segunda-feira, 18 de junho de 2018

Roger Scruton: Masculinidade Moderna

Roger Scruton: Masculinidade Moderna

Por Roger Scruton [*]
As feministas têm batido na mesma tecla em relação à posição das mulheres nas sociedades modernas. Mas e sobre os homens?
The Test of Manhood (1914)
As mudanças radicais nos hábitos sexuais, padrões de trabalho e vida doméstica, viraram sua vida de cabeça para baixo. Os homens agora não encontram as mulheres como “sexo frágil”, mas como concorrentes de igualdade na esfera pública, a esfera onde os homens costumavam comandar. E na esfera privada, onde uma antiga divisão do trabalho dava orientação para aqueles que cruzassem seu limite, não há conhecimento sobre qual estratégia será a mais eficaz.
Gestos viris – abrir uma porta para uma mulher, ajudá-la num automóvel, carregar suas malas – podem desencadear rejeição ultrajante; mostra de riqueza, poder ou influência pode parecer ridícula para uma mulher que tem até mais do que ele; e o desaparecimento da modéstia feminina e da contenção sexual tornou difícil para um homem acreditar, quando uma mulher recua aos seus avanços, que ela faz isso como uma homenagem especial ao seu poder masculino, ao invés de uma transação do dia-a-dia, em que ele, como a última, é dispensável.
A revolução sexual não é a única causa da confusão dos homens. Mudanças sociais, políticas e legais têm diminuído a esfera masculina até o ponto do desaparecimento, redefinindo toda a atividade em que os homens um dia provaram que eram indispensáveis, de modo que agora as mulheres podem fazer o trabalho também, ou pelo menos parecem fazê-lo.
As feministas têm farejado o orgulho masculino onde quer que ele tenha crescido e o arrancado impiedosamente. Sob pressão, a cultura moderna tem diminuído ou rejeitado tais virtudes masculinas como a coragem, tenacidade e bravura militar em favor dos hábitos mais suaves, mais “socialmente inclusivos”.
O advento da fertilização in vitro e a promessa de clonagem criam a impressão de que os homens não são nem mesmo necessários para a reprodução humana, enquanto o crescimento das famílias monoparentais – nas quais a mãe é o único adulto, e o Estado é muitas vezes o único provedor – fez com que a infância órfã de pai se tornasse uma opção cada vez mais comum.
Essas mudanças ameaçam fazer da masculinidade algo desnecessário, e agora muitas crianças já crescem sem reconhecer nenhuma fonte de amor, autoridade ou de orientação além da mãe, cujos homens vêm e vão como trabalhadores sazonais, vagando pelo reino matriarcal, sem perspectiva de uma posição permanente.
A infelicidade dos homens decorre diretamente do colapso de seu antigo papel social como protetores e provedores. Para as feministas, este antigo papel social era uma maneira de confinar as mulheres à família, onde elas não concorreriam pelos benefícios disponíveis lá fora. Sua destruição, elas afirmam, é, portanto, uma libertação não só das mulheres, mas dos homens, também, que agora podem escolher se querem afirmar-se na esfera pública, ou se, pelo contrário, querem ficar em casa com o bebê (que pode muito bem ser bebê de outro alguém). Esta é a idéia central do feminismo, que “os papéis de gênero” não são naturais, mas culturais, e que mudando tais papéis podemos derrubar velhas estruturas de poder e conseguir formas novas e mais criativas de ser.
O ponto de vista feminista é a ortodoxia em toda a academia norte-americana, e ele é a premissa de todo o pensamento jurídico e político entre a elite esquerdista, cujos dissidentes que se opõem colocam em perigo sua reputação ou carreiras. No entanto, uma onda de resistência a ela está ganhando força entre os antropólogos e sociobiólogos.
Típico é Lionel Tiger, que há três décadas inventou o termo “vínculo masculino” para designar algo que todos os homens precisam, e que poucos agora têm. Não foi uma convenção social que ditou o papel tradicional do homem e da mulher, Tiger sugere; em vez disso, os milhões de anos de evolução que formaram a nossa espécie fizeram-nos o que somos. Você pode fazer os homens fingirem ser menos dominantes e menos agressivos, você pode fazer com que eles finjam aceitar um papel submisso na vida doméstica e uma posição de dependência na sociedade. Mas, no fundo, no fluxo da vida instintiva que é a masculinidade em si, eles irão revoltar-se. A infelicidade dos homens, Tiger argumenta, vem deste profundo e inconfessado conflito entre faz-de-conta social e necessidade sexual. E quando a masculinidade finalmente explodir – como inevitavelmente acontecerá – será em formas distorcidas e perigosas, como as gangues de criminosos da cidade moderna ou a misoginia arrogante do malandro urbano.
Tiger vê o sexo como um fenômeno biológico, cuja profunda explicação reside na teoria da seleção sexual. Cada um de nós, ele acredita, age em obediência a uma estratégia integrada em nossos genes, que procuram a sua própria perpetuidade através do nosso comportamento sexual. Os genes de uma mulher, que é vulnerável no trabalho de parto e necessita de apoio durante os anos da educação infantil, chamam um companheiro que irá protegê-la e sua prole. Os genes de um homem exigem uma garantia de que as crianças que provê são suas, senão todo o seu trabalho é (do ponto de vista dos genes) desperdiçado. Assim, a própria natureza, trabalhando através de nossos genes, decreta uma divisão de papéis entre os sexos. Predispõe os homens para lutar por território, para proteger suas mulheres, para afastar rivais, e lutar por status e reconhecimento no mundo público – o mundo onde os homens combatem. Isso predispõe as mulheres a serem fiéis, privadas e dedicadas ao lar. Ambas as disposições envolvem o trabalho em longo prazo de estratégias genéticas – estratégias que não cabe a nós as mudar, já que somos o efeito e não a causa delas.
As feministas, obviamente, não terão nada disso. A Biologia pode certamente atribuir-nos um sexo, na forma deste ou daquele órgão. Mas muito mais importante do que nosso sexo, elas dizem, é o nosso “gênero” – e gênero é uma construção cultural, não um fato biológico.
O termo “gênero” vem da gramática, onde é usado para distinguir os substantivos masculinos dos femininos. Ao importá-lo para a discussão do sexo, as feministas indicam que nossos papéis sexuais são fabricados e, portanto, maleáveis como a sintaxe. O gênero inclui os rituais, hábitos e imagens através dos quais nós representamos a nós mesmos aos outros como seres sexuais. Não se trata de sexo, mas da consciência do sexo. Até aqui, dizem as feministas, a “identidade de gênero” das mulheres é algo que os homens impuseram sobre elas. Chegou a hora das mulheres forjarem sua própria identidade de gênero, para refazer a sua sexualidade como uma esfera de liberdade, em vez de uma esfera de escravidão.
Levado ao extremo – e o feminismo leva tudo ao extremo – a teoria reduz o sexo a uma mera aparência, com o gênero como realidade. Se, depois de ter forjado sua verdadeira identidade de gênero, você encontra-se alojado no tipo errado do corpo, então é o corpo que tem de mudar. Se você acredita ser uma mulher, então você é uma mulher, não obstante o fato de você ter o corpo de um homem. Daí que os médicos, em vez de observar as operações de mudança de sexo como uma violação grosseira do corpo e, na verdade uma espécie de agressão, agora as homologa e, na Inglaterra, o Serviço Nacional de Saúde paga por elas. Gênero, na concepção radical que as feministas tem disso, começa a soar como uma perigosa fantasia, um pouco como as teorias de genética de Lysenko, o biólogo preferido de Stalin, que argumentou que características adquiridas poderiam ser herdadas, por isso o homem poderia moldar sua própria natureza, com plasticidade quase infinita. Talvez devamos substituir a velha pergunta que James Thurber colocou diante de nós no início da revolução sexual com um equivalente novo: não “O Sexo é Necessário?”, mas “O Gênero é possível?
Em certa medida, no entanto, as feministas têm razão em distinguir sexo de gênero e dar a entender que somos livres para rever as nossas imagens do masculino e do feminino. Afinal, o argumento dos sociobiólogos descreve com precisão as semelhanças entre as pessoas e os macacos, mas ignora as diferenças. Animais na selva são escravos de seus genes. Os seres humanos na sociedade não são. Toda a questão da cultura é que ela nos faz algo mais do que criaturas de simples biologia e nos coloca no caminho para a auto-realização. Onde na sociobiologia está o ser, suas escolhas e sua realização? Certamente os sociobiólogos estão errados ao pensar que os nossos genes por si só determinam os papéis sexuais tradicionais.
Mas, assim como certamente as feministas estão erradas ao acreditar que estamos completamente livres da nossa natureza biológica e que os papéis sexuais tradicionais surgiram apenas a partir de uma luta social pelo poder em que os homens saíram vitoriosos e as mulheres foram escravizadas. Os papéis tradicionais existem, a fim de humanizar nossos genes e também para controlá-los. O masculino e o feminino eram ideais, através dos quais o animal foi transfigurado no pessoal. A moralidade sexual foi uma tentativa de transformar uma necessidade genética em uma relação pessoal. Ela já existia justamente para impedir os homens de dispersar suas sementes pela tribo, e para evitar que as mulheres aceitassem a riqueza e o poder, ao invés do amor, como o sinal para a reprodução. Foi a resposta cooperativa a um desejo profundo, tanto do homem quanto da mulher, para a “parceria”, que vai tornar a vida significativa.
Em outras palavras, homens e mulheres não são apenas organismos biológicos. Eles também são seres morais. A Biologia estabelece limites para o nosso comportamento, mas não determina isso. A arena formada por nossos instintos apenas define as possibilidades entre as quais temos de escolher se queremos ganhar o respeito, aceitação e amor um do outro.
Homens e mulheres moldaram-se não apenas com a finalidade de reprodução, mas a fim de trazer dignidade e bondade para as relações entre eles. Com esta finalidade, eles têm criado e recriado o masculino e o feminino, desde que eles perceberam que as relações entre os sexos devem ser concretizadas por meio de negociação e consenso, e não pela força. A diferença entre a moral tradicional e feminismo moderno é que a primeira pretende reforçar e humanizar a diferença entre os sexos, enquanto o segundo quer reduzir ou até mesmo aniquilá-la. Nesse sentido, o feminismo é realmente contra a natureza.
No entanto, ao mesmo tempo, o feminismo parece ser uma resposta inevitável para o colapso da moralidade sexual tradicional. As pessoas aceitam prontamente os papéis tradicionais quando a honra e a decência os sustentam. Mas por que as mulheres devem confiar nos homens, já que os homens são tão rápidos em descartar as suas obrigações? O casamento foi um dia permanente e seguro; ele oferecia à mulher status social e de proteção, muito tempo depois que ela deixasse de ser sexualmente atraente. E forneceu uma esfera na qual ela era dominante. O sacrifício que o casamento permanente exigiu dos homens tornou tolerável para mulheres o monopólio masculino sobre a esfera pública, na qual os homens competiam por dinheiro e recompensas sociais.
Os dois sexos respeitavam o território do outro e reconheciam que cada um deve renunciar a algo para benefício mútuo. Agora que os homens, na esteira da revolução sexual se sentem livre para ser polígamo em série, as mulheres não têm mais um território seguro próprio. Elas não têm escolha, portanto, senão captar o que elas podem do território que um dia foi monopolizado pelos homens.
Foi uma das grandes descobertas da civilização a de que os homens não ganham a aceitação das mulheres pela exibição impetuosa de sua masculinidade em gestos agressivos e violentos. Mas eles ganham aceitação sendo cavalheiros. O cavalheiro não era uma pessoa com o gênero feminino e o sexo masculino. Ele era inteiramente um homem. Mas ele também era gentil em todos os sentidos desta palavra brilhante. Ele não era agressivo, mas corajoso, não possessivo, mas protetor, não agressivo com outros homens, mas ousado, calmo, e pronto para concordar com os termos. Ele era animado por um senso de honra, que significava assumir a responsabilidade por suas ações e proteger aqueles que dependiam dele. E o seu atributo mais importante era a lealdade, o que implicava que ele não iria negar as suas obrigações apenas porque ele estava em posição de lucrar com isso.
Grande parte da raiva das mulheres com relação aos homens surgiu porque o ideal do cavalheiro está agora tão perto da extinção. O entretenimento popular tem apenas uma imagem da masculinidade para apresentar aos jovens: e é uma imagem de agressividade desenfreada, na qual armas automáticas desempenham um papel importante e em que a gentileza, sob qualquer forma aparece como uma fraqueza e não como uma força. Até que ponto isso é distante daqueles épicos do amor cortês, que colocaram em marcha uma tentativa europeia de resgatar a masculinidade da biologia e remodelá-la como uma idéia moral, não precisa de elaboração.
Não foram apenas a classes superiores, que idealizaram a relação entre os sexos ou moralizaram seus papéis sociais. Na comunidade da classe trabalhadora a partir da qual a família de meu pai veio, a velha reciprocidade era parte da rotina da vida doméstica, encapsulada em mostras de reconhecida força masculina e feminina. Um desses era o ritual do envelope de salário da sexta-feira. Meu avô chegava em casa e colocava na mesa da cozinha o envelope fechado contendo o seu salário. Minha avó pegava o envelope e o esvaziava passando o conteúdo para sua carteira, devolvendo para meu avô duas moedas para ele beber. Meu avô, então, ia ao bar e bebia em um estado de auto-afirmação orgulhosa entre seus pares. Se as mulheres chegassem ao bar elas permaneciam na porta, comunicando-se através de um mensageiro com as salas cheias de fumo no interior, mas respeitando o limiar dessa arena masculina, como se fosse guardada por anjos.
O gesto do meu avô, quando ele colocava o envelope com o salário na mesa da cozinha, estava imbuído de uma graça peculiar: era um reconhecimento da importância da minha avó como uma mulher, do seu direito à sua consideração e do seu valor como mãe de suas crianças. Da mesma forma, a sua espera fora do bar até o momento final, quando ele estaria demasiado inconsciente para sofrer esta humilhação, antes de transportá-lo para casa num carrinho de mão, era um gesto repleto de consideração feminina. Era sua maneira de reconhecer a sua soberania inviolável como um assalariado e um homem.
Cortesia, boas maneiras, e fazer a corte eram muitas portas até a corte do amor, onde os seres humanos se moviam como em um desfile. Meus avós foram excluídos pelo seu modo de vida do proletariado de todas as outras formas de cortesia, razão pela qual esta era tão importante. Era a sua abertura para um encantamento que eles não poderiam obter de outra maneira. Meu avô tinha pouco de si para recomendar a minha avó, além de sua força, boa aparência e comportamento viril. Mas ele respeitava a mulher nela e desempenhou o papel de cavalheiro da melhor maneira possível, cada vez que ele a acompanhava para fora de casa. Daí a minha avó, que não gostava dele intensamente, – pois ele era ignorante, complacente, e bêbado, e manteve-se entre o limiar de sua vida como um obstáculo inamovível para o avanço social – no entanto, o amava apaixonadamente como homem. Este amor não poderia ter durado se não fosse o mistério do gênero. A masculinidade do meu avô o separou de uma esfera de soberania própria, assim como a feminilidade da minha avó a protegia de sua agressividade. Tudo aquilo que eles conheciam como virtude havia sido aplicado a tarefa de permanecer de algum modo misterioso ao outro. E nisso eles foram bem sucedidos, como foram bem sucedidos em algumas coisas mais.
Uma divisão similar de esferas ocorreu em toda a sociedade, e em cada canto do globo. Mas o casamento era a sua instituição central, e o casamento dependia da fidelidade e da contenção sexual. Os casamentos não duraram apenas porque o divórcio era reprovado, mas também porque o casamento era precedido por um longo período de namoro, em que o amor e a confiança criavam raízes antes da experiência sexual. Este período de namoro era também o de exibição, no qual os homens mostravam sua masculinidade e as mulheres sua feminilidade. E é isso que significa, ou deveria significar, a “construção social” do gênero. Por encenação, os dois parceiros preparavam-se para os seus papéis futuros, aprendendo a admirar e valorizar a separação de suas naturezas. O homem cortês deu glamour ao personagem masculino, assim como a mulher cortês deu mistério para o feminino. E algo desse glamour e mistério permaneceu depois, um tênue halo de encantamento que fez com que um encorajasse o outro ao distanciamento que ambos tanto admiravam.
O casamento não se limita a servir às estratégias reprodutivas dos nossos genes, que atendem a necessidade de reprodução da sociedade. Serve também ao indivíduo em sua busca de uma vida e satisfação própria. Sua capacidade de ordenar e santificar o amor erótico vai além de qualquer coisa exigida pelos nossos genes. Como a nossa moralidade iluminista corretamente insiste, nós também somos seres livres, cuja experiência é completamente qualificada por nosso senso de valor moral. Nós não respondemos uns aos outros como animais, mas como pessoas, o que significa que, mesmo no desejo sexual, a liberdade de escolha é essencial ao objetivo.
O objeto de desejo deve ser tratado, nas famosas palavras de Kant, não apenas como um meio, mas como um fim. Daí o verdadeiro desejo sexual é o desejo por uma pessoa, e não pelo sexo, concebido como um produto generalizado. Nós cercamos o ato sexual com restrições e proibições que não são de maneira alguma ditados pela espécie, precisamente de modo a concentrar os nossos pensamentos e desejos sobre o ser livre, ao invés de concentrar no mecanismo corporal. Nisto somos imensamente superiores aos nossos genes, cuja atitude em relação ao que está acontecendo é, por comparação, mera pornografia.
Mesmo quando a visão sacramental do casamento começou a minguar, a humanidade ainda mantinha os sentimentos eróticos à parte, como as coisas demasiado íntimas para discussão pública, que só podem ser maculadas por sua exibição. A castidade, a modéstia, a vergonha e a paixão eram parte de um drama artificial, mas necessário. O erotismo foi idealizado a fim de que o casamento devesse perdurar. E o casamento, entendido como nossos pais e avós entendiam, era uma fonte de realização pessoal e a principal forma pela qual uma geração passou seu capital social e moral para a próxima.
Foi essa visão do casamento como um compromisso para a vida existencial, que estava por trás do processo de “construção de gênero” nos dias em que homens eram domados e as mulheres eram idealizadas. Se o casamento não é mais seguro, as meninas são obrigadas a procurar outro lugar para a sua realização. E outro lugar significa a esfera pública – pois é uma área dominada por estranhos, com regras e procedimentos claros, na qual você pode se defender contra a exploração. A vantagem de habitar este espaço não precisa ser explicada a uma menina cuja mãe abandonada está sofrendo em seu quarto. Nem as suas experiências na escola ou faculdade irão ensiná-la sobre a confiança ou o respeito pelo personagem masculino. Suas aulas de educação sexual a ensinaram que os homens devem ser utilizados e descartados como os preservativos que os embrulham. E a ideologia feminista incentivou-a a pensar que só uma coisa importa – que é descobrir e realizar a sua verdadeira identidade de gênero, deixando de lado a falsa identidade de gênero que a “cultura patriarcal” tem impingido a ela. Assim como os meninos se tornam homens sem tornarem-se viris, as meninas se tornam mulheres sem tornarem-se femininas. A modéstia e castidade são descartadas como politicamente incorretas; e em cada esfera onde elas se deparam com os homens, as mulheres encontram-nos como concorrentes. A voz que acalmou a violência da masculinidade – ou seja, o chamado feminino para proteção – tem sido remetida ao silêncio.
Assim como as virtudes femininas existiam, a fim de tornar o homem gentil, a virilidade existia a fim de quebrar a reserva que fazia com que as mulheres retivessem seus favores até que a segurança estivesse à vista. No mundo do “sexo seguro”, os velhos hábitos parecem tediosos e redundantes. Em consequência, surgiu outro fenômeno marcante na América: a litigiosidade das mulheres para com os homens com quem elas dormiram. Parece que o consentimento, oferecido de modo livre e sem levar em conta as preliminares, uma vez assumido como indispensável, não é realmente consentimento e pode ser retirado com efeitos retroativos. As acusações de assédio ou até mesmo de “estupro no encontro” ficam sempre na reserva. O tapa na cara que é utilizado para limitar os avanços importunos é agora oferecido após o evento, e de forma muito mais letal – uma forma que não é mais privada, íntima e remediável, mas pública, regulamentada, e com a objetividade absoluta da lei. Você pode tomar isto como uma mostra de que o “sexo seguro” é realmente o sexo em sua forma mais perigosa.
Talvez o casamento seja o único sexo seguro que nós conhecemos.
Quando Stalin impôs as teorias de Lysenko sobre a União Soviética como a base “científica” do seu esforço para remodelar a natureza humana e transformá-la no “Novo Homem Soviético”, a economia humana continuou escondida sob os imperativos loucos do Estado stalinista. E uma economia sexual paralela persiste na América moderna, que nenhum policiamento feminista ainda conseguiu eliminar. Os homens continuam tomando conta das coisas, e as mulheres continuam a postergar para os homens. As meninas ainda querem ser mães e obter um pai para seus filhos, os meninos ainda querem impressionar o sexo oposto com sua valentia e seu poder. As etapas para a consumação da atração podem ser curtas, mas são passos em que os papéis antigos e os antigos desejos pairam no limite das coisas.
Assim, não há nada mais interessante ao antropólogo visitante que as palhaçadas dos estudantes universitários americanos: a menina que, no meio de alguma diatribe feminista de baixo calão, de repente, começa a enrubescer; ou o menino que, andando com sua namorada, estende um braço protegê-la. Os sociobiólogos nos dizem que esses gestos são ditados pela espécie. Devemos vê-los, sim, como revelações do senso moral. Eles são o sinal de que há realmente uma diferença entre o masculino e o feminino, para além da diferença entre o macho e a fêmea. Sem o masculino e o feminino, na verdade, o sexo perde seu significado.
E aqui, certamente, reside a nossa esperança para o futuro. Quando as mulheres forjam sua própria “identidade de gênero”, na forma como os feministas recomendam, elas deixam de ser atraentes para os homens – ou são atraentes apenas como objetos sexuais, e não como pessoas individuais. E quando os homens deixam de ser cavalheiros, eles deixam de ser atraentes para as mulheres. O companheirismo sexual então continua pelo mundo. Tudo o que se precisa para salvar os jovens dessa situação é que moralistas antiquados passem despercebidos pelas guardiãs feministas e sussurrem a verdade em ouvidos ansiosos e surpresos Na minha experiência, os jovens ouvem com suspiros de alívio que a revolução sexual pode ter sido um erro, que as mulheres estão autorizadas a ser modestas, e que os homens podem acertar o alvo ao serem cavalheiros.
E é isso que devemos esperar. Se somos seres livres, então é porque, ao contrário dos nossos genes, podemos ouvir a verdade e decidir o que fazer sobre isso.
[*] Roger Scruton, “Modern Manhood”. City Journal, Outono de 1999.
Tradução: Direita Realista

domingo, 17 de junho de 2018

Mario Vargas Llosa: "Nicarágua, hora zero"


O comandante Daniel Ortega, amo e senhor da Nicarágua desde 2007, propôs retardar as eleições para 2019 a fim de ficar mais um ano no poder, período em que imagina, sem dúvida, encontrar novas artimanhas que lhe permitam se eternizar na presidência, à qual chegou por meio de um conluio eleitoral em que se juntaram remanescentes do sandinismo, empresários ambiciosos e membros da Igreja Católica, como seu antigo adversário, o cardeal Miguel Obando (que morreu recentemente), que conquistou para sua causa com uma oportuna conversão, que chegou até a celebrar seu casamento com sua antiga companheira e cúmplice, a atual vice-presidente Rosario Murilo.
Repressão na Nicarágua
As manifestações encabeçadas pelos estudantes tinham como objetivo 
imediato protestar contra uma reforma do regime de aposentadoria 
Foto: AP Photo/Esteban Felix
Como todos os tiranos, o desejo de poder deixa cego o comandante Ortega e não lhe permite ver, apesar dos massacres que sua polícia política e os paramilitares sandinistas continuam cometendo (no momento em que escrevo, já são 160 mortos e mais de mil feridos), que sua impopularidade é gigantesca em todos os setores da sociedade, a começar pelos empresários, que decretaram uma greve nacional exigindo sua renúncia, além dos estudantes, operários, camponeses, a Igreja Católica, ou seja, o grosso de uma sociedade que decidiu se mobilizar com uma grande coragem contra a corrupção, os roubos, a demagogia, a censura, os crimes e os desmandos do casal presidencial, com o objetivo de pôr fim a um dos regimes mais abjetos da história da América Central.
A história do comandante Ortega é digna de um romance. Lutou contra a ditadura de Somoza, foi preso por isso e, quando a revolução triunfou, liderou o governo sandinista. Em 1990, derrotado nas eleições por Violeta Chamorro, ele e um grande número de dirigentes do governo se envolveram num enorme escândalo, a famosa “Piñata”, se apoderando de casas, terras e bens do Estado, o que levou muitos sandinistas autênticos e decentes, como o escritor Sergio Ramírez, a romper com eles e os denunciarem.
Para voltar ao poder, Ortega aparentou uma dupla conversão democrática e religiosa, com pactos delirantes (como o que fez com Arnoldo Alemán, que ajudou a sair da prisão, condenado por corrupção) e se aliando a empresários sem escrúpulos, oferecendo-lhes tudo o que desejassem desde que não interferissem na política de governo, e com apoio do cardeal Obando. Desta maneira, assumiu o governo em eleições fraudulentas. 
Desde então, tem se mantido no poder, afundando o país em operações duvidosas, como a que forjou com um empresário chinês para construir um novo canal que ligaria o Caribe ao Pacífico, projeto que deu em nada, e outros caprichos delirantes, como o bosque de árvores metálicas construído por Rosario Murilo, que os estudantes rebelados destruíram em uma operação catártica.
O levante popular que começou em abril teria ocorrido muito antes se a Nicarágua endividada e arruinada não tivesse contado com o petróleo venezuelano que o comandante Chávez, primeiro, e depois Nicolás Maduro ofereciam generosamente para seu aliado sandinista.
As manifestações encabeçadas pelos estudantes e apoiadas pela maioria da opinião pública tinham como objetivo imediato protestar contra uma reforma do regime de aposentadoria que aumentava a quota devida pelos pensionistas, mas, na verdade, esta foi a gota d’água, pois a indignação popular contra os abusos e canalhices do casal na presidência, que já fermentava em silêncio graças à repressão, encontrou uma via de escape e deixou o governo e o restante do mundo surpreendidos pela magnitude dos protestos e pela coragem dos manifestantes face à brutalidade com que o regime procurou sufocá-los. 
Não há outra saída para o país de Rubén Darío e de Sandino senão a renúncia imediata de Ortega e de sua mulher e a convocação imediata de eleições, como exige o povo da Nicarágua. O relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre a selvagem violência do governo contra os pacíficos manifestantes mostra, claramente, que o sistema político que eles presidem violou todas as normas e princípios democráticos e age com a ferocidade repressiva das piores ditaduras. O sangue derramado nos últimos dois meses pelo valente povo nicaraguense, enfrentando balas, assassinatos, prisões e torturas, colocará um fim a uma das últimas tiranias que, lembrança de uma época funesta, sobrevivem na América Latina.
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Violência sem fim na Nicarágua
Para isso, é indispensável que os países democráticos e organizações internacionais, como as Nações Unidas, OEA e União Europeia se solidarizem com os patriotas nicaraguenses, exigindo a renúncia de Ortega e Rosario Murillo e a realização, no menor prazo possível, de eleições livres, com observadores internacionais, para o país recuperar sua liberdade e começar a reconstrução das suas instituições democráticas depois de tantos anos de sofrimento.
A Nicarágua, provavelmente, é um dos países latino-americanos que mais sofreu ao longo da história: foram ocupações, ditaduras, saques, guerras civis. A derrota da ditadura de Somoza, uma das piores já vistas no continente, foi uma façanha que despertou grandes esperanças. Mas os sandinistas que ocuparam seu lugar optaram pela utopia coletivista excludente e, em vez de lançar as bases de uma sociedade democrática, criaram uma guerra civil e uma divisão social que até agora impediram o país de edificar as instituições que garantem o progresso econômico e a liberdade política. Mas nunca é tarde para iniciar esse processo e, depois das terríveis experiências que marcaram sua história recente, a saída de Ortega e da sua sinistra companheira deve dar início a uma nova era para essa terra de heróis e de grandes poetas.
A realidade do nosso tempo não tem lugar para sistemas tirânicos nem utopias sociais, que só trouxeram miséria e dor para os países que sucumbiram a elas. A América Latina vem compreendendo isso e a prova é que quase já não restam regimes dessa natureza, com exceção de Cuba e Venezuela, e países que respaldam o “socialismo do século 21” (por oportunismo e cobiça, pois só o praticam em teoria e não na prática) estão dele se afastando, caso do Equador e agora a Nicarágua, de modo que finalmente a democracia substituirá essa deprimente realidade política que reinou na América Latina na minha juventude, quando de um ponto ao outro do continente havia ditaduras militares, com exceção da Costa Rica e do Uruguai. Não é por acaso que a liberdade nesses dois países esteja mais enraizada com que em outros, assim como a coesão social e a paz. / Traduçã de Terezinha Martino

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA
O Estado de São Paulo

sábado, 16 de junho de 2018

"Não é a corrupção", por Carlos Alberto Sardenberg


Há muita corrupção no Brasil, mas não se pagam as contas simplesmente botando todos os políticos para fora


A ampla maioria da população brasileira apoiou a greve dos caminhoneiros. Ainda apoia.

Pesquisas mostram isso, assim como a minha própria observação como apresentador do programa “CBN Brasil”. As manifestações dos ouvintes por e-mail e WhatsApp indicaram clara tendência: os caminhoneiros tinham o direito de fazer o que fizeram.

Há razões para estranhar: como as pessoas podem endossar um movimento que lhes causou tantos prejuízos? Será que não se importam em ficar sem gasolina ou pagar o dobro pelo quilo de batata?

Não é simples assim. As pessoas ficaram de bronca, reclamaram intensamente da falta e do preço das coisas, mas, esse é o ponto, achavam que não era culpa dos caminhoneiros. 

De quem, então? Fácil: do governo, dos políticos em geral e dos corruptos em particular.

Tanto é assim que as pessoas não gostaram nada das soluções propostas pelo governo Temer, especialmente o subsídio incluído no preço do diesel. Muitos entenderam que se tratava de dinheiro público, que vinha da arrecadação dos impostos pagos por todos, mas achavam que o governo não devia fazer isso.

Resumindo: por culpa do governo, os caminhoneiros, assim como a maior parte da população, passavam por momentos de dificuldade. A paralisação, portanto, era uma arma legítima. Do mesmo modo, os sacrifícios impostos às pessoas eram consequência da incapacidade do governo em resolver a situação. Logo, querer aumentar imposto para pagar a conta dos caminhoneiros não fazia o menor sentido.

Mas se não há subsídio grátis, como pagar?

Fácil, respondiam nossos ouvintes: cortando salários e outras vantagens de políticos e, sobretudo, cobrando o dinheiro da corrupção.

Mudemos de assunto, para a Previdência. Pesquisa nacional do instituto Ipsos, patrocinada pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida, Fenaprevi, mostrou que a metade dos entrevistados (51%) entende que nosso regime de aposentadoria é sustentável. 

Apenas 28% acham que modelo exige reforma e 21% não têm opinião.

Por outro lado, também uma metade dos brasileiros (49%) acha que o assunto deve ser tratado pelo próximo presidente. E uma maioria de 43% afirma que será necessário fazer uma reforma no futuro, contra 38% para os quais o modelo não requer mudanças nem hoje nem mais à frente.

Com reforma ou sem reforma, a maioria espera se aposentar antes dos 65 anos e afirma que será totalmente dependente do sistema público. A maioria não sabe qual será o valor do benefício, mas desconfia que não será suficiente. Nada menos que 60% acham necessária uma previdência complementar.

Não que a façam — 63% dizem que não fazem investimentos para o futuro.

Resumindo: o sistema é sustentável, a aposentadoria está garantida, mas não será suficiente para uma vida confortável. Seria bom ter uma Previdência complementar, se houvesse dinheiro para poupar.

E se houver algum desequilíbrio nas contas da Previdência pública? Quem paga? As próprias pessoas, trabalhando mais e se aposentando mais tarde? A resposta é não. 

Aumentar o valor da contribuição? Negativo. Diminuir o valor da aposentadoria? Também não.

Então não tem problema algum?

Tem — e o leitor já adivinhou: a corrupção. Nada menos dos que 75% dos entrevistados pela Fenaprevi acham que o maior problema do sistema é a roubalheira e o desvio de verbas. E, de novo, cobrem a conta dos políticos.

Olhando os fatos, sem ideologias, é evidente que há um enorme problema na Previdência, tanto a do INSS quanto na dos servidores públicos. Aliás, dois desequilíbrios. Primeiro, o dinheiro arrecadado com as contribuições não é suficiente para pagar as aposentadorias. 

Há um déficit crescente, em ritmo vertiginoso. Segundo, o gasto previdenciário total alcança 13% do PIB, nível de países ricos e velhos.

Voltando aos caminhoneiros, está claro que as suas reivindicações, sem exceção, pediam subsídios, dinheiro público e preços favoráveis tabelados. Ou seja, estavam mandando a conta para algum outro lado da sociedade. Por isso mesmo, não está dando certo.

Tudo considerado, a situação do país é ainda mais complicada do que se sabia. Não apenas há uma crise nas contas públicas e numa economia travada por mecanismos errados. Há um déficit de percepção. Há muita corrupção no Brasil, os políticos estão fazendo de tudo para serem desprezados, mas não se vai pagar as contas simplesmente botando todos para fora, ou melhor, na cadeia.

Vai daí que ou elegemos um presidente que consiga convencer a população sobre a necessidade de reformas — e diga claramente quais reformas, com o fizeram Macri e Macron — ou não haverá políticos suficientes para culpar e prender.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Fernando Gabeira: Olhar brasileiro na Rússia de Putin


- O Globo

Momento em que ex-coronel da KGB surgiu na cena política do seu país é parecido com o do Brasil de agora, que busca estabilidade

Apesar das leituras, não me arrisco a analisar a política russa. Apenas comparar o que li com o que vejo e tentar, através da experiência, entender um pouco o Brasil.

O momento em que Vladimir Putin surgiu na cena política russa é parecido, por razões diferentes, com a atual situação do Brasil. Depois de uma década de transição para o capitalismo, os russos sentiam o país mergulhado no caos e ansiavam por algo que Putin oferece: estabilidade.

Tanto lá, naquele período, como no Brasil de agora, há uma sensação de perda de importância no cenário internacional de baixa autoestima e um desejo difuso por mais comando e autoridade.

Como um ex-coronel da KGB, que atuou em Dresden, na época Alemanha Oriental, Putin se aproveitou da ampla campanha positiva em torno da KGB, dirigida pelo seu mais ilustre dirigente: Yuri Andropov.

Um dos pontos altos da campanha foi uma série sobre um espião russo que se tornou herói nacional: Maxim Isaev. Sob o nome de Max Otto von Stierlitz, ele se se infiltrou no governo alemão e impediu com seu trabalho um acordo entre Estados Unidos e Alemanha, destinado a prejudicar a União Soviética.

Stierlitz foi tema de uma série de extraordinário sucesso, intitulada “17 Momentos da Primavera”. Virou tema popular, jogos infantis de guerra. Segundo Arkady Ostrovsky, no livro “A invenção da Rússia”, Putin fez uma bela apariçao em cena, emulando o herói Stierlitz. No programa de TV em que foi apresentado, a música de fundo era a mesma da série, ele dirigia o mesmo carro Volga, enfim, era o homem certo para salvar a Rússia, nessa nova dificuldade.

Deu certo. A Rússia esperava alguém que a arrancasse da insegurança. E Putin passou a representar isto. Tanto que os jovens no período de seu governo são chamados de os filhos da estabilidade.

Putin é criticado pela oposição por falta de liberdades políticas. No entanto, certamente usando a máquina, consegue se reeleger com facilidade e também ao seu sucessor de plantão: Dimitri Medvedev.

O Brasil não passou por uma década de capitalização selvagem. Pelo contrário, o último período foi marcado por uma experiência estatizante, focada em aspirações socialistas.

A ascensão de Michel Temer não só não trouxe estabilidade, como transmitiu a certeza de que a corrupção continuava instalada no poder: eram todos do mesmo bloco predatório.

A greve dos caminhoneiros acentuou a sensação de desamparo dos brasileiros.

Fernando Henrique, numa entrevista, considerou a situação pré-revolucionária.

Discordo. Não vivemos um momento pré-Lenin. Estamos mais próximos de um momento pré-Putin.

Felizmente não temos nenhum herói nacional para ser emulado. Mas a televisão é um grande instrumento.

Influenciados pelo marxismo, analistas costumam culpar os asiáticos pelos traços autoritários na Rússia. Diziam que o czar Nicolau era o Gengis Khan com telégrafo e Stalin o Gengis Khan com o telefone.

Os tempos passam, podem surgir Gengis Khan com televisão ou talvez até com internet.

Nessa plataforma, no entanto, será difícil prosperar, porque pelo menos teoricamente é um espaço democrático, uma Atenas digital.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A regra de ouro de Gioconda Brasil: Trump e a imprensa brasileira - Flávio Gordon

A regra de ouro de Gioconda Brasil: Trump e a imprensa brasileira

Foto: AFP photo / KCNA via KNS
Foto: AFP photo / KCNA via KNS
Era o dia 20 de outubro de 2016, semanas antes das eleições presidenciais norte-americanas. Com uma honestidade que destoava do comportamento de seus colegas, e cujo mérito só faz aumentar com o passar do tempo, a jornalista da Globo Gioconda Brasil afirmou categoricamente em seu perfil no Twitter: “No Brasil, não existe cobertura das eleições americanas. Existe torcida pela vitória de Hillary Clinton”.
De lá para cá, nada mudou. Ao contrário. O ressentimento com a vitória de Trump levou a prática daquele mau jornalismo ao paroxismo, produzindo, dia após dia, matérias e análises constrangedoras, que, se dizem pouco sobre o objeto de que alegam tratar, revelam muito sobre o estado emocional histeriforme de grande parte de nossos comunicadores. Lembro de Arnaldo Jabor na rádio CBN, dizendo-se “doente” pela vitória do republicano. E de Lucas Mendes no Manhattan Connectionconfessando emocionado: “A eleição de Obama foi um dos melhores dias da minha vida. Eu dei sorte de caminhar neste planeta junto com ele. E agora a eleição do Trump é um dos piores dias da minha vida”. Diante dessas demonstrações de irracionalidade e paixão política por parte de veteranos do jornalismo, resta claro que a regra de ouro tão bem descrita por Gioconda Brasil segue em vigor. No Brasil, não existe cobertura da administração Trump. Existe torcida pelo seu fracasso.
Para que o leitor tenha uma ideia do tamanho do alheamento do nosso jornalismo em relação à realidade, e do quão ensimesmado está, basta tomar como exemplo o último artigo de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo. Nele, ao analisar a foto já famosa dos líderes mundiais no mais recente encontro do G7, e na qual Trump aparece como centro das atenções, o articulista trata o presidente americano por “pré-adolescente petulante e ridículo”, lamentando que a democracia permita eleger tipos como ele. Trata-se, enfim, da velha ladainha midiática dos tempos da corrida eleitoral, que mal consegue disfarçar o ódio político incontido, para não falar do rosário de preconceitos elitistas contra o americano médio, ocultados sob a aparência de análise.
Por ironia do destino, e para a infelicidade do autor, o artigo foi ao ar quase na mesma hora em que Trump, o “pré-adolescente petulante e ridículo”, posava para a foto histórica cumprimentando o ditador norte-coreano Kim Jong-un, em gesto que consagra um inédito e até então inconcebível acordo de paz entre os dois países, e pelo qual Kim se compromete a trabalhar pela completa desnuclearização da Península Coreana. Um acontecimento de verdadeira relevância, muito diverso do encontro entre Barack Obama e o ditador cubano Raul Castro, que, apesar de não ter resultado na assunção de nenhum compromisso deste com a democracia e o respeito aos direitos humanos, a imprensa tratou como a chegada da Era de Aquário.
Lembro aos leitores que, desde o segundo semestre do ano passado, quando Trump endureceu o discurso – prometendo “fogo e fúria”, e até mesmo a total destruição da Coreia do Norte, caso o seu ditador não parasse com suas ameaças nucleares –, a imprensa brasileira não cessou de profetizar o armagedon, sempre atribuindo à retórica “incendiária” do presidente americano a culpa de uma eventual guerra nuclear. Quando a realidade começou a se revelar como o exato oposto das profecias catastrofistas, o discurso foi mudando sutilmente, sem que jamais, é claro, os torcedores dos estúdios e redações admitissem o erro. Sentindo estar diante de um negociador de pulso firme, muito diferente do tíbio e omisso ex-ocupante da Casa Branca, o ditador norte-coreano começou a baixar o tom. Não podendo negar o fato, a imprensa decidiu interpretá-lo a seu próprio modo, bastante sui generis. As negociações pós-ameaças passaram a ser tratadas como uma vitória, não de Trump, mas (pasmem!) de Kim Jong-un. Uma manchete da Folha resumiu o teor geral da cobertura: “Encontro com Trump é vitória estratégica de ditador norte-coreano”. Lembro-me de, à época, ter comentado algo assim no Facebook: é como dizer que o encontro do punho do Mike Tyson com o queixo do adversário é vitória estratégica do adversário.
O mesmo padrão se repete agora que as negociações resultaram no acordo histórico firmado em Cingapura. Quem o definiu bem foi uma figura insuspeita: Nate Silver, outrora guru da imprensa brasileira, por haver aplicado seus modelos estatísticos à corrida eleitoral americana, prevendo à época (para a euforia de jabores, mendes, chacras e blinders) uma vitória acachapante de Hillary Clinton. Comentando sobre o comportamento da imprensa em face do encontro entre Trump e Kim, Silver tuitou ontem, dia 12: “Para deixar claro, 90% dos comentários da especialistocracia sobre a cúpula de Cingapura parecem ser construídos com o objetivo de convencer as pessoas de que Trump não deve receber nenhum crédito por ela – em lugar de analisar racionalmente os méritos e deméritos do acordo”.
Assim tem sido com todos os acertos de Trump, tanto na política interna (a exemplo da queda significativa nos índices de desemprego, sobretudo entre os negros americanos – para o desespero impotente, disfarçado de deboche, de congressistas democratas como Nancy Pelosi), quanto na política externa (como a vitória sobre o Estado Islâmico). A imprensa brasileira, torcendo e militando mais que reportando, prefere ignorá-los solenemente, ou então distorcê-los. Enquanto, para os nossos comentaristas, Trump segue sendo um raivoso senhor da guerra, para o presidente sul-coreano, ele é digno de receber o Nobel da Paz.
No fim do ano passado, Ross Douthat, colunista do New York Times, e tão antitrumpista como qualquer um de seus colegas, admitiu a resistência da classe falante em reconhecer os méritos do presidente, sobretudo em relação à política externa. Depois de elencar motivos alheios ao trabalho jornalístico para o fenômeno, Douthat faz a seguinte autocrítica:  “Isso também é falha da imprensa, um caso em que a mídia não noticia adequadamente um sucesso importante porque ele não cabe na narrativa do desastre trumpiano com a qual as nossas entidades jornalísticas estão todas comprometidas. Incluo-me na acusação. A política externa é a área em que os riscos de eleger Trump me pareciam particularmente inaceitáveis, e tive a tendência de focar em narrativas que confirmassem esse medo (…) Se me tivessem dito ao fim de 2016 que, em um ano de era Trump, o califado teria sido arrasado sem que algo de pior ocorresse no Oriente Médio, eu teria ficado surpreso e satisfeito. A título provisório, então, é preciso dar crédito a quem o merece – a nossos soldados e diplomatas, sim, mas também ao nosso presidente”.
Enquanto os fatos vão numa direção, e os méritos de Trump são reconhecidos até pelos que lhe são avessos, a provinciana imprensa brasileira segue o seu destino de avestruz. Parece ter sido ela, e não o presidente americano, a construir um muro entre si e os fatos, esses imigrantes ilegais e indesejados nos santuários ideológicos das redações. Só isso explica que, no exato instante em que o atual ocupante da Casa Branca realiza feito inédito e de importância global, um de nossos opinadores o tenha qualificado de “pré-adolescente petulante e ridículo”, sem perceber que não há nada mais pré-adolescente (e petulante, e ridículo) que a sua própria birra política disfarçada de artigo jornalístico.