domingo, 30 de novembro de 2014

FERNANDO GABEIRA - "ELITE BRANCA DO B"

Elite branca do B

PUBLICADO EM 30.11.2014
Um amigo que veio do exterior estava surpreso com o Brasil. Soube da campanha eleitoral, da luta contra a elite branca, dos filmes mostrando como um banqueiro iria tirar a comida da mesa dos pobres. Ao chegar, encontra a vencedora procurando alguém do mercado, com capacidade para ajustar suas contas, que por sinal bateram um recorde negativo em outubro: R$ 8,13 bilhões negativos nas transações correntes.
Como explicar isso? Respondi que os números falavam por eles próprios. Ou melhor, começaram a falar depois das eleições, porque muitos deles foram, devidamente, engavetados durante a campanha. E as famílias pobres diante da mesa de jantar? A lógica implacável dos números acaba impondo do PT o que mais estigmatizava no adversário: um fazedor de contas, alguém que não espanque a aritmética.
Mais surpreendente ainda é a possível escolha de Kátia Abreu para a Agricultura. O amigo leu no “Guardian” sua primeira entrevista dela. Kátia disse que seu modelo político era Margaret Thatcher. E o repórter concluiu que combaterá os ecologistas como Thatcher combateu os mineiros em greve. Para isso não tenho grandes explicações. Conheci Kátia no Congresso e tanto com ela como com Ronaldo Caiado tive discussões produtivas. Não acredito que veja no meio ambiente um entrave ao progresso, como Dilma, naquele célebre ato falho em Copenhague. Mas as pessoas mudam. Não entendo como se espelhar em Thatcher e querer subir na carreira política sem conhecer melhor a trajetória da mulher que a inspira sua jornada.
Thatcher jamais mudou de partido e dificilmente entraria num governo no auge de um escândalo de proporções mundiais, o maior das democracias ocidentais, segundo o “New York Times”.
Ela pode usar uma bolsa a tiracolo, como Thatcher, mas seu programa é muito distinto dos conservadores ingleses, ainda hoje no poder. Eles têm uma das políticas ambientais mais avançadas do mundo. Talvez em outras entrevistas ela possa se explicar melhor. A impressão que o “Guardian” transmitiu era de que o meio ambiente e os grupos indígenas seriam um obstáculo para o projeto de Kátia: superar os EUA na produção de alimentos. Ela sabe que grande parte dos problemas tem solução negociada, e a própria ciência pode ser uma excelente referência para definirmos o caminho de um crescimento sustentável. Grandes dramas como a crise hídrica envolvem, por exemplo, a agricultura e toda a sociedade brasileira: não há bala de prata nem dama de ferro que dê conta deles.
O tom da reportagem assusta. Mas não deixa de ser irônico, concluí para o amigo que chega: o grande fantasma da campanha de Dilma era a elite branca e agora nos oferecem um diretor de banco e uma discípula de Margaret Thatcher numa versão tropical. Só mergulhando na nossa cultura política para tornar isso ao menos inteligível. O PT tem o hábito de dividir o país; pobres contra ricos, regiões contra regiões.
Mas quando a situação aparece com mais complexidade, precisa de novas subdivisões. Daí a necessidade de uma elite branca do B. A mesma subdivisão já aplicada à direita: uma direita como Ronaldo Caiado e uma direita do B, Paulo Maluf, Jader Barbalho, Newton Cardoso. Ninguém deve, portanto, temer ser considerado de direita ou da elite branca. Há sempre a escolha: elite branca do B ou direita do B. Uma política econômica sensata é o que precisamos, inclusive nesta conjuntura internacional. Seria algo estável no horizonte, porque os céus da política indicam tempestade.
O escândalo do Petrolão deve deixar inúmeras marcas. A própria imagem internacional do Brasil está em jogo. O momento é especial porque entramos num pesadelo de cifras. Todos os protagonistas levando milhões, até as formigas no Espírito Santo custaram R$ 67 milhões à Petrobras. Sessenta e sete milhões para as formigas, 200 para um subgerente, quanto não desapareceu nesse circuito?
Os malabaristas terão trabalho para explicar. Sua tática é sempre sumir no tempo e na multidão, com duas frases típicas: sempre foi assim, todo mundo faz. Houve corrupção na Petrobras em governos anteriores. Mas nada se compara ao uso sistemático da empresa para alimentar partidos políticos. O argumento de que sempre foi assim e todos fazem assim é a maneira de nos ejetar do aqui e agora e mergulhar num espaço mítico. Aliás, esta ideia de que sempre foi assim lembra um pouco da rigidez da morte. É só nela que não existem caminhos de renovação. Enquanto os petistas estiverem escondidos nas dobras do tempo e na multidão de corruptos, será difícil abordá-los.
Creio que é de Mark Twain esta frase: é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas. Compreender o Petrolão é uma dura tarefa. Se falharmos, o Brasil vira uma espécie de buraco negro. No espaço, esses buracos são uma singularidade gravitacional: não valem na sua proximidade as leis da física. Aqui embaixo, buracos negros são os países onde não valem as leis do Código Penal.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 30/11/2014

Vem aí a vez dos políticos - O Estado de S.Paulo - Editorial



30 Novembro 2014 | 02h 05
Assentados os fundamentos da identificação dos autores e beneficiários da torrencial sangria dos cofres da Petrobrás - com a conclusão dos depoimentos em regime de delação premiada do ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e de seu comparsa, o doleiro Alberto Youssef -, o acerto de contas da Justiça com o maior esquema de corrupção da história da República está em vias de se iniciar. Em breve começarão a ser conhecidas, a caminho da barra dos tribunais, dezenas de protagonistas (fala-se em 70) cujos nomes ainda permanecem à sombra, diferentemente do que se passou com os mais de 20 controladores do clube das megaempreiteiras nacionais que chegaram a ser encarcerados e com os executivos da Petrobrás, seus parceiros no crime continuado. Já não sem tempo, é para os políticos que os holofotes irão se voltar.
O primeiro movimento acaba de ser anunciado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Com base no que a dupla Costa & Youssef entregou - e sem a necessidade, ao que tudo indica, de esperar o que delatarem outros envolvidos que resolveram imitá-los para colher os benefícios similares quando forem julgados -, Janot pretende pedir ainda este ano a abertura dos primeiros inquéritos para apurar as culpas dos parlamentares e outras autoridades públicas que embolsaram a parte que lhes tocava no ultraje. Em geral, sob a forma de comissões destinadas nominalmente aos respectivos partidos, era a paga generosa pela abertura das portas facilmente destrancáveis das diretorias da Petrobrás com as quais os cartéis da empreita firmariam contratos superfaturados - cobrindo, com margens superlativas, o pedágio requerido por intermediários e contratantes.
A sensata ideia do procurador é solicitar ao relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, o desmembramento dos autos. Serão julgados pela Alta Corte os acusados detentores de foro privilegiado. Dos demais, que não dispõem dessa prerrogativa, se ocuparão os tribunais de primeira instância - salvo se ficar comprovado que tiveram participação direta em eventuais crimes cometidos por políticos. Só então, de todo modo, as delações que embasarem as ações penais deixarão de ser segredo judicial. "O que temos de fazer, dentro do limite do possível, é manter no Supremo aquilo que é do Supremo", adiantou Janot semanas atrás. "Aquilo que não puder ser cindido em razão da prova, no limite fica também no Supremo." A tendência, portanto, é não repetir o "maxiprocesso" do mensalão, que trancou a pauta do plenário do STF por mais tempo do que seria razoável.
Desta vez, tampouco o Ministério Público produzirá uma única e cabal denúncia. A fragmentação poderá acelerar a análise dos casos. De qualquer forma, o acionamento das engrenagens da Justiça será lento, a princípio. Antes de encaminhar os seus pedidos ao ministro Zavascki, por exemplo, o procurador-geral terá de esperar que ele homologue o teor das delações premiadas. Youssef fechou o seu depoimento apenas na última terça-feira - e foram mais de 100 horas de revelações a serem conferidas. Janot adotou também uma posição sensata diante dos pedidos para que fossem invalidados os atos do juiz federal do Paraná, Sergio Moro, relacionados com a Operação Lava Jato. Alegou-se que, tendo os delatores citado políticos, os autos deveriam ser remetidos de pronto ao Supremo. Janot esclareceu que as menções a eles não integram os processos em curso no Paraná.
Respeitada, evidentemente, a cadência dos ritos processuais, quanto antes puderem ser conhecidos os nomes desses políticos, melhor para todos. Sairão de cena os vazamentos das informações que teriam sido prestadas pelos delatores. O uso do condicional se justifica. O público, destinatário último dos repasses à imprensa, não tem como avaliar se a fonte anônima está jogando limpo quando sopra que o ex-diretor Gosta ou o doleiro Youssef apontaram tais ou quais mandatários como envolvidos no saque da Petrobrás; a motivação do vazador é obscura. O público tampouco pode avaliar se os citados têm de fato culpa em cartório - delação premiada não é prova objetiva nem necessariamente sinônimo de verdade.

O GLOBO Em Portugal, como na Inglaterra ou na Itália, roubos e falcatruas para favorecer um partido ou candidato não são atenuante, mas agravante - NELSON MOTTA


Em Lisboa, estou me sentindo como se estivesse no Brasil: o ex-primeiro-ministro socialista José Sócrates foi preso no aeroporto, chegando de Paris, pilhado com pelo menos 20 milhões de euros de negociatas depositados num banco suíço. Nunca na história desse país, ó pá. E logo um socialista, que sempre se alardeou homem de vida e posses modestas, lutando pelos pobres e oprimidos.
Depois de deixar o poder, com o governo socialista derrubado pela crise econômica que quebrou Portugal, Sócrates estava estudando Filosofia em Paris e morando num belo apartamento de milhões de euros, aparentemente alugado, mas na verdade de um testa de ferro, também preso, além do seu motorista Pedro Perna, que levava o dinheiro vivo para Paris periodicamente. Ah, os motoristas e secretárias, o que seria dos corruptos sem eles?
A diferença é que aqui ninguém alega que era para o partido, a causa popular ou a luta política. Nem levanta punhos. Em Portugal, como na Inglaterra ou na Itália, roubos e falcatruas para favorecer um partido ou candidato não são atenuante, mas agravante, porque o objetivo é fraudar o processo eleitoral e a vontade popular, um crime que não atinge só uma pessoa física ou jurídica, mas toda a sociedade e a democracia.
Falando em Itália, quem acompanhou de perto a devastação provocada pela Operação Mãos Limpas, que investigou 872 empresários, 1.978 administradores e 438 parlamentares, entre eles quatro ex-primeiros-ministros, e levou centenas à prisão, não tem dúvidas: com o fim dos partidos tradicionais, mas sem uma reforma política, criou-se o vácuo em que apareceu Berlusconi, que ficou 20 anos no poder. E deixou a Itália pior do que antes da Mãos Limpas, com a segunda geração de partidos mais suja e execrada do que a primeira.
A elite das elites de que Lula tanto fala caiu no arrastão da Lava-Jato, com amigos e companheiros empresários, administradores, partidos e políticos unidos para saquear a Petrobras. Espera-se que todos sejam condenados e punidos, mas depois do vendaval é que mora o maior perigo: sem uma profunda reforma política, um Berlusconi tropical.

Demétrio Magnoli - A segunda morte de Zidan Saif


folha de s paulo

29/11/2014 02h00
O caixão de Zidan Saif desceu à sepultura, no povoado de Yanuh, dez dias atrás. Reuven Rivlin, presidente de Israel, participou da cerimônia, honrando a memória do policial como "um dos nobres filhos do Estado". Saif, que deixou a esposa e uma filha de quatro meses, foi o primeiro a entrar na sinagoga de Jerusalém atacada por terroristas palestinos. Alvejado por um tiro na cabeça, morreu horas depois. Ele não era judeu, mas druso, de uma minoria dentro da minoria árabe que perfaz cerca de um quinto dos cidadãos de Israel. Nos próximos dias, o Knesset (Parlamento israelense) deliberará sobre um projeto de lei que, se aprovado, representará a segunda morte do "nobre filho do Estado".
O projeto enviado pelo governo define Israel como o "Estado-Nação do povo judeu". Israel é o Estado Judeu, dos pontos de vista histórico e demográfico. Contudo, do ponto de vista jurídico, Israel assenta-se sobre o princípio da igualdade de direitos políticos, sociais, religiosos e culturais de todos os cidadãos, judeus ou não. A proposta, patrocinada pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, almeja alinhar a lei à história, removendo os alicerces da igualdade de direitos. No meio de um texto aparentemente inofensivo, uma cláusula determina que, diante de sentenças legais dúbias, os tribunais devem usar a nova lei do Estado Judeu como "fonte de inspiração". Atrás disso, está uma antiga ambição maximalista da extrema-direita israelense: a limpeza étnica.
"Os pais fundadores de Israel vislumbraram um Estado cujas naturezas judaica e democrática seriam como uma só", disse Rivlin, criticando o projeto de lei. A harmonia sugerida por Rivlin é, de fato, um delicado equilíbrio assimétrico: na Declaração de Independência que funciona como Constituição de Israel, o polo democrático pesa mais que o judaico. A lei do Estado Judeu pretende deslocar o equilíbrio para o polo oposto, reduzindo a igualdade de direitos ao estatuto de contingência. Nunca antes um governo ousara desafiar a linha vermelha.
O sinal de alerta soou no interior do próprio gabinete de governo. Tzipi Livni, ministra da Justiça, disse que o projeto "joga no lixo a Declaração de Independência". Yaakov Peri, ministro da Ciência, registrou que a lei do Estado Judeu o faz pensar "nos países que adotam a lei da Sharia". Romper a linha vermelha significa abrir as comportas jurídicas para a inundação da democracia israelense. No fluxo de água suja, já flutuam um projeto de lei de revogação de mandatos de parlamentares retoricamente solidários à luta armada contra Israel e um de evisceração da cidadania de acusados de terrorismo, que abrange os familiares do acusado e suspeitos de colaboração com o crime. No fundo, Netanyahu tenta traçar uma fronteira dentro de Israel, separando os cidadãos com cidadania plena (judeus) dos cidadãos com cidadania precária (árabes).
É uma encruzilhada histórica, pois as raízes da legitimidade de Israel confundem-se com a Declaração de Independência. O antissemitismo contemporâneo, que se apresenta revestido com a película do antissionismo, acusa Israel de ser um "Estado de apartheid". A negação permanente dos direitos nacionais dos palestinos configuraria um "apartheid" –mas esse risco ainda pode ser evitado por meio da conclusão de um acordo de paz que divida a Terra Santa em dois Estados. Por outro lado, a destruição do princípio da igualdade de direitos entre os cidadãos israelenses representaria uma mancha indelével: a refundação de Israel como Estado étnico e religioso.
Paradoxalmente, a legitimidade do Estado Judeu repousa sobre a presença da minoria de cidadãos árabes. O ministro da Fazenda, Yair Lapid, entendeu isso, ao formular a pergunta certa: "O que diremos agora à família de Zidan Saif? Que aprovamos uma lei que os converte em cidadãos de segunda classe?".

sábado, 29 de novembro de 2014

A democracia na América - POR RODRIGO CONSTANTINO


Tocqueville
“Democracia e socialismo não têm nada em comum além de uma palavra: igualdade; Mas note a diferença: enquanto a democracia procura a igualdade na liberdade, o socialismo procura igualdade na restrição e servidão.” (Alexis de Tocqueville)
Alexis de Tocqueville escreveu seu clássico Democracia na América buscando contribuir para a preservação da liberdade na França, durante a conturbada transição da aristocracia para a democracia. Apesar do tempo transcorrido, o livro continua atual e válido em vários aspectos. Tocqueville reconhece a importância do caráter nacional americano para a liberdade existente no país, e dá crédito aos religiosos puritanos pela moldagem desse caráter. Ele nasceu em 1805 em Paris, numa família aristocrática que foi vítima da Revolução Francesa. Viajou para os Estados Unidos em busca de um escrutínio cuidadoso de todos os elementos da vida americana. O que ele constatou lhe marcou profundamente, e rendeu o excelente clássico.
Entre as observações que fez sobre o país, consta a extraordinária força das associações voluntárias no dia a dia da vida americana, como uma força social muito mais potente e extensiva que o Estado. Se os franceses se voltavam para o Estado, e os ingleses para a aristocracia, os americanos formavam livres associações uns com os outros quando precisavam ou demandavam alguma coisa. Assim praticavam o autogoverno. Não dependiam do governo, mas se organizavam para alcançar os próprios objetivos. Ele concluiu que a lei da associação é a primeira lei da democracia.
Ele disse: “Entre as leis que governam as sociedades humanas, há uma que parece ser mais precisa e clara do que todas as outras. Se os homens devem continuar a civilizar-se ou tornar-se civilizados, a arte de associação deve crescer e melhorar, na mesma proporção em que aumentam as condições de igualdade”. Muitos países subdesenvolvidos apresentam instabilidade política justamente por conta desse problema: a igualdade na participação política cresce muito mais rápido do que essa “arte de associação”. Tocqueville foi enfático: “A ciência da associação é a mãe da ciência; o progresso de todo o resto depende do progresso que ela realiza”.
Os americanos imaginam, segundo observou Tocqueville, que está em seu próprio interesse fazer contribuições para o bem-estar comum e o bem público. O futuro deles e de seus próprios filhos se beneficia disso. O bem público está assim associado ao próprio interesse de cada um. Não é preciso falar em altruísmo, pois a própria busca da satisfação dos interesses particulares já leva um povo mais avançado culturalmente a cuidar dos bens comuns.
O americano sente que a coisa pública é sua também, é de todos. Disso deriva a defesa de uma igualdade perante a lei. Isso diverge da postura patrimonialista predominante no mundo latino por tantos anos, onde o Estado é visto como um bem privado a ser conquistado para a Grande Família à custa do restante. Enquanto um americano gritaria para alguém tentando furar fila: “quem você pensa que é?”, dando ênfase à igualdade das leis, um brasileiro provavelmente gritaria de volta, caso fosse criticado por furar fila: “você sabe com quem está falando?”, ressaltando o peso do privilégio.
A importância que o católico Tocqueville deu ao fator religioso, especialmente o protestante, no sucesso relativo dos Estados Unidos, foi enorme. Conforme resume Michael Novak em seu The Universal Hunger for Liberty, seriam basicamente cinco aspectos mundanos da utilidade religiosa: restrição aos vícios e ganhos na paz social; idéias fixas, estáveis e gerais sobre as dinâmicas da vida; o foco na questão de igualdade perante a lei; uma nova concepção de moralidade como uma relação pessoal com Deus, e, portanto, um motivo para agir de forma correta mesmo quando ninguém está observando; e, através da elevada honra dedicada ao laço do matrimônio, uma regulação tranqüila das regras no casamento e em casa. Uma rede de confiança inspirada pela fidelidade, alimentada dentro do lar familiar e criando filhos felizes, aumentaria as chances de sucesso de um governo republicano.
Esta visão de cunho religioso se aproxima mais daquilo que os conservadores costumam defender, não necessariamente alinhado com o que os liberais pregam. Mas isso não impede que liberais reconheçam na instituição familiar um importante aliado na construção de uma sociedade de confiança, ainda que as bases para tanto não dependam necessariamente do aspecto religioso. O pensador mais famoso em fazer esta ligação causal entre religião e sucesso capitalista foi o sociólogo Max Weber, ressaltando a importância da ética protestante, particularmente a calvinista, no espírito do capitalismo. A predestinação e a conseqüente interpretação do êxito material como prova da graça divina seriam estimulantes poderosos.
Na obra de Tocqueville a escravidão é duramente criticada. Para ele, ela desonra o trabalho, introduz ociosidade na sociedade, ignorância e orgulho, pobreza e luxúria. A distinção entre o sul e o norte dos Estados Unidos poderia ser explicada, em parte, pela influência da escravidão no sul. As bases da teoria social americana estariam presentes, segundo Tocqueville, no norte do país, cujos primeiros imigrantes pertenciam a classes prósperas no país de origem. Praticamente todos tinham recebido educação avançada, e esses imigrantes teriam levado junto boa dose de ordem e moralidade.
Mas, acima de tudo, o espírito de empreendedorismo era a marca registrada deles, em contraste com os demais imigrantes. Não haviam abandonado o país de origem por necessidade ou à força, e deixaram para trás posições sociais invejáveis. Estavam em busca de satisfação intelectual, do triunfo de uma idéia, da liberdade. Não aceitavam a perseguição religiosa da terra natal de forma alguma. Este berço faria toda a diferença depois, na fase adulta da nação.
“Eu penso que não existe um país no mundo onde, em proporção a população, existe tão poucas pessoas ignorantes como na América”, escreveu Tocqueville. A educação primária estava ao alcance de todos. A maioria dos ricos começou como pobres lá, prosperando por conta própria. Era a terra das oportunidades. Na juventude, eram homens ocupados com o trabalho, portanto. Enquanto tinham gosto para os estudos mais profundos, não tinham tempo, e quando conseguissem o tempo, teriam perdido o gosto. Na América, certo nível comum de conhecimento foi estabelecido, o qual todas as mentes alcançavam.
Em outras palavras, surgia uma enorme classe média. O elemento aristocrático, por outro lado, sempre fraco desde o começo, foi praticamente destruído, sem ter praticamente influência alguma no curso dos acontecimentos. Entende-se então um dos motivos pelos quais alguns europeus, especialmente franceses, alimentaram ressentimento pelo país. Insistem que se trata de um povo de “bárbaros”, pois no fundo não suportam a idéia de que o título hereditário de nobreza não vale mais nada lá. Ainda hoje é possível verificar resquícios disso, pela animosidade que gera o fato de o homem mais rico do mundo ser apenas certo Bill, que abandonou a universidade para empreender.
Com todas as suas imperfeições – muitas inclusive agravadas desde então, o fato é que a construção dos Estados Unidos tem muito a ensinar para o mundo. Analisar as raízes do sucesso americano, observando o que pode ser replicável mundo afora, separando as idiossincrasias dos valores universais, é trabalho que agrega muito valor na busca da liberdade e do progresso. Alexis de Tocqueville deu um pontapé inicial nesse esforço. O resultado foi um excelente estudo que ainda serve como base para muitas conclusões importantes. Entre elas, destaca-se a livre associação entre indivíduos, independente do mecanismo estatal.
Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

Com Dilma, país passou a celebrar mediocridade - POR RODRIGO CONSTANTINO


Eis a grande “contribuição” de Dilma ao Brasil até agora: não criou a nossa mediocridade, mas com ela, o país passou a celebrar resultados medíocres! Isso mesmo: a atividade econômica “cresceu” 0,1%, tirando oficialmente o país do quadro de recessão técnica (dois trimestres consecutivos de queda), e isso passa a ser visto como um alento. Ufa, crescemos 0,1%!!!
Penso no filme “Entrando numa fria maior ainda”, em que o personagem de Robert De Niro, espantado ao ver que os pais de seu futuro genro guardavam todas as suas “conquistas” escolares, incluindo um sétimo lugar em alguma competição qualquer, atira: “Vocês celebram a mediocridade”. Sim, Jack Burns era o “vilão” da história, em um filme, afinal, “progressista”. Mas como negar a boa tirada?
É como vejo o Brasil de hoje, cada vez mais medíocre, e pior: achando a mediocridade cada vez mais aceitável. A jornalista Miriam Leitão, em sua coluna de hoje, disseca os dados do PIB e mostra como representam o esgotamento do modelo adotado pela presidente, assim como um final melancólico para o experimento da “nova matriz macroeconômica”:
Há magros, miúdos, motivos de ânimo nos dados da economia no terceiro trimestre. A feia palavra recessão saiu de cena, já que o PIB ficou em 0,1%. Indústria e investimento subiram um pouco. No geral, o quadro é desolador. A taxa de poupança é a mais baixa em 14 anos. O consumo das família provou que o modelo de crescer incentivando o endividamento se esgotou.
Trocando em miúdos: o país parou no ano de 2014. Não é culpa do mundo. É resultado das escolhas da política econômica que persistiu no erro com uma insistência que não se curvava nem aos fatos da vida. O ministro Guido Mantega, que ainda está no exercício de suas funções, achou que o país cresceria pelo consumo das famílias estimulado pelo endividamento. Ontem mesmo ele repetiu que um dos problemas é a baixa concessão de crédito por parte do sistema financeiro. Mas a verdade é que as famílias tomaram empréstimos, comprometeram seus orçamentos e agora pagam as contas. Orçamento não é elástico e, felizmente, as famílias sabem.
[...]
A taxa acumulada de crescimento nos últimos quatro trimestres desacelerou de 1,4% para 0,7%. A expectativa do mercado é que chegue ao final do ano com um crescimento de apenas 0,2%. Ao mesmo tempo, a inflação ficará em torno de 6,4%.
A nova matriz macroeconômica falhou: derrubou o crescimento e alimentou a inflação. A comemoração do miúdo 0,1% é seu melancólico final.
Eis o triste resultado de Dilma + Mantega após quatro anos. E o mais espantoso: os eleitores (ou as urnas eletrônicas) escolheram mais quatro anos… disso! Quem assim o fez realmente não se importa com a mediocridade. Deve ostentar na parede do quarto, todo feliz, aquele décimo lugar na corrida da escola, quando doze participavam da disputa.
Em sua coluna na Veja desta semana, J.R. Guzzo afirma que só trocando a própria Dilma o Brasil poderia melhorar de verdade, e diz, da forma mais cordial possível, que a limitação cognitiva de nossa presidente está por trás dos resultados lamentáveis:
Guzzo
Insatisfeitos ficamos todos nós, que esperamos mais do Brasil, que sabemos de seu potencial, que temos plena convicção de que perdemos inúmeras oportunidades incríveis que não voltarão mais. Nossa economia poderia estar crescendo, facilmente, uns 5% ao ano. Não está crescendo nada! Nossa inflação poderia estar, tranquilamente, na meta de 4,5% ao ano. Está acima de 6,5%, e há anos nesse patamar.
É muita mediocridade mesmo. E uma mediocridade que assusta ainda mais quando começa a ser enaltecida…
Rodrigo Constantino

Os anjos do Inferno. Coluna Carlos Brickmann



A presidente Dilma é uma pessoa de sorte: quem enfrenta uma oposição tão bem-comportada, tão almofadinha, tão preocupada em não amassar a gravata, tem de agradecer aos céus. Mas nem tudo é perfeito: a oposição pode ser fofinha, mas é preciso tomar muito cuidado com alguns aliados. Se um deles lhe oferecer um cafezinho, Dilma demonstrará sabedoria se exigir que alguém o prove antes. 

E quais são esses aliados tão perigosos? Pois este é outro problema: como diferenciar quem quer abraçá-la de quem apenas pretende plantar-lhe um punhal nas costas? Como os demônios, são dissimulados; como os demônios, são legião.

Não culpe o PMDB, caro leitor. O PMDB é transparente, todos sabem o que quer. Mas que é que Gilberto Carvalho, fiel entre os fiéis, ministro de Dilma, pretendia ao atacá-la? E Marta Suplicy, também ministra, que saiu atirando? E aqueles petistas radicais que assinam manifestos contra os ministros que Dilma escolheu? Não vamos fingir que estejam indignados com Joaquim Levy. Quem aceitou Sarney, Collor e Maluf, quem conviveu no Governo com Sarney Filho, César Borges, Guilherme Afif, já tem o couro curtido. Se o coronel Brilhante Ustra fosse ministro dos Direitos Humanos, aceitariam numa boa. E explicariam.

O PT rachou entre Dilma e os outros. Quem são os outros? Quem é seu chefe?

Começo com cara de fim

Dilma inicia novo Governo, tem mais quatro anos, deveria estar no auge da força política. Mas está difícil aprovar o jeitinho fiscal, o truque para driblar o superávit obrigatório que seu Governo transformou em déficit. Tomou uma surra e não conseguiu número para votar. O tamanho da divisão: dos 71 deputados do PMDB apareceram 28 na votação. Tenta de novo na terça - em cima da hora.

Um segredo especial

Há quem ataque Dilma por ter falado mal de banqueiros durante a campanha e recrutado um diretor de banco para seu Ministério. Poucos percebem, mas a presidenta é hábil e inteligenta: como inimiga dos banqueiros, tirou de um grande banco um de seus quadros mais importantes, reduzindo assim o poder da instituição financeira. 

Fez o mesmo com os ruralistas, esse pessoal horroroso que insiste em produzir alimentos e em garantir boa parte das exportações brasileiras: tomou-lhes sua principal líder, Kátia Abreu. 

Isso é agir intelectualmenta!

O corte de despesas

A nova equipe econômica da presidente Dilma, que começa a trabalhar algum dia desses, quando o ministro Mantega, demitido por antecipação, decidir voltar para casa, promete amplos cortes nas despesas. Pois é. O aumento de 26% que deputados e senadores decidem para si mesmos inicia os cortes negativos nas despesas. O aumento dos ministros do Supremo - que se estende por todo o Judiciário e pelo Ministério Público - alcança R$ 1 bilhão. A Defensoria Pública da União deixa os quatro prédios que hoje ocupa, nos quais paga o total de R$ 700 mil mensais de aluguel, por uma nova sede, de R$ 2 milhões mensais - sem concorrência, claro. Ah, sim: no início do ano passado, a União cedeu à Defensoria dois terrenos para a construção da nova sede. Até hoje não há nem projeto. 

Façam seu jogo, senhores

Nesta semana, na quinta-feira, termina a licença de Sérgio Machado, presidente da Transpetro, de quem muito se fala no caso do Petrolão. Machado, ligadíssimo ao presidente do Senado, Renan Calheiros, já disse que vai voltar ao trabalho e reassumir seu posto. O próprio Renan vem trabalhando para sua saída - uma saída honrosa, mas ele deixaria o cargo. 

Qual sua aposta, caro leitor?

Os submissos

O espantoso aumento de IPTU que o prefeito Fernando Haddad tenta impor a São Paulo (26%! Quem teve aumento salarial desse porte?) contou com o voto favorável de 29 vereadores. A propósito: para que é que uma cidade precisa de tamanha quantidade de vereadores, exceto para gastar mais dinheiro inutilmente?

Aqui vai a lista dos nobres parlamentares que viraram as costas ao cidadão que os elegeu e viraram as costas para os poderosos que têm nas mãos o poder de nomear, de oferecer cargos (e a vontade insopitável de gastar dinheiro em tinta). Os vereadores que desprezaram seus eleitores e tentam impor-lhes um brutal aumento de impostos - que só não será realizado se a Fiesp conseguir derrubá-lo no Supremo Tribunal Federal - estão em ordem alfabética, na nota seguinte.

Não vote neles! 

Alessandro Guedes, PT; Alfredinho, PT; Ary Friedenbach, PROS; Arselino Tatto, PT; Atílio Francisco, PRB; Calvo, PMDB: Conte Lopes, PTB: Jooji Hato, PMDB; Jair Tatto, PT; Jean Madeira, PRB; José Américo, PT: Juliana Cardoso, PT; Laércio Benko, PHS (e esse queria ser prefeito!); Marquito, PTB; Milton Leite, DEM; Nabil Bonduki, PT; Nelo Rodolfo, PMDB; Noemi Nonato, PROS; Orlando Silva, PCdoB (aquele que comprou tapioca com o cartão corporativo do Governo, lembra?); Paulo Fiorillo, PT; Paulo Frange, PTB; Pastor Edemilson Chaves, PP; Reis, PT; Ricardo Nunes, PMDB; Ricardo Teixeira, PV; Senival Moura, PT; Souza Santos, PSD; Vavá, PT; Wadih Mutran, PP.

A lista, com fotos, vai também para o Facebook. 

PT aplaude acusado de corrupção - O GLOBO


• Vaccari diz não ter feito nada de errado, e não ter nada a temer, durante congresso do PT

• Durante reunião, petistas prestaram solidariedade ao tesoureiro do partido

Simone Iglesias e Thays Lavor - O Globo

FORTALEZA - Um dos alvos da Operação Lava-Jato, que investiga desvios bilionários na Petrobras, o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, foi blindado pelo partido e ovacionado pelos integrantes do Diretório Nacional, nesta sexta-feira, durante reunião em Fortaleza. O desagravo e as palmas, puxadas pelo presidente do PT, Rui Falcão, aconteceram no encontro que, mais tarde, teve a participação da presidente Dilma Rousseff.

Ao falar sobre as finanças do PT, em encontro fechado em um hotel de Fortaleza, Vaccari se disse injustiçado e aproveitou para se defender das acusações de que seria um dos beneficiários do esquema de recebimento de propinas da Petrobras e de empreiteiras que mantêm negócios com a estatal.

O tesoureiro afirmou aos integrantes do Diretório Nacional: “Nunca fiz nada de errado”. Vaccari disse não ter “nada a temer” e alegou que vem sendo alvo sistemático de “injustiças”. Ele explicou aos petistas que seus sigilos bancário, fiscal e telefônico estão abertos desde 2000 e que nunca ninguém encontrou nada que o desabonasse.

Sobre as ligações telefônicas captadas pela Polícia Federal com integrantes da direção da Petrobras, Vaccari justificou que foram para marcar encontros, e que, por conta dessas suspeitas de denúncias, tem passado por constrangimentos familiares. Vaccari garantiu aos petistas que sempre participou de encontros com representantes de empresas para captar de forma legal recursos para o partido.

— Tudo o que foi arrecadado foi contabilizado. Eu sei o que fiz — assegurou aos correligionários.

Após suas declarações, os petistas prestaram total apoio ao tesoureiro, aplaudindo-o por vários minutos, liderados pelo presidente do PT, Rui Falcão, segundo relatos de dirigentes presentes à reunião, fechada à imprensa. Falcão também fez elogios a Vaccari.

O mesmo tipo de reação entre os petistas ocorreu na época do mensalão, que atingiu em cheio o então chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu. Após as denúncias e a condenação pelo Supremo Tribunal Federal, Dirceu foi tratado como “preso político” pelo partido, e a cada evento partidário a que comparecia era recepcionado pelos correligionários com gritos de “Dirceu, guerreiro do povo brasileiro”.

Avesso a entrevistas e figura que pouco circula perto de jornalistas, Vaccari foi abordado pelo GLOBO ontem, após almoçar no restaurante do hotel onde se realizava o evento. Ao ser questionado sobre a Operação Lava-Jato e se estava confortável na posição de dirigente do partido apesar das suspeitas, respondeu, irritado:

— Não falo nem nas situações boas, nem nas situações ruins. Por que você insiste em fazer perguntas se sabe que eu não vou responder? — disse, enquanto aguardava o elevador para voltar à reunião.

Vaccari afirmou que ao longo de toda sua vida no PT deu apenas duas entrevistas e que não estava disposto, agora, a dar uma terceira.

O tesoureiro decidiu falar na reunião fechada sobre a sua situação quando os petistas definiam o número de participantes de um congresso nacional que ocorrerá no ano que vem. A dúvida é se seriam chamados 800 ou 1.600 petistas. Ele explicou que, por dificuldades financeiras, seria melhor reduzir o tamanho do congresso. Foi então que resolveu se defender das denúncias.

Apesar do apoio a Vaccari, não houve referência à condução da Polícia Federal na Operação Lava-Jato. Mas, nas conversas, haveria a desconfiança de que a PF estaria querendo colocar o PT como alvo das investigações.
— Houve 13 falas, e ninguém explicitou isso. Se há críticas à PF, são clandestinas. Deve ser aprovada uma resolução à parte sobre a Petrobras, mas no sentido de que o PT não concorda com o que fizeram lá, com os desvios, e que tem mesmo que apurar tudo — disse o ex-líder do PT na Câmara José Guimarães (CE).

Além da situação de Vaccari, o PT discutiu documentos que irão definir os rumos de suas ações. O principal ponto é se reaproximar dos movimentos sociais e de tornar o partido mais transparente, além de superar os problemas de corrupção enfrentados nos últimos anos

"De mau jeito", por Dora Kramer - O Estado de São Paulo


A presidente Dilma Rousseff viu no que deu querer ser também ministra da Fazenda. Não é certeza, mas talvez tenha percebido que achar que entende de tudo faz mal ao andamento geral dos trabalhos. Quem sabe era a isso que ela se referia no discurso após a vitória quando prometeu ser uma pessoa melhor. É de se conferir.
Há um fato, porém, que não necessita de confirmação: a presidente não sabe absolutamente nada de política na acepção ampla do termo. Passa longe da compreensão dela o significado de certos atos, não faz uso de tipo algum de sutileza - ingrediente indispensável ao exercício do poder -, parece não se importar com os efeitos que suas atitudes causam em seus subordinados (presentes e futuros) e age da maneira como fala: toda atrapalhada.
Contrariada, escolheu a pessoa certa para a Fazenda. Supõe-se que tenha assegurado autonomia a Joaquim Levy que, de outro modo, não teria aceitado a missão. Ainda mais nessa inusitada situação em que temos dois ministros: um demitido, sentado no ministério; outro nomeado, despachando no Palácio do Planalto.
Isso sem falar no processo "indecisório". Escolhido, tudo pronto para a divulgação oficial, sala arrumada no Palácio, ato adiado sem explicação. Em seguida, a assessoria fez o que a presidente mandou fazer: diz a jornalistas que ela ficou muito irritada com o "vazamento" dos nomes escolhidos para compor a equipe econômica. Como assim, vazamento? Eram os funcionários do governo que preparavam, pouco abaixo do gabinete presidencial, a sala onde seria feito o anúncio oficial.
Posse anunciada para amanhã e depois adiada sabe-se lá para quando porque tampouco se sabe mais quando será aprovada uma votação que é vitória de fava contada. Ou pelo menos era até a base aliada resolver fazer jogo duro para aprovar a extinção da meta de superávit primário para 2014. De onde decorre outra trapalhada da presidente.
Ela não sabe como funciona o Congresso, não conhece as pessoas e parece não estar preocupada em montar a melhor equipe para fazer essa interlocução. Resultado: vácuo. Espaço em que ficaram parados os presumidos ministros Kátia Abreu e Armando Monteiro.
Houve reclamações do PMDB porque a presidente não se "lembrou" (e pelo jeito o ex-senador e o ex-deputado, ambos do PT, que a assessoram de perto também não) de avisar ao partido do vice-presidente que escolhera uma correligionária para ministra da Agricultura.
O jeito foi fazer um novo remendo. Deixar o anúncio oficial de Kátia para depois, junto com outros nomeados, a fim de "parecer" que a indicação foi do PMDB do Senado. Esse grau de improvisação e desorganização é algo inédito e altamente arriscado para o governo, que fica desguarnecido na área política. Consta que a presidente não se importa com o que pensam os demais dos mortais.
Mas então que interprete por si mesma os sinais: a oposição se fortaleceu e a maioria governista é numérica, mas completamente descompromissada com a presidente. Em matéria de desdém - dela em relação aos parlamentares - hoje a base aliada não perde a oportunidade de mostrar que a recíproca é verdadeira.
Portanto, se a presidente Dilma continuar insistindo em fazer as coisas do "seu jeito", pode se preparar para colecionar muitas derrotas no Congresso.
Deserto de ideias. Pouco mais de uma semana depois de desligadas as urnas os institutos Data Popular e Ideia Inteligência fizeram uma pesquisa sobre as eleições. Um dos dados mostra que 81% dos brasileiros consideraram que nenhum dos candidatos apresentou propostas concretas para solucionar problemas do País.
Os mais velhos são os mais decepcionados: 88%. O estudo "Radar ideia popular" foi realizado entre os dias 4 e 10 de novembro em 128 cidades do Brasil todo.

O PIB em miúdos - MIRIAM LEITÃO


Há magros, miúdos, motivos de ânimo nos dados da economia no terceiro trimestre. A feia palavra recessão saiu de cena, já que o PIB ficou em 0,1%. Indústria e investimento subiram um pouco. No geral, o quadro é desolador. A taxa de poupança é a mais baixa em 14 anos. O consumo das família provou que o modelo de crescer incentivando o endividamento se esgotou.
Trocando em miúdos: o país parou no ano de 2014. Não é culpa do mundo. É resultado das escolhas da política econômica que persistiu no erro com uma insistência que não se curvava nem aos fatos da vida. O ministro Guido Mantega, que ainda está no exercício de suas funções, achou que o país cresceria pelo consumo das famílias estimulado pelo endividamento. Ontem mesmo ele repetiu que um dos problemas é a baixa concessão de crédito por parte do sistema financeiro. Mas a verdade é que as famílias tomaram empréstimos, comprometeram seus orçamentos e agora pagam as contas. Orçamento não é elástico e, felizmente, as famílias sabem.
Em tempos de mudança de lógica no Ministério da Fazenda, o magro 0,1% positivo se soma ao novo ânimo de que se possa encontrar, em algum momento, a saída para a estagnação. Pelo menos daqui para diante haverá ministros falando algo que faça sentido em Brasília. A definição da consultoria Rosenberg Associados para o número de ontem foi: “parou de piorar, mas também não melhorou muito.”
O investimento cresceu depois de quatro trimestres seguidos de queda. Mas o recuo acumulado nesse período foi de 11,1%, enquanto a alta foi de apenas 1,3%. Nem de longe recupera as perdas. A taxa de investimento como proporção do PIB caiu para 17,4%, o número mais baixo desde 2007, e muito distante da meta estipulada pelo próprio governo, de subir acima de 20% do PIB.
A taxa de poupança, por sua vez, caiu para 14% do PIB, o número mais baixo para um terceiro trimestre desde o ano 2000. O déficit em conta-corrente na ordem de 4% do PIB — sinônimo de poupança externa — mostra que esse é um dos principais gargalos da economia brasileira atualmente. Somando as duas poupanças (interna e externa) chega-se a um número de 18% do PIB para financiar os investimentos. Muito baixo.
Por isso, a sinalização do novo ministro da Fazenda Joaquim Levy de aumentar o superávit primário é positiva e ajuda a melhorar as expectativas. O primário, além de combater a inflação e controlar a dívida pública, também fortalece a taxa de poupança. Ao invés de o governo gastar com custeio e pessoal, como vem acontecendo nos últimos anos, ele poupará recursos para investir.
É verdade que isso pode deixar a economia mais fraca em um primeiro momento, e esse é um dos motivos pelos quais as previsões para o PIB de 2015 estão baixas, em torno de 1%. Mas ter metas fiscais que se possa acreditar ajudará a mudança das expectativas.
O consumo das famílias recuou pelo segundo trimestre consecutivo, algo que não acontecia há 11 anos. A inflação e o endividamento limitam o orçamento doméstico. A subida dos juros para conter a inflação piora esse quadro num primeiro momento, mas deixar a inflação nesse patamar seria insensato. O IPCA terá que ceder, para depois o ritmo de crescimento voltar a ficar mais forte.
A taxa acumulada de crescimento nos últimos quatro trimestres desacelerou de 1,4% para 0,7%. A expectativa do mercado é que chegue ao final do ano com um crescimento de apenas 0,2%. Ao mesmo tempo, a inflação ficará em torno de 6,4%.
A nova matriz macroeconômica falhou: derrubou o crescimento e alimentou a inflação. A comemoração do miúdo 0,1% é seu melancólico final.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Economist: escolha de ministros mostra que Dilma admite erros do 1º mandato - VEJA.COM


Revista britânica, que defendia a mudança de governo, diz que indicação de novo time econômico é bom sinal, mas alerta que Dilma terá de dar autonomia a ministros

Apresentação de novo time econômico é positiva para o Brasil, mas expõe fraqueza de Dilma, diz Economist
Apresentação de novo time econômico é positiva para o Brasil, mas expõe fraqueza de Dilma, diz Economist(Evaristo SA/AFP)
A apresentação da nova equipe econômica de Dilma Rousseff (PT) é positiva para o Brasil e indica que a presidente pode ter reconhecido os erros cometidos na área econômica. A afirmação é da revista britânica The Economist na edição desta semana.
A revista relembra que a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda ocorreu em meio a um cenário de deterioração fiscal, em que a presidente se viu obrigada a convocar o 'número 2' do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula. Na época, os dois empreenderam um dos maiores ajustes fiscais já realizados no país. 
Conforme a Economist, a primeira missão da nova equipe é "restaurar a credibilidade da política econômica". Isso significa reafirmar o compromisso do Brasil com o tripé macroeconômico: metas fiscal e de inflação e câmbio flutuante. Outra tarefa importante, segundo a revista, é promover um aperto no orçamento. Para minimizar o impacto desta medida sobre o emprego, Nelson Barbosa, futuro ministro do Planejamento, disse que isso deve acontecer de forma gradual e com o foco em um "implacável aumento nos gastos com programas sociais".
Ainda que a equipe econômica seja qualificada, a revista alerta que é importante que ela tenha autonomia para fazer o seu trabalho sem a interferência de Dilma. Esta foi uma de suas principais marcas durante o primeiro mandato. Além disso, a presidente deve enfrentar resistência por parte de aliados para colocar em prática as mudanças necessárias."Ela também terá de defender um plano econômico que será impopular no curto prazo, especialmente dentro de seu próprio partido", reforça. Para a Economist, a estratégia atual da presidente é parecida com a de seu adversário derrotado nas eleições, Aécio Neves. 
Por fim, a revista reforça que há uma "nuvem ainda mais negra" no horizonte do país, citando as denúncias envolvendo desvios bilionários em contratos da Petrobras, cuja investigação é conduzida pela Operação Lava Jato. 

A conspiração - Carlos Alberto Sardenberg


Quer dizer, então, que não tem nada de mais ganhar uma eleição pela esquerda e governar pela direita? Pois é assim mesmo, não tem problema, andam dizendo por aí: Lula não fez isso no seu primeiro mandato? E não é que deu certo?
Deu mesmo. E com um personagem — Joaquim Levy, secretário do Tesouro de 2003 a 2006, campeão brasileiro de ajuste nas contas públicas — que está sendo chamado de volta para repetir a façanha. E promovido a ministro da Fazenda do segundo governo Dilma.
O serviço é mais difícil hoje. Começa que a presidente Dilma tem visão bem diferente em política econômica. Lula, no campo das ideias, é um pragmático. Funcionou, tudo bem. Já Dilma, economista formada, tem convicções firmes. E, falando francamente, opostas às de Levy, também ele muito seguro de suas convicções mais ortodoxas. Nas funções públicas (Fazenda, Planejamento, secretaria da Fazenda do Rio) sempre foi muito rigoroso na aplicação de seus pontos de vista.
Assim, a nomeação de Levy para comandar a economia só faz sentido se ele tiver total autonomia para aplicar seu receituário, cuja peça central é a busca do equilíbrio das contas públicas, com a redução do endividamento público. Ele já disse que o governo brasileiro deveria buscar a nota A das agências de classificação de risco — o que significa reduzir o déficit público nominal, a inflação e a taxa real de juros.
Sobre inflação, Levy declarou numa entrevista ao "Valor": "Inflação de 6% a 6,5%, todo mundo concorda, é muito alta." Nem todo mundo: a presidente Dilma diz sempre que a inflação está controlada e dentro da meta. Para ela, a meta está nos 6,5% atuais e que constituem o teto da margem de tolerância. Já Levy acha que a meta é 4,5%, que o BC deveria buscá-la com mais firmeza e, no futuro, reduzi-la para algo como 3 a 3,5%.
Se fosse para fazer mais do mesmo, Dilma não precisaria de Levy. E este, claro, não toparia a parada.
Logo, ao contrário do que diz formalmente, a presidente se convenceu ou foi convencida ou forçada a aceitar que a tal nova matriz econômica é um fracasso.
Mas tem também uma teoria conspiratória: os próximos dois anos serão difíceis. Poderão ser mais ou menos difíceis, conforme a política aplicada, mas não há como escapar de um aumento na taxa de desemprego, de juros mais altos, contenção de gastos públicos, desvalorização do real, inflação ainda alta. Mantida a política Dilma/Mantega do primeiro mandato, essas coisas aconteceriam na fatalidade, "à selvagem", descontroladas. Portanto, um ajuste na marra, mais doloroso e mais longo.
Com Levy, se ele puder fazer sua política, o ajuste será organizado, controlado e, mais importante, com expectativas muito positivas. O mercado, os consumidores, os contribuintes, os investidores, todo mundo gosta de coisas claras e previstas. Como diz Levy, a meta para o equilíbrio das contas públicas pode ser qualquer uma, desde que seja bem simplesinha. Se precisar ficar explicando muito, não cola.
Ora, é exatamente o contrário que está fazendo o governo Dilma nos estertores do primeiro mandato. A meta de superávit primário era de R$ 116 bilhões, foi corrigida para R$ 80 bilhões, depois abatida para R$ 49 bilhões — e agora a base governista tenta aprovar no Congresso um projeto que elimina qualquer meta.
Por isso, aliás, os futuros ministros da Fazenda, Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, serão anunciados nesta quinta, mas não tomarão posse. Em vez de assumir com a avacalhação da meta fiscal, vão começar propondo outra meta, provavelmente com um programa de médio prazo de ajuste das contas públicas.
E se Levy não for confirmado?
Aí será um desastre. Tirante a esquerda, incluindo essa ala do PT, e economistas alinhados com o pensamento original de Dilma, os meios econômicos receberam com verdadeira animação a indicação de Levy, "vazada" pelo próprio Palácio do Planalto. Se não for ele, os mercados desabam, a confiança de consumidores e de investidores vai ao chão.
Tudo considerado, ao menos na partida, Dilma-15 repete Lula-03. Ortodoxia na política econômica, incluindo a senadora Katia Abreu no Ministério da Agricultura, que repete o Roberto Rodrigues do primeiro mandato de Lula. Para a esquerda, vão os ministérios sociais.
A questão que fica para ver na prática é a seguinte: o ministro Levy terá tanta autonomia e tanta habilidade política para comandar o ajuste quanto as teve o então ministro Palocci em 2003?
Esse é o teste.
E qual seria, afinal, a conspiração? Dilma teria chamado os ortodoxos para fazer o serviço sujo. Concluído o ajuste, em uns dois anos, quando o país estivesse pronto para voltar a crescer, chamaria de volta os velhos amigos.
Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

CEGUEIRA IDEOLÓGICA NO MANIFESTO DE PETISTAS - EDITORIAL O GLOBO


O mundo visto pela ótica das ideologias pode ser o paraíso ou o inferno, a depender das convicções de quem o observa. Neste sentido, é esclarecedor o manifesto assinado por intelectuais e ativistas do PT contra a escolha do economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) para a Agricultura.
Levy — suprema heresia — é um diretor de banco, o Bradesco, aquele tipo de gente que, segundo a campanha eleitoral da reeleição da petista Dilma Rousseff, tiraria a comida da mesa das famílias brasileiras caso chegasse ao poder pelas mãos do oposicionista Aécio Neves. Já Kátia Abreu, algo não menos herético, surgiu na vida pública como ativa defensora do agronegócio, tão demonizado por petistas e aliados quanto o "capitalismo financeiro".
No caso da senadora, admita-se que o fato de o lulopetismo conviver há 12 anos, sem qualquer crise de consciência, com políticos que ilustram à perfeição teses acadêmicas sobre o coronelismo nordestino não deveria fazer com que o bom relacionamento que Dilma estabeleceu com a senadora, na fase final de seu primeiro mandato, melindrasse o partido. Signatários do manifesto parecem acometidos de um purismo tardio e fora de época.
Caso se confirmem as escolhas, esses militantes poderão se sentir traídos por Dilma. Mas terá de ser reconhecido que a presidente reeleita demonstrou admitir algo, de forma implícita, por sobre suas convicções ideológicas: que o Estado brasileiro ruma para a insolvência, devido ao fracasso da sua política do "novo marco macroeconômico".
E nesta caminhada para a ruína faz explodir a inflação, engessada acima da perigosa faixa do 6%, desequilibra as contas externas — este déficit se aproxima de ameaçadores 4% do PIB — e atola a economia na estagnação.
Daí a candidata, na campanha, ter evitado detalhar qualquer aspecto da política econômica do segundo mandato, sem avançar para além dos óbvios compromissos com a manutenção dos programas sociais — um mantra na política brasileira, da situação, óbvio, e também da oposição. Mas a candidata já devia saber que sem a economia crescer e com inflação alta e persistente não há avanço social que resista.
O manifesto falseia ao afirmar que possíveis nomeações de ministros "sinalizam uma regressão da agenda vitoriosa nas urnas".
Faltou atenção aos redatores do manifesto: se em nenhum momento a candidata Dilma disse dos palanques o que faria em termos de política econômica, também não foi enfática na defesa da manutenção dos rumos. Alardear que está a favor da manutenção de empregos e dos pobres é o mesmo que defender em praça pública a luz elétrica e a água encanada. Ninguém discorda. O problema é fazer com que não faltem nem luz nem água. E esta é responsabilidade direta da presidente, e não do PT e militantes.

'Sentimento de quase ilegitimidade' ronda a reeleição de Dilma, diz FHC


DO RIO
27/11/2014
FOLHA DE S PAULO
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirmou nesta quinta-feira (27) que um "sentimento de quase ilegitimidade" ronda a reeleição da presidente Dilma Rousseff.
"Vê-se neste momento a dificuldade que tem a presidente da República, recém eleita, quando devia ter toda força possível, mas tenho a impressão de que há um sentimento de ilegitimidade. Ganhou, é legal. Mas sem uma parte mais dinâmica do país e por outro lado com um sistema de apoios que não se expressa realmente no Congresso atual nem no futuro porque a forma de eleição não foi baseada propriamente num fator político ideológico", disse, durante uma exposição na ABL (Academia Brasileira de Letras).
Segundo FHC, a situação econômica do país tornou mais palpável o problema da governabilidade.
"Até agora foi possível empurrar com a barriga porque a situação não econômica não era tão aflitiva. Na medida em que ela se tornou mais difícil, esses problemas todos se agravam porque cada vez mais o congresso vai precisar apoiar as decisões do governo. Neste momento o executivo não encontra o apoio necessário do congresso porque as alianças foram feitas a partir de outros objetivos, outros critérios, então fica difícil avançar", afirmou.
Sua análise tocou não apenas o PT, mas todos os partidos, ao dizer que a maioria deles faz articulações políticas sem "conexão ideológica". Mas o ex-presidente criticou o governo atual ao citar a criação de novos ministérios "para contemplar a multiplicidade de partidos e criar uma chamada base".
O ex-presidente analisou a divisão de votos nas eleições não como uma polarização entre ricos e pobres mas sim entre estilos de relação com o governo.
"Me chamou a atenção a oposição ganhar no Acre e em Roraima. Lá existe agrobusiness. São áreas que começam a ser mais dinâmicas e menos dependentes das vinculações com o governo, com o Estado. Nas áreas dependentes do Estados, ricos e pobres votam de um jeito. Do mesmo jeito. Nas áreas independentes, ricos e pobres votam de outro jeito. Não se pode dizer que São Paulo, onde a oposição teve uma enorme dianteira, de 7 milhões de votos, foram os ricos que votaram. [Foi] todo mundo. O fator que mais explicaria essa continuidade dessa divisão (faz anos que é assim) é o estilo de relação entre a sociedade e o Estado do que a diferença de renda", declarou.
FHC demonstrou preocupação em relação à possibilidade do avanço de uma reforma política num cenário onde os três principais partidos, PT, PSDB e PMDB, não concordam sobre o modelo a seguir.
"Isso não quer dizer que seja impossível avançarmos. Mas se a situação social e econômica se agrava e a política é essa que estou dizendo, é possível que a saída seja a judicialização. Estamos assistindo neste momento processos complicados de corrupção, a justiça atuando, e isso afeta os partidos e os governos. Não é de estranhar-se que no Brasil a solução para esse imbróglio político não venha a partir do sistema político mas sim de decisões judiciais. Dada a situação política e o constrangimento que há para mudar essa situação, de repente pode ser que haja uma judicialização de decisões que venha afetar o próprio sistema político", disse o ex-presidente.
LEVY
No mesmo evento, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco elogiou, com tom irônico, a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.
"Podemos acusar o governo de muitas coisas, mas não de não ter inteligência política. O momento de fechar o cofre é o momento em que a presidente decide se afastar da área econômica e colocar alguém com mão fechada. É um movimento muito inteligente. Faço voto de que funcione", declarou.
Comparou o ato oficial desta quinta que confirmou Levy na Fazenda e Nelson Barbosa no Planejamento à "Carta aos Brasileiros", pronunciamento que Lula fez quando eleito sinalizando que a alternância no poder não traria riscos ao equilíbrio macroeconômico.
"A natureza desse evento talvez seja comparável à Carta aos Brasileiros de 2002 como um instrumento político que assinalou o aburguesamento do Partido dos Trabalhadores", afirmou.
Para ele, Levy é a pessoa certa para ajudar a sanar o que ele considera o maior problema da economia brasileira, a dívida pública excessiva.
"Não é difícil entender o fenômeno Joaquim Levy nesse contexto. A centralidade do tema [dívida] talvez explique porque o Joaquim é uma boa solução para o problema que temos diante de nós. O Brasil tem a maior relação dívida-PIB de países emergentes. Todos na média de 30% e olhe lá. É uma extravagância termos uma dívida tão grande (65%)", declarou.
O ex-ministro fez críticas ferozes ao governo em relação às investigações de corrupção na Petrobras, e lembrou acusações feitas sobre as privatizações que ocorreram no seu período de governo: "O capitalismo das privatizações foi feito através de leilões, através do TCU, tudo certinho, não houve nada comparável ao que vemos agora. O que estamos vendo agora é pirataria."

O Brasil decente achou muito boa a notícia que tirou o sono do parceiro de Rose - POR AUGUSTO NUNES


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“Neste país, as notícias ruins são manchetes e as boas saem pequenininhas”, vive resmungando Lula. Depende do olhar de quem lê ou da folha corrida de quem lê. Neste domingo, por exemplo, o site de VEJA informou que continua longe do desfecho judicial o escândalo descoberto em 23 de novembro de 2012 pelos policiais federais engajados na Operação Porto Seguro. A impunidade da quadrilha que forjava pareceres de órgãos federais para apressar a liberação de obras irregulares executadas por empresários malandros é uma notícia ruim para os brasileiros decentes. Mas muito boa para Lula.
Ele gostou de saber que, graças ao andar preguiçoso do caso na Justiça, tão cedo não se juntarão num banco dos réus os delinquentes de estimação que ampliaram consideravelmente o volume de negociatas depois do ingresso no bando de Rosemary Nóvoa de Noronha, a Rose. Entre 2004 e 2010, a mulher que costumava apresentar-se como “namorada do Lula” até a gente que acabara de conhecer acumulou o posto de segunda-dama da República Lulopetista com o cargo de chefe do  escritório da Presidência em São Paulo.
Deu-se o contrário em 13 de novembro, quando o site do Superior Tribunal de Justiça divulgou o que foi uma ótima notícia para gente honesta e péssima para Lula: “O STJ acolheu o pedido da Infoglobo e do jornalista Thiago Herdy Lana para terem acesso aos gastos efetuados com o cartão corporativo do governo federal utilizado por Rosemary Nóvoa de Noronha, com as discriminações de tipo, data, valor das transações e CNPJ/razão social”. Thiago Herdy só recorreu ao STF depois de buscar inutilmente essas informações na Secretaria de Comunicação Social da Presidência.
Em resposta à solicitação, o órgão limitou-se a liberar a planilha que registra, sem discriminá-los, os gastos efetuados por Rosemary Noronha entre 2003 e 2011. Para o ministro Napoleão Nunes Maia Filho, relator do caso no STJ, a esperteza da Secretaria de Comunicação Social configurou uma “violação ilegal do direito líquido e certo da empresa e do jornalista de terem acesso à informação de interesse coletivo”. Segundo Maia Filho, o pleno acesso aos extratos que detalham a gastança “é assegurado pela Constituição e regulamentado pela Lei  de Acesso à Informação”.
Além do valor de cada transação, logo se saberá onde, quando e para quê a mulher que se apresentava aos comparsas como “namorada do Lula” sacou da bolsa o cartão corporativo do governo federal que ganhou junto com o empregão no escritório presidencial. As esquivas do Planalto, o sumiço de Rose e o silêncio do parceiro fortalecem a suspeita de que é de bom tamanho o teor explosivo das informações ainda secretas. Todas, admita-se, são menos graves que as evocadas pelo Ministério Público para denunciar Rose por formação de quadrilha, corrupção passiva, tráfico de influência e falsidade ideológica.
Mas, contempladas por Lula, decerto parecerão mais constrangedoras e desmoralizantes. Conjugadas, vão confirmar que o caso Rose é o primeiro escândalo que o ex-presidente que nunca sabe de nada está impedido de terceirizar, ou enterrar na cova rasa onde jazem os muitos casos de polícia que o chefe debitou na conta dos chefiados. Não houve intermediários entre Luiz Inácio e Rosemary. Foi ele quem instalou a segunda-dama no comando do escritório presidencial que acabaria reduzido a sucursal de quadrilha. Foi ele quem fantasiou de mãe-da-pátria uma soberba nulidade.
Também foi ele quem ordenou a Dilma que mantivesse no cargo a vigarista de estimação. Foi ele quem presenteou a companheira com 23 viagens internacionais a bordo do Aerolula. Foi ele quem transformou delinquentes amigos da amiga em diretores de agências reguladoras. Foi ele quem confundiu interesses públicos com prazeres privados. Foi ele, enfim, o protagonista da chanchada pornopolítica que produziu, como constata o post reproduzido na seção Vale Reprise, pelo menos 40 perguntas à espera de respostas ou álibis que não há.
“Inexiste justificativa para manter em sigilo as informações solicitadas, pois não se evidencia que a publicidade de tais questões atente contra a segurança do presidente e vice-presidente da República ou de suas famílias”, liquidou a questão o relator Maia Filho. “A divulgação dessas informações seguramente contribui para evitar episódios lesivos e prejudicantes”. Pena que a decisão do STJ tenha sido confinada nos centímetros que sobraram nas editorias de Política & Polícia inundadas pelas bandalheiras do Petrolão. Para quem respeita a lei, foi uma ótima notícia. Merecia manchete.