sábado, 30 de junho de 2018

"José Dirceu, o cérebro da Revolução", por Ruy Fabiano


José Dirceu, posto em liberdade esta semana, pela segunda turma do STF – não obstante duas condenações em segundo grau e outros processos em curso na Lava Jato -, é mais importante para o destino das esquerdas no Brasil que o próprio Lula.
Lula é um símbolo, o operário no poder; Dirceu, um líder, o cérebro por trás do símbolo, que Lula chamava de “capitão do time”.
É ele o que, no jargão das esquerdas, se chama de “quadro político”, militante que passou por todos os estágios de formação e provação que, na visão revolucionária, são essenciais para produzir um líder, na acepção plena da palavra.
Dirceu, já nos preâmbulos de 64, figurava como uma das principais lideranças estudantis. Preso, na sequência da instalação do regime militar, foi libertado em 1969, com outros companheiros, em troca do embaixador americano Charles Burke Elbrick, sequestrado por um grupo de guerrilheiros de esquerda.
Foi inicialmente para o México e, em seguida, Cuba. Lá, deu início a sua graduação de quadro esquerdista.
Participou de treinamentos de guerrilha, que previa inclusive testes de resistência a interrogatórios e tortura, e acabou migrando para a área em que se tornou especialista: a de inteligência, mais especificamente espionagem.
Tornou-se agente de informação cubano, cargo que não prevê demissão ou aposentadoria. A carreira finda no cemitério.
Em seu exílio, conseguiu o que a bem poucos refugiados era (e é) dado: aproximar-se da cúpula do governo cubano, tornando-se amigo e interlocutor de Fidel Castro. Nada menos.
Voltou ao Brasil clandestinamente em 1975, já submetido a uma operação plástica que lhe deixou o nariz adunco e os olhos puxados, assumindo a identidade falsa de Carlos Henrique Gouveia de Melo. Foi residir em Cruzeiro do Oeste (PR), onde se casou sem revelar à esposa sua verdadeira identidade, o que só viria a ocorrer a partir de 1979, com a aprovação da anistia.
Não é um perfil qualquer, como se vê. Ele precede Lula, na gênese e construção do Foro de São Paulo, entidade que, desde 1990, reúne partidos e associações de esquerda da América Latina e mantém interlocução estreita com o socialismo internacional.
A partir do Foro, e sob sua visão estratégica, começaram a ser eleitos esquerdistas para os governos do continente, lastreados no amplo domínio, estabelecido ainda ao tempo do regime militar, da esfera cultural e midiática, a que se associaram facções do crime organizado – tidas como indispensáveis à ação revolucionária – e megaempresários inescrupulosos, como viria a revelar a Lava Jato.
Dirceu, porém, não contava com o imponderável: a tragédia administrativa de Dilma Roussef (que jogou a economia na lona), a Lava Jato e o renascimento do pensamento conservador, via internet.
Ele está por trás da nomeação de alguns ministros do STF: Luís Fux (a quem chama de traidor) e Antonio Dias Toffoli, que foi seu assessor e lhe tem sido fiel desde o Mensalão.
Conta ainda com Lewandowski, fiel a Lula, e Gilmar Mendes, que, nas palavras do deputado petista Wadih Damous, é hoje aliado do PT. Está livre, não se sabe por quanto tempo, mas sabe-se que não o desperdiçará. Já está em campo, em busca de reverter o jogo.
Anuncia para breve a publicação de suas memórias e, ao voltar para o xadrez, informa que de lá continuará a comandar a revolução. Diz que a cadeia é um ótimo lugar para se fazer política. Lá esteve como preso político e como político preso. Sabe do que fala.

Ruy Fabiano é jornalista 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Carlos Alberto Sardenberg: Chega de debate


- O Globo

Desconfie de todos os políticos que dizem: sim, a reforma da Previdência é necessária, mas precisamos debater os termos com a sociedade

Claro que é preciso debater tudo com a sociedade, mas, caramba!, há quanto tempo estamos debatendo a reforma da Previdência? Qual discussão é mais antiga, essa ou a reforma tributária? Francamente: nos dois casos, já está tudo dito, há números abundantes, todo mundo já deu suas opiniões. O que precisa agora, especialmente neste momento de eleições federais e estaduais, é definir propostas.

Em outras palavras, desconfie de todos os políticos que dizem: sim, a reforma da Previdência é necessária, mas precisamos debater os termos com a sociedade. Mesmo admitindo que cabem mais algumas conversas, a obrigação das lideranças que buscam votos é iniciar o debate apresentando a sua proposta de solução.

Sem isso, estão subindo no muro, se esquivando e tentando passar a falsa impressão de que, no governo, vão buscar uma saída que satisfaça todo mundo. E que não existe.

Vale para a reforma tributária, outra veteraníssima. Tudo dito, façam suas opções, candidatos, e se comprometam perante o eleitor de modo explícito.

Vale também para a reforma trabalhista. Aqui, aliás, temos um caso mais claro de tentativa de embuste. O Congresso aprovou, e o presidente sancionou uma reforma, justamente entendendo-se que o debate estava feito, e decisões tinham de ser tomadas. Foram, mas sobram candidatos dizendo que a votação foi prematura e que é preciso rediscutir tudo de novo.

Por exemplo: seria preciso chamar as entidades de trabalhadores e de empregados para perguntar o que acham do imposto sindical obrigatório, que foi extinto. Ora, para que chamar essa turma? Eles vão dizer o quê? Que não querem o dinheiro fácil do imposto recolhido e distribuído pelo governo?

Do mesmo modo, de que adianta perguntar às pessoas se preferem se aposentar na faixa dos 50 anos ou só depois dos 65?

Argumentam marqueteiros: mas o candidato não se elege se disser que vai aumentar a idade de aposentadoria. Bom, então diga que não precisa de reforma da Previdência e que vai pagar essa despesa com mais impostos, por exemplo. O embuste é dizer: vamos debater com a sociedade.

Vamos mal. Decisões cruciais demoram séculos e, quando são tomadas ... melhor rediscutir. Não acaba nunca.

PRIVILÉGIOS
Dia desses, o Tribunal Superior Eleitoral lançou edital para comprar equipamentos de “reabilitação fisioterápica”. Ou seja, uma academia, que ficaria à disposição dos funcionários. Isso, lógico, exigirá a contratação de fisioterapeutas.

Indagada, a direção do TSE disse que outros tribunais superiores já tinham esse serviço e que se tratava de igualar benefícios.

De fato, o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça têm essas academias, com fisioterapeutas de carreira, ganhando pouco mais de R$ 16 mil mensais. Está bom? Uma consulta às empresas de recursos humanos mostra que, no setor privado, os fisioterapeutas mais bem pagos estão em São Paulo: salário médio de R$ 3.700, teto de R$ 10 mil. No Brasil, média de R$ 2.200.

Não é uma questão de quem merece ou não. A questão é: pode o setor público pagar sete vezes mais para oferecer reabilitação gratuita a seus funcionários, que estão também entre os mais bem pagos?

Dirão: é coisa pequena, não é daí que vem o déficit das contas públicas.

Mas é daí, sim, especialmente nos governos estaduais e prefeituras. Nestes dois níveis de administração, a despesa com pessoal subiu sistematicamente desde os anos 90, até o ano passado, inclusive. Em 2017, esse gasto chegou a 9,1% do PIB. Muito, mas muito mais do que os investimentos. E todo dia saem notícias mostrando que esses níveis de governo estão quebrados, ou quase e, ainda assim, concedem aumentos salariais diversos.

Resumindo: todo mundo sabe que é preciso conter os gastos com o funcionalismo — uma questão econômica — e eliminar os privilégios — questão moral e política.

Não apenas aqui no Brasil, mas no mundo todo se sabe como funciona uma boa administração pública. É só copiar, em vez de propor um enganador debate sobre “soluções brasileiras”.

Tudo considerado, o setor público está quebrado. No governo federal, o principal gasto está na Previdência (INSS e aposentadoria dos servidores e militares). Nos níveis estaduais e municipais, a despesa que mais cresce é com salários do pessoal. Fato. Desconfie do candidato que propuser debates.

terça-feira, 26 de junho de 2018

NÃO SE PODE PUNIR IMBECILIDADE COMO SE FOSSE CRIME Flavio Morgenstern


Os abusos sofridos por mulheres na Copa da Rússia devem ser condenados moralmente com rigor. Entretanto, não são condutas criminosas, ou criaríamos um Estado moralista totalitário.
Alguns atos de abuso de homens se tornaram notáveis na Copa da Rússia, com a exposição via redes sociais ganhando ainda mais força do que há quatro anos. Primeiro, o grupo de brasileiros que fez uma repórter russa, que nitidamente não sabe falar português, repetir o brado “b… rosa! b… rosa!”. Depois, o russo que tentou dar um beijo forçado na repórter Julia Guimarães antes do jogo entre Senegal e Japão.
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Há poucos anos, de presidentes de empresa até a população desassistida, sem estudo formal, teria uma única visão sobre tais atos: não apenas reprováveis, mas um acinte à dignidade das mulheres em questão. Sendo uma sociedade que protege as vítimas de um abuso, deveríamos reprovar tal comportamento e defender mulheres inocentes. E, sendo uma sociedade que sabe dos perigos do autoritarismo, saberia que é um ato condenável moralmente, mas não com a força da lei. Afinal, o que aconteceria se colocássemos os imbecis na cadeia?
Com as ideologias dominando hegemonicamente o pensamento (nas escolas, nas Universidades, no jornalismo, até mesmo em tribunais), ao invés de um mínimo de bom senso, hierarquização de fatos e contraposição entre moral e direito, temos uma única e raivosa explicação para todos os nossos problemas, exigindo punição medieval quando o ato se encaixa em algum -ismo ou -fobia (como machismo ou homofobia), e um abrandamento punitivo se o ato criminoso não fomentar tal narrativa (assaltos, tráfico, mesmo assassinato).
Foi o receituário para ato moralmente condenável ser tratado como algo criminalmente condenável – mais do que isso, como o maior crime da história recente do país.
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No episodio 61 de nosso podcast Guten MorgenO que raios é a direita?, definimos a direita de uma forma poucas vezes sugerida: o conservadorismo, a defesa da tradição do complexo judaico-cristão, do Direito romano e da filosofia grega, defende uma separação entre o poder político e o poder sacerdotal, enquanto a miríade de ataques que a civilização ocidental recebe presume sempre uma unidade entre os dois poderes.
Mesmo no mundo de laicismo absoluto pós-Primeira Guerra, a figura do sacerdote continua presente – apenas foi trocada para o professor, o jornalista, a celebridade, o complexo midiático e de showbiz que delimita o que é permitido.
Desta forma, enquanto no conservadorismo há uma separação entre moral, verdade e política (embora haja um cruzamento necessário no Direito), em qualquer tentativa moderna de refundar a civilização (o que Eric Voegelin chama de gnose moderna) há sempre uma unidade entre o que é verdadeiro, o que é certo e o que um político faz. Não à toa, direitistas observam o Estado sempre com desconfiança e preconizam um Estado como mal necessário, enquanto a esquerda, desde a Revolução Francesa, tem alta admiração não por sacerdotes contrapostos a reis, mas sim uma crença absoluta, total e totalitária em políticos (e revolucionários), colocados como arautos da verdade, juízes da moral e a quem se deve dar todo o poder político e de liderança moral de uma nação.
Nesta era gnóstica em que vivemos, acredita-se piamente que todo o conhecimento possível sobre o mundo pode ser possuído pelo homem (um dos maiores temas da obra Os Demônios, de Dostoievsky), confundindo-se quase sempre o poder de definir o que é verdade nas mãos de um político, de um juiz ou de alguma autoridade do aparato estatal (não do poder de mando do Estado, a autoritas, mas o poder de força física estatal, a potestas), ao invés de permitir alguma liberdade privada, sabendo-se que a lei nunca chegará à verdade, ou que os agentes humanos são falhos, ou ainda que o uso da punição estatal nem sempre conseguirá criar uma moral (ainda mais em crimes que não envolvam violência física).
Ora, a defesa das mulheres foi feita na sociedade de inúmeras maneiras, embora o caráter revolucionário da sociedade pós-moderna trate toda a preservação da feminilidade anterior ao feminismo como uma verdadeira opressão (como o fato de a mulher ser poupada da guerra, ou o código de conduta do cavalheirismo implicar toda a força masculina ser direcionada para a proteção da mulher).
Estamos hoje diante de um caso que mostra justamente a falha da ideologia gnóstica do feminismo: houve na Rússia, diversas vezes, o abuso da força de homens. Quando homens enganaram uma repórter russa (óbvio que imprudente em repetir palavras que desconhece em um grupo de homens embriagados, mas a defesa da mulher deve ser integral, não perguntar qual mulher defender), feriram justamente uma regra de conduta social. Alguém imagina um d’Artagnan, um Robin Hood, um Ivanhoe, um Indiana Jones, um Don Diego de la Vega ou mesmo um Don Juan (!), estes exemplos de conduta masculina do passado, fazendo algo parecido com uma mulher, diminuindo sua dignidade, tratando-a como um pedaço de carne?
Curiosamente, o feminismo, que acredita defender as mulheres (e melhor do que um código de conduta púbica), é a primeira e mais histérica ideologia moderna a pregar o hedonismo absoluto, tratando até filhos frutos de relações sexuais anódinas e sem sentido como um “amontoado de células” a ser extirpado como uma unha encravada ou um câncer.
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Não é preciso ser muito inteligente para perceber que exatamente tal visão de mundo, abraçada por muitos homens, é que varre o cavalheirismo, o auto-controle sexual, uma moral defensora de bons costumes e da mulher como provedora do núcleo familiar para o “obscurantismo”, preferindo homens igualmente hedonistas, preocupados apenas com o prazer.
O resultado não poderia ser outro: homens gritando “b… rosa!” como um grande feito a ser compartilhado via WhatsApp com os amigos, ou tentando arrancar um beijo forçado de uma repórter no meio da rua. Mesmo que não haja o abuso da força física nos atos, há sempre sua presunção: é por isso que homens não devem ter o direito de tentar arrancar um beijo forçado de uma mulher, mas, a não ser em casos extremos, uma mulher dificilmente consiga ser uma “abusadora” se tentar o mesmo com um homem, já que costumam ser mais fracas fisicamente e não podem usar sua força para “ameaçar”.
Não adianta que as feministas digam depois: “Mas queremos que apenas as mulheres sejam hedonistas, e os homens tratem um não como um não”. Ou a moral é pública e universal ou simplesmente não funciona. Ou se defende que relações humanas tenham significado além de “amontoados de células” e exista uma moral pública sexual (e baseada na rígida distinção entre os sexos), ou restará às mulheres, quando vítimas de abusadores, recorrer unica e exclusivamente à autoridade político-estatal.
Daí que era esperado que feministas, ao virem as cenas horrorosas na Rússia, ao invés de exigirem costumes e hábitos melhores dos homens (aquilo que acusam de “moralismo”), prefiram gritar que “é crime” (mesmo sem elencá-lo), ou fazer abaixo-assinados pedindo pela prisão (sic) dos imbecis. Já que não há (felizmente) leis para punir a imbecilidade, recorrem a paliativos, como passar na TV seus nomes completos, onde trabalham (para forçar demissões e prejuízos) e demais formas de colocar os retardados em perigo físico, para compensar a falta de cadeia.
É mais do que natural que a Latam (onde um dos idiotas trabalhava) o demitisse – que empresa gostaria de ter sua imagem associada a um trouxa como ele? – e mesmo a OAB, por mais reprovável que costume ser, também pode iniciar uma punição administrativa – afinal, até mesmo uma quitanda pode ter um código de conduta.
O que a ideologia moderna causa de erro, além de sua visão platiforme de realidade, é o erro na punição. Ao invés de uma punição moral, resta uma punição estatal – ou, na impossibilidade desta, um linchamento público. Assassinos e abusadores de crianças não costumam ter seu rosto e seus dados repetidos na TV como foram os “machistas” dos vídeos.
Em situações normais, não seria preciso avisar, mas graças à falta de inteligência média, é preciso frisar que isto não significa nenhum abonamento para os completos estúpidos dos dois casos, como muitos tentaram dizer. Deve-se apontar que foram dois erros (dos imbecis e da reação ideológica), e não apenas um.
O que falta ao mundo moderno é um retorno à discussão moral. À noção óbvia de que relações sociais não são apenas desejo, e sim algo com um sentido além das moléculas. Protegeríamos muito melhor as mulheres de situações vexaminosas (e, não raro, perigosas) com esta simples mudança.
E, afinal, o que seria de nossos pensadores se puníssemos a imbecilidade como se fosse crime? Zé de Abreu, o ator global comunista, cuspiu no rosto de uma mulher sentada aos berros e ainda ganhou destaque no Faustão para se auto-elogiar pelo “feito”. Mas quando o imbecil (e abusador pior) está do lado revolucionário do espectro político, de repente a tolerância do feminismo é total.
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domingo, 24 de junho de 2018

"A sacralidade (paga pelo contribuinte) do STF", por Roberto Romano


Em editorial recente o Estado discutiu um ato do Supremo Tribunal Federal (STF) que ainda não foi devidamente discutido. Desde o título temos materiais para a diagnose do sistema estatal brasileiro: As celebridades do STF (9/6, A3). Após citar o aluguel de sala exclusiva para espera, embarque e desembarque dos magistrados no aeroporto brasiliense (ao custo de reais aos milhares), o autor do texto não mastiga palavras: “Agora, o STF tem não apenas uma área reservada para seus ministros, mas há um procedimento de embarque exclusivo. Acham melhor não se misturar com o povo. Contato com o populacho, só por intermédio das ondas esterelizadoras da televisão e do rádio oficiais”.
Temos aí a síntese de temas examinados pela sociologia da forma estatal. Desde a modernidade notamos um esforço para pensar o desempenho dos que operam o Estado em cenas trágicas ou bufas. Um livro que no Brasil teve pouco sucesso de venda expõe a lógica de quem manipula instituições e representa papéis diante das massas boquiabertas. Refiro-me ao volume de Richard Sennet O Declínio do Homem Público. Hoje os indivíduos, grupos, corporações desejam manter uma existência “íntima” no mesmo átimo em que brilham diante dos olhos populares. Impossível manter a contradição durante longo tempo. Logo, são ordenadas medidas para salvar a própria intimidade segundo a força econômica, política, social de cada setor. Celebridades que só atingem fama graças aos admiradores, paradoxalmente, fogem dos paparazzi que lhes dão renomada.
Volto ao texto do Estado: os juízes do STF gostam de aparecer nas telas, revistas, jornais. E são conhecidos por multidões que os admiram ou detestam. E tudo fazem para ter sua face lembrada. Entreveros no plenário ajudam. Como no telecatch examinado por Roland Barthes (Mitologias), temos no STF lutadores. Uns representam o Bem e outros, o absoluto Mal. A perversão e a bondade são reversíveis: os insultos voltam como bumerangues, fazem rir do herói, ontem trágico. Num processo o juiz desempenha o bom moço, mas noutro é execrado pelos pares ou pela plateia.
Célebres, eles querem guardar a condição de indivíduos privados. O contato com o populacho, na saborosa frase do jornal, deve passar pelas “ondas esterilizadoras”. Para resolver a situação penosa (a dialética entre a pessoa e o papel na cena pública) eles apelam para um truque antigo em regimes nada democráticos como o nosso. A presidente do STF, ao tomar posse do cargo, ousou falar em “Sua Excelência, o povo”. Estaria certa caso no Brasil tivesse vigor a soberania popular. Mas o espaço íntimo que ela concedeu a si mesma e aos pares desmente sua arenga supostamente democrática. A sala VIP é paga pelo aludido soberano, para dele afastar os que deveriam servi-lo.
Boa parte dos nossos juízes pensa e opera como os estamentos “superiores” do absolutismo. Eles se imaginam sacerdotes de um saber do qual detêm a propriedade. E a tudo acodem e decidem de modo consequente. Certa feita o rei francês pediu aos Estados um aumento de impostos. O Terceiro – a burguesia– recusou votar o acréscimo antes de examinar os cofres reais. Voto do clero: “As finanças do reino são como o Santíssimo Sacramento. Só podem delas ter a vista quem foi ordenado divinamente”. Não por acaso os nossos julgadores, ao falar dos que pagam altíssimos impostos, articulam a voz com desprezo: “São críticas de leigos”. E acabou a conversa: apenas os ungidos podem ter acesso aos arcana imperii.
Outro resquício de poder sacrossanto: nossos magistrados o exibem no uso de privilégios. A sala VIP de Brasília é uma delas, o auxílio-moradia, outra assumida como direito. E abrem-se as portas para outras e outras. Veículos de luxo, motoristas, gasolina, impostos viários, tudo segue para a conta do “soberano” invocado pela presidente do STF. Sempre que examino o Antigo Regime, noto dois pontos na sua persistência brasileira. O primeiro diz respeito às roupas. Sob domínio real, nobres e clero tinham exclusividade de cores, tecidos e cortes. Quem observa os retratos dos burgueses, nota o preto e branco por eles ostentado. Não era o rigor moralista contra o luxo, mas proibição, porque as cores eram privilégios. No Rio de Janeiro o príncipe João (depois VI) ainda fala do poviléu como “gente ordinária de vestes”. Quando a toga desce sobre os ombros de nossos juízes, eles deixam de ser “gente ordinária de vestes”, entram para o panteão, longe dos meros leigos. Daí a sua busca de espaços sagrados, onde só eles podem pisar, como a sala do aeroporto brasiliense.
Mesmo com privilégios dados ao clero e aos nobres no Antigo Regime, nunca se ouviu dizer que o rei pagasse a carruagem do cardeal ou duque. Aqui, o “soberano” garante as viaturas de vereadores, nos municípios mais carentes de serviços públicos, a locomoção de prefeitos, deputados, senadores e... juízes. Uma conta conservadora eleva os gastos com tais regalias aos bilhões, que poderiam ser postos na educação, saúde, segurança.
Os ministros do STF a ele se referem em tom sempre elogioso, como se a infalibilidade garantisse o futuro e o presente, numa instituição cujo pretérito seria glorioso. A pesquisa histórica desmonta semelhante wishful thinking. No momento em que a Corte permite a censura ao jornal O Estado de S. Paulo, no caso da Operação Boi Barrica, lemos com muito proveito o livro de Felipe Recondo Tanques e Togas, o STF e a Ditadura Militar (SP. Cia das Letras, 2018). Nele fica bem claro o epíteto do STF : “tribunal político”. Semelhante desolação só pode ser abolida se a escolha dos juízes for modificada, recrutando-se pessoas afeitas à democracia e aos julgamentos desde a primeira instância, avessas aos tratos de gabinetes e corredores do Executivo ou Legislativo. Ou quando as urnas escolherem juízes, com recall para eles e todos os que dirigem o Estado brasileiro.
*PROFESSOR DA UNICAMP, É AUTOR DE ‘RAZÕES DE ESTADO E OUTROS ESTADOS DA RAZÃO’ (PERSPECTIVA)
O Estado de São Paulo

sábado, 23 de junho de 2018

"Gols de letras", por Nelson Motta


Para Nelson Rodrigues, o futebol era um pretexto para textos geniais sobre a vida como ela é, sobre as grandezas e misérias da condição humana

Caixa de surpresas e imprevistos, em que nem sempre o melhor vence, e o pior nem sempre perde, em que a lógica e o bom senso são desafiados até o último minuto num jogo em que não há justiça nem perdão, o futebol desperta tanta paixão que leva homens e mulheres educados e civilizados a se transformarem em torcedores selvagens enquanto a bola rola.

Com esses ingredientes, o violento esporte bretão inspirou cronistas e romancistas desde que começou a se popularizar no Rio de Janeiro. No início, era esporte de elite, de playboys cariocas e ingleses, o esporte do povão eram as regatas na Baía de Guanabara.

Na década de 20, o futebol provocava polêmicas. Para Lima Barreto, o maior escritor negro do Brasil depois de Machado de Assis, era o “esporte do pontapé”, uma boçalidade que tinha como única função “causar dissensões no seio da nossa vida nacional”. Para ele, o esporte nacional era a capoeira, e o futebol aumentaria o fosso social entre brancos e negros.

De fato, o racismo e a discriminação aumentaram com o profissionalismo nos anos 30, se agravaram culpando o goleiro Barbosa e o zagueiro Bigode pela derrota em 1950, e foram derrotados por Pelé e Garrincha em 1958. A saga sofrida e gloriosa de negros e mestiços que mudaram nossa história nos campos de futebol e no imaginário nacional foi contada pelo pernambucano Mário Filho no monumental “O negro no futebol brasileiro”, grande clássico sócio-antropo-esportivo.

Irmão de Mário Filho, além de nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues foi o Pelé da crônica esportiva, porque sua imaginação prodigiosa e seu talento para o drama e a comédia transformavam uma reles pelada em um épico grandioso. O futebol era um pretexto para textos geniais sobre a vida como ela é, sobre as grandezas e misérias, e sobre o ridículo, da condição humana.

Um dos melhores romances que li nos últimos anos foi o premiado “O drible”, de Sérgio Rodrigues, uma emocionante história de encontros e desencontros de pai e filho com o drama de um craque imaginado e de um país real em movimento, narrada com a elegância de um Didi e a explosão de um Ronaldo Fenômeno.


O Globo

Demétrio Magnoli: Ciro, uma análise de texto


- Folha de S. Paulo

O homem que fala como quem desfere tiros nunca teve que escolher entre a fidelidade a suas ideias e a segurança pessoal

Jacques Derrida, o filósofo célebre pela desconstrução semiótica, imaginava que “nada existe fora do texto”. Não é preciso rezar pela cartilha dele para reconhecer a importância da linguagem, na política ou na literatura. Diz-se de Ciro Gomes, um compulsivo franco-atirador de adjetivos insultantes, que é boquirroto.

O irmão, Cid, interpreta seu destempero nos registros da “franqueza” e da “sinceridade” (Folha, 21/6). Tomo a sugestão de Cid como guia de análise das palavras escolhidas por Ciro, no Roda Viva (28/5), para qualificar a oposição venezuelana: “Fascista, neonazista, entreguista”. O tema está longe do centro do debate eleitoral brasileiro, mas o curto texto esclarece muito sobre o candidato.

Apesar de Derrida, o contexto sempre importa. No plano da ética pessoal, dirigir insultos a correntes políticas que operam num sistema democrático não é o mesmo que fazê-lo contra opositores perseguidos por um regime autoritário. A opção de poupar o regime chavista de sua artilharia verbal, desviando-a para figuras que enfrentam a repressão, a prisão ou o exílio, desvenda um traço de caráter. A biografia de Ciro ajuda a iluminá-lo.

A carreira política de Ciro começou no movimento estudantil, nos anos anteriores à Lei de Anistia (1979). Havia perigo, mas não para ele, que pertencia à Arena Jovem, base da chapa pela qual concorreria à vice-presidência da UNE.

Ciro jamais experimentou a condição de opositor de uma ditadura. Da política estudantil, seguiu para o PDS, o sucessor da Arena, antes de migrar para o MDB. O homem que fala como quem desfere tiros nunca teve que escolher entre a fidelidade a suas ideias e a segurança pessoal. Isso, antes de tudo, o distingue dos venezuelanos que ele ofende.

Alexander Soljenítsin, um dos mais destacados dissidentes soviéticos, era um nacionalista grão-russo; Václav Havel, dissidente tcheco que se tornaria presidente, um democrata liberal; Vladimir Herzog, assassinado na prisão pela ditadura brasileira, um comunista.

É possível, sem comungar com as ideias deles, defender o direito de expressá-las, que se confunde com o direito das sociedades de debater livremente seu futuro. Ciro optou por outro caminho, repetindo as senhas cunhadas pelo regime venezuelano para suprimir a oposição.

A repressão política vale-se da linguagem, tanto quanto do cassetete e do calabouço. O governo soviético crismava Soljenítsin como fascista. O governo comunista tcheco qualificava Havel como agente da CIA. O governo militar no Brasil classificava Herzog como agente da KGB.

Não existe nenhuma indicação de que os líderes opositores venezuelanos sejam fascistas ou neonazistas. Henrique Capriles pertence ao Primero Justicia, um partido-ônibus que abrange de social-democratas a liberais. Leopoldo López fundou o Voluntad Popular, um partido filiado à Internacional Socialista.

Henri Falcón, candidato oposicionista às eleições farsescas de maio, é um chavista histórico que cindiu com o regime em 2012. O general Raúl Baduel, que cumpre uma segunda sentença de prisão, foi um íntimo colaborador de Chávez entre 1982 e 2007. No Roda Viva, Ciro falou como porta-ofensa de Maduro.

Derrida não deixaria escapar a palavra “entreguista”. Diferente de fascista ou neonazista, “entreguista” não descreve uma ideologia e, rigorosamente, nada significa –mas cumpre função decisiva na linguagem do chavismo.

O termo destina-se a marcar um opositor como agente de interesses estrangeiros, senha crucial para forjar processos judiciais e justificar encarceramentos. Ciro pode ter falado taticamente, a fim de granjear as simpatias do PT. Ou pode ter exercitado a “franqueza” e a “sinceridade”.

Na primeira hipótese, o candidato mostra-se capaz de sacrificar qualquer valor no altar de sua campanha eleitoral. Na segunda, revela que, uma vez Arena, sempre Arena.
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Demétrio Magnoli é doutor em geografia humana e especialista em política internacional.