domingo, 23 de setembro de 2018

"Adversários forjaram Bolsonaro", por Ruy Fabiano

Não adianta dizer que, em suas três décadas de parlamentar, Bolsonaro aprovou quase nada. Seu protagonismo deriva não do que fez, mas do que impediu (ou ajudou a impedir) que se fizesse: o triunfo do projeto bolivariano de poder do PT, que vê no banditismo uma força revolucionária, a ser fortalecida

Parte do êxito da candidatura Bolsonaro decorre menos de seus méritos, em regra negados, e mais da truculência com que é desconstruído pelos adversários. Exageros, que levam concorrentes entre si a se unir contra um inimigo comum, acabam frequentemente saindo pela culatra. É o que ocorre.
O eleitor percebe que alguma coisa está fora do lugar.
O natural é que ele seja combatido no campo das ideias. Dizer que ele não as tem é uma maneira simplista de evitar o único campo efetivo em que, nos termos da democracia, pode ser refutado.
Os adversários, no entanto, optam pela adjetivação, quando não pelo insulto. O senador Álvaro Dias, por exemplo, chamou-o de “bandido” e “vagabundo” e atribuiu à facada o seu protagonismo (o que é uma inversão, já que o protagonismo é que motivou a facada). Num tom quase de celebração, disse que “ele está quase morto”.
Os demais não ficam muito atrás: “nazista, fascista, homofóbico etc.”. Por aí, não se chega a lugar nenhum, nem se compreende o fenômeno de massas em que ele de fato se transformou. Sem dispor de prefeituras, governos, sindicatos ou verbas do fundo partidário e eleitoral, arrasta multidões por onde passa – e é o único, hoje, a fazê-lo. Não é uma opinião, mas um fato.
As últimas caravanas de Lula, inclusive pelo Nordeste, com apoio de prefeituras, governos e sindicatos, não lograram a mesma performance. E isso está patente em vídeos disponíveis na internet. Há um fenômeno novo na política que está sendo negligenciado – e, por isso mesmo, não compreendido.
É dever de jornalistas e intelectuais fazê-lo, mas estão contaminados pela febre ideológica, que obscurece o raciocínio. Sem essa premissa – decifrar o fenômeno -, o combate será vão.
Paulo Guedes, assessor econômico de Bolsonaro, resumiu, ao menos em parte, o que ocorre. Disse que o êxito do candidato decorre de um tema central: segurança pública.
Tudo o mais, neste momento, disse ele, inclusive a economia, é acessório. E Bolsonaro, goste-se ou não – e a ira dos adversários apenas ajudou a consolidar esse aspecto -, é o único dos candidatos a ter sua imagem associada ao restabelecimento de uma lógica elementar, clamada pela imensa maioria da população: bandido não pode virar mocinho. E não se combate o crime hostilizando a polícia.
Isso remete aos equívocos com que, nas últimas décadas, a segurança pública foi tratada, em sucessivos governos, submetida a um viés ideológico que associa crime a injustiça social.
A Lava Jato deixou claro esse equívoco, ao mostrar que a praga comparece também no andar de cima.
O establishment político brasileiro – e aí se incluem mídia e academia – fechou-se numa bolha e descolou-se da realidade. Restou-lhe dizer o de sempre, que o povo não sabe votar.
Entre balas perdidas e achadas, a sociedade, que padece de um massacre civil de 60 mil homicídios anuais, clama por ordem.
Daí o retorno da mística militar, nosso sebastianismo republicano. Bolsonaro é beneficiário da desordem e anomia que contaminaram e puseram em xeque a democracia brasileira.
Não adianta dizer que, em suas três décadas de parlamentar, aprovou quase nada. Seu protagonismo deriva não do que fez, mas do que impediu (ou ajudou a impedir) que se fizesse: o triunfo do projeto bolivariano de poder do PT, que vê no banditismo uma força revolucionária, a ser fortalecida.
As forças de centro, ao aderir ao furor ideológico da extrema esquerda, perderam a oportunidade de oferecer uma saída alternativa ao país. Nesses termos, instaurou-se o Fla x Flu ideológico, que, inapelavelmente, marcará estas eleições.
Ruy Fabiano é jornalista 

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