domingo, 31 de março de 2013

EDUCAÇÃO - CLAUDIO MOURA CASTRO



A exumação de um cadáver - CLÁUDIO DE MOURA CASTRO

REVISTA VEJA

"Esperava-se que os profissionais fossem para empregos cujo nome se assemelhava ao do curso. Hoje ocorre a "desprofissionalização" dos diplomas" 



Quando parecia sepultada e descansando de uma vida maldita, exuma-se a idéia de que o estado deve regular a oferta de cursos superiores privados. Ou seja, impedir que os incautos proprietários de faculdades invistam errado, pois o MEC sabe onde está o mercado para advogados ou médicos. Pensemos: quem sabe de mercado, o dono da faculdade que arrisca sua empresa ou um funcionário do MEC, pontificando sob o manto da impunidade -e sabe-se lá com que agenda latente?

Em Brasília, o representante de uma associação médica declarou: "Não há mais mercado para médicos, assim mostram os indicadores da OMS". Ironia do destino, nesse evento, falou antes dele Jarbas Passarinho. Narrou que, em sua gestão como ministro da Educação (1970), foi procurado pela mesma associação, ouvindo idêntica afirmativa. Desde então, o número de faculdades de medicina cresceu quatro vezes. O mercado deveria estar ainda mais saturado, pois a população cresceu muito menos. Conmdo, não há estatística sugerindo saturação dos mercados. Pelo contrário, a carreira é recordista de candidatos por vaga.

Se novas faculdades fossem para onde há poucos doutores por habitante, não existiriam os grandes centros médicos. E as escolas localizadas em regiões pobres formariam profissionais de qualidade ainda pior (o papel de andar na contramão do mercado é para o ensino público).

Como definir se um mercado está saturado? Pela teoria econômica, será o caso se os salários dos graduados não são comensuráveis com os custos de estudar ou, no limite, se eles estão desempregados. Segundo as pesquisas, quatro anos de faculdade dobram os salários e não há desemprego significativo nesse nível.

No passado, esperava-se que os profissionais fossem para empregos cujo nome se assemelhava ao do curso. Hoje, tal como nos países ricos, ocorre a "desprofissionalização" dos diplomas. Exercem a profissão menos de 20% dos advogados, 10% dos economistas e 5% dos filósofos. Haveria que cortar 95% das matrículas em filosofia? Não. pois os quatro anos de graduação se converteram, para a maioria, em uma educação "genérica", que prepara para exercer ocupações meio indefinidas. Nada errado.

Os lobbies médicos disfarçam a retranca na abertura de cursos como proteção da qualidade. Pura falácia- mal escondendo um conluio entre governo e corporativismo. Em vez de definir a geografia da demanda, o certo é impor padrões de qualidade rígidos aos novos cursos. E, sem apertar o cerco aos cursos e profissionais ruins que aí estão, adia-se para a próxima geração um atendimento correto. Ou seja, fechar a torneira dos novos cursos é apenas garantir o monopólio dos velhos, livres da concorrência de intrusos.

A boa solução é conhecida de todos e temida pelos menos confiantes na sua competência: filtrar pelo Enade. E também por exames de ordem para médicos - como fazem os advogados. Assim se faz nos Estados Unidos e nessa direção caminha o estado de São Paulo.

A prova da OAB é uma bela solução. Formam- se muitos bacharéis em direito. Alguns vão vender terrenos, outros trabalharão na empresa do pai. Os melhores passam nas provas da ordem, assegurando um nível mínimo de competência nas cones de Justiça. Todos ganham.

Curiosamente, há na OAB quem não abençoa o seu belo sistema e quer fazer a mesma besteira das associações médicas: restringir a criação de cursos, decretando onde não há demanda. No mundo real, quem acha a demanda são os novos advogados e médicos, não os governos e lobbies. Se fossem piores os mercados nas regiões pobres, mesmo os profissionais que lá se formassem tampouco ficariam.

Para melhorar a qualidade dos cursos, há o Enade e outras provas, em paralelo a um acompanhamento rigoroso do MEC. A retranca para a abertura de faculdades-como ocorre hoje no ensino a distância - em nada beneficia a qualidade, embora impeça a saudável concorrência entre os cursos. Não passa de uma ação visando a beneficiar financeiramente quem já entrou, sejam faculdades, sejam profissionais. Protege o interesse deles e não da sociedade.

ARTIGO - COLAPSO NOS TRANSPORTES NO GOVERNO PETISTA


domingo, março 31, 2013

Bem longe do Brasilzão - J. R. GUZZO

REVISTA EXAME

É uma ironia que a presidente Dilma Rousseff esteja falando do Ministério dos Transportes agora. Nas conversas sobre a reforma ministerial, a última coisa em que os políticos estão pensando é em melhorar os transportes

OS BRASILEIROS TIVERAM OPORTUNIDADE DE VIVER NESTES ÚLTIMOS DIAS um dos grandes momentos de uma disciplina que poderia muito bem entrar nos currículos das nossas faculdades de economia e administração. Título: "O Brasil segundo o governo e o Brasil que existe para quem vive no mundo das realidades". No Brasil oficial, a presidente Dilma Rousseff, o copresidente Lula e a tropa toda que prospera em volta deles estavam envolvidos na tarefa, altamente estratégica, de mexer daqui para lá nos ministérios. Seus labores, nessa questão, parecem incluir a criação de mais um - isso mesmo, mais um - ministério, o que nos leva a um total de 39, pelas últimas contas, e reforça a perspectiva de atingir o sonho dourado de Dilma e da companheirada: 50 ministérios ao todo, ainda em nosso tempo. No Brasil das realidades, enquanto isso, o maior comprador de soja da China, o grupo Sunrise, anunciou o cancelamento da compra de 2 milhões de toneladas de soja brasileira (valor: 1,1 bilhão de dólares) porque dos 12 navios que deveriam entregar a soja em janeiro e fevereiro só dois chegaram à China até agora. E, em português claro, o que se chama de quebra de contrato - e, por causa disso, a Sunrise pretende cancelar o negócio inteiro.

É exatamente esse o Brasil que existe para os brasileiros. O motivo do desastre com a soja é o mesmo que estava aí dez anos atrás, quando Lula e Dilma descobriram o Brasil pela segunda vez - pura, simples e grosseira incompetência na ação do governo na área de transportes. A presidente, há algum tempo, desafiou tudo e todos: "Não herdamos nada", disse ela. Parece que também não vão legar coisa nenhuma.

Em matéria de transporte, é certo que não fizeram nada de útil se nosso ritmo de entrega de grãos está na base de dois navios atracados no porto de chegada, ante 12 que foram contratados. O Brasil de verdade não consegue, simplesmente, levar a soja colhida até os portos - principalmente o de Santos, o maior de todos eles. Há imensas quantidades de soja perdidas em Mato Grosso, pois não se sabe como tirá-las de lá. Os caminhões levam nove dias para percorrer uma distância de 2 200 quilômetros, e não há a alternativa de utilizar linhas ferroviárias - invento que está para completar 200 anos de existência, mas não foi bem entendido até hoje pelos governos brasileiros. Os caminhões que conseguem chegar ao destino formam filas apavorantes, pois a capacidade de escoamento dos portos é uma piada. A possibilidade de armazenar a soja é outra: para 180 milhões de toneladas de grãos colhidas, a capacidade atual dos silos brasileiros não chega a 150 milhões.

E uma notável ironia que justo neste momento a presidente da República esteja falando muito a respeito do Ministério dos Transportes, dentro das conversas sobre "reforma" ministerial - mas a última coisa em que ela, Lula e os políticos à sua volta estão pensando é em melhorar o que quer que seja nos transportes brasileiros. Nem sabem (e não querem ficar sabendo) que há filas de caminhões nos portos, que mais de 1 bilhão de dólares foi jogado fora nas operações de exportação de soja para a China ou que há grãos apodrecendo no pé nas áreas produtoras. Seu único e exclusivo interesse é decidir quem vai para o emprego de ministro; o tema "transporte", para todos eles, começa e acaba aí. O resto do mundo em que vivem não é melhor. O deputado Valdemar Costa Neto, atualmente condenado a sete anos e dez meses de cadeia por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, terá voz na "reforma" de Dilma, na sua condição de grão-comendador do PR? O ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi, demitido por suspeitas de ladroagem, parece que está mandando de novo no pedaço. Anuncia-se a criação do Ministério das Pequenas Empresas, a última coisa neste mundo que pode servir a uma pequena empresa - seu problema não é a falta de um ministério, e sim o excesso de fiscais de todos os tipos que a extorquem dia após dia.

Este, sim, é o nosso Brasilzão.

terça-feira, 26 de março de 2013

ATÉ QUANDO? Rafael Brasil


Como comentei em ocasiões anteriores, o grande problema de Dilma e sua turma é que pensam que pensam. Que existem alternativas as já há muito apontadas tanto pela experiência internacional, quanto pelas análises dos setores mais liberais da nossa elite pensante, digamos assim. 
Na Europa, assistimos a crise do Welfare State, o estado de bem estar social montado pela social democracia européia no pós guerra. A conta do grande aparato social do estado está chegando. Em economia não existe almoço grátis, diz um ditado que felizmente já está se tornando popular. No Brasil, coisas como equilíbrio fiscal,  privatizações, e reforma ampla do estado, são, para a presidente e sua "equipe" verdadeiros palavrões. Sem estes pilares, a economia, cedo ou tarde desanda. No caso o tempo é importante como a pergunta: Quando o povo vai perceber o descalabro ideológico, econômico , administrativo e político? Eis a questão. Em outras palavras , o dito "modelo" dilmista, é parecido com o dos governos militares, sobretudo a partir de Médici, com  o crescimento sendo induzido pelo estado, através de incentivos principalmente via BNDES. Os tempos são outros, por isso nada disso funciona.
É preciso reformas para abrir e preparar o país para o CAPITALISMO LIVRE CONCORRENCIAL, como diria aliás o conhecido comunista italiano Antônio Gramsci. Diminuir os impostos, incluindo a chamada economia informal. Privatizar o restante das empresas estatais, diminuindo consideravelmente a corrupção ao tirar o queijo da boca dos ratos de plantão, reformar a segurança, a justiça, o sistema prisional, penal, e sobretudo consertar a educação. Digo consertar, porque basta afastar os chamados social-construtivistas que destruíram a educação, desideologizando-a amplamente. Nos livros de história ainda observamos, que no Chile sob Pinochet, houve uma ditadura, e em Cuba, onde a ditadura persiste há cinquenta anos, lemos que o que houve foi uma "revolução". Aluno fazendo bagunça? Código disciplinar para as escolas. Aliás, defendo que a maioridade penal seja rebaixada para , pelo menos doze anos. Com dez, os meninos não fazem sexo? Não sabem o que estão fazendo? Por que podem matar ou delinquir? Ou seja, ainda precisamos de quase tudo. E este quase tudo está muito distante da reacionária ideologia esquerdista que, malgrado a queda do muro de Berlim há quase duas décadas, ainda encanta muitos esquerdistas latinos, que, em rede, colocam o continente à margem do desenvolvimento das chamadas forças produtivas globais, num linguajar marxista. Bem mas essa turma não leu Marx, que chora no túmulo com a ignorância reinante.
Este "modelo" vai estourar. Se antes das eleições, as oposições terão chances. Se não, teremos um fim melancólico do petismo, para o bem de todos  a felicidade geral da nação. A pá de cal será jogada por Dilma, Mantega e sua triste turma. Veremos.

domingo, 24 de março de 2013

FALÊNCIA TOTAL DA EDUCAÇÃO NACIONAL-GAUDÊNCIO TORQUATO



domingo, março 24, 2013

Tia Zulmira está de volta - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADO DE S. PAULO - 24/03
O que diria Tia Zulmira, a engraçada personagem criada por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do impagável cronista Sérgio Porto, no início dos anos 60, ao enchergar (isso mesmo,com ch)numa dissertação sobre movimentos imigratórios para o Brasil no século 21 uma receita de Miojo e um trecho do hino do Palmeiras?Acharia rasoavel(assim mesmo, com s e sem acento) as notas 560 e 500, de um total de 1.000, obtidas, respectivamente, por um galhofeiro que mostrou como se faz o famoso macarrão instantâneo e por um apaixonado torcedor do Verdão? E que nota daria ao Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira,que orienta os corretores da prova a "aproveitar o que for possível", mesmo ante a inserção de textos com evidente intenção de desmoralizar o processo corretivo? O próprio autor da receita confessa que seu intuito era mostrar que "os corretores não leem completamente a redação". A velha senhora da família Ponte Preta enquadraria seguramente os personagens em questão no Festival de Besteiras que Assola o País, sempre muito farto por ocasião do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). E aproveitaria para pinçar mais uma pérola que explica o motivo de tanta asneira no famigerado concurso: "O nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro".Todos os anos o Enem produz extensa crônica de besteiras previsíveis. As expressões fosforescentes transmitidas por apreciável parcelados cérebros que prestam o exame deixam transparecer um estado de hibernação, para não dizer piora, do corpo educacional do País. O Brasil continua a ocupar um vergonhoso 88.º lugar entre 127 no ranking de educação da Unesco. Seis anos atrás tinha melhor posição(72.ª). Há 6 milhões de alunos no ensino superior, mas 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita. Ou seja, de cada dez alunos,quatro são analfabetos funcionais,como atesta pesquisado Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa entre 2001 e 2012.

A considerar o denso programa de avaliações em todos os níveis de ensino e as campanhas que fazem lo as à nossa educação, deveríamos ser um território livre de todas as categorias do analfabetismo. Se o número de analfabetos diminuiu nos últimos três anos,o porcentual de analfabetos funcionais - que sabem escrever o nome, leem e escrevem frases simples, mas são incapazes de usar a leitura e a escrita no dia a dia - tem permanecido o mesmo. Os dados continuam desanimadores.

Cerca de 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente; destes,68% são analfabetos funcionais e 7%,considerados analfabetos absolutos - sem habilidade de leitura ou escrita. O IBGE calcula haver cerca de 30 milhões de analfabetos funcionais, a maioria vivendo nas Regiões Norte e Nordeste, onde 25,3%e 30,9%habitam,respectivamente, esse compartimento.

O que mais impacta, porém, na análise da moldura social é o contraste entre o avanço de uns setores e o atraso de outros. Veja-se a situação de renda das margens, que tem aumentado a ponto de se trombetear, todo o tempo, a inserção de 30 milhões de brasileiros na classe C e a "salvação" de outros tantos que saíram da miséria absoluta. Se a desigualdade diminuiu, não seria lógico imaginar, em sua cola, a melhoria de padrões educacionais? Há muitos pontos obscuros no discurso que trata da educação.

Não é um paradoxo constatar que quase 80% dos brasileiros são usuários da internet e quase 70% possuem celular, mas o Brasil,com 401 pontos,está numa das últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos(Pisa), atrás de países como Trinidad e Tobago, Bulgária,México e Turquia? Lembre-se que esse programa avalia sistemas educacionais de 65 países, examinando o desempenho de estudantes na faixa etária dos 15 anos.

O que trava o sistema, quando todas as áreas do ensino estão suficientemente diagnosticadas? Na educação básica há uma provinha, a Prova Brasil, e o Enem. No ensino superior, o Enade, aliado ao Censo Escolar, a par de avaliações feitas por comissões de avaliadores.

Na pós-graduação,nada funciona sem o endosso da Capes, que autoriza e reconhece os cursos. Faltam mais recursos? Os programas de formação de professores são precários e insuficientes? Como equacionar o imenso buraco causado pela expansão da evasão escolar? As respostas não são fáceis.

Enquanto os ciclos governamentais cultuam a si mesmos tecendo loas ao sucesso de suas políticas, o fato é que o edifício educacional apresenta rachaduras em todos os andares.

Pior é ver a avalanche que sobe ao último piso. São milhares de estudantes que entram em cursos inapropriados, outros tantos que buscam um segundo diploma e mais uma leva que interrompe a trajetória no meio.

A matriz profissionalizante acaba influenciando as decisões do aluna do, prejudicando a formação global, humanística, generalista, imprescindível para a integração num mundo em constante evolução.

Da competição desvairada por vagas em escolas de baixa qualidade não é de surpreender o besteirol que sai desses polêmicos exames de avaliação. A razão das enchentes que assolam a Região Serrana do Rio? Eis a resposta: "É o Euninho.

Que provoca secas e enchentes calamitosas".O que se entende por arte funerária? "A arte que egípcios antigos desenvolveram para que os mortos pudessem viver melhor." O que é ateísmo?"É uma religião anônima." E fé? "Uma graça através da qual podemos ver o que não vemos." Agora, o conceito de respiração anaeróbica é mesmo de tirar o fôlego: "É a respiração sem ar que não deve passar de três minutos". Ao sublinhar tão eloquentes "ideias luminosas", Tia Zulmira garante que a receita do Miojo no mais recente Enem trousse, sim, elevada contribuição ao verbo destes tempos tresloucados.

DESASTRE DA POLÍTICA EXTERNA PETISTA


domingo, março 24, 2013

O comércio do Brasil acorrentado - SUELY CALDAS

O ESTADÃO - 24/03

Não foi só o truque de deixar para j aneiro o lançamento de importações de petróleo feitas em 2012 o único causador do enorme déficit de US$ 5.5 bilhões da balança comercial registrado até agora. O governo parece não se dar conta, mas o fato e que as exportações têm caído fortemente em quantidade, sinalizando tratar-se de um problema estrutural, a exigir tratamento também estrutural para tentar virar o jogo do nosso comércio com o mundo. A Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) constatou que em fevereiro a quantidade de produtos exportados caiu 13,2% em relação a fevereiro de 2012. E uma queda expressiva que precisa ser levada a sério, não menosprezada. Por mais que o ministro Guido Mantega insista na ladainha de culpar a crise internacional, a verdade é que o Brasil vem perdendo mercados em países onde a crise passa ao largo e que em 2012 registraram crescimento muito acima do nosso pibinho de 0,9%.
Em política comercial, o Brasil tem seguido na contramão do mundo. Isola- se, em vez de se integrar. E quando sai do isolamento busca parceiros errados. País que mais cresce na América Latina, o Chile escolheu caminho inverso ao do Brasil: abriu sua economia; reduziu tarifas de importação; ao expor sua indústria à concorrência com importados, melhorou seu produto em qualidade e preço; e adotou uma pragmática política comercial de fechar acordos com países e blocos econômicos isoladamente, o que lhe tem rendido bons resultados. Assinado em 2004, o acordo com os EUA expandiu as exportações chilenas em 31% já no ano seguinte. Nessa mesma época o Brasil rejeitava dar prosseguimento à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) por puro preconceito ideológico e complexo de inferioridade: alegara que a Alca daria ganhos aos poderosos e ricos EUA e perdas aos países pobres da América. O PT falava o mesmo da globalização, e hoje a crise econômica abala os ricos, não os pobres.
Números de 2012 comparados com 2011 mostram que a crise pode explicar as perdas com os países europeus (que poderiam ser menores ou até nulas, se o comércio fosse amparado por um tratado de comércio com a União Européia), mas não explicam com a China, a Rússia e a Argentina. De 2011 a 2012 nossas exportações para esses três países caíram nada menos que US$ 8,7 bilhões (US$ 3,1 bilhões com a China, US$ 4,7 bilhões com a Argentina e US$S 900 milhões com a Rússia). A economia chinesa desacelerou, desculpa-se o governo. Nada, cresceu 7,8% em 2012. As razões são outras, e os velhos e não resolvidos gargalos em estradas e portos são uma delas. A outra é o prometido acordo de comércio entre os Brics (Brasil, China, índia, Rússia e África do Sul), que não anda.
Foto de capa deste jornal na sexta-feira mostrou uma fila interminável de caminhões parados que levam horas, dias paia descarregar soja no Porto de Santos. Com isso, o embarque nos navios caiu 40% no 1.° bimestre. Esse enorme atraso nos embarques produz estragos: a importadora chinesa Sunrise acaba de cancelar a compra de 2 milhões de toneladas de soja do Brasil, transferindo-a para a Argentina. "Não adianta nada ter um preço bom se a soja não é entregue", disse ao Estado Shao Guorui, gerente comercial da Sunrise. Com isso o Brasil perdeu um negócio de US$ 1 bilhão.
Com seu protecionismo, a Argentina tem sistematicamente violado regras do Mercosul e forçado a queda de vendas do Brasil. Aliás, por vezes o Mercosul mais prejudica do que ajuda o Brasil. O caso da União Europeia é emblemático: desde 1999 o bloco do Mercosul discute um ambicioso acordo de zona de livre comércio com a Europa. As negociações paralisaram e o governo brasileiro se sente preso, impedido de negociar sozinho um pacto que abriria as portas de 27 países para o Brasil.
A tendência do mundo inteiro é a integração, não o isolamento, não a exclusão. Nos últimos anos a União Européia concluiu acordos com Canadá, Cingapura e Coréia do Sul e está nos detalhes finais com Japão, Vietnã e Tailândia. O mundo avança por esse caminho. Por que o Brasil deve ficar preso aos briguentos vizinhos do Mercosul?

LEIAM: OLAVO DE CARVALHO



Ideólogo é a mãe 
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 20 de março de 2013 
          
A baixeza de caráter sempre acaba transparecendo na deformidade da linguagem, especialmente sob a forma dos cacoetes de estilo e da impropriedade do vocabulário.
 
Em artigo recente e muito oportuno, Roberto Romano lembra um desses cacoetes, que se tornou marca registrada da linguagem fascista: o uso de aspas pejorativas como armas de extermínio das reputações. Quando não se sabe o que alegar contra um sujeito, apela-se a esses sinais gráficos na esperança de que, fincados dos dois lados de um qualificativo – mesmo que seja o simples nome de uma atividade profissional –, valham magicamente como sua total e peremptória negação. 
 
Entre aspas, a vitória transfigura-se em derrota, o talento em inépcia, o advogado em rábula, o general em recruta e o santo em charlatão: pelo menos tal é a expectativa dos aspeadores. Disso deveria saber eu, que cheguei a ser, no dizer de Bruno Tolentino, "o mais aspeado filósofo brasileiro" – mas por que deveria preocupar-me com um truque bobo que só revela, nos seus praticantes, a mentalidade pueril e um toque de analfabetismo funcional? Escritores que se prezam empregam as aspas para indicar citações, conotações alusivas ou ambiguidades deliberadas, e evitam dar-lhes sentido pejorativo porque sabem que isso é só para aqueles a quem a natureza avara negou até mesmo o dom de insultar criativamente, tão abundante na linguagem popular do Brasil.
 
Mas outra deformidade típica, endêmica nos jornais e nas cátedras deste país, é o vício de forçar um termo a carregar-se de conotação ofensiva até fazê-lo perder o último vestígio de referência à sua significação própria. O exemplo mais renitente é o uso comunista do adjetivo "fascista": na ânsia de associar a seus adversários a lembrança sinistra das ditaduras de Hitler e Mussolini, estampam-no com entusiasmo feroz no rosto dos que defendem a liberdade de mercado, a redução do poder do Estado, a independência entre os poderes e as garantias legais da democracia parlamentar – o oposto simétrico de qualquer coisa que mereça, na escala objetiva, o nome de “fascismo”.
 
Não por coincidência, as pessoas que fazem isso são aquelas mesmas que mais frequentemente apelam ao recurso fascista das aspas pejorativas.
 
Outro exemplo é o uso da palavra "ideólogo" como rótulo depreciativo. "Ideologia" é um sistema de ideias destinadas não a descrever ou analisar a realidade, mas a criar e fortalecer a unidade de um partido, de um grupo ou movimento político e a orientar – justificando-os e enaltecendo-os – os seus planos para a tomada e a manutenção do poder.
 
Basta compreender essa definição para perceber imediatamente que aqueles que tentam rebaixar o meu trabalho rotulando-me "ideólogo" são nada mais que charlatães e difamadores desprovidos do mais mínimo fragmento de credibilidade.
 
Para que essa rotulação tivesse algum valor, seria preciso que os rotuladores pudessem responder às seguintes perguntas: Que partido? Que grupo? Que movimento? Que planos? Não podem.
 
O público a que me dirijo não constitui um grupamento político nem mesmo num sentido remotamente analógico, não tem nenhuma unidade organizacional ou atividade militante e nem sequer encontros ou congressos onde pudesse sonhar com uma vaga tomada do poder num futuro hipotético e inalcançável. E por mais meticulosamente que se examinem os meus escritos e aulas, não se encontrará aí o menor esboço de algum plano nesse sentido.
 
Quanto aos grupos e classes existentes para além das fronteiras desse círculo, é mais do que óbvio que não me dirijo a nenhum deles em especial, não os represento no mais mínimo que seja e não tenho sequer por eles um pouco de  afeição ou respeito, condição sine qua non para que desejasse orientá-los ou liderá-los politicamente. 
 
Seria eu o ideólogo da burguesia, essa classe que não sonha senão em abrigar-se à sombra do Estado? Dos militares, que se rebaixaram à condição de funcionários públicos, totalmente esquecidos de que seu dever de lealdade é para com o Estado e não para com qualquer partido que o açambarque e prostitua a serviço de seus próprios interesses? Dos estudantes, que só pensam em comunismo, sexo e drogas? Dos pobres e oprimidos, que não leem uma só linha do que escrevo e só acreditam no Big Brother Brasil?
 
Ricos ou pobres, fardados ou à paisana, meus leitores,  ouvintes e alunos são indivíduos isolados, sem a menor ambição ou possibilidade de agir politicamente.
 
Chamar "ideólogo" a quem há anos se dirige a essas pessoas sem lhes acenar nem de longe com algum projeto político é esvaziar a palavra "ideologia" de todo significado substantivo para fazer dela um grotesco arremedo de insulto, um porrete de isopor, uma faca sem cabo nem lâmina que só expõe ao ridículo o seu usuário, especialmente quando este é, ele próprio, o porta-voz notório de um grupo político atuante e constituído. Quem pode ser mais patético do que aquele que usa como ofensa o próprio termo que mais apropriadamente o define?
 
Não por coincidência, os que se entregam a esse exercício de masoquismo inconsciente não estão só na esquerda, como os srs. Caio Navarro de Toledo, Adalberto Monteiro, Altamiro Borges ou a equipe do Vermelho.org, mas também alguns na direita, como o prof. Alexandre Duguin ou os srs. Rodrigo Constantino e Joel Pinheiro.
 
 Em vista do exposto, a esses todos a única resposta merecida seria "Ideólogo é a mãe", se justamente o último dos mencionados não constituísse exceção, de vez que, no seu caso, ideólogo não é a mãe e sim o pai – ideólogo do partido da Marina Silva.

sábado, 23 de março de 2013

A DITADURA CHAVISTA



Eis a democracia chavista em todo o seu esplendor! - SERGIO FAUSTO

O ESTADO DE S. PAULO - 23/03

Em 14 de abril haverá eleições na Venezuela. A campanha oficial terá apenas dez dias, embora Nicolás Maduro esteja no palanque eleitoral desde que, em dezembro passado, foi ungido candidato pelo próprio Hugo Chávez. A partir daquele momento toda a engrenagem da máquina chavista foi posta a serviço da candidatura do sucessor do falecido presidente.Não apenas o Partido Socialista Unido da Venezuela, mas todas as instituições do Estado venezuelano, a começar pela Suprema Corte de Justiça, que confirmou Maduro como presidente interino,contrariando a Constituição, para que ele pudesse melhor projetar-se como figura presidencial.Tudo isso em meio à máxima manipulação política da agonia final, da morte e do velório do presidente Chávez.

Os episódios recentes revelam, uma vez mais, a natureza do movimento e do regime até então liderados por Chávez. Sob uma fina camada de verniz democráticos e esconde um artifício. Há eleições,mas o Estado, ao invés de resguardar condições de igualdade entre governo e oposição, é posto a serviço do partido e do candidato oficial.E não apenas durante as campanhas eleitorais. O Estado está a todo tempo mobilizado com o objetivo de preservar a regra de ouro do regime:o poder não pode mudar de mãos.

Com a aprovação da reeleição sem limites, em 2009, pretendeu- se assegurar a perpetuação do próprio Chávez até o longínquo ano de 2030. Hoje não existe mais quem personificava, num só e mesmo homem, o comando do Estado, das Forças Armadas, do governo e do partido. Mas a regra de ouro continua de pé. E não será modificada por livre iniciativa do chavismo, por maiores que sejam os seus conflitos internos.

A partir de 2004,quando Chávez iniciou o expurgo das Forças Armadas e da PDVSA (a estatal venezuelana de petróleo) e a submissão do Poder Judiciário, o país começou a descer a ladeira do autoritarismo.De lá para cá,o Judiciário tornou-se um apêndice do Poder Executivo. Não só a Corte Suprema,mas também os tribunais inferiores. Para que não pairasse dúvida sobre o destino dos insubmissos, em 2009 o presidente venezuelano mandou prender uma juíza que concedeu livramento condicional a um banqueiro desafeto do chavismo. A maioria chavista na Assembleia Nacional delegou poderes excepcionais ao presidente para que ele, por diversas vezes, decidisse matérias cruciais por decreto. Quanto essa maioria se viu ameaçada,Chávez mudou o sistema eleitoral.

Com a retomada da concessão da RCTV, em 2007,uma única emissora de televisão aberta não alinhada ao governo permaneceu em operação e agora, por falta de garantias, está sendo vendida a um amigo do regime. Para intimidar a imprensa, em 2010 a Assembleia Nacional estabeleceu punições aos veículos que "transmitam mensagens que possam causar desas sossego à cidadania ou perturbação à ordem pública".No mesmo ano, para asfixiar a sociedade civil, aprovou a Lei de Defesa da Soberania Política e Auto determinação Nacional, que prevê a prisão, por até 15 anos, de dirigentes de ONGs que tenham recebido recursos do exterior. Desde 2008 faz parte das Forças Armadas do país, e responde diretamente ao presidente da República, uma milícia armada com fuzis de assalto, constituída por mais de 100 mil homens.

O regime chavista não é uma democracia populista. É um fenômeno mais virulento, que bebe em várias fontes, nenhuma delas democrática: o caudilhismo militar nacionalista, presente no culto a Simón Bolívar, na retórica anti americana e no personalismo de Chávez como chefe político-militar da nação; o populismo protofascista do primeiro peronismo, com a intensa propaganda estatal das qualidades excepcionais do líder e o cerceamento da liberdade de imprensa; o socialismo cubano, que forneceu a Chávez não apenas um ponto de referência ideológico, mas experiência prática e pessoal de apoio para combinar políticas sociais com controle político.

Todas essas tradições do pensamento e da ação política compartilham um antagonismo radical ao liberalismo político, que consideram não uma conquista civilizatória, uma condição indispensável, embora não suficiente, da democracia contemporânea, mas uma enfermidade que debilita a nação e o Estado e/ou um ardil burguês para manter a dominação de classes. Enxergam nos adversários inimigos a destruir ou inabilitar. Na linguagem do chavismo, essa visão aparece sob a forma do insulto. Chávez chamou Henrique Capriles de "fascista", "porco", "vende-pátria" nas eleições de outubro passado.Na mesma toada, Nicolás Maduro começou a atual campanha fazendo comentários homofóbicos a respeito do candidato da oposição.

O discurso oficial insiste em dizer que a oposição nada mais é que um entulho histórico (a velha oligarquia). Mentira. Estão na oposição homens como Luís Manuel Miquilena, comunista histórico que rompeu com Chávez, Teodoro Petkoff, antigo guerrilheiro convertido à social democracia, o general Raúl Baduel, que Chávez pôs na prisão quando passou a criticá-lo,Henrique Capriles, governador eleito de Miranda, de 42 anos, novamente candidato, que vem dando grande demonstração de coragem pessoal e política, além de milhões de venezuelanos - uns mais,outros menos conhecidos - que não se agacham ante o rolo compressor do chavismo.

Este será uma no especialmente perigoso na Venezuela. O Brasil deve atuar - com habilidade, mas com clareza - em favor da progressiva recomposição das condições de convivência e diálogo entre as forças políticas no país vizinho. Brasília ajudou a trazer a Venezuela para o Mercosul. Apesar de enfraquecida, a "cláusula democrática" continua vigente no bloco. As ressalvas que a presidente Dilma Rousseff fez na manifestação de pesar pela morte de Chávez precisam ganhar forma concreta. Está na hora de o governo venezuelano saber que o Brasil espera mais democracia na Venezuela. E não apenas mais negócios.

LULA LOBISTA - VERGONHA NACIONAL



Lula lobista – “É indecoroso”, diz Aloysio Nunes

A oposição acusou ontem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de misturar interesses nacionais e empresariais ao viajar ao exterior bancado por empreiteiras. “Se ele quer fazer lobby, que receba honorários para isso. Feito por baixo dos panos é indecoroso. O problema é confundir o interesse de uma empresa com os interesses do país”, disse o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP).
(…)
O presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), cobrou explicações de Lula sobre as viagens. “O Brasil aguarda que o ex-presidente revele qual a remuneração que recebeu para fazer lobby em favor de empreiteiras brasileiras. No Brasil, essas empresas de construção pesada costumam ter centenas de contratos com o governo federal, e este, por sua vez, financia algumas delas em projetos no exterior.” Para o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), “fica a impressão de benefícios governamentais retribuídos com vantagens posteriores ao mandato. É importante que o ex-presidente esclareça isso”

sexta-feira, 22 de março de 2013

EDUARDO E SERRA


Muitos estão criticando o encontro de Eduardo Campos com José Serra, o último candidato derrotado pelo petismo com Dilma. A arte da política é conversar, e Serra é um dos homens mais sérios deste país. Foi ministro da saúde no governo Fernando Henrique, e fez uma administração primorosa, ainda digna de elogios. Se tivéssemos ministros como ele, pelo menos na saúde tínhamos avançado muito mais. Quem duvida? Aliás, quando secretário do governo Montoro, quando nem se falava em ajuste fiscal, ele deixou, como secretário da fazenda, um estado praticamente sem dívidas, enxuto, para depois Quércia e Fleury, quase quebrarem o estado de São Paulo. Foi prefeito e governador de São Paulo, com exitosas administrações, e se apresenta como um autêntico social-democrata, desde quando foi exilado no Chile na época da ditadura. Quando exilado, aprofundaria os estudos, destacando-se como um economista de primeira. 
Eduardo, disse muito propriamente, que Serra, apesar de sempre estar na oposição ao petismo, sempre se mostrou, ideologicamente falando, mais perto dele, do que muitos da base aliada do governo. Lógico, pois a base aliada cabe tudo, de Renan Calheiros e Sarney ao pessoal ladrão do PC do B, os maoístas remanescentes. Serra é hoje hostilizado pelo mídia e até pelo PSDB, neste país de memória curta e burra como o Brasil. 
Serra pode se filiar ao PPS num projeto envolvendo Eduardo. Roberto Freire, que muitos imbecis da troglodita esquerda estadual, sobretudo os larápios do PT, consideram como um traidor, está fazendo a ponte entre Serra e Eduardo. É também uma grande figura da que poderíamos chamar esquerda social-democrata. Eduardo , Marina, Aécio Neves, juntos podem provocar um segundo turno nas eleições, e mesmo se as oposições perderem, projetar uma real e efetiva oposição ao petismo. 
Os petistas rosnam, com Lula articulando o que pode para minar a candidatura Eduardo. Que é a que está mais crescendo, tornando-a visível, o que mostra a competência do mesmo, passando de quatro para seis por cento. Eduardo está fazendo política. E é isto o que o Brasil precisa para livrar-se desta corja de assaltantes que tomou conta do país, com o maior estelionato eleitoral da história,  se apossando dos programas de Fernando Henrique, que tanto e tão inconsequentemente combateram no passado recente. Onde a mentira institucionalizada pela propaganda massiva, tenta convencer os brasileiros de que realmente são os responsáveis pelo mesmo tênue crescimento e inclusão social verificada nestes últimos vinte anos. Aliás, o crescimento deu-se pela pequena abertura proporcionada pela social-democracia brasileira ao capitalismo. 

UMA PERGUNTA

Se fosse na ditadura militar, mesmo bem depois na dita branda como governo do finado general Figueiredo, o mesmo dissesse que, por decreto, tinha acabado com a pobreza, a gozação e as críticas seriam generalizadas. Imaginem a turma do antigo Pasquim, e os grandes cartunistas nacionais, fazendo a festa. Os políticos da oposição fariam a festa, coim muita zoada, e ironias. Pois é: Dilma disse alto e bom som que segundo sua avaliação, ao pagar setenta contos para cada pessoa pobre, o Brasil teria acabado com a pobreza. E ainda falam que a imprensa é golpista. Esta turma de stalinistas precisam mesmo é de uma boa oposição. De verdade, como aliás eram os petistas no passado recente. Pau neles.  

ARTIGO - MARCO ANTONIO VILLA

‘O mito da presidente workaholic’, um artigo de Marco Antonio Villa PUBLICADO NO GLOBO DESTA TERÇA-FEIRA MARCO ANTONIO VILLA Ao longo dos últimos dois anos, os propagandistas de Dilma Rousseff construíram vários figurinos, todos fracassados pela dura realidade dos fatos. O último foi o da presidente workaholic. Trabalharia diuturnamente, seria superexigente, realizaria constantes reuniões com os ministros, analisaria detidamente os projetos e cobraria impiedosamente resultados. Porém, os dados oficiais da sua agenda, disponibilizados na internet, provam justamente o contrário. Em agosto despachou com 17 ministros. Um terço deles, apenas uma vez (como Aldo Rebelo e Celso Amorim). Deu preferência a Paulo Sérgio Passos, Gleisi Hoffman e especialmente a Guido Mantega, recebido 9 vezes. Se a a maioria deles não teve um minuto de atenção da presidente, o mesmo não se aplica a Rui Falcão, presidente do PT, e até ao presidente da UNE, Daniel Iliescu, que foram ouvidos a 9 e 22 de agosto, respectivamente. Dilma pouco se deslocou de Brasília. Numa delas foi a São Paulo, no dia 6. Saiu às 11h30m direto para o escritório da Presidência da República na capital paulista, à época ainda sob a responsabilidade de Rosemary Noronha. Dilma foi se encontrar com Lula. Passaram horas discutindo política. Às 18h40m, retornou a Brasília. Foi a única atividade do dia. Em setembro recebeu 14 ministros. Os mais assíduos foram os que despacham no Palácio do Planalto (Miriam Belchior, Gleisi Hoffman e Ideli Salvatti; as duas últimas, quatro vezes, e a primeira, três) e Aldo Rebelo (Esportes), três vezes. Uma sequência de 12 dias com pouquíssima atividade chama a atenção. No dia 5 recebeu um ministro (Edison Lobão) às 9h e não há mais qualquer registro. No dia seguinte trabalhou das 10h às 12h. E só. No feriado compareceu ao tradicional desfile. Na segunda-feira, dia 10, só registrou duas audiências, uma às 10h e outra às 15h. Dois dias depois, foi uma espécie de “quarta maluca”. A presidente teve apenas dois compromissos e nenhum administrativo: às 15h, recebeu o presidente do PCdoB, “o partido do socialismo”, Renato Rabelo, e uma hora depois, mostrando o amplo arco de apoio do governo ─ e haja arco! ─, o megaempresário Jorge Gerdau. E mais nada. No dia seguinte compareceu à posse de um ministro e ao lançamento de um programa de incentivo do esporte de alto rendimento. Na sexta-feira (14), anotou na agenda às 10h um despacho interno e rumou, no início da tarde, para Porto Alegre, onde permaneceu o fim de semana e a segunda-feira ─ neste dia visitando dois estaleiros. Nada mudou em outubro. Despachou com 19 ministros. Fez uma breve viagem ao Peru, visitou São Luís e São Paulo (duas vezes: uma delas novamente ao escritório da Presidência da República e para mais um encontro com Lula). Se muitos ministros, em três meses, não foram recebidos pela presidente, o mesmo não ocorreu com Renato Rabelo. O presidente do PCdoB teve mais uma audiência, a segunda em dois meses. Dilma teve tempo para ouvir Fernando Haddad, prefeito eleito de São Paulo, no dia 29, e, dois dias depois, o de Goiânia. Ambos do PT. Curiosamente a agenda não registrou ─ caso único ─ onde a presidente esteve nos dias 27 e 28, fim de semana. Dilma manteve em novembro sua estranha rotina de trabalho. Recebeu 15 ministros. Dois pela primeira vez, nos últimos 4 meses: Paulo Bernardo e Antonio Patriota. Concedeu duas audiências a prefeitos eleitos: de Niterói, Rodrigo Neves, do PT; e Curitiba, Gustavo Fruet, do PDT e apoiado pelo PT. Fez uma longa viagem à Espanha e uma breve à Argentina. Mas três dias se destacam pelas curiosas prioridades: 21, 22 e 23. Na quarta-feira (21), a presidente não recebeu nenhum ministro e não efetuou qualquer despacho administrativo. Dedicou o dia a José Sarney, Gim Argello, Eduardo Braga e ao seu vice-presidente, Michel Temer. Como ninguém é de ferro, à noite assistiu o filme “O palhaço”. No dia seguinte, a agenda registrou três compromissos, um só com ministro (o dos Portos), a posse do presidente e vice-presidente do STF e um encontro com a apresentadora Regina Casé. E na sexta-feira? Somente duas audiências e no período da tarde. Dilma incorporou o péssimo hábito de que o mês de dezembro é “de festas”. Fez duas viagens ao exterior (França e Rússia) e despachou com apenas 9 ministros. Antecipou o réveillon para o dia 28, suspendendo as atividades por 13 dias, até 9 de janeiro. Iniciou o novo ano com a mesma disposição do anterior: pouquíssimos despachos, audiências ou reuniões de trabalho. Em janeiro, despachou com 11 ministros. Lobão foi o recordista: quatro vezes. E, por incrível que pareça, e sempre de acordo com a agenda oficial, concedeu pela primeira vez em um semestre uma audiência para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Melhor sorte teve o ex-jornalista Franklin Martins: esteve duas vezes, em apenas quatro meses, com Dilma. Nesse semestre (agosto de 2012/janeiro de 2013), nove ministros ─ cerca de um quarto do ministério ─ nunca foram recebidos pela presidente: Marcelo Crivella, Aguinaldo Ribeiro, Garibaldi Alves Filho, Brizola Neto, Gastão Vieira, Maria do Rosário, Eleonora Menicucci, José Elito e Alexandre Tombini (presidente do Banco Central, mas com status de ministro). Outros não mais que uma vez. Uma reunião entre a presidente e alguns ministros de áreas correlatas nunca foi realizada. Em alguns dias (como a 16 de janeiro), não concedeu nenhuma audiência e nem efetuou despachos internos. Pior ocorreu duas semanas depois, a 30 de janeiro, uma quarta-feira: está sem nenhum compromisso. É uma agenda de uma workaholic?

AS REDAÇÕES DO ENEM - EDITORIAL DO ESTADÃO

‘As redações do Enem’, editorial do Estadão PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA Depois de examinar mais de 30 textos enviados por candidatos que atingiram a pontuação máxima no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), acompanhados da confirmação, pelas universidades federais, de que foram aprovados no vestibular deste ano, o jornal O Globo constatou que muitas redações continham erros de grafia ─ como “rasoável”, “enchergar” e “trousse” ─ e graves erros também de concordância, acentuação e pontuação. Embora tenham recebido a nota 1.000, no Enem de 2012, essas redações não atenderam às exigências da primeira das cinco competências avaliadas pelos corretores, que exige dos estudantes demonstração do “domínio da norma padrão na língua escrita”. Numa das redações ─ que não recebeu a pontuação máxima, mas obteve nota alta ─ o estudante despreza o tema ─ “movimentos imigratórios para o Brasil no século 21″ — e descreve como preparar um miojo. Cada competência tem a pontuação máxima de 200 pontos. Como informa o Guia do Participante, distribuído pelo MEC, os 200 pontos relativos à primeira competência só podem ser concedidos aos alunos que apresentarem “poucos desvios gramaticais leves”. Segundo o guia, “desvios mais graves excluem a redação da pontuação mais alta”. Ele é taxativo ao apontar, entre os “desvios gramaticais mais graves”, erros de grafia, de acentuação e de pontuação, como os que foram cometidos nas provas conferidas pelo jornal. Pelas regras do Enem, essas redações não poderiam receber a pontuação máxima. “A atribuição injusta do conceito máximo a quem não teve o mérito estimula a popularização do uso da língua portuguesa, impedindo os alunos de falar, ler e escrever reconhecendo suas variedades linguísticas. Além disso, provoca a formação de profissionais incapazes de se comunicar, em níveis profissional e pessoal, e de decodificar o próprio sistema da língua portuguesa”, diz Jerônimo Moraes Neto, professor de Linguística Aplicada na UFRJ e na Uerj. “Na vida real, redações como essas jamais tirariam nota máxima, pois contêm erros que a sociedade não aceita. Afinal, pareceres, relatórios, artigos científicos, livros e matérias de jornal que contiverem esses desvios colocarão em risco o emprego de revisores, pesquisadores e jornalistas”, afirma o titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Uerj, Cláudio Henriques. Criticando os modismos pedagógicos, ele lembra que os corretores dos textos do Enem não utilizam a palavra erro, trocada por desvio ─ que seria mais politicamente correta. “A demagogia política anda de braço dado com a demagogia linguística”, adverte. Há dois anos, a imprensa noticiou que o MEC distribuía, por meio do Programa Nacional de Livros Didáticos, obras que toleram ─ e até justificam ─ erros gramaticais. O livro mais polêmico considerava correta, por exemplo, a frase “nós pega o peixe”. Justificando a distribuição desse livro, as autoridades educacionais disseram, na época, que é preciso aceitar a fala que “o aluno traz de sua comunidade” e que “a cultura dele é tão válida quanto qualquer outra”. No caso dos textos do Enem que receberam pontuação máxima, apesar de estarem repletos de erros gramaticais, elas alegam que a correção de um texto é feita “como um todo”. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais afirma que “a tolerância deve-se à consideração de ser o participante do Enem, por definição, um egresso do ensino médio, ainda em processo de letramento na transição para o nível superior”. Segundo a nota, “um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”. Esses argumentos são absurdos. Como admitir que vestibulandos ainda não saibam redigir um simples texto, por se encontrarem num “processo de letramento em transição”? E como aceitar que alguém que tenha “excelente domínio das estruturas da língua portuguesa” cometa erros gramaticais primários? As autoridades se esquecem de que, se continuarem sendo lenientes com deformações da língua portuguesa, o ensino formal não tem mais sentido. Se elas continuarem tolerando erros gramaticais primários, para que serve, então, a escola?

quinta-feira, 21 de março de 2013

DESCALABRO NO ENEM

Redação do Enem: corretora denuncia pressão para mascarar resultados e falta de critério da seleção de mão de obra Leiam o que publicou ontem o site do jornal gaúcho Zero Hora. Volto depois. Em meio à polêmica sobre a correção das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), na qual redações com receita de miojo e trechos de hinos de futebol receberam notas acima dos 50% da pontuação possível, uma das avaliadoras fez revelações que demonstram a precariedade do sistema de correção. Em entrevista ao programa Gaúcha Repórter na tarde desta quarta-feira, uma professora de língua portuguesa, cuja identidade foi preservada em função de um contrato de sigilo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), afirmou que não ficou surpresa com as notas dadas às redações: “Somos orientados a não ser rigorosos na correção”. A explicação dos coordenadores do Enem, fornecida aos avaliadores em uma reunião, é que, se houvesse um rigor maior, a reprovação seria muito alta, e muitos alunos não atingiriam a nota mínima. A professora afirmou que todos os avaliadores foram orientados a não zerar os textos e a fazer todos os esforços para manter a redação dentro das notas mínimas. Os que não cumprissem com isso, poderiam ser excluídos do processo de correção: “Dentro do que foi possível, fui o mais criteriosa possível nas redações que avaliei, mas tive meu sistema bloqueado. Essa era a ameaça”. Quando questionada sobre o processo de seleção dos avaliadores, a professora afirmou que o mesmo foi feito sem muito rigor. Ela foi chamada por uma amiga, que já fazia parte de uma das equipes de correção, e não passou por nenhum tipo de prova antes de integrar o grupo. A partir daí, passou por uma capacitação online que durou cinco semanas. Houve somente um encontro presencial entre todos os avaliadores, cerca de um mês antes do início das correções. Nessa oportunidade, a professora e seus colegas fizeram uma manifestação para questionar as orientações que lhes haviam sido passadas. “Foi esclarecido que os critérios já tinham sido estabelecidos pela equipe do Cespe/UnB, que é responsável pela prova, e que não cabia a nós questionar. Tínhamos que cumprir o que estava sendo orientado”, comentou. Indignada com o processo, a professora explicou que cada avaliador é obrigado a ler e a dar nota a 3 mil redações em um período de um mês, quantidade considerada excessiva por ela: “Como professora, acho que a revolta principal é por tu tentares desenvolver um trabalho sério, desenvolver as competências linguísticas, e depois ver que a avaliação não é séria, que os critérios não são rigorosos. Somos orientados, inclusive, a não penalizar o uso de emigrante no lugar de imigrante”, desabafou. Voltei O áudio com a entrevista está aqui. Já tinha ouvido testemunhos semelhantes de outros corretores. Esta se dispôs a falar. Todos os vícios estão aí: orientação para mascarar a realidade da educação no país; improvisação na escolha de mão de obra, falta de rigor técnico da definição dos critérios de correção… O processo parece seguir o mesmo rigor metodológico da tese de doutorado que Aloizio Mercadante defendeu na Unicamp. Reitere-se: a prova de redação vale 50% do Enem. Tem, portanto, um peso decisivo na definição de quem entra e de quem não entra nos cursos oferecidos pelas universidades federais. Nesse ambiente, a competência do aluno conta muito menos do que o arbítrio de um corretor. Por Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 20 de março de 2013

EDUARDO AFINA DISCURSO



Ao fazer críticas ao funcionamento do governo, e a leniência e não fazer a reforma tributária, Eduardo , aos poucos tenta montar o seu discurso. É difícil, pois Eduardo ocupa o mesmo espaço político e ideológico de Dilma Lula e o PT. Ou seja, uma estranha socialdemocracia não declarada, ou ainda travestida de um discurso tropegamente revolucionário, digamos assim, que é o palavratório de fundo clamando o socialismo, que ninguém mais sabe o que é. Aliás, desde o último mandato de Getúlio Vargas, que temos uma digamos, confluência de idéias da esquerda com a direita nacionalista. Nos governos militares, estes , com exceção de Castelo Branco, foram nacionalistas estatizantes. O anticomunismo dos milicos se resumia à que eles não se conformavam com a submissão dos comunas a nenhuma potência estrangeira, no caso a extinta União Soviética. Porém tento  a esquerda como a direita nativa eram e são positivistas. Muitos comunistas, neste sentido, trabalharam em estatais em plena ditadura. Como inúmeros não ameaçavam concretamente o sistema, eram cooptados, mesmo que ideologicamente permanecessem comunistas.
O interessante é que, as oposições à ditadura militar, eram, ou queriam ser, mais nacionalistas do que os próprios milicos, cujo principal exponente foi Geisel, o campeão das chamadas substituições de importações, via criação de estatais. Chamavam Geisel de entreguista, uma verdadeira piada. Creio que Geisel foi mais estatista do que o finado Brizola, e boa parte das esquerdas juntas. 
Veio a redemocratização, e fizeram uma constituição mais nacionalista ainda, além de oferecer muitos direitos iverossímeis. Sarney num dos seus pequenos laivos de sinceridade, disse certa vez que com a nova constituição, o país tonara-se praticamente ingovernável. E a nossa constituição foi escrita um ano antes da queda do muro de Berlin, que foi em 1989. Enquanto o mundo assistia o final da estatocracia soviética e seus satélites, no Brasil se afirmava a institucionalização do nacionalismo estatizante. Foi preciso outro social democrata, Fernando Henrique, partir para as reformas da mesma constituição, visando não só enfrentar as corporações  estatais, bem como para abrir o país, pelo menos um pouquinho. Esta pequena abertura, foi responsável pelo crescimento e uma tênue inclusão social, até os dois governos Lula, que gozou dos benefícios eleitorais das reformas que tanto combateu no passado recente.
Incapaz de defender um estado mais, digamos liberal, Eduardo e o PSDB, terão dificuldades de se diferenciar dos petistas, herdeiros desta tradição de união adas esquerdas com os nacionalistas, antes tidos como de direita. Aliás, a origem do fascismo foi o nacionalismo de direita. O próprio Arraes no estado de Pernambuco sempre fez esta ponte, a união das esquerdas urbanizadas, com os coronéis, nem tanto nacionalistas, mais fisiologistas isto sim , do interior. Foi Getúlio quem primeiro concebeu esta aliança entre o seu PTB, que cooptou os operários da nascente industrialização nacional, sobretudo no período entre guerras, munindo-se sempre ao conservador , agrário e coronelista PSD, forte no interior. Ou seja, desde Getúlio, que os liberais não tiveram vez no Brasil. Ainda falam baboseiras, chamando os milicos, ou mesmo Fernando Henrique de "neoliberais". O Último presidente que ganhou as eleições com um discurso liberalizante foi Collor. Quando assumiu, meteu a mão na poupança do povo, numa das mais descaradas intervenções estatais nas vidas dos cidadãos em toda a história. E seu governo deu no que deu, mergulhado em corrupção. Nem tanto como a do PT claro, mas o detalhe é que naquela época o PT era oposição.
Se a economia piorar, e muito, todos terão chance. Porém se nada acontecer, teremos mais um governo conservador e nacionalista, para atrapalhar o capitalismo,  a liberdade e abertura econômica no país. Afinal, não temos nenhum partido, ou político liberal com forças , o que é uma grande falta. Se bem que ninguém leva o discurso socialista à sério. Vai vigorar a demagogia governista do "governo dos pobres", contra o dos ricos, da oposição. Ridículo. Por essas e outras, estamos onde estamos. 
De qualquer forma, falta tempo para as eleições. Até lá, muita coisa pode acontecer, inclusive nada, claro. Se Eduardo, junto com Marina e Aécio forem candidatos, teremos segundo turno. Se não, e se nada de grave acontecer, Dilma pode ser eleita no primeiro. Como ela e o PT não tem projeto para o país, vão desmontar o que Fernando Henrique começou a construir. Ruim para o país, mas bom para a política, com o povo desiludido com essa turma. Aguardemos os acontecimentos.

ARTIGO - HELIO GASPARI



Enviado por Ricardo Noblat - 
20.3.2013
 | 7h58m
RELIGIÃO

A faxina do Papa Francisco

Elio Gaspari, O Globo
O Papa Francisco assumiu três reinados. Um, espiritual, alcança 1,2 bilhão de pessoas. Outro relaciona-se com a estrutura mundial da Igreja, com cerca de 3 mil bispos e um milhão de padres e religiosas. Finalmente, vem o Vaticano, com a Cúria Romana.
Certa vez perguntaram a João XXIII quantas pessoas trabalhavam na Cúria e ele disse: “A metade.” São 3 mil pessoas, respondendo a uma dezena de cardeais, e a centenas de monsenhores. Apesar da pompa e da fama, a receita da Cúria Romana (cerca de R$ 700 milhões) é menor que a da prefeitura de Nova Iguaçu (R$ 1,1 bilhão). Ela tem um braço financeiro no Banco do Vaticano, cujo ativo (R$ 16 bilhões) o coloca como um tamborete diante do Itaú (R$ 1 trilhão). Sua força está no poder que irradia.
Os papas mantêm imperial distância em relação a esses negócios, delegando-os a colaboradores próximos. Ao tempo de João Paulo II, o monsenhor poderoso na Cúria era seu secretário, Stanislas Dziwisz, atual arcebispo de Cracóvia. Com Bento XVI, veio o monsenhor Georg Ganswein, apelidado de “George Clooney do Vaticano”. Em torno do Papa circulam questões espirituais e iniciativas diplomáticas, mas frequentemente ele se vê atropelado por roubalheiras e intrigas municipais numa corte onde o poder dos cardeais vem de conexões típicas da política italiana, a do “bunga-bunga” Berlusconi.
Pela essência espiritual da Igreja Católica e pelo caráter absolutista de sua monarquia, tudo o que acontece no mundo acaba naquilo que se costuma considerar a “crise da Igreja”. Se o arcebispo de Boston ou de alguma diocese brasileira protegia pedófilos, o malfeito vai para a conta dessa crise.
Se o contínuo do prefeito de Nova Iguaçu furtar papéis de sua mesa, isso talvez não chegue a ser notícia sequer nos jornais do Rio de Janeiro. Quando o mordomo de Bento XVI varejou sua mesa, o que apareceu de mais estarrecedor foram as queixas do monsenhor Carlo Maria Viganó, secretário-geral da administração da Santa Sé. Por trás da campanha contra o padre estava o dedo do secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone.
Pela qualidade e pelo montante envolvido, a irregularidade era um amendoim se comparada ao escândalo dos Legionários de Cristo, do padre Marcial Maciel, quindim da plutocracia mexicana e de cardeais sobre os quais aspergia doações, um pedófilo promíscuo, que deixou seis filhos. Sua punição por Bento XVI foi severa, mas poderia também ter sido exemplar se tivesse exposto o exemplo, expondo suas relações em Roma. Bolas como essa estão quicando para o Papa Francisco chutar.
Os cardeais italianos que vivem na política da Santa Sé são constrangedoramente municipais. Angelo Sodano, o poderoso secretário de Estado de João Paulo II, levou um ano para desocupar o gabinete quando Bento XVI substituiu-o por Bertone que, por sua vez, não fazia seu serviço. Os chefes da segurança do Pontífice movem-se com um desembaraço sem similar nas democracias europeias.
As tramas e os interesses materiais da Cúria são chinfrins. Superfaturaram até um presépio da praça de São Pedro. Estendem-se sobre obras, eventos, verbas hospitalares, orçamentos de escolas, viagens, mordomias e proteções. Para limpar Roma basta jogar detergente.

Elio Gaspari é jornalista

terça-feira, 19 de março de 2013

ARTIGO - RODRIGO CONSTANTINO



De volta ao passado

Rodrigo Constantito, O Globo
Acelerei a minha máquina do tempo DeLorean e regressei aos anos 80. Às vezes, precisamos mergulhar no passado para prever o futuro.
Um senhor bigodudo era o presidente. Vi na televisão o anúncio de um novo plano econômico, chamado “Cruzado”. Entre as principais medidas, estava o congelamento de preços e da taxa de câmbio. Maria da Conceição Tavares, assessora do Ministério do Planejamento, chorou de emoção diante das câmeras da TV Globo. Literalmente.
A euforia era contagiante. Muitos pensavam que um novo Brasil estava sendo construído, mais justo e mais próspero. Mas a realidade...
Essa ingrata não permite que as leis econômicas se submetam aos caprichos políticos. O congelamento de preços levou à escassez, e nas prateleiras começaram a faltar produtos. O que fazer?
Claro que a culpa só podia ser da ganância dos empresários, esses insensíveis que só querem lucrar. Mas o homem do bigode tinha a solução: caçar bois no pasto! Afinal de contas, não podemos deixar faltar carne no açougue. Há estabelecimentos desrespeitando o preço tabelado? Simples: fiscais do governo para controlar esses perversos!
Alguns economistas coçavam a cabeça, perplexos. Eles sabiam que nada daquilo funcionaria. Não se ignora as leis econômicas impunemente.
Não eram os “desenvolvimentistas” da Unicamp, os mercantilistas ou os adeptos da “teoria da dependência”. Esses tinham receitas parecidas, pensando que o governo é uma espécie de sábio clarividente que pode simplesmente decretar o progresso da nação.
Mas o importante é constatar que havia lucidez em meio a tanta euforia irracional. Infelizmente, tal como Cassandra, seus alertas eram ignorados. A turma estava empolgada demais com o futuro prometido, com a sensação de esperança. Apontar que o rei está nu é estragar a festa de muita gente míope e embriagada.
Após essa experiência nostálgica, retornei ao presente. Liguei a TV e vi que o bigodudo ainda estava lá, com tanto ou mais poder concentrado nele. Vi também que aquela mesma economista com sotaque de Portugal era extremamente respeitada e vista como uma mentora pela própria presidente. “Memória curta dessa gente”, pensei.
Depois notei que nossa taxa de câmbio praticamente não oscila mais, e que a inflação fica acima da meta o tempo todo, mesmo com crescimento pífio da economia. Mas o Banco Central nada faz, preferindo manter a taxa de juros reduzida, claramente por razões eleitoreiras.
Em seguida, vi o ministro Guido Mantega avisando que iria fiscalizar se as desonerações fiscais eram mesmo repassadas para o preço final. Déjà Vu! Tive calafrios na espinha.
Quer dizer que o próprio governo faz de tudo para despertar o dragão inflacionário, estimulando o crédito público, criando barreiras protecionistas, aumentando gastos, reduzindo artificialmente os juros, e depois pensa que vai segurar a inflação com fiscalização?
Qual será o próximo passo? Recriar a Sunab? Fazer uma campanha difamatória contra os empresários? Criar os “fiscais da Dilma”, usando senhoras com tabelas nos mercados? Manipular os índices oficiais de inflação?
É uma visão assustadora, um flashback de um filme de quinta categoria que já conhecemos e sabemos como termina.
Quem não tem idade suficiente ou não tem boa memória, basta olhar para o lado e ver o presente da Argentina. O novo Papa pode ser argentino, mas sem dúvida Deus não o é, caso contrário não permitira que o casal K ficasse tanto tempo no poder causando esse estrago todo.
Mas, pelo andar da carruagem, não poderemos zombar dos “hermanos” por muito mais tempo. O governo petista tem feito de tudo para alcançar as trapalhadas deles. E não adianta culpar fatores exógenos, pois dessa vez não vai colar. O Peru, a Colômbia e o Chile, com modelos diferentes e mais liberais, crescem muito mais com bem menos inflação. Nossos males são “made in Brazil”, fruto da incompetência da equipe econômica e da própria presidente.
Finalmente, liguei o rádio e ouvi um ex-ministro tucano endossando a ideia de que era, sim, preciso fiscalizar os donos dos estabelecimentos, para não permitir aumentos de preços. Depois vi que o PSDB fazia uma campanha não pela privatização, mas pela “reestatização” da Petrobras, quase destruída pelo PT.
Quando lembrei que essa é a nossa “oposição” a este modelo terrível que está aí, peguei minha DeLorean e ajustei a data para 2030, na esperança de que lá teremos opções realmente liberais contra essa hegemonia de esquerda predominante no Brasil atual.

Rodrigo Constantino é economist

ARTIGO - LUCINHA PEIXOTO


terça-feira, 19 de março de 2013

HABEMUS PAPAM. Algumas reflexões




Como todos sabem eu sou fã do Papa Chico e não é só porque ele é O Papa da vez. Eu simplesmente penso que, se ele está neste posto é porque houve interferência divina para que isto acontecesse. Um motivo maior que me leva a ampliar meu grau de admiração foi sua postura conservadora em relação à pureza da fé, que ele demonstrou em suas opiniões iniciais.

Ao mesmo tempo tenho que ser franca e dizer que nem sempre concordei com as opiniões de todos os papas em todos os tempos. Para que se entenda isto temos que ver nossa Igreja apenas como representante de Cristo na terra e não como o próprio Cristo. E que ela é feita por homens e pela sua fé. Não acredito no dizer bíblico de que não acontece nada na face da terra que não seja pelos desígnios de Deus, a não ser como um ato de fé. E, em alguns momentos de nossa Igreja, penso que não foram os desígnios de Deus que levaram a Igreja a atuar.

Os católicos ovelhas sempre me criticaram por essa minha atitude, mas, jamais me argumentaram solidamente sobre seus pontos de vista. O que chamo de pureza da fé, e talvez também o Papa Chico, é manter a separação entre as coisas da Igreja e do Estado em termos de doutrinas e teorias políticas. Jamais, modernamente, proporia uma Cruzada contra o Islã, mesmo sabendo que eles não são tão gentis em relação a nós. Talvez venha das Cruzadas o germe da guerra das épocas modernas.

Admitir, com Jesus, que pobres sempre existirão na face da terra, não implica que tenhamos que a abandoná-los à sua própria sorte, mas também sou contra a ideia de extingui-los, a não ser que sua extinção nos permita viver como seres humanos, até dentro de nossas diferenças. Dizer que homens podem nascer pobres e morrer pobres dentro de nossa sociedade, é apenas admitir que somos diferentes e estas diferenças serão mantidas, enquanto formos seres humanos. O que nos resta é, através de nossa ação de misericórdia, a qual abrange a caridade, fazer com que todos tenhamos a melhor vida possível na face da terra, e que não seja pela violência cometida contra aqueles que de forma cristã puderam ter mais posses do que nós, de forma moral e ética.

Como estou nesta veia religioso/político/filosófica devo acrescentar que tudo dito pelo Papa Chico até agora foi no sentido de que dentro de nossa fé, ajudemos aos mais pobres e também aos não pobres a viverem bem neste mundo, dentro dos princípios cristãos. E daí sua indisposição com o atual governo argentino que, da mesma forma que as esquerdas latino americanas querem ferir o capitalismo de morte, apenas porque nele alguns podem prosperar mais do que outros, e nem todos devem serem miseráveis.

Sua não disposição de não incentivar os católicos que pertencem à “esquerda caviar” e querem implantar a luta de classes desde que seu whisky não seja racionado, e manter viva a fé e a caridade como princípios cristãos legítimos, além da procura de riqueza materiais que é tão legítima quanto outras atitudes ações humanas, já estão provocando uma onda de boatos infames contra ele em relação a suas atitudes na argentina. E isto é bom, porque é sintomático de que eles, que já vem perdendo os Boffs da vida, agora vão ter que viver mais tempo sem os “padres de passeata”.

Dom Hélder não faria melhor se fosse papa. Escolheria naturalmente o nome de Severino. E eu nem me importaria de que ele fosse chamado o Papa Biu. Quem sabem teremos uma Revolução dentro da Paz?

Tenho certeza, isto só encherá mais as nossas igrejas e nossas obras de caridade voltarão a ser uma verdadeira proteção para o pobre, sem a ideia de eles estão em extinção, porque agora há o Bolsa Família. E estes pobres não servirão de massa de manobra para manter certos governos que deles se aproveitam para ficarem ricos e falarem mal dos ricos às custas dos pobres.

Hoje os padres, que já começaram a fazê-lo, voltarão às suas igrejas, não para se esquecerem das funções sociais que no Igreja podem praticar, mas, para dizer que o único jeito de se sair da pobreza é procurar trabalhar e ser o mais produtivo que se possa ser. E quanto mais for produtivo o seu trabalho, menos será o custo para que isto seja alcançado, com a ajuda de Deus.

Não podemos fazer uma reflexão como esta sem falar de alguma coisa que envolve tudo isto, em sua parte mundana. Educação, conhecimento, informação estão em sua base, inclusive a educação religiosa, e seja ela de qualquer religião. No plano mundano, não há solução a curto prazo, a não ser para aqueles que querem ganhar as próximas eleições. No médio e longo praza, dotar as pessoas de educação é a solução para o homem neste mundo. No próximo prestaremos contas a Deus, e eu sei que tenho algum crédito com o orientador do Chico.