quarta-feira, 24 de outubro de 2018

“FAKE NEWS” OU VERDADE DOLORIDA? OLAVO DE CARVALHO

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Por que da família? Porque a família é, segundo Horkheimer, a “escola da autoridade” – e o aprendizado da autoridade se dá sobretudo pela divisão artificial das forças psíquicas em eróticas e não-eróticas.
Este parágrafo de Max Horkheimer no ensaio “Autoridade e família”, de 1936, esclarece esse ponto:
“(1) A monogamia na sociedade masculina burguesa pressupõe a desvalorização do prazer oriundo da mera sensualidade. Por isso, não só a vida sexual dos esposos é envolta em mistério perante as crianças, (2) mas de todo o carinho dispensado à mãe pelo filho tem de ser banido estritamente qualquer elemento sensual. (3) Ela e as irmãs têm o direito a sentimentos puros, a uma imaculada devoção e estima. A forçosa distinção, exigida pela própria mulher e, mais ainda, defendida enfaticamente pelo pai, entre a entrega idealista e o desejo sexual, entre o pensamento amoroso e o simples interesse, entre o afeto etéreo e a paixão terrena, constitui uma raiz psíquica na existência cindida por contradições. (4) Se o indivíduo sob a pressão das relações familiares não aprende a reconhecer e respeitar a mãe na sua existência concreta, ou seja, como este ser social e sexual determinado, ele não só é educado para dominar seus impulsos socialmente nocivos, o que tem um significado cultural imenso, mas também, por se processar esta educação de maneira problemática, velada, via de regra o indivíduo considera perdido para sempre o uso de uma parte de suas forças psíquicas. A razão e o prazer nele são restringidos, (5) e a inibida dedicação à mãe retorna na receptividade exaltada e sentimental a todos os símbolos de forças obscuras, materiais, conservadoras.”
A obscuridade do estilo não permite que a lógica interna do parágrafo apareça à primeira vista e requer uma rigorosa análise de texto. Para efetuá-la, temos de notar que a trama gramatical das orações e períodos se divide, do ponto de vista do conteúdo lógico, em cinco asserções formais.
Proferida no tom de uma obviedade banal universalmente reconhecida, a afirmação número 1 é, ao contrário, profundamente enigmática. Horkheimer nem pensa em nos explicar por que deveríamos crer que privar as crianças de todo acesso às relações sexuais entre os pais seja “desvalorizar o prazer sensual”. Ele sugere, sem atenuantes, que o prazer se multiplica quando o ato sexual é assistido ou pelo menos conhecido por uma platéia de crianças. Ele dá a entender que isso é aliás uma verdade a priori inquestionável, mas como poderia a abertura do espetáculo sexual a uma plateia infantil valorizar o prazer sensual? Só há duas maneiras de fazer isso. Ou papai e mamãe são exibicionistas de um tipo especial que se sentem excitados quando seus jogos eróticos são presenciados ao menos em imaginação pelas crianças, ou as próprias crianças participam da brincadeira como objetos de desejo e receptores de prazer, reais ou imaginários. “Tertium non datur.
Lido com a devida atenção, Horkheimer está afirmando que quanto mais as relações sexuais entre marido e mulher se distanciam da promiscuidade incestuosa, mais empobrecidas elas se tornam.
[Continua.]

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