quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O carro puxando os bois - Olavo de Carvalho


Qualquer campanha de correção de um problema social tem de começar pela documentação e discussão do problema nas esferas intelectuais mais altas e de mais idônea reputação, para só depois, aos poucos, despertar polêmicas em círculos mais amplos e esperar que propostas de solução, diversas e espontâneas, vão aparecendo na sociedade.


Invertendo radicalmente esse processo lógico e natural, aparecendo já com um slogan e uma proposta — e, pior ainda, com um projeto de lei –, antes mesmo de que existisse um só livro com a documentação canônica do problema –, o Escola Sem Partido tornou-se ele próprio o foco das discussões, colocando num confortável segundo plano o problema enquanto tal e atraindo sobre si toda sorte de malentendidos e preconceitos.
Imaginem o que teria acontecido se, em vez de escrever “O Imbecil Coletivo” e mais mil e um artigos documentando ao longo de vinte anos a destruição da alta cultura no país, eu tivesse começado por lançar um projeto de lei instigando o público a denunciar e punir os intelectuais ineptos. Não que estes não merecessem umas boas chineladas na bunda. Mas, em vez da destruição da alta cultura, o foco da discussão seria o perigo dos chinelos.

O carro puxando os bois (2)

Para o bem ou para o mal, toda mudança sociocultural começa nos círculos intelectuais mais altos e só depois mobiliza organizações, grupos militantes, mídia popular etc. O cidadão comum, que recebe o impacto das novas modas mentais sem nem saber de onde elas se originam e imagina poder alterá-las agindo direto nas esferas mais visíveis, é como alguém que esperasse amansar um cão feroz tingindo-o de cor-de-rosa.

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