sábado, 23 de junho de 2018

"Afinal, desencantaram", por Fernando Gabeira



Nas corridas de cavalo, dizem que o vencedor desencabulou. Acho que no futebol é possível dizer que a seleção brasileira desencantou. Jogou para o ar toda a tensão e a expectativa da estreia prolongada pelo empate contra a Suíça.

No café da manhã, o hotel estava cheio de camisas vermelhas e amarelas. O dia amanheceu chuvoso em São Petersburgo, e o asfalto, molhado. Logo o sol abriu, e vi o bloco de camisas vermelhas saindo por um lado, e o bloco de amarelas, por outro.

Mesmo quem não está aqui com a missão de cobrir o futebol sabe que o interesse na Copa do Mundo depende da classificação do Brasil. Amanhã, por exemplo, há uma comemoração em homenagem à poeta Anna Akhmátova, um dos personagens mais interessantes da história cultural da Rússia. No sábado, há uma festa perto do Museu Hermitage que envolve barcos e milhares de jovens estudantes. Tudo isso só tem sentido se o Brasil continua na Rússia, se de alguma forma a história do nosso futebol e a do país sede da Copa continuam entrelaçadas.

Não analiso futebol, apesar de ser um torcedor entusiasta e de acompanhar ao máximo parte do Brasileirão e a Liga dos Campeões. Não me aventuro nesse campo, porque o futebol tem seus sábios e seus filósofos. Não creio que poderia dizer algo com tanta clareza como a frase do treinador Gentil Cardoso: quem se desloca recebe.

Se pudesse escrever um manual de jornalismo, creio que a colocaria como lema. Mas serve também para outras coisas, até para a solidão amorosa, embora tenha perdido sua força pedagógica com o advento da internet e das múltiplas trocas on-line.

Também não creio que encontraria com facilidade metáforas tão felizes como a de Neném Prancha: o pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube.

Mas o primeiro jogo da seleção nos deixou um pouco travados. Depois daquele fracasso em 2014, sobretudo dos 7 a 1 no Mineirão, sempre nos assombra o fantasma que dá branco na equipe, que a torna irreconhecível.

A maioria dos torcedores brasileiros é confiante. Na quinta-feira, perto do Hermitage, onde fui encontrar a amiga que me orienta sobre o calendário cultural de São Petersburgo, vi alguns com perucas, bandeiras, sob uma chuva fria.

Ontem ficaram exultantes. Do meu posto aqui, vi os egípcios partindo tristemente. Ontem foi a vez de ver peruanos se despedindo.

Em toda Copa do Mundo deve ser assim. Mas não estamos acostumados a sair tão cedo. Na verdade, o mais frequente é ir até a final, quando todos já deram adeus ao título. O jogo pela terceira e quarta colocações é melancólico para grandes campeões, embora seja uma vitória para equipes medianas.

De uma certa forma, a Copa do Mundo está começando agora. Já estamos com a língua de fora, viajando por um país tão extenso, recebendo mais informação do que o nosso cérebro pode processar.

Mas a grande qualidade do nosso futebol é despertar nosso ânimo. Se eles podem com a bola, por que não podemos com outros instrumentos, menos redondos, mais ásperos e às vezes obscuros do cotidiano?

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