terça-feira, 30 de julho de 2013

DORA KRAMER: 'COSTELA DE ADÃO'

terça-feira, julho 30, 2013


Costela de Adão - DORA KRAMER

O ESTADO DE S. PAULO - 30/07
A clareza na expressão de linguagem não é o forte da presidente Dilma Rousseff. Em suas declarações, verbos, substantivos, adjetivos e advérbios não primam pela harmonia. Nisso é parecida com o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, mas com sinal trocado.

Na dificuldade com o manejo das palavras, ele torna simplista o argumento, usa a "quase lógica" que dispensa a coerência, mas parece convincente aos ouvidos do senso comum. A precisa conceituação foi feita pela cientista política Luciana Veiga ainda nos primórdios do governo Lula sobre os espantosos discursos dele.

Já Dilma é tortuosa. Falta-lhe fluência mesmo nos pronunciamentos escritos. No improviso, não raro diz alguma coisa que parece significar outra. Esta, por sua vez, dá margem a uma terceira interpretação e o conjunto nem sempre forma um raciocínio claro.

É o caso da recente afirmação que mereceu destaque na entrevista à Folha de S. Paulo, edição de domingo último, sobre a hipótese de o antecessor disputar a eleição de 2014 no lugar dela.

Disse a presidente: "Eu e o Lula somos indissociáveis. Então esse tipo de coisa, entre nós, não gruda, não cola. Agora, falar volta Lula e tal... Eu acho que o Lula não vai voltar porque ele não foi. Ele não saiu".

Não saiu do governo? Não foi aonde? Haveria na declaração da presidente uma confissão de tutela ou terá ela querido apenas sair pela tangente no assunto reeleição que, com seu beneplácito, foi posto à mesa por Lula no início do ano alegadamente para conter o crescimento da palavra de ordem "volta" no PT e adjacências?

Diante da quantidade de sombras de dúvidas que permeiam a resposta, a conclusão ficou ao gosto de cada freguês. Segundo a oposição, Dilma deu sinal de fraqueza, reconheceu que governa teleguiada pelo antecessor. De acordo com a situação, a presidente quis dizer que a nação petista é firme e indissolúvel como uma rocha.

Aqui também cabe uma terceira avaliação sobre o significado das palavras da presidente. Ao repudiar qualquer possibilidade de separação entre orientador e orientada, Dilma praticamente anula a chance de armação de um plano B do PT para 2014 tendo como candidato o ex-presidente.

Se não foi essa a intenção da presidente ao dizer que os dois são "indissociáveis", deixou patente que Lula não poderá se apresentar em feitio de contraposição a ela, apresentada que foi ao País por ele como uma versão melhorada de sua imagem e semelhança.

Na mesma linha, o ex-presidente outro dia informou: "Dilma não é mais que uma extensão da gente lá". O eleitor haverá de concordar. Para o bem ou para o mal.

Sinuca. Quando mudou a regra de cálculo para o reajuste do salário mínimo a partir de 2012, o governo retirou do Congresso a prerrogativa de debater anualmente o assunto.

O argumento: a norma deveria ser permanente e, o aumento, estabelecido pela combinação do índice Nacional de Preços ao Consumidor com a taxa de crescimento da economia dos dois anos anteriores.

Na prática, agora, dois problemas: criou-se uma indexação, perigosa em tempos de inflação escapando da meta, e eliminou-se a possibilidade de divisão de responsabilidade com o Legislativo por reajuste reduzido em decorrência do PIB diminuto.

Emérito. Na celebração geral ao papa Francisco falta o reconhecimento ao antecessor Bento XVI por ter aberto espaço, com sua renúncia, para a pessoa certa no momento certo na condução da Igreja Católica.

Jorge Mario Bergoglio fala de humildade, simplicidade, reencontro da humanidade com valores da espiritualidade em contraposição aos excessos da materialidade. Joseph Ratzinger disse o mesmo com seu gesto de desprendimento.

COLUNA DE CLÁUDIO HUMBERTO


terça-feira, julho 30, 2013


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Acho que ainda há bolsões de intolerância muito fortes”
Ministro Joaquim Barbosa (STF), ao dizer que o Brasil não está preparado para um presidente negro


GOVERNO do PT EMPACA CARREIRA DE MÉDICOS HÁ 9 ANOS

Apontado nas pesquisas como o principal problema do Brasil, a saúde está longe de ser prioridade no governo PT. A presidente Dilma e seu antecessor Lula – que recebem tratamento vip no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo – travam, há nove anos, projeto que cria plano de carreira no Sistema Único de Saúde. A proposta foi elaborada por comissão especial criada, ainda em 2004, pelo Ministério da Saúde.


IGNORADA

Em 1990, a Lei nº 8.142 já determinava a elaboração do plano de carreira no SUS para garantir profissionais e verba aos municípios. 



REBELIÃO À VISTA

Membro de comissão especial da MP Mais Médicos, Osmar Terra (PMDB-RS) acredita que será “inevitável” aprovação do plano carreira.


DILMA RECUOU

O governo Dilma já admite voltar atrás na proposta que aumenta em dois anos o curso de Medicina, após enxurrada de críticas no país.


ABRINDO O COFRE

O governo prometeu proposta, até o dia 5 de agosto, para compra da Fazenda Buriti, símbolo da briga entre índios e produtores em MS.


BRASILEIRA TERÁ R$ 24 MI POR ACIDENTE EM LONDRES

A paranaense de Londrina Bárbara Oliva vai receber £ 7 milhões de indenização – cerca de R$ 24 milhões – após cair da moto, atropelada por um carro em Londres, no Reino Unido, em 2008.

O capacete não impediu severas lesões no cérebro, que dificultam a fala e os movimentos, diz a imprensa londrina. A mãe, sem falar inglês, impediu que desligassem os aparelhos no hospital, após meses em coma.


ANJO DA GUARDA

Vendo o desespero da mãe sem ajuda da Embaixada do Brasil, uma advogada inglesa bancou a UTI aérea para Edna e Bárbara voltarem.


VIDA REAL

Foi o primeiro caso na mais alta corte britânica de indenização para o resto da vida que inclui a inflação brasileira, disse advogada da família.


LIÇÃO DIVINA

Sem horário eleitoral gratuito, marqueteiro, distribuição de “santinhos” e faixas, o papa Franciso fez em Copacabana maior “comício” do Brasil.


ABRIU A GUARDA

O ministro Edison Lobão (Minas e Energia), 76 anos, desistiu de sair candidato ao governo Maranhão. Ele vai apoiar Luis Fernando Silva (PMDB), secretário de Infraestrutura e candidato de Roseana Sarney.


BALANÇA, MAS NÃO CAI

A União desapropriou terreno ao lado da Controladoria-Geral da União, em Brasília, após três anos chacoalhando com a construção de prédio, que exigiu reforço de pilares. A CGU jura que não será um anexo.


TEMPOS DE CRISE

Para Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), o recuo da presidente Dilma sobre aumentar o curso de Medicina só passará impressão ao povo de “voo cego do governo, que administra o país na base da tentativa e do erro”.


QUESTÃO DE NÚMEROS

A Infraero identificou a baixa produtividade e desmotivação de seus empregados como falta de comunicação interna. Para sanar problema, indicou o economista Renato Albuquerque, dos quadros da estatal, para assumir em setembro a Gerência de Comunicação em Brasília.


ALÔ, GOVERNO!

O deputado Romário (PSB-RJ) reclama que o governo executou apenas 12% da verba destinada aos direitos de pessoas com deficiência: “Peço explicações aos responsáveis e sequer respondem”.


O TESTE NA JUSTIÇA...

Quase dois anos após serem convidados a “prova de conceitos” ou “teste de armas” para possível compra em 2010, fabricantes tentam acessar o parecer do ministério da Justiça, que deveria ser público.


...QUE SUMIU

Filmado e fotografado em grupo, o teste com fornecedores em Brasília primeiro não constava dos registros do ministério, conforme documento em poder da Coluna, depois foi considerado “sigiloso”, sem explicação.


‘FILMA EU’

Corpulento, com quase 1,90m de altura e candidato de Sérgio Cabral ao governo, vice-governador “Pezão” (PMDB-RJ) passou despercebido aos acenos do papa, no tapete vermelho da base aérea do Galeão.


PENSANDO BEM...

...se “Lula não saiu”, como Dilma diz, a ex-assessora Rose Noronha também nunca se foi.


PODER SEM PUDOR

MORTES MATADAS

Em 1995, Zenaldo Coutinho, à época presidente da Assembleia Legislativa do Pará, tomou um susto quando lia requerimentos dos colegas. Deparou-se com uma solicitação de Matildo Dias: "Requeiro ao governador reforço da Segurança Pública no município de Rondon do Pará. Só no último fim de semana houve cinco homicídios, sendo três com vítimas fatais".

ARNALDO JABOR: 'ACABOU A "PAX LULISTA"

Acabou a “pax lulista” - ARNALDO JABOR

ESTADÃO - 30/07


De repente, do momento imóvel fez-se o drama. Assim, com um verso de Vinicius, podemos descrever o que temos pela frente. Não mais a paralisia do país, tão do agrado da “aliança para o atraso” que rege o Brasil há dez anos. Parecia que tinham conseguido o milagre da exclusão da sociedade. De repente, não mais que de repente, a herança maldita do PT explodiu e abriram-se estradas divergentes. O que parecia um fracasso assimilado, deu lugar a manifestações entusiasmadas de desejos. A torpe “pax lulista” acabou. Que acontecerá com o país?

A história de minha vida política sempre oscilou entre dois sentimentos: esperança e desilusão. Cresci ouvindo duas teses: ou o Brasil era o país do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nessa encruzilhada, eu cresci. Além disso, dentro dessa dúvida, havia outra: UDN ou PTB?

Votei em Jânio, confesso. Eu tinha 18 anos e não me interessei por Lott, aquele general com cara de burro, pescoço duro. Jânio me fascinava com sua figura dramática, era uma caricatura vesga cheia de caspa e dava a impressão de que ele, sim, era de “esquerda”, doidão, “off”.

Meses depois, estava no estribo de um bonde quando ouvi: “Jânio tomou um porre e renunciou!”. Foi minha primeira desilusão. Eleito esmagadoramente, largou o governo como se sai de um botequim.

Ali, no estribo do bonde, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da política, mais forte que programas racionais: a maldição do Mesmo. Percebi que existia uma “sub-história” que nos dirigia para além das viradas políticas. Uma anomalia secular que faz as coisas “des-acontecerem”, que criou “um país sob anestesia, mas sem cirurgia”.

Já na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice João Goulart, que a “direita” queria impedir. O Exército do Sul, com Brizola à frente, garantiu a posse de Jango, e botei na cabeça que, com militares “legalistas” e heróis de esquerda, o Brasil ia ascender a seu grande futuro.

Vivi a esperança de um paraíso vermelho que ia tomar o país, numa réplica da rumba socialista de Cuba, a revolução alegre que acabaria com a miséria e instalaria a cultura, a grande arte, a beleza, com o presidente Jango e sua linda mulher fundando a “Roma tropical”, como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia.

Não haveria golpes, pois o “exército é de classe média e, portanto, a favor do país” – nos ensinava o PCB. Dá arrepios lembrar a assustadora ingenuidade política da hora.
No dia 31 de marco de 64, estava na UNE. Havia um show com Grande Otelo, celebrando a “vitória do socialismo”. Um amigo me abraçou, gritando: “Vencemos o imperialismo norte-americano; agora, só falta a burguesia nacional!”.

Horas depois, a UNE pegava fogo, e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de “direita”. Acho que virei adulto naquela manhã, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu acordara de um sonho para um pesadelo. No dia seguinte, diante de mim, materializou-se a “figura” de Castelo Branco, como um ET verde-oliva.

No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrático mínimo, que até serviu para virilizar nossa luta política. Agora, o inimigo tinha rosto e contra ele se organizou uma resistência cultural refinada pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingênuo pré-64. As ideias e as artes se engrandeceram na maldição.

Nossa impotência estimulou uma nova esperança. A partir daí, as passeatas foram enchendo as ruas, num movimento democrático que acreditava que os militares cederiam à pressão das multidões. Era ilusão.

Ventava muito em Ipanema, em 1968, enquanto o ministro Gama e Silva lia o texto do Ato Institucional 5 na TV, transformando o país num campo de concentração. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca “lady Macbrega Yolanda”, fechou o país por mais 15 anos.

Vieram os batalhões suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do milagre brasileiro, os jovens românticos ou foram massacrados à bala ou caíram na esperança da contracultura, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos “milagres” de São Paulo.

O bode durou 15 anos, e a democracia virou uma obsessão. “Quando vier a liberdade, tudo estará bem!”, dizíamos. Só pensávamos na democracia, mas ninguém reparou que ela foi voltando menos pelos comícios e mais pelas duas crises do petróleo que criaram a recessão mundial.

Os milicos e a banca internacional nos devolveram a liberdade na hora de pagar a conta da dívida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falência do Estado e entregaram-no aos paisanos eufóricos com a vitória de Tancredo. Nova esperança! Aí, veio um micróbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa história. E começou a grande desilusão. Com a volta da democracia, no período Sarney, tudo piorou. Nossos velhos vícios reapareceram. Apavorado, vi que a democracia só existia de boca, não estava entranhada nas instituições que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos que tomaram o “pudê” – todos “nobres vítimas da ditadura”. A ditadura virou um OMO, para lavar canalhas. Daí para frente, só desilusão e dor: inflação a 80% ao mês (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da República.

Depois, nova esperança com o impeachment; depois, mais esperança com o Plano Real, vitória da razão reformista com FHC, com o Brasil no tetra, céu azul, esperança sem inflação. Nunca acreditei tanto na vida.

Mas, hoje, estou aqui, com medo e tristes pressentimentos.

Dilma poderia ter sido uma ponte entre a teimosia regressista e uma modernização mais liberal; mas se revelou teimosa e arrogante por um lado e fiel “tarefeira” pelo outro, dominada pela gangue que quer “mudar o Estado”. O maior inimigo do Brasil é a aliança entre uma ideologia “de esquerda sindicalista” e a oligarquia “de direita” – como é hoje. Nem UDN nem PTB. Vêm grandes crises por aí, mas continua no horizonte a vitória do partido do Mesmo

MERVAL PEREIRA: 'QUAL O SENTIDO?'

terça-feira, julho 30, 2013


Qual o sentido? - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 30/07
Minha primeira reação, quando li a inacreditável declaração da presidente Dilma de que não haverá ´volta, Lula´ porque Lula nunca saiu , na entrevista que concedeu a Mônica Bergamo, da Folha , foi pensar que ela caíra na própria armadilha. Ao tentar escapar de uma pergunta incômoda, fizera uma frase de efeito que acabou sendo uma admissão de submissão.
Não considerei nem mesmo que fora um ato falho, como sugeriu o Carlos Alberto Sardenberg na conversa comigo na CBN ontem, acreditando que fora, sim, uma infelicidade de quem não está acostumada com a política.

Mas, durante o dia, conversando com um e com outro, acabei abrindo uma janela na interpretação para aceitar a possibilidade de que o que considerava uma autêntica barbeiragem da presidente pudesse ser na verdade audaciosa manobra: e se em vez de uma frase infeliz a presidente tivesse dado, isso sim, uma trucada nos que querem vê-la substituída por Lula na campanha eleitoral de 2014? Ao explicitar a simbiose com o ex-presidente, Dilma esvazia a principal razão de uma eventual substituição sua por Lula. Ao dizer que Lula sempre esteve no governo, Dilma deixa nas entrelinhas a mensagem de que seus acertos e erros têm que ser divididos com o ex-presidente, o responsável final pela sua candidatura e, sobretudo, o parceiro do que tem sido feito no governo, o avalista de sua candidatura à reeleição.

Os que nos bastidores tramam para que Lula venha a ser o candidato à Presidência em 2014 certamente consideram que a manobra vale a pena, mesmo com os riscos que ela traz. Lula, no entanto, parece estar ciente dos perigos da empreitada, e resiste aos apelos. Como bom político, ele sabe que é quase impossível assumir o posto de candidato deixando no Palácio do Planalto uma presidente em pleno exercício do mandato, mas abandonada pelos seus e pelos aliados.

Como justificar a presença de Lula na campanha sem atribuí-la ao fracasso de Dilma? Como pedir para os eleitores esquecerem que foi ele o responsável por colocá-la no Palácio do Planalto? Além do mais, no limite, para o PT, perder com Dilma é melhor do que perder com Lula.

Há quem compare a atual situação da presidente Dilma ao final dos governos Jânio Quadros e Collor, mas não creio que o momento político seja semelhante, nem vejo sinais de que a presidente Dilma esteja perdendo a capacidade de governar. Se bem ou mal, essa é outra questão.

Ela está enfraquecida, é verdade, e até o momento não tem dado sinais de se preparar para dar a volta por cima. Nenhuma das medidas anunciadas parece razoável para dar resposta aos anseios da população, e a insistência em manter inalterada a equipe ministerial, seja em tamanho ou em pessoas, mostra uma incapacidade de mudança de rumos preocupante.

A continuar nessa marcha, o mais provável é que chegue à eleição desidratada de poder político, com sua base aliada abandonando o navio em busca de novos rumos, talvez como o ex-presidente José Sarney no fim do mandato.

Antecipando-se a essa provável debandada, o grupo do governador gaúcho, Tarso Genro, e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sugere que a presidente abra mão de seus aliados conservadores para seguir adiante com uma aliança de esquerda, dando uma guinada em seu governo.

Essa seria talvez a maneira mais rápida de perder completamente o apoio da classe média, que já está nas ruas pedindo mudanças em setores-chave como Saúde, Educação, Transportes, Segurança Pública. Por isso mesmo, atribui-se ao ex-presidente Lula sugestão oposta.

Para recuperar esse apoio, e manter sob suas asas os partidos que hoje já estão à procura de outro caminho eleitoral, a manobra do governo teria que ser diametralmente contrária, com uma guinada ao centro que abrisse perspectivas futuras de melhorias.

Talvez não haja tempo mais para ter resultados ainda em 2014, mas fazendo mudanças na direção correta, a presidente poderia pelo menos vender a possibilidade de um futuro melhor em seu segundo mandato. Para tal, teria que aceitar mudar a política econômica, colocando no lugar de Guido Mantega um ministro com luz própria, que por si só levasse esperança ao mundo dos negócios.

Mas, embora ela negue que seja tão centralizadora quanto dizem, há quem não veja chance de mudanças dessa ordem por ser Dilma o que dizem que ela é.

LUIZ GARCIA: 'NOVIDADE ELEITORAL'

terça-feira, julho 30, 2013


Novidade eleitoral - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 30/07

Não é obrigatório, mas, digamos assim, uma praxe em muitos países: exceto na hipótese de calamidade política ou administrativa, presidentes e governadores buscam a reeleição e quase sempre a conseguem. Como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos.

Lá, as coisas são simples. Principalmente porque o sistema tem praticamente apenas dois partidos — embora não faltem pré-candidatos. Antigamente, até o microscópico Partido Comunista sempre tinha o seu; não conferi, mas imagino que não tenha mais, devido ao desaparecimento da matriz — mas não garanto nada. Políticos de qualquer matiz , em qualquer país, adoram um palanque.

Aqui, no ano que vem, a presidente Dilma Rousseff é candidata inevitável. Como até agora não deu qualquer passo em falso demolidor — nem ela nem o padrinho Lula —, o pessoal que entende do assunto considera a reeleição igualmente inevitável.

A oposição faz o que pode. PSDB e PSB, por exemplo, estão armando uma estratégia original: cada partido poderá ter o seu candidato a governador, quando não for possível fazer aliança em torno de um nome único. Mas — o que nunca aconteceu — os palanques terão a presença simultânea dos presidenciáveis Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB.

Em alguns estados, o PSB, mais fraquinho, poderá apoiar de saída o candidato de Aécio. Se a eleição for para o segundo turno, o candidato mais bem votado terá o opoio do outro. O eleitor decidirá se essa novidade é um golpe de mestre ou uma estratégia gerada pelo desespero. Por enquanto, políticos dos dois partidos estão divididos: tanto há aplauso como vaias — e, principalmente dúvidas.

Quem está de fora — gostando ou não da presidente Dilma — tem as dúvidas que são naturais em casos de estratégias nunca antes testadas. O palanque duplo pode ser uma forma de unificar a oposição à presidente. Mas também pode ser visto como uma demonstração de dupla fraqueza. E muito eleitor tem alergia a novidades com cheiro de desespero.

Vamos ver: Dilma é a primeira mulher a ser eleita presidente da República. Será também a primeira a ser reeleita? Será uma novidade tão original quanto a estratégia da dupla Neves/Campos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

OLAVO DE CARVALHO: 'A ESQUERDA E OS MITOS DIFAMATÓRIOS'


A esquerda e os mitos difamatórios
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 10 de julho de 2013 
          


No show de ignorância dado à Folha de S. Paulo pelos líderes da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), a estrela maior foi sem dúvida o sr. Milton Hatoum, que, incapaz de lembrar o nome de um só escritor brasileiro importante que fosse de direita, ainda completou a performance com esta maravilha: “Diziam que Nelson Rodrigues era, mas discordo. Era provocador, irônico, e na ditadura lutou para libertar presos.”
            De um lado, é absolutamente impossível, a quem quer que tenha lido o cronista carioca, ignorar seu anticomunismo intransigente, seu horror aos “padres progressistas”, seu apoio inflexível ao governo militar e até o orgulho com que ele se qualificava publicamente de “reacionário”.
            É óbvio que o sr. Hatoum só conheceu o pensamento de Nelson Rodrigues por ouvir falar, e ainda assim com muita cera nos ouvidos.
            Em segundo lugar, socorrer e proteger presos e perseguidos políticos durante a ditadura foi uma das ocupações mais constantes dos intelectuais de direita, entre os quais Adonias Filho (um dos muitos omitidos, por falta de espaço, no artigo anterior), Josué Montello, Antônio Olinto, Gilberto Freyre e Paulo Mercadante. Para cúmulo de ironia, o mais célebre e aguerrido defensor de presos políticos naquela época foi o advogado Heráclito Sobral Pinto, um católico ultraconservador que confessava e comungava todos os dias e, quando não estava tirando gente da cadeia, estava escrevendo furiosas diatribes contra o Concílio Vaticano II. Hoje seria chamado de “fundamentalista” e jogado no lixo com a multidão dos outros “ninguéns”.
            O que nunca se viu no mundo foi o beautiful people comunista correr em massa para estender a mão a perseguidos da ditadura soviética, chinesa, húngara, polonesa, romena ou cubana.
           Ao contrário, sempre que aparecia algum foragido revelando as torturas e padecimentos sem fim sofridos nos cárceres comunistas, a gangue toda se reunia, não raro em escala mundial, para achincalhá-lo como “agente do imperialismo”.
           Se o sr. Hatoum não conhece nem Nelson Rodrigues, seria loucura esperar que soubesse algo, por exemplo, do caso Kravchenco, em que toda a intelectualidade esquerdista se juntou para desmoralizar o ex-funcionário soviético que denunciava os horrores do Gulag. Kravchenco reuniu  testemunhas, provou o que dizia e venceu um processo judicial contra toda a plêiade dos bem-pensantes.
          Soljenítsin, quando esteve nos EUA, contou que os dissidentes soviéticos nunca receberam a menor ajuda da elite esquerdista americana, e sim apenas de sindicatos de trabalhadores (na época acentuadamente anticomunistas).
          Quando esteve no Brasil o pastor Richard Wurmbrand, homem que por dezesseis anos sofrera torturas e maus tratos numa prisão romena (confirmados em público por uma comissão médica da ONU), a mídia esquerdista o tratou como se fosse um demônio, um conspirador fascista.
          A mentalidade esquerdista intoxica-se de mitos difamatórios de maneira a não cair jamais na tentação de ver no adversário um rosto humano. Até hoje os quatrocentos guerrilheiros mortos na ditadura, muitos deles caídos de armas na mão, merecem mais lágrimas do que os cem milhões de civis desarmados que eles, como membros do movimento comunista internacional, ajudaram a matar. Até hoje os que nadam em indenizações milionárias como prêmio da sua cumplicidade com os regimes mais bárbaros e genocidas não consentem em dizer uma só palavra de conforto às vítimas da guerrilha brasileira, dando por pressuposto que a condição de ser humano é monopólio da esquerda, que aqueles que a esquerda matou, mesmo transeuntes inocentes, não passam de cachorros loucos abatidos pelo bem da saúde pública.
          Para o sr. Hatoum, basta um sinal de bondade na pessoa de Nélson Rodrigues, para produzir a conclusão automática e infalível: Não, ele não pode ter sido de direita.
          Nunca li os romances do sr. Hatoum, mas até admito, como hipótese extrema, que um idiota possa escrever um bom livro de ficção. O que é inadmissível é aceitar como “intelectual”, como formador de opinião, um sujeito que formou a sua na base do puro zunzum e sai por aí arrotando julgamentos sobre o que desconhece.
          Hoje, esse tipo de gente domina não só a FLIP, como todo o mercado editorial, as universidades e a mídia cultural, mas um dia a juventude brasileira, cansada de ser ludibriada por esses farsantes, adquirirá cultura por conta própria (espero sinceramente ajudá-la nisso) e não se curvará mais às opiniões recebidas. Submeterá seus gurus aos testes mais duros e chutará o traseiro daqueles que forem desmascarados como ignorantes palpiteiros a serviço de interesses mafiosos e partidários. Garanto que, entre meus alunos, há pelo menos cem que são incomparavelmente superiores, em inteligência e conhecimentos, aos donos da FLIP e à massa de seus puxa-sacos. O renascimento cultural do Brasil vem-se preparando no silêncio e na modéstia do trabalho sério, do esforço genuíno, na paciente aquisição dos instrumentos da vida intelectual superior. Quando esses jovens ocuparem o espaço que merecem, não haverá mais lugar para os picaretas de luxo, para os comedores insaciáveis de verbas públicas, para os apadrinhados de um governo que vive da mentira e da corrupção. Quando soar a hora, cada um destes últimos, desprovido da interproteção mafiosa, será julgado no tribunal da competência e da honradez intelectual e, muito previsivelmente, jogado às trevas do anonimato, de onde nunca deveria ter saído.

LUÍS GUILHERME BARRUCHO: VISITA EXPÕE NOVO ESTILO DO PAPA PARA LIDAR COM DESAFIOS DA IGREJA'


Visita expõe novo estilo do papa para lidar com desafios da Igreja

Atualizado em  29 de julho, 2013 - 19:00 (Brasília) 22:00 GMT
O papa durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio (Reuters)
Papa se pronunciou sobre temas polêmicos como drogas e homossexualidade
Além da simplicidade e do bom humor, a passagem do papa Francisco pelo Rio de Janeiro expôs, mais do que o lado irreverente do novo pontífice, o estilo que deseja imprimir para lidar com os desafios enfrentados pela Igreja Católica.
Desde a última quarta-feira, quando mudou o tom protocolar do discurso inicial para falar contra a descriminalização das drogas durante a inauguração de uma ala para o tratamento de dependentes químicos em um hospital no Rio, o papa não se furtou a comentar temas polêmicos, como a corrupção no Vaticano ou a homossexualidade.
Francisco veio ao Brasil, sua primeira viagem internacional desde o início de seu papado, para participar da Jornada Mundial da Juventude, maior evento do mundo dedicado a jovens católicos, que começou na terça-feira (23) e terminou no domingo (28).
Para especialistas, as declarações não representam uma mudança nos princípios dogmáticos do catolicismo, mas são encaradas como uma pequena revolução diante do hermetismo que vinha caracterizando a Igreja nos últimos tempos.
Neste sentido, Francisco inova ao propor uma nova forma de comunicação com os fiéis, mais aberta, afinada com seu modo de ser e também com os dilemas atuais.
Seu público-alvo são principalmente os jovens, que o novo papa disse repetidas vezes considerar o "futuro da Igreja" e aos quais dirigiu a maior parte de seus discursos.
Em entrevista ao jornal O Globo, o vaticanista italiano Marco Politi afirmou que o argentino vai marcar o fim de uma era de papas "monárquico-imperialistas", durante a qual a Igreja foi guiada por "um imperador, um monarca absoluto", distante de seus fiéis. "(Jorge Mario) Bergoglio é o papa não-papa", afirmou Politi.
A escolha do novo pontífice pela simplicidade foi observada em suas primeiras atitudes, logo após ser escolhido o sucessor de Bento 16, que renunciou em fevereiro deste ano.
Francisco renunciou aos sapatos vermelhos de Ratzinger, aos carros de luxo e a outros privilégios que cercavam o chefe de Estado do Vaticano. Adotou a cruz de ferro e impôs, não só a si mesmo, como todos à sua volta, um estilo de vida mais humilde, que remonta, segundo analistas, aos princípios da fé cristã. Um gesto político, acreditam.
Confira as opiniões do papa Francisco sobre os principais temas abordados por ele durante a última semana:

Perda de fiéis

O papa Francisco creditou a perda de devotos ao distanciamento da Igreja Católica. Para ele, além da falta de sacerdotes, que dificulta a propagação da mensagem de fé, a Igreja esqueceu-se dos fiéis, governando para si mesma e para os demais por meio de atos administrativos.
"Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade, se descuida disso e só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta", disse ele em uma entrevista à TV Globo no último domingo.
O pontífice também já demonstrou como pretende mudar tal cenário. Diferentemente de seus antecessores, dizem especialistas, Francisco é ferrenho defensor da atividade pastoral e missionária, traço comum a seus discursos. Ele destaca, sempre que pode, a importância do papel paroquial nas comunidades, ao passo que dá menor ênfase ao alto clero, composto por bispos e cardeais.
Para alcançar seu objetivo, o papa aposta nos jovens. Em praticamente todos os seus pronunciamentos, Francisco mostrou querer ampliar o diálogo com a juventude, falando de improviso e de maneira simples.

Descriminalização das drogas

"Um jovem que não protesta, não me agrada."
Papa Francisco
Em visita a um hospital na zona norte do Rio de Janeiro, onde esteve para inaugurar uma ala para o tratamento de dependentes químicos, o papa fez um discurso veemente contra a liberalização das drogas, descrevendo traficantes como "mercadores da morte".
"A chaga do tráfico de drogas, que favorece a violência e que semeia a dor e a morte, exige da sociedade inteira um ato de coragem", afirmou ele.
No que foi considerada sua primeira declaração política na visita ao Brasil, o papa afirmou que "não é deixando livre o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química".
"É necessário enfrentar os problemas que estão na raiz do uso das drogas, promovendo maior justiça, educando os jovens para os valores que constroem a vida comum, acompanhando quem está em dificuldades e dando esperança no futuro", acrescentou.

Protestos

"Um jovem que não protesta, não me agrada", afirmou o pontífice durante a entrevista à TV Globo. Na avaliação de especialistas, o posicionamento, de alto teor político, faz parte da estratégia do pontífice em restabelecer o diálogo com os jovens.
Embora tenha dito não saber quais as motivações que levaram os brasileiros às ruas, o papa demonstrou estar afinado com os anseios da juventude, ao pedir a reabilitação da política.
"Somos responsáveis pela formação das novas gerações, de capacitá-las na economia e na política, e nos valores éticos. O futuro exige hoje a tarefa de reabilitar a política. Reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade", afirmou ele, em discurso no Theatro Municipal, no sábado, considerado até então um de seus mais fortes pronunciamentos durante a JMJ.
Na ocasião, o pontífice pediu um "diálogo construtivo" e lamentou que o "sentido ético" apareça hoje como "um desafio histórico sem precedentes".
Ele também reivindicou uma economia mais humana, "evitando elitismos e erradicando a pobreza".
"O futuro nos exige uma visão humanista da economia e da política, que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas."

Homossexualidade

Em um pronunciamento já considerado histórico, o papa Francisco disse que os gays "não devem ser marginalizados, mas integrados à sociedade" e que não se sente em condição de julgá-los.
"Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?", afirmou ele a jornalistas durante o voo de retorno a Roma.
Papa em avião para Roma | Foto: Reuters
Especialistas dizem que defesa de estilo de vida humilde é gesto político do papa
"O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas integrados à sociedade."
As declarações do pontífice tiveram como pano de fundo as recentes revelações de que um assessor próximo a ele seria homossexual.
Na mesma ocasião, o papa respondeu a questionamento sobre a existência de um "lobby gay" no Vaticano. Segundo ele, o problema não é ser gay, mas o "lobby em geral".
"Vocês vêm muita coisa escrita sobre o lobby gay. Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com um cartão de identidade dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que, quando alguém se encontra com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay de formar um lobby gay, porque os lobbies não são bons. Isso é o que é ruim."

Reforma da Igreja

Tema recorrente em seus pronunciamentos e entrevista, a reforma da Cúria Romana e da Igreja Católica é um dos principais objetivos mais caros a Francisco. Ele não poupou críticas ao Vaticano e ao modo de vida levado por alguns sacerdotes.
"Agora mesmo temos um escândalo de transferência de US$ 10 ou US$ 20 milhões de um monsenhor. Belo favor faz esse senhor à Igreja, não é?", disse ele em entrevista à TV Globo.
Sobre a simplicidade associada a seu pontificado, ele disse que "o povo sente o coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, são apegadas a dinheiro. Não é um bom exemplo se um sacerdote tem um último modelo de marca. O nosso povo é simples".
Mais do que refletir um estilo próprio, a declaração parece sinalizar os rumos de seu papado. Por mais de duas vezes, Francisco criticou a "psicologia de príncipes" dos bispos. Em reunião com membros do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), na residência do Sumaré, onde ficou hospedado durante a jornada, ele considerou a Igreja "atrasada".
Em seu voo de retorno a Roma, Francisco também falou da ordenação das mulheres. Apesar de renovar seu apoio ao impedimento do sacerdócio feminino, citando, inclusive, uma formulação de João Paulo 2º, o pontífice pediu por uma maior participação das mulheres na vida da Igreja.

LYA LUFT:'O JEITO BRASILEIRO'


segunda-feira, julho 29, 2013


O Jeito Brasileiro - LYA LUFT

REVISTA VEJA


Não acho graça quando dizem que alguma falha, bizarrice, relaxamento ou incompetência é o jeito brasileiro. Não concordo quando autoridades dizem que atrasos em ocasiões oficiais fazem parte da cultura brasileira... Não acho que errar o trajeto ou combinar mal ou nem combinar nada sobre o trajeto de um papa, sabido séculos antes, nas tantas vezes convulsionadas ruas do Rio atual, seja apenas jeito brasileiro. E, se for, a gente tem de corrigir.

"No Brasil é assim..." Será? Será bom? A gente deve achar graça e se orgulhar? Houve um momento em que uma autoridade afirmou que caixa dois no Brasil é normal. Será? E então como falar de ética, honradez, transparência, palavras que se vão gastando de tão mal usadas?

Tenho muito receio desse folclore de que aqui é assim, e pronto. Não é normal que multidões se revoltem e protestem pelo país, e que isso seja considerado bonito. Não aguento mais, não o uso, mas o abuso de termos sérios como "pacífico" e "democrático". Uma manifestação que termina com criminosos (por que o termo "Vândalos"?) destruindo propriedade pública e privada, agindo com violência e portanto recebendo violência, não me parece pacífica. Movimento pacífico é pacífico. Não admite essa reiterada violência. Se meu pé está gangrenado, meu corpo está doente, e nenhum eufemismo há de negar isso.

Os próprios manifestantes deveriam, poderiam, evitar os criminosos? As autoridades deveriam ser mais eficientes, mais severas? Ou liberamos geral a bagunça, os estragos, os crimes — pois destruir é crime? Se eu pegar uma pedra e quebrar uma vitrine ou a vidraça de um edifício público ou residencial, certamente não sairei impune. Se eu acampar no meio de uma Câmara Municipal ou Assembleia ou seja o que for, certamente não ficarei ali tranquila. Então o que está havendo?

Sou a favor de manifestar indignação e fazer protestos. Temos mais do que motivo para isso, mas algo está muito errado por aqui. Ninguém parece se dar conta disso, olhamos para os lados assobiando como menino no escuro, fingindo que está tudo ótimo. Fingindo que está tudo bem. O Brasil é assim. Pior, quem sabe dizendo que protestar, manifestar-se, sair às ruas, estradas e atacar pessoas e edifícios é sinal de satisfação. O povo ganhou muito, agora quer mais.

Não entendo esse raciocínio e suspeito que não seja para entender mesmo. Então vai ver que é mais um jeito brasileiro de tentar esconder problemas sérios e urgentes, pois a situação só piora. A economia piora. Saúde, educação, dignidade, segurança não podiam estar piores. Mas a gente fica satisfeito, tudo democrático e pacífico, que bonito, afinal quebrar lojas, saquear, atacar, carregar bombas de fabricação doméstica, andar mascarado para cometer loucuras faz parte do jeito brasileiro. Será?

Aí vem Francisco, o Papa, com seu jeito de vovozinho alegre, mas não se enganem: é experiente, é sábio, é corajoso, chega dizendo que não traz ouro nem prata, mas Cristo. Chega aberto ao povo. Se teve medo, não sabemos, mas parecia tranquilo enquanto a multidão o queria ver, fotografar, tocar, e os seguranças, perplexos, atônitos, corriam de um lado para outro sem entender direito o que tinha acontecido, quem tinha errado para de repente Francisco estar entalado no trânsito como qualquer comum mortal, ainda por cima exposto daquele jeito.

Tudo saiu bem, nem mortos nem feridos, tudo simpático, do jeito brasileiro. Mas podia ter sido um desastre sem tamanho — e quando escrevo esta coluna a visita ainda não chegou ao fim. Acho que tudo vai dar certo. Acho que ninguém vai fazer manifestações e violências na cara de Francisco, mas longe dele. Acho que ele, sendo argentino, sabe onde se meteu, que continente é este, que país é este, e deve amar o que temos de bom, de belo, de honrado, de afetivo, de alegre, de bravo, de resistente e firme.

E pelo menos, graças a Deus, o Papa Francisco em seus discursos iniciais não falou em política: falou em gente, em amor, em juventude, em fé; falou, enfim, como um sacerdote — que é o que o papa é antes de tudo o mais. Viva Francisco!