva do mito freudiano "Totem e Tabu". Matamos o pai para sermos livres.

Para Dostoiévski, Ivan preconizava o projeto moderno de matar o pai: a tradição, a herança ancestral humana, Deus, o significado da vida herdado dessa herança, enfim, todo o arcabouço organizado da vida humana que alguns lacanianos chamaram um dia de "nome-do-pai".

Freud, por sua vez, sabia da entropia moderna: sabia que a modernidade na sua fúria carregava em si o projeto escondido da pulsão de morte, que é "a destruição do eu".

Hoje, "somos todos o pai". Toda a demonização do patriarcalismo como culpado até da poluição da Lua é apenas a parte ridícula disso.

A simples aniquilação de toda referência que não a do dinheiro e a da autonomia individual produziu uma devastação do mundo. A promessa era que a cultura e a política tomariam o lugar dos deuses e do pai. Hoje sabemos que a cultura é "fast food" e a política é histérica.

Sou um descendente direto de Ivan Karamázov, portanto, que os inteligentinhos não me venham com o eterno blá-blá-blá de que este seria um discurso nostálgico. 

Não.

Falo do lugar mais niilista possível: aquele de quem participa do ritual do assassinato do pai da horda primitiva a cada dia. Não há retorno para lugar nenhum. O estrago está feito. E, como sabia muito bem Freud, o pai era terrível.

O passado nunca foi feliz, como idealizaram os românticos. Faltam aos psicanalistas de hoje profundidade e coragem de não fazer parte do marketing existencial e político. Se vivessem na época de Freud, iriam condená-lo por falar obscenidades sexuais a serviço da depravação. A psicanálise se tornou histérica.

Veremos agora o matricídio. Se matamos o pai em nome da liberdade, agora afogaremos a mãe na eliminação pura e simples da maternidade a serviço da emancipação feminina e do mercado de carreiras.

Enquanto a verborragia sobre crianças e sobre valores femininos do "cuidar" cresce, as maternidades quebram por falta de mercado.

A maternidade prática desaparece sob o salto da maternidade teórica. Ninguém quer ter filhos, exceto quem não tem opção melhor. Ou gays, para se sentirem "normais". Os meninos se derretem de medo e as meninas se tornam fálicas sob as palmas da psicanálise rendida à histeria.

domingo, 21 de maio de 2017

PORQUE OS “IRMÃOS ESLEY” DA JBS PODEM SER PRESOS – por Luiz Marcelo Berger

PORQUE OS “IRMÃOS ESLEY” DA JBS PODEM SER PRESOS – por Luiz Marcelo Berger

O verdadeiro terremoto causado pela delação da JBS possui várias particularidades, dignas dos melhores (ou piores) romances policiais, como se já não bastasse aquilo que foi revelado através do departamento de propinas da Odebrecht. Para engendrar plano tão sofisticado é necessário que se entenda que os envolvidos são pessoas extremamente capazes, inteligentes e com grande propensão para assumir riscos.
Para melhor compreender os movimentos adotados é necessário retroceder ao inicio dos anos 2000, quando desde a ascensão ao governo, o PT (Partido dos Trabalhadores) adotou como política de Estado o investimento maciço nos chamados campeões nacionais, cujo objetivo era, ao final, obter ganhos através do aumento de escala para competir internacionalmente. Como toda política engendrada dentro de gabinetes desconectados da realidade, todos os mais notórios ensinamentos gestados há décadas na teoria econômica foram solenemente ignorados, deixando um rastro de destruição e prejuízos sem precedentes da história do país.
Assim, para analisar a estratégia utilizada pelos “Esley Brothers” (Joesley e Wesley, donos da JBS) torna-se essencial entender um dos mecanismos fundamentais do campo da economia da informação que trata do risco moral, que se antecipa ao jogo perpetrado pela dupla de escroques internacionais, neste momento sediada em local seguro, fora da jurisdição criminal brasileira.
A política de campeões nacionais, inaugurada desde o início do governo Lula da Silva, cuja continuação nos governos Dilma foi ainda mais incrementada, ofereceu gigantescos recursos públicos, via BNDES, aos privilegiados com relações íntimas com os círculos do poder. O negócio comandado pela dupla de irmãos cresceu exponencialmente no mercado brasileiro, regado fartamente com recursos baratos e que, obviamente, serviam para alimentar a teia de propinas de políticos envolvidos nas operações criminosas da empresa.
Tudo ia bem até o momento em que a Lava-Jato chegou e começou a puxar o fio da corrupção de forma metódica e precisa, atingindo então o esquema montado pelos escroques da JBS.
Neste momento, quando se tornou evidente que as investigações chegariam inevitavelmente ao topo da administração do esquema, os irmãos “Esley”, de forma inteligente e estratégica, se anteciparam em anos para o advento desta possibilidade.
Antes de procurar as autoridades, utilizaram a montanha de dinheiro ofertado pelo BNDES para estabelecer solidamente suas operações em outras terras, assegurando assim, a continuidade e lucratividade dos negócios.
Os números das operações do grupo JBS não deixam dúvidas: mais de 80% de todo o seu negócio é gerado atualmente nos Estados Unidos, deixando o Brasil como moeda de troca neste jogo sujo. Este movimento de utilizar recursos públicos para financiar empregos e postos de trabalho no exterior é explicado pela atitude inadmissível, ou talvez criminosa, do BNDES, em conceder empréstimos sem garantias para evitar o risco moral, ou seja, o uso espúrio de cláusulas contratuais à revelia do interesse do órgão financiador.
Depois de feita esta engenharia corporativa, os “Esley Brothers” começaram a jogar com as autoridades acordos de cooperação, antevendo a possibilidade da investigação chegar no topo do comando da JBS, o que de fato veio a acontecer.
Aqui vem a novidade em termos de teoria dos jogos.
Os controladores da JBS não tinham e não têm nenhuma estratégia dominante. Ou seja, segundo as regras do jogo legal, leia-se colaboração premiada e acordo de leniência, eles não tinham nenhum poder de barganha para se livrar do inevitável fim. Só restava a estratégia minimax, ou seja, tentar minimizar as perdas inevitáveis usando um movimento suicida de colocar todos no mesmo saco e entregar todos os envolvidos, em face do conjunto de informações privilegiadas que dispunham.
Tal negociação foi feita com grande antecipação, quando as autoridades ainda não tinham a dimensão completa do descalabro, o que permitiu à empresa tempo suficiente para transferir quase a totalidade dos seus negócios para os Estados Unidos.
Como a literatura é farta neste tema, não existe crime perfeito.
Ao assumir riscos suicidas os Esley Brothers abriram a caixa de pandora das consequências imprevisíveis. Uma destas é não ter como controlar eventos fora do âmbito do jogo que estavam jogando na delação, como por exemplo, o uso criminoso de informação privilegiada para se beneficiar da flutuação do câmbio quando da divulgação dos termos da delação.
Pode-se prever que neste exato momento, as autoridades brasileiras, tendo conhecimento da vastidão de ilícitos cometidos pelos manos mafiosos, estão preparando o contra-ataque neste jogo que está longe de terminar. Podemos esperar que entre os próximos movimentos estará um mandato de prisão internacional em face dos crimes cometidos, ironicamente, fora do âmbito da delação, portanto, fora do manto protetor da imunidade.
(Luiz Marcelo Berger é doutor em administração e especialista em Teoria dos Jogos)

EH BOI - FERNANDO GABEIRA.


- O Globo

Estava no meio de um artigo sobre a conversa com Deltan Dallagnol no Teatro do Leblon, a respeito dos livros que publicamos. Mandei o artigo para o espaço. Durante muitos anos trabalhei, no Congresso, para proibir bombas de fragmentação. Elas ficam no terreno, às vezes parecem um brinquedo e, de repente, bum: explodem. Nesse terreno minado, no entanto, a JBS nunca me enganou. Faz alguns anos que a menciono em artigos. Ela recebia muito dinheiro do BNDES. E doava também muito dinheiro para as campanhas políticas. O PT levava a maior parte, mas não era o único.

A Polícia Federal já estava no rastro, investigando suas fontes de renda, BNDES, FGTS, todos esses lugares onde o dinheiro público flui para o bolso dos empresários. Assim como no caso da Odebrecht, as relações com o mundo político eram muito amplas. Elas são suficientes para nos jogar, pelo menos agora, numa rota de incertezas.

Temer foi para o espaço, Aécio foi para o espaço, embora este já estivesse incandescente, como aqueles mísseis da Coreia do Norte no momento do voo. O PT e Lula já sobrevoam o mar do Japão. Tudo isso acontece num momento em que há sinais de uma tímida recuperação econômica. Como navegar nesses mares em que é preciso desmantelar o grande esquema de corrupção e não se pode perder o foco nos 14 milhões de desempregados?

Escrevo de noite, num quarto de hotel, não me sinto capaz de formular todos os passos da saída. Mantenho apenas o que disse no Teatro do Leblon: a história não recomeça do zero, haverá mortos, fraturas expostas, ferimentos leves, algo deve restar para receber a renovação que, acredito, virá em 2018. E até lá? Não creio que se deva inventar nada fora da Constituição. Mas será tudo muito difícil. Mesmo porque, em caso de necessidade, a Constituição pode ser legalmente emendada.

No Teatro do Leblon, ainda no meio da semana, não quis fazer considerações finais. Não há ponto final, dizia. As coisas ainda estão se desenrolando num ritmo alucinante. O sistema político no Brasil entrou em colapso. Isso já era uma realidade para muitos, agora deve se tornar um consenso nacional. A sociedade terá um papel decisivo, pois deve preparar uma renovação e simultaneamente monitorar os ritos fúnebres do velho sistema. A grande questão: que caminho será o menos traumático para uma economia combalida?

No meio dos anos 1980 já existia uma forte discussão a respeito de partidos políticos. Não seriam uma forma de organização condenada? Discutiase isso também em outros países. Partido ou movimento, o que é melhor para reunir as pessoas?

A discussão na França, creio, deve ter influenciado, anos depois, a eleição de Macron, agora em 2017. Ele estava à frente de um movimento, mas precisará dos partidos para governar. As fórmulas da renovação política trazem inúmeras possibilidades. Talvez seja difícil falar delas com tantos obstáculos a curto prazo no universo político.

No momento em que escrevo há surpresas, eletricidade, sensação. Só há clima talvez para se discutirem as medidas mais imediatas. O processo de redemocratização no Brasil chegou a um impasse. Precisa de um novo fôlego, algo que, guardadas as proporções, traga de novo as esperanças despertadas pelo fim do longo período ditatorial.

Foi um longo processo de degradação. As últimas bombas que ainda estão espalhadas pelo terreno ainda podem explodir. Mas a explosão de cada uma delas deve ser celebrada.

A corrupção, apesar das recusas da esquerda em reconhecer sua importância, tornou-se o grande obstáculo para o crescimento do país. Não vamos nos livrar totalmente dela. Há um longo caminho para fortalecer a estrutura das leis, desenvolver uma luta no campo cultural — onde as transformações são mais lentas — e sinceramente mostrar às pessoas que é razoável que estejam surpresas com tantas revelações escabrosas. Mas um pouco mais de atenção já teria detectado o escândalo na fonte, nas relações da JBS com o BNDES, na sua ampla influência nas eleições. Até que ponto tanta surpresa seria possível num universo não só com um pouco mais de transparência, mas também com menos ingenuidade?

O tom de prosperidade, crescimento, projeção internacional ajudou a JBS a dourar a pílula, mesma fórmula de Cabral para encobrir seus crimes.

Nos dias anteriores ao escândalo da JBS, a presidente do BNDES ainda achava estranhas as notícias de corrupção no banco e anunciava que iria apurar as irregularidades na gestão anterior.

E falamos delas há anos. Se essa gente insiste tanto em nos infantilizar é porque, ao longo desse tempo, a tática se mostrou eficaz.

A vigilância pode nos libertar dela, embora sempre vá existir um grupo numeroso que vê nas denúncias contra seus líderes uma conspiração diabólica. Esses, entregamos a Deus, sua viagem é basicamente religiosa.