quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Estado está mais para caridade do que empresa, diz governador Romeu Zema, eleito em MG


Para o empresário Romeu Zema (Novo), 54, que governará Minas Gerais —um estado em crise fiscal e que projeta um rombo de R$ 11,4 bilhões nas contas públicas para o próximo ano—, não há outra solução que não medidas de austeridade.
Sua equipe já negocia com o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) a renegociação de uma dívida de R$ 85 bilhões com a União em troca de, por exemplo, não realizar concursos públicos e não dar ganhos reais aos servidores.
"Continuar como está ou tomar medidas muito brandas é a receita para a situação se agravar", diz Zema, que quer começar os cortes por ele, trocando o palácio por uma casa comum. Para os secretários de estado, porém, quer aumento de salários.
O secretariado, escolhido ou validado por empresas de recrutamento, deve ser composto por empresários e, como o governador, não receberá salário até que as finanças estejam em ordem, já que hoje servidores e prefeituras recebem com atraso.
Dois nomes foram anunciados nesta quinta (22), o dos secretários de Fazenda e de Planejamento e Gestão. O contador Gustavo Barbosa, que foi secretário de Finanças e Planejamento do Estado do Rio de Janeiro entre julho de 2016 e fevereiro deste ano, será o titular da Fazenda. A pasta de Planejamento e Gestão ficará a cargo de Otto Levy Reis, diretor de operações da Magnesita Refratários.
A equipe de transição também é voluntária, escolhida entre 2.410 inscrições. Zema diz que no estado cabe o voluntariado, como nas instituições de caridade, e que sua equipe será movida pelo desafio.
Com um patrimônio de R$ 70 milhões, Zema nasceu em Araxá (MG), é divorciado, pai de dois filhos e é um dos sócios do Grupo Zema, rede de varejo de eletrodomésticos e móveis, financeira, concessionárias de veículos e distribuição de combustíveis.

Qual é a pretensão eleitoral do Partido Novo para 2020? 
Pretendemos, caso surjam bons candidatos que passem pelo nosso processo seletivo, termos alguns candidatos a prefeito e a vereador. Candidato por candidato, nós não queremos não. É preferível disputar em 20 e com candidatos de qualidade do que depois termos problemas, gestões desastrosas e o partido ficar com, vamos dizer, a conotação de que não é um partido que faz uma boa gestão.
O sr. falou que tem um alinhamento ideológico e econômico com o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Tem alguma medida dele que o sr. não concorde?
Estive lá semana passada com ele. Tudo que eles falaram está, eu te diria, 100% alinhado [conosco]. Questões de reforma administrativa, de privatizações, a pauta econômica está tudo alinhado. E temas polêmicos são questões secundárias que cabe ao Congresso discutir internamente. Num país pobre, temos que priorizar aquilo que realmente causa impacto nas pessoas.
Sobre quais temas polêmicos o senhor está falando?
Temas que são sempre discutidos e nunca se chega a acordo nenhum. Aborto, liberação ou não de drogas, esse tipo de coisa. Mas não é isso que vai fazer o país ser um lugar mais ou menos próspero. Nós temos reformas fundamentais para realizarmos, principalmente na área econômica.
Como enxugar o estado? Fazer isso passar pela Assembleia?
Minas é um estado falido e o que estamos fazendo é tomar medidas de austeridade, que reduzam o custo da máquina administrativa. Se não tomarmos esse caminho, a situação simplesmente não vai ser revertida. Mesmo fazendo isso, está sujeito a levar até três anos para melhorar um pouco. Continuar como está ou tomar medidas muito brandas é a receita para a situação se agravar, como aconteceu no Rio.
Como o sr. viu a saída dos cubanos do Mais Médicos, já que Minas tem cidades pobres e pequenas que dependem disso?
Sempre vi com restrições o Programa Mais Médicos porque é um programa que, de certa maneira, é um atentado contra a dignidade humana. Alguém vem pra cá ganhar R$ 10 mil, mas só recebe R$ 2 mil e o restante fica com o estado ditatorial. Mas reconheço o lado humano que, gostando ou não, melhorou a situação de regiões carentes. Deveria ter tido uma fase de transição. Foi um pouco prematura a mudança.
O que pensa sobre Escola sem Partido?
Escola tem como objetivo ensinar português, matemática, geografia, história, inglês. Estamos falando de um público que é criança, adolescente, que ainda não tem maturidade. O Brasil já tem uma séria deficiência em educação e querer colocar no currículo coisas além disso, que só vão servir para confundir a cabeça dessas crianças e adolescentes, considero desnecessário. Quem quiser participar de vida política, quem quiser ter debates, que faça a partir do ensino médio em diante.
Quando diz assuntos que confundem está falando do quê?
Se hoje as pessoas saem da escola e são incapazes de interpretar, para que colocar coisas que estão longe de ser essenciais?
Quais temas?
Todas essas coisas que estão sendo colocadas aí nas escolas. Não é a idade de se discutir sistema político, não é a idade de se discutir questões de sexualidade.
E essa vigilância aos professores em sala de aula?
Sou favorável ao professor estar ensinando. Professores que estão usando de sua autoridade, do seu cargo, para fazer propaganda em algum sentido também devem ser repreendidos.
Falando da sua empresa, existem pessoas trabalhando voluntariamente no Grupo Zema?
Não, como é uma empresa, que tem finalidade lucrativa, paga imposto de renda, temos por política remunerarmos todos.
E por que no governo as pessoas podem ser voluntárias?
Porque no estado você está atendendo a população, não tem a finalidade de dar lucro. Eu diria que o estado se assemelha muito mais a uma Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), a uma fundação. Existem várias entidades onde as pessoas atuam de forma voluntária.
Mas o administrador público está trabalhando, não é correto que seja renumerado?
É correto. Nosso secretariado não vai trabalhar de forma voluntária. Ele não vai receber enquanto o funcionalismo estiver atrasado. É uma situação temporária.
Esse trabalho dos secretários, que devem ser empresários, não vai ser pago de outra forma? Beneficiando empresas deles com medidas?
Tem gente que trabalha de graça, sim. Se você for em instituição de caridade, asilos, creches.
O governo não é instituição de caridade. As pessoas têm interesse em medidas, em leis. Têm interesse em participar do governo.
Qual é o meu interesse de estar aqui? Não quero aprovar nenhuma lei que beneficie alguma atividade que eu exerça. Estou aqui porque quero fazer diferente. Pode ter algum interesse de desafio. Por que alguém sobe no Monte Everest? Ele está indo lá por desafio. Ganhou a satisfação de ter feito algo que poucas pessoas fazem. O que estamos fazendo aqui está semelhante a isso.  
O sr. e os secretários vão ficar sem salário, mas isso não vai te fazer falta.
Aqui em Minas, o que acontece é que os secretários recebem R$ 7 mil e sempre têm algum outro cargo dentro do estado para complementar a renda. O que deveríamos fazer e gostaria de fazer no meu mandato é corrigir essa distorção. Secretários em outros estados ganham muitas vezes mais.
Vai aumentar o salário dos secretários?
É uma das coisas que vou solicitar à Assembleia que avalie, não sou eu que aumento.
Não é contraditório com cortar gastos?
O secretário ganha R$ 7 mil dentro do estado e ocupa cargos em outros lugares onde ele ganha R$ 15 mil ou R$ 20 mil. Não seria melhor ele ganhar R$ 25 mil e aparecer como salário real dele? 
Seu secretariado deve vir do setor privado, conselheiros de empresas. Vão separar o fato de estarem em uma empresa e no governo?
Com toda certeza. Tem gente que tem assento em conselho de empresa que não fornece para o estado. Não vejo nenhum conflito e, se tiver, eu quero ser o primeiro a tomar as providências e quero que a imprensa esteja denunciando.
O sr. falou que não governará em redoma, que terá contato com as pessoas, servidores, deputados e o Judiciário. Mas para a imprensa o sr. não divulga compromissos, limita número de perguntas. Vai ter redoma para imprensa?
De jeito nenhum. Você não pode me julgar por essa fase de transição onde estou sendo obrigado a ficar trancado entrevistando pessoas. Não seria nem um pouco adequado selecionar um time e a imprensa estar acompanhando. Só ia causar intriga que iria atrapalhar. Mas a partir de 1º de janeiro a minha posição com relação a imprensa vai mudar totalmente.
Já há um desenho da renegociação da dívida com a União? Contrapartidas?
Está sendo tratado em Brasília. Isso é questão de tempo, depende da Assembleia aprovar. E uma das coisas que o governo federal exige são medidas de austeridade, que é não aumentar o salário do funcionalismo acima da inflação, não aumentar a quantidade de funcionários, só pode repor quem sai ou aposenta. É muito melhor não ter ganho real e passar a receber em dia do que ter ganho real, mas a situação só se agravar. É o caminho certo. A Assembleia vai ter consciência desse momento e vai votar no que é melhor para Minas Gerais, porque não há solução.

Carolina Linhares, Folha de São Paulo

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