sábado, 26 de janeiro de 2019

'PT na crise venezuelana', por Ruy Fabiano


A tragédia venezuelana – hoje no epicentro de uma crise geopolítica mundial – tem as digitais do PT.
Não fosse o apoio explícito dado pelo partido, ao tempo em que presidia o Brasil – e dispunha de meios para sustentar política e financeiramente aquele aliado -, o regime não teria ido tão longe.
Além de subir nos palanques de Chavez e Maduro, Lula disponibilizou a ambos o esquema de propinas das empreiteiras, de que se valia internamente, para garantir sucessivas reeleições daqueles governantes – sem esquecer, claro, dos cofres do BNDES.
Hoje, o partido condena o gesto do governo Bolsonaro de não reconhecimento do novo mandato de Maduro, acusando-o de intromissão em assuntos internos do país. Mas foi exatamente isso que o PT mais fez ao longo de seus quatro mandatos na presidência.
A autodeterminação dos povos só é observada pelo partido quando se trata de defender aliados em situação adversa. A própria presidente do partido, Gleisi Hoffmann, não teve qualquer escrúpulo em pedir, na TV Al Jazeera, socorro aos árabes para libertar Lula.
José Dirceu e o comando petista ameaçaram reiteradamente recorrer (e o fizeram) às cortes internacionais para tentar evitar o impeachment de Dilma Roussef e a prisão de Lula. Fracassaram.
Não hesitaram também em ir à ONU obter de um sub-subcomitê de direitos humanos uma declaração, sem qualquer validade jurídica ou significação (já que se tratava de um órgão assessor, sem poder deliberativo), postulando que Lula, mesmo preso e condenado em segundo grau, fosse candidato a presidente.
Mas as digitais não são apenas do PT. Toda a esquerda a ele aliada – PcdoB, PSB, PDT, PSol – subscreveu esse apoio. O próprio Ciro Gomes, na campanha, sustentou que a Venezuela é democrática.
Não há, pois, exagero em afirmar que era aquele o rumo que o país tomaria se o PT tivesse vencido as eleições presidenciais.
Se aquele governo é democrático e o daqui ditatorial, como dizem os petistas, estamos diante de políticos que padecem, no mínimo, de disfunção cognitiva. Veem o mundo pelo avesso.
É o mesmo pessoal que diz que o Estado é laico, mas vai pedir ajuda ao Papa quando a barra pesa para seu lado.
O agravamento da crise venezuelana, agora em patamar mais explosivo, por envolver potências antagônicas, aprofundará o descrédito interno da esquerda, que paralelamente continuará a prestar contas à Lava Jato. Seu contencioso não se esgotou. Os sobreviventes terão de partir do zero e refundar-se.
Prevê-se um realinhamento partidário, ao tempo em que o país terá de lidar com uma agenda complexa e inadiável, que envolve reformas tais como a da Previdência, da legislação penal, do Estado e as privatizações. O ano político costuma começar depois do carnaval, mas desta feita o precedeu e prenuncia grande agitação.
Ruy Fabiano é jornalista

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Denis Lerrer Rosenfield*: Armas e direitos


- O Estado de S.Paulo

A ideia de que povo armado piora o índice de homicídios é falácia desarmamentista

Quem é contra o direito à legítima defesa? Não, certamente, a imensa maioria dos brasileiros que votaram no hoje presidente Jair Bolsonaro. Tiveram consciência da necessidade de resgate de um direito republicano que fora usurpado por sucessivos governos, com base em posições de esquerda e no politicamente correto. Saliente-se, aliás, que boa parte dos que são contra esse direito vive em condomínios com forte segurança e circula em carros blindados. É a elite, embora seu discurso seja supostamente antielitista!

O novo governo, em seu decreto, foi extremamente sensato, regrando objetivamente a posse de armas, deixando pouca margem para interpretações subjetivas ou politicamente corretas. Disciplinou a posse em domicílios e estabelecimentos comerciais de tal modo que cada pessoa possa ter quatro armas. Aliás, nem muito é, pois se uma família possuir duas ou três casas e igual número de negócios, sua cota já estará preenchida. Trata-se, diria, de um direito primeiro, o de a pessoa poder, em seus lugares próprios, usufruir sua vida, defendendo seu corpo, sua família e seu patrimônio.

Sem isso o cidadão fica claramente desprotegido, à mercê de qualquer ameaça. Quem se beneficia dessa situação são os bandidos, os criminosos, que podem invadir qualquer domicílio e estabelecimento sem medo algum. Meliantes têm “direito” à violência e à apropriação de corpos e bens alheios!

O Estatuto do Desarmamento cometeu a proeza de desarmar as pessoas de bem, deixando os criminosos à vontade, esses se armam a seu bel-prazer. Isso quando não são auxiliados por esses representantes do politicamente correto, que correm em seu apoio toda vez que são mortos, feridos ou presos. Quando um policial morre, silêncio absoluto; quando um criminoso sofre o mesmo destino, surge imediatamente uma imensa barulheira, como se seus supostos direitos não tivessem sido observados. É um mundo invertido!

Os politicamente corretos adoram estatísticas, sobretudo para triturá-las e enganar os incautos. O fracasso do Estatuto do Desarmamento é patente. Temos 15 anos de sua vigência e a taxa de homicídios ultrapassa 60 mil por ano. Mais do que o número de soldados americanos mortos no Vietnã! Falar que a nova política governamental vai piorar a situação soa risível!

A ideia de que povo armado piora o índice de homicídios é outra falácia desarmamentista. Segundo dados do site GunPolicy.Org, estima-se que existam entre 2 milhões e 3 milhões de armas de fogo em mãos civis na Suíça, cuja população é de pouco mais de 8 milhões de pessoas. Proporcionalmente, esse país é um dos cinco mais armados do mundo. Pois bem, em 2015 a Suíça registrou apenas 18 homicídios por arma de fogo.

No caso do Paraguai, país vizinho, os números são igualmente importantes. O país tem quase 7 milhões de pessoas e mais de 1 milhão de armas de fogo em mãos civis. Em 2014 o Paraguai registrou 318 mortes por armas de fogo. Proporcionalmente, há mais armas de fogo em mãos civis no Paraguai do que no Brasil, porém há muito mais mortes por armas de fogo no Brasil do que no Paraguai. A taxa de mortes por armas de fogo no Brasil foi de 21,2 por 100 mil em 2014; no Paraguai, 4,7 por 100 mil também em 2014. Interessante, não?

Os desarmamentistas costumam argumentar que após o Estatuto do Desarmamento houve significativa queda na taxa de crescimento de homicídios por armas de fogo. Ou seja, ainda que as taxas tenham mantido a tendência de crescimento, teria havido expressiva desaceleração, o que não deixaria de ser, em todo caso, paradoxal!

Acontece que essa desaceleração só é percebida quando se observam os dados nacionais, em que o Estado de São Paulo, onde as mortes por armas de fogo desabaram no período, ajuda a derrubar o índice nacional. E desabaram por uma política de Estado, centrada principalmente na inteligência e na repressão ao crime. Agiram contra os criminosos, e não contra as pessoas de bem!

Há, porém, muitos Estados onde os homicídios por armas de fogo aumentaram vertiginosamente em plena vigência do estatuto e desse Zeitgeist desarmanentista. Vejamos: de acordo com o Mapa da Violência, em 2004 a Bahia tinha 11,7 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2008 o índice subiu para 26,4. Em 2010 alcançou 32,4. O Estatuto do Desarmamento é de dezembro de 2013, promulgado pelo ex-presidente Lula, hoje condenado e na cadeia.

Estados como Rio Grande do Norte e Maranhão registraram aumento de homicídios por armas de fogo de, pela ordem, 379,8% e 300% no período de 2004-2014. Também houve crescimento expressivo no Pará, 96,9%; em Goiás, 70,6%; e no Rio Grande do Sul, 38,6%.

Logo, a diminuição no estoque de armas não causou a diminuição dos homicídios. Tampouco o lema “mais armas, mais mortes”, frequentemente enunciado pelos defensores do desarmamento, é verdadeiro. O Brasil possui muito menos armas em mãos de civis na comparação com os EUA, mas quase seis vezes mais homicídios por armas de fogo. Diz-se que nos EUA existem mais de 350 milhões de armas. Fosse o lema verdadeiro, os EUA seriam o pior lugar para viver no planeta!

Por último, há uma questão moral em jogo. Instrumento não mata! Quem mata é quem o manuseia. Há mais mortes por automóveis do que por armas de fogo! Vamos bani-los? O que se faz? Estabelecem-se regras para a direção de veículos, da mesma maneira que se passa a fazer, agora, com a flexibilização do Estatuto do Desarmamento! Facas tornaram-se, nestes últimos anos, um instrumento usado para assassinatos. Alguém pensa em suprimi-las? Imagine-se cozinhar sem facas!

Pessoas que fazem mau uso de suas armas, assim como de seus veículos ou de suas facas, devem ser responsabilizadas por suas ações. É o processo de escolha em ato. Cada um deve assumir o que faz. Não cabe ao Estado tutelar o comportamento individual!

*Professor de filosofia na UFRGS.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Clóvis Rossi: Venezuela testa saída no dia 23


- Folha de S. Paulo

Só uma explosão à tunisiana pode romper o impasse

Está muito bem que o governo Bolsonaro dê apoio aos líderes oposicionistas venezuelanos. Quem se opõe a uma ditadura merece respeito. Mais ainda quem se opõe a um regime que, além de ditatorial, é um fracasso sem precedentes.

A dimensão da catástrofe aparece com nitidez em texto para Nueva Sociedad, revista da social-democracia alemã, de um economista de esquerda, tão de esquerda que é membro da Associação Latino-Americana de Economia Marxista.

Escreve Manuel Sutherland: “As milhares de bombas e o genocídio perpetrado pelos nazistas na Polônia causaram uma queda de 44% do PIB entre 1939/43. A queda do PIB na Venezuela ronda 50% nos últimos cinco anos, um recorde absoluto para o continente, uma tragédia sem paralelo”.

É correto, portanto, apoiar quem se diz disposto a livrar a Venezuela do martírio. Pena que o apoio tenda a ser inócuo, pela simples e boa razão de que os políticos com os quais se reuniu na quinta-feira
(17) o chanceler brasileiro Ernesto Araújo não têm o respaldo popular necessário para fazer pressão efetiva e eficaz sobre o governo de Nicolás Maduro.

É a opinião de José Miguel Vivanco, da Human Rights Watch, corroborada de resto pelo estudante Roderick Navarro, do Movimento Rumbo Libertad, em artigo para esta Folha publicado na quarta-feira (16): “Hoje não existe ninguém que seja da verdadeira oposição dentro do país, pois, se houvesse, certamente já estaria nas garras da ditadura”, escreveu ele.

Navarro é da oposição pela direita; pela esquerda, concorda Sutherland, ao escrever que “a oposição abandonou por completo a tarefa de organizar as bases sociais [nas zonas populares], que, desgraçadamente, vão com quem tem os recursos à mão para ‘resolver’ problemas cotidianos”.

“Resolver” no caso é a importação de um termo cubano para designar o jeitinho com que a população se vira para contornar as carências diárias, em Cuba como na Venezuela.

Explica Sutherland: “O governo atende aos setores dos bairros [marginalizados] com bolsas de comida (por meios dos chamados Comitês Locais de Abastecimento e Produção, os Clap), dinheiro vivo em suas contas (Bônus da Pátria), serviços de eletricidade, água, limpeza, transporte público amplamente subsidiado, gasolina quase gratuita. Para não falar de suas políticas muito permissivas com a delinquência nos bairros, o tráfico de drogas, o comércio de bens subsidiados e o contrabando”.

Significa o seguinte: enquanto a oposição não conseguir se conectar com esses setores populares (a maioria da população, de resto) para convencê-los de que pode lhes dar mais do que esse precaríssimo equilíbrio, a maioria prefere ou fugir do país ou “resolver” como for possível.

É por isso que Vivanco, da Human Rights Watch, supõe que a saída para a Venezuela se daria não necessariamente pela mão dos políticos opositores, mas por uma explosão social, estilo Tunísia.

Nesse primeiro país a mergulhar na Primavera Árabe, em dezembro de 2010, foi a imolação pelo fogo de um vendedor ambulante que acendeu a chama do protesto e acabou levando ao fim da ditadura.

Na Venezuela, o protesto convocado pela oposição para a próxima quarta-feira (23) pode servir de termômetro para a viabilidade dessa saída: dependendo de suas dimensões —e, claro, da reação do governo— dará a medida do que pode vir em seguida.

Mario Vargas Llosa: "Meias verdades"


Como ex-presidente do PEN Internacional (entre 1977 e 1980) e atual presidente emérito dessa organização internacional de escritores, fundada na Inglaterra, no século passado, que participou de tantas batalhas pela liberdade de expressão e pelo direito de crítica em todo o mundo, tenho a declarar a minha tristeza e vergonha pelo texto 'Uma tendência preocupante: a liberdade de expressão sob o fogo na Catalunha', que acaba de ser lançado pelo PEN de Nova York em seu boletim informativo. 
Repleto de meias verdades – mentiras dissimuladas – o texto exagera e deforma o que acontece na Espanha, com o movimento de independência catalã, e dá a ideia de um país no qual a liberdade de pensamento é restringida, os direitos democráticos básicos são pisoteados, os cidadãos são impedidos de votar e juízes ultrapassados impedem cantores e cômicos de praticar travessuras e excessos tolerados em todas as sociedades abertas do restante do mundo.
Protestos na Catalunha
Ativistas bloquearam várias estradas na Catalunha, incluindo rodovias
importantes como a AP7 e a A2 Foto: Pau Barrena / AFP
Os autores do texto – Alyssa Edling e Thomas Melia – publicado pelo centro nova-iorquino, lembram que o PEN americano “não toma posição quanto ao tema da independência catalã” e logo em seguida endossam como seus todos os embustes que o PEN Center catalão (que ajudei a ressuscitar durante minha presidência) divulgou, como um órgão militante do movimento de independência, sem submetê-los à menor verificação, e, o que é pior, ocultando fatos básicos, de modo que uma entidade prestigiada com impecáveis credenciais democráticas aparece espalhando pelo mundo o que são, simplesmente, invenções e calúnias de propaganda política.
Quando afirma que o referendo de 1.º de outubro de 2017 foi interrompido por policiais que tomaram as urnas e dispersaram os eleitores “em ações brutais” exagera e muito: de onde saíram essas 893 pessoas feridas que se menciona, se apenas 2 pessoas feridas passaram pelo hospital? 
O mais grave é o que oculta: que o referendo em questão era absolutamente ilegal, proibido pela Constituição e pelas leis vigentes na Espanha, ou seja, um golpe de Estado. O governo da Espanha tem o direito e a obrigação de impedir tal ato de força, assim como os EUA o teriam se o Texas ou a Califórnia buscassem independência e violassem a União por meio de uma consulta local. 
Não foram as autoridades que “declararam” ilegal essa consulta. É a atual Constituição espanhola – aprovada com a imensa maioria dos votos dos catalães – que exclui a possibilidade de que uma província ou região da Espanha possa se tornar independente por meio de uma consulta local; todos os espanhóis devem se pronunciar, como é lógico, sobre a separação de uma unidade territorial formada há cinco séculos.
O texto sustenta que houve uma “inaceitável restrição à expressão pacífica e livre” dos catalães que foram impedidos de votar nessa ocasião. Como se, desde que a Constituição atual está em vigor (1978), não foram dezenas as ocasiões em que os catalães, em particular, e os espanhóis, em geral, votaram nas eleições locais, nacionais e europeias! Mais uma vez, a omissão maliciosa de que esse referendo foi delituoso permite apresentar a Espanha como uma sociedade na qual um governo autoritário priva seus cidadãos da mais básica garantia democrática.
O texto afirma que músicos e cômicos que foram processados (e muitas vezes isentados de culpa como aquele que limpou o nariz com uma bandeira da Espanha) por iniciativa de organizações da sociedade civil ou por promotores e juízes (tão independentes aqui quanto nos EUA) são indícios dessa “tendência preocupante” de privar os espanhóis da liberdade de se manifestar e de exercer críticas. Para alguém que vive na Espanha como eu, tal situação caricata tem pouco a ver com a realidade deste país, um dos mais livres do mundo, que em seu seio permite críticas e protestos extremos e até delirantes. 
Aqui, folhetos são lançados contra o rei e a monarquia e os líderes políticos são insultados sem escrúpulos, geralmente sob a vigilância implacável dos opositores e uma imprensa independente capaz de invadir a privacidade na medida em que se pode dizer que na Espanha o “privado” não existe mais. No domínio político, as razões e críticas são frequentemente confundidas com invectivas ferozes.
Os separatistas catalães têm na Espanha a liberdade mais absoluta para expressar suas ideias e convicções, e jornais, rádios e canais de televisão que os disseminam e defendem. O que eles não podem fazer é, em seu nome, transgredir a lei e cometer um golpe de Estado, que é o que eles tentaram em 1.º de outubro de 2017. Para este suposto delito serão julgados vários políticos catalães e foram detidos preventivamente para evitar o risco de uma fuga, semelhante à de alguns de seus cúmplices, que fugiram para buscar o amparo da Bélgica em uma região dominada por nacionalistas flamengos ultrarrevolucionários, que, naturalmente, se sentem solidários ao separatismo catalão.
Trabalhei muito quando era presidente da PEN International com o centro de Nova York, quando foi dirigido pela historiadora e ensaísta americana Frances Fitzgerald. Era um tempo de ditaduras abundantes em toda a América Latina e fizemos campanhas denunciando os crimes cometidos por militares argentinos, uruguaios, chilenos, brasileiros, etc., assim como contra a censura e pela liberdade de expressão no mundo. 
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Anti-separatistas pedem 'sensatez' na Catalunha
Como escritor e latino-americano conheço muito bem os abusos cometidos pelos regimes autoritários da esquerda ou da direita e tenho sido vítima de censura em muitos lugares. Por exemplo, aqui na Espanha, quando em tempos de Franco foi publicado o meu primeiro livro de histórias, tive que levar o manuscrito à censura, em uma casa anódina, sem qualquer placa, onde se entregava o texto a um sujeito anônimo e se passava, dias depois, para ir buscá-lo. O censor havia marcado com um lápis vermelho as frases e palavras – às vezes capítulos – que deveriam ser suprimidos ou corrigidos.
Daquela Espanha, felizmente, restou muito pouco. A transformação vivida por este país, graças à transição, surpreendeu o mundo, por serena e pacífica que foi. Com o colapso da ditadura de Franco, e incentivadas pelo rei Juan Carlos, todas as forças políticas, comunistas e conservadoras, concordaram em acabar para sempre com a guerra civil e coexistir em liberdade, em um regime democrático e sob uma Constituição, a mais livre que a Península Ibérica teve na sua história. Desde então, a Espanha goza de uma liberdade que não conhecia antes e muito poucas sociedades no mundo têm.
Faria muito melhor o PEN de Nova York em se preocupar com crimes contra escritores e jornalistas que são cometidos sob seus narizes em Venezuela, Cuba e Nicarágua – onde não só jornais, estações de rádio e televisão são fechados, mas onde se prende, tortura e mata opositores –, do que servir de caixa de ressonância para as mentiras dos separatistas catalães. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 
 Prêmio Nobel de Literatura

"Crônica de uma encrenca anunciada", por Ruy Fabiano

"Crônica de uma encrenca anunciada", por Ruy Fabiano

Ninguém imaginou que a chegada de Bolsonaro ao poder seria tranquila. Além de toda a controvérsia que a precedeu, pontuada por uma tentativa de homicídio (lamentada por alguns pelo desfecho fracassado), havia (há) a presença, inédita, de filhos com mandato.
Família e poder costumam ser uma relação problemática; família de políticos, mais ainda. Em regra, quem tem mandato responde pelos problemas que cria (ou em que é envolvido) – exceto, claro, quando se trata de alguém cujo pai é presidente da República.
Tudo o que disser ou fizer, ainda que credenciado pelo voto popular, cai no colo do pai-presidente. E aí a encrenca fica maior do que é. Se o filho parlamentar nada diz, descumpre seu mandato; se diz, suas palavras passam a ser as do pai, ainda que delas divirja.
O governo Bolsonaro lida com essa encrenca, que, mesmo num contexto de normalidade, traria complicações. Num contexto em que padece de implacável má vontade da grande mídia e de inimigos invisíveis dentro da máquina administrativa, o desastre é inevitável.
Não há saída para isso. A saída seria não entrar. Como entrou, terá que aprender a lidar com o problema, que esta semana se agravou, mais uma vez, em função de uma situação que envolve seu filho, o senador eleito pelo Rio, Flávio Bolsonaro.
Foi a semana em que o governo cumpriu três compromissos de campanha: regulamentou a posse de armas, deu início à abertura da chamada caixa preta do BNDES e formalizou seu não reconhecimento à ditadura bolivariana de Nicolas Maduro, da Venezuela.
O que prevaleceu nas manchetes, no entanto, foi a acusação de que Flávio Bolsonaro teria pedido ao STF que interviesse para blindá-lo, via foro privilegiado, de uma investigação do Coaf, que envolve movimentação financeira suspeita de um ex-assessor seu, Fabrício Queiroz, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Flávio nega os termos em que a notícia foi veiculada. Sustenta que não pediu blindagem alguma, nem para ele, nem para Queiroz. Teria apenas denunciado uma irregularidade: a quebra de seu sigilo bancário, desde julho do ano passado, sem autorização judicial.
Se assim é, trata-se de fato de ilegalidade. Mas, seja como for, o conteúdo da ilegalidade já circula, posto no ar ontem, no Jornal Nacional. Detalhes de sua movimentação bancária foram expostos, sem que lhe tenha sido dado o direito prévio de explicar-se.
Tudo o que disser, diante dos números, estará (já está) sob suspeita. Mas o alvo, óbvio, não é ele: é o pai.
O Coaf investigou movimentação financeira de assessores de 23 deputados estaduais do Rio, mas só quebrou o sigilo bancário de Flávio Bolsonaro – e só os dados dele chegaram à imprensa.
As maiores movimentações suspeitas são de assessores de parlamentares do PT e Psol. Mas, para além da necessária investigação – e ela deve ocorrer e enquadrar eventuais infratores, inclusive, se for o caso, o filho do presidente -, o que se quer é criar um imbróglio político para o novo governo.
Se ele for inocente, é questão para o futuro. No presente – e é isso que importa -, já está sentenciado e condenado. E o pai-presidente politicamente atingido.
Ruy Fabiano é jornalista

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

FELIPE MOURA BRASIL E O TRABALHO DE OLAVO DE CARVALHO


Resultado de imagem para FELIPÉ MOURA BRASIL

Felipe Moura Brasil avisa:
Ainda de férias, dei essa entrevista ao jornal inglês The Guardian.)

Como você descobriu o trabalho do Olavo de Carvalho?
Descobri o trabalho de Olavo de Carvalho na década de 1990 por meio de seus artigos de jornal, que depois me despertaram o interesse pelos seus livros de crítica cultural, filosofia e história da filosofia.
O que achou?
Ao contrário da maioria dos colunistas da imprensa, que tratava apenas da política diária e com frequência buscava produzir sentimentos, tomadas de posição e ações nos leitores, Olavo de Carvalho examinava as questões mais sensíveis do debate público como um educador que resgata a definição de conceitos fundamentais como educação (‘ex ducere’, que significa levar para fora), conhecimento, verdade, inteligência, vocação, sociedade, cultura, democracia, direita, esquerda e fanatismo, sempre identificando, acompanhando e até constituindo as correntes intelectuais profundas que geram transformações culturais e depois políticas, estas últimas normalmente surpreendentes para os setores da imprensa limitados aos acontecimentos de superfície e/ou cegos pela ideologia e pela militância, como vimos recentemente nas eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Em seus artigos, Olavo levava o leitor para fora da bolha criada por aqueles que transformaram a atividade intelectual em megafone de interesses partidários.
Por que achou importante colecionar os textos dele para o livro e como foi esse processo?
Os artigos jornalísticos de Olavo de Carvalho representam a parte da sua obra dedicada à crítica cultural, embora também embutam elementos de sua filosofia e até de seus ensinamentos de história da filosofia, que constituem outras partes. Apesar do sucesso do livro “O imbecil coletivo”, de 1996, que reunia artigos jornalísticos do autor voltados mais especificamente à exposição da decadência e da corrupção da camada intelectual da sociedade brasileira, a parte de crítica cultural era a menos organizada de sua obra e, ao mesmo tempo, aquela com maior potencial de fisgar o cidadão comum - como aconteceu comigo - não só pela capacidade de síntese, como também pela destreza no trato de questões existenciais e sociais, como a juventude, a vocação, a formação da personalidade, a pobreza e a prática do amor ao próximo.
Os artigos, muitos dos quais haviam apontado também os germes intelectuais de acontecimentos políticos atuais e cujo conteúdo sem o devido crédito já passava a ser repetido por velhos e novos colunistas com décadas de atraso, estavam dispersos na internet, de modo que organizá-los por temas e acrescentar explicações em notas foi uma maneira de fazer jus à obra pioneira do autor e de torná-la acessível ao cidadão comum disposto a sair da bolha. Apresentei o projeto de “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” e o título a Carlos Andreazza, editor da Record, que topou de imediato; e depois a Olavo, que adorou e deu o sinal verde para que eu continuasse o trabalho, sem qualquer interferência dele. O resultado foi um best seller para os padrões brasileiros, que teve desde 2013 mais de 300 mil exemplares vendidos e uma edição comemorativa em capa dura, consolidando mudanças culturais que teriam reflexo na política.
Por que a importância dele na política brasileira cresceu tanto?
A importância da obra jornalística de Olavo de Carvalho é primeiramente cultural. Ela quebrou a hegemonia intelectual esquerdista, à medida que diagnosticou esta situação e expôs suas raízes históricas, seus exemplos práticos nos meios acadêmicos e de comunicação, e suas consequências nefastas para a cultura e a democracia. Com isso, abriu espaço para outras ideias, também favorecidas (1) pelo advento da internet e das redes sociais, que permitiram a refutação de narrativas circulantes por meio de um contato direto de autores com o grande público sem o filtro político-ideológico do establishment; e (2) pela operação Lava Jato, que mostrou a magnitude da corrupção no Estado inchado brasileiro, defendido e ocupado pela esquerda e por seus aliados. Que um político não esquerdista como Jair Bolsonaro considere a opinião de um autor como Olavo sobre uma ou outra pessoa capaz de fazer um bom trabalho como ministro, é apenas um efeito periférico dessas mudanças culturais. No entanto, é o efeito periférico que desperta o interesse da maior parte da imprensa. O trabalho mais profundo que Olavo fez, quebrando a hegemonia intelectual esquerdista e abrindo espaço para outras ideias, nunca havia sido objeto de notícia.
Por que tantos brasileiros seguem os vídeos e textos dele, coisa inédita para um filosofo por aqui?
Se os jornalistas lessem a obra de Olavo de Carvalho, a começar por “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, talvez entendessem a capacidade dele de lançar luz sobre a experiência mental brasileira e as forças que atuam sobre ela, sendo ao mesmo tempo erudito, popular, educativo e engraçado.
Qual foi a importância da influência e pensamentos dele no crescimento dessa onda conservadora dos últimos anos? Qual foi a importância dele na vitória do Jair Bolsonaro?
A expressão “onda conservadora”, usada pela imprensa, é, no mínimo, imprecisa. A maioria do povo brasileiro já tinha posições conservadoras, de acordo com os próprios institutos de pesquisa respeitados pela imprensa. O que o povo não tinha era representatividade, no caso um candidato viável com posições conservadoras em quem votar. Esta lacuna foi até celebrada pelo então presidente Lula em setembro de 2009, quando declarou: “Pela primeira vez não vamos ter um candidato de direita na campanha. Não é fantástico isso? Vocês querem conquista melhor do que numa campanha neste país a gente não ter nenhum candidato de direita?"
Em 2012, no entanto, o Datafolha mostrou que 83% dos brasileiros são contra a legalização das drogas. Em 2014, o Ibope mostrou que 79% são contra a legalização até da maconha. Em 2010 e 2016, o Ibope também mostrou que 78% são contra o aborto. Em 2016, o Ibope mostrou ainda que 78% são a favor da redução da maioridade penal e que 78% são a favor de prisão perpétua para quem comete crimes hediondos. Esses dois números ainda haviam aumentado 12 e 15 pontos, respectivamente, em relação a 2010, indicando que o aumento da criminalidade no país durante os governos de esquerda só fazia crescer no povo a demanda por punições mais duras aos criminosos. Olavo, entre outras coisas, mostrava a desconexão entre os anseios do povo e os do establishment cultural e político; e o projeto de Jair Bolsonaro de virar presidente começou neste cenário até então ignorado pela maioria dos supostos representantes do povo, que não vocalizavam o sentimento popular nem representavam suas ideias, geralmente consideradas retrógradas pela imprensa. Mesmo não sendo a encarnação perfeita do conservadorismo, Bolsonaro se posicionou contra a legalização das drogas, contra o aborto, a favor da redução da maioridade penal e de penas mais duras aos criminosos, incluindo corruptos como Lula presos pela Lava Jato, operação que só potencializou a demanda por ordem no país. O atual presidente, apesar de ter adotado o liberalismo econômico apenas recentemente e mesmo assim com várias ressalvas, soube explorar tudo isso a seu favor, falando com simplicidade diretamente ao cidadão comum.
Como o trabalho dele te ajudou na sua carreira e pensamento? Fez um curso com ele? Como foi?
No artigo “O imbecil juvenil”, Olavo expressou o que eu percebia em muitos jovens ao meu redor, sempre dispostos a adquirir vícios alheios e suprimir sua personalidade para pertencer a um grupo qualquer, sem jamais desenvolver a consciência individual e fazer o esforço necessário para sair da bolha em que se meteram. No artigo “Vocações e equívocos”, Olavo descreveu o que eu percebia em pessoas frustradas, amarguradas e/ou ressentidas, que só concebiam a dedicação a alguma atividade por dinheiro ou por prazer, ignorando a experiência da vocação, do chamado, do sentido da vida. Esses e outros artigos, além de livros, apostilas e aulas de seu curso online de filosofia que ainda não encontrei tempo para concluir, sem falar nos numerosos e fundamentais autores indicados por ele, tiveram forte influência sobre minha vida intelectual e minhas decisões práticas, tanto pessoais quanto profissionais, porque busquei e sigo buscando exercer minha personalidade e minha vocação sem me deixar nivelar pelo corporativismo social, político ou ideológico de qualquer patota. Sobre minha carreira, a influência de Olavo é indireta: como ele quebrou a hegemonia intelectual esquerdista, abrindo espaço para outras ideias no debate público, o meu trabalho de mais de 10 anos como colunista na internet, alguns dos quais no site Mídia Sem Máscara, criado por ele, acabou me rendendo contratos para escrever e falar em veículos maiores onde havia editores que não boicotavam vozes dissidentes capazes de refutar as narrativas circulantes.
Como descreveria a personalidade e pessoa do Olavo de Carvalho? O que ele contou para você da historia da vida, da descoberta de filosofia, do tempo que foi de esquerda, dos trabalhos com astrologia, a fé e a mudança para os EUA?
Nunca encontrei Olavo pessoalmente, o que pretendo fazer assim que possível, viajando à cidade onde ele mora nos EUA. Nosso contato até aqui foi inteiramente virtual. Mas ele é uma das pessoas mais generosas que conheci. Tão generosa que não preciso falar da vida dele, porque o próprio Olavo tem tido a paciência de explicá-la em detalhes até mesmo a jornalistas que não leram sua obra, que trabalham para veículos que o demonizam, que buscam detalhes banais de sua biografia para rotulá-lo pejorativamente e que só o procuram porque Bolsonaro nomeou como ministros um par de nomes elogiados por ele.
O Olavo de Carvalho já fez alguns comentários polêmicos. Concorda com todos? Se não, do que discorda?
Eventuais discordâncias pontuais são irrelevantes perto do que aprendi com a obra de Olavo e dos autores indicados por ele, como Roger Scruton e Dennis Prager.
Gostou das recomendações de ministros dele? Compartilha as posições ideológicas dos dois?
Essa análise da política diária, referente a um governo que acabou de começar, prefiro deixar para o programa Os Pingos Nos Is, da rádio Jovem Pan, que volto a ancorar em 21 de janeiro. Neste momento, estou curtindo duas semanas de férias, que só interrompi para tratar de assuntos culturais mais relevantes. Obrigado.

domingo, 13 de janeiro de 2019

*Bolívar Lamounier: Energia, dedicação e farol alto


- O Estado de S.Paulo

Se funcionar bem como freada de arrumação, o governo terá realizado um trabalho meritório

A julgar pelas duas primeiras semanas, o governo Bolsonaro periga tomar gol antes de tocar na bola. Realmente, o número de desencontros e trapalhadas foi considerável.

Se funcionar bem como uma freada de arrumação, o governo terá realizado um trabalho meritório. Freada de arrumação o que é? Arrumar as contas públicas, aí incluída a reforma da Previdência; atrair capital estrangeiro em quantidade para destravar a infraestrutura; controlar as falcatruas e safadezas na administração direta e nas estatais. Isso é pouco, pouquíssimo, à luz dos desafios que teremos de enfrentar no médio prazo – voltarei a este ponto abaixo –, mas no presente quatriênio temos de ser realistas, pois fomos atingidos em cheio pelo tsunami Dilma Rousseff. Isto posto, qualquer pequena perda de capital político precisa ser avaliada com seriedade, uma vez que o jogo ainda nem começou.

A trapalhada de maior tamanho foi, sem dúvida, o precipitado anúncio da transferência de nossa embaixada em Israel para Jerusalém. Nesse caso, o próprio presidente Bolsonaro e o excelentíssimo senhor ministro das Relações Exteriores parecem-me ter cometido um sério pecado, falando antes da hora e mostrando-se propensos a comprar uma briga que não nos pertence. E sinalizando duas possíveis orientações que se revelarão desastrosas caso sejam levadas à prática: um afastamento do conceito do Brasil como Estado laico – consta que a influência evangélica pesou na mencionada atitude – e um alinhamento político automático com os Estados Unidos, ainda por cima dentro do jeito Trump de governar, que, obviamente, suscita preocupações.

Outro episódio que merece referência foi a contratação pelo presidente do Banco do Brasil do sr. Antônio Mourão, filho do vice-presidente, Hamilton Mourão. O general vice-presidente reagiu com calma e sinceridade ao episódio, ressaltando a lisura do ato, a competência de seu filho para a função, o fato de ser concursado e de ter uma longa carreira no banco. Fato é, porém, que a contratação repercutiu negativamente numa parcela da opinião pública, que reagiu com argumentos também ponderáveis. Recorrendo a uma imagem surrada, à mulher de César não basta ser casta, ela precisa parecer casta. Nesse caso, a aparência é importante por várias razões. 

Primeiro, pelas circunstâncias da eleição. Jair Bolsonaro foi eleito graças a um amplo movimento de opinião caracterizado, de um lado, pelo antipetismo e, do outro, por uma aguda exigência de reforma, de mudança de comportamentos e práticas. A questão do timing é também relevante. Entre os eleitores que foram às urnas com essa expectativa, muitos devem ter estranhado a mencionada contratação já na primeira quinzena do novo governo.

Tudo isso desaparecerá da memória se o governo conseguir “entregar” as mudanças que se propôs efetivar. Mas isso, como assinalei no início, não são favas contadas.

O general Hamilton Mourão foi também sincero e ponderado ao responder a críticas feitas ao desentrosamento da equipe de governo. Frisou que uma equipe não se organiza e age de forma coesa da noite para o dia. Isso é certo, sem dúvida. Permito-me, porém, repetir que, mesmo no modesto modelo de um governo de arrumação, a equipe ainda não deu sinais claros de como pretende proceder em várias frentes, nem mostrou uma percepção realista do tamanho dos interesses que lhe cumprirá arbitrar. 

Tome-se, por exemplo, a contraposição existente na área ambiental, com fazendeiros querendo ampliar a área desmatada e ambientalistas argumentando que o desmatamento já foi longe demais. No tocante à privatização, outro imperativo dos próximos anos, precisamos andar rápido, mas somos, infelizmente, um país de cabeça feita, nacional-estatizante até a medula. Entre os pesquisadores acadêmicos sobram demonstrações de que o modelo nacional-desenvolvimentista, cujo núcleo é uma máquina estatal atrelada a umas poucas megaempresas, cedo ou tarde acaba esbarrando na chamada armadilha do baixo crescimento. 

Pior ainda quando esse modelo reduz a diversificação estrutural da economia, concentrando fortemente a atividade econômica na exportação de commodities; nessa variante, além do baixo crescimento, a redução das desigualdades sociais se torna virtualmente impossível. Louve-se, portanto, a intenção anunciada pelo sr. Joaquim Levy, novo presidente do BNDES, qual seja, a de redirecionar as prioridades do banco no sentido da média empresa.

Esquematicamente, podemos, portanto, afirmar, sem temor de erro, que a agenda da “arrumação” é um modelo de transição para outra, muito maior e mais decisiva, que consistirá em melhorar a produtividade, elevando acentuadamente a taxa global de investimento e diversificando a economia, para dessa forma atingir uma taxa menos medíocre de crescimento do PIB. Essa agenda que chamo de maior e mais decisiva mal apareceu na campanha eleitoral e nas duas primeiras semanas do governo Bolsonaro. 

Nesse plano, a reforma do sistema educacional configura-se como a questão sine qua nonque precisa ser enfrentada com coragem e energia. Sociólogo competente, o ministro Vélez Rodrigues seguramente deve ter uma percepção adequada das dimensões e determinantes da reforma necessária, mas ainda não se pronunciou a respeito. No nível superior, nosso país não tem uma universidade sequer entre as cem melhores do mundo. Há ilhas de excelência, sem dúvida, mas o panorama geral é bem conhecido.

Altamente ideologizadas, as instituições de ensino superior são presa fácil para a luta política e para o grevismo. Muitos, talvez a maioria dos estudantes não responde com a esperada motivação ao privilégio do ensino gratuito, que é estendido a todos, quer suas famílias tenham ou não condições de pagar anuidades. No ensino básico o quadro é evidentemente pior, não cabendo analisá-lo neste espaço.

* Cientista político, é sócio-diretor da Augurium Consultoria e membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências