quinta-feira, 17 de maio de 2018

Da liberdade à vitimização - PAULO CRUZ

Da liberdade à vitimização

Luiz Gama empunha a bandeira dos Liberais Dissidentes. Angelo Agostini/Reprodução
Luiz Gama empunha a bandeira dos Liberais Dissidentes. Angelo Agostini/Reprodução
“Eu disse uma vez que a escravidão nacional nunca havia produzido um Terêncio, um Epicteto, ou sequer um Espártaco. Há agora uma exceção a fazer: a escravidão entre nós produziu Luiz Gama, que teve muito de Terêncio, de Epicteto e de Espártaco”. (Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira)

No último domingo, 13 de maio de 2018, aniversário de 130 anos da Abolição da Escravatura no Brasil, o programa Fantástico, da Rede Globo, não veiculou uma reportagem comemorativa; não exaltou a gloriosa luta abolicionista; não falou de Abílio Cesar Borges, Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, João Clapp, José de Seixas Magalhães, Luíza Regadas, Chiquinha Gonzaga e tantas outras figuras importantíssimas do movimento pela abolição dos escravos. Mesmo as menções à Princesa Isabel e a D. Pedro II, personagens fundamentais no processo da abolição, foram, infelizmente, num tom crítico exacerbado. O Fantástico escolheu falar sobre o racismo, que persiste, de acordo com a historiadora Lilia Moritz Schwarcz (USP) – figura onipresente em absolutamente todo o noticiário sobre o assunto –, por ser uma das consequências diretas da Lei Áurea, por esta “ter sido tão conservadora” – como se a promulgação de uma lei pudesse dar conta dos desdobramentos psicológicos de mais de 300 anos de escravidão.
O programa sustentou sua tese colocando placas com frases racistas, recentes e do passado, em locais movimentados da cidade de São Paulo, e pedindo para que os transeuntes as lessem. O resultado foi, no mínimo, curioso. Alguns não conseguiram lê-las até o final, considerando-as ofensivas demais para serem verbalizadas; outros disseram que, infelizmente, continuamos sustentando os mesmos separatismos do passado; outros ainda, ao lerem, sentiram-se tão emocionados que não puderam conter as lágrimas – voltarei a esses últimos, que eram negros, mais abaixo. Mas uma coisa é certa: a rejeição do racismo por parte de todos os entrevistados foi absoluta.
Fica a pergunta: como esse país pode ser racista?! Será que se algum entrevistado manifestasse o seu racismo publicamente, o programa não teria feito questão de mostrá-lo para, definitivamente, provar que o racismo existe? Mesmo as pessoas acusadas de racismo, como um professor da Escola Técnica Federal e um aluno da FGV, mostrados pelo programa, afirmaram, categoricamente, não serem racistas. E, se mentem, é mais uma prova da consciência que têm do quão condenável é tal comportamento. Os neonazistas, por exemplo, fazem questão de exibirem suas suásticas; e a Ku Klux Klan continua com suas reuniões regularmente nos EUA. Aqui, o “racista”, isolado, se esconde, pois sua atitude é condenada pela esmagadora maioria da sociedade.
A professora Lilia Schwarcz, reafirmando a tese de seu livro Nem preto, nem branco, muito pelo contrário (Claro Enigma), diz que o racismo persiste no país porque, durante muito tempo, assumimos a postura de pensar que o racista é sempre o outro, negando o problema. Ela toma a confusão das pessoas em não se dizerem racistas – mas, na mesma proporção, conhecerem pessoas racistas – como um racismo não assumido. Mas eu apostaria que essa confusão se dá por outro motivo: a dificuldade que temos para definir o que é racismo. Explico. O que leva uma pessoa a chamar outra de “macaco”, nem sempre denota uma noção consciente de raça; pode ser somente um desejo gratuito de ofender – por saber que o outro se sente ofendido ao ser chamado assim. Os motivos que levam um empresário a não contratar um funcionário negro, mesmo tendo mostras evidentes de sua superioridade profissional frente a um candidato não-negro, demonstra inicialmente, apenas um caso flagrante de mau empreendedorismo. Ou alguém que, apesar de ter amigos negros, não queira que sua filha se case com um negro, demonstra um preconceito que pode ter origem no próprio comportamento de seus amigos negros, ou, ainda, por uma tentativa de, tomando o racismo como uma realidade abjeta, querer proteger a filha de possíveis constrangimentos futuros.
Na obra supracitada, a historiadora diz, citando o grande Thomas Sowell, que mesmo que a definição de “raça” seja complicada – e o próprio Sowell demonstra que essa dificuldade suscita um sem-número de controvérsias –, o problema não se torna uma “falsa questão”, advertência com a qual concordo. Por outro lado, Sowell também afirma, em Intellectuals and Race, que “raça”, mais do que uma categoria social ou cultural, se transformou numa “indústria, com sua infraestrutura própria, suas subdivisões, incentivos e agendas”. A proliferação de departamentos acadêmicos e de pesquisa, de ONG’s, de um mercado específico baseado nessas categorias, faz com que os interessados no racismo como problema tratem de, cada vez mais, reafirmá-lo a fim de manterem suas posições. Negar o “racismo estrutural” seria ruir a estrutura que os sustenta.
Agora volto aos jovens negros que, lendo as frases racistas, choraram. Fiquei triste por perceber que o Movimento Negro, após descobrir conceitos como “microagressão”, vem transformando os jovens negros em verdadeiros fracos, incapazes de sentir orgulho de sua cor e presas fáceis de um sentimentalismo nocivo. “O sentimentalismo”, diz o psiquiatra britânico Theodore Dalrymple, em Podres de Mimados (É Realizações), “é a expressão da emoção sem julgamento. Talvez ele seja pior do que isso: é a expressão da emoção sem um reconhecimento de que o julgamento deveria fazer parte de como devemos reagir ao que vemos e ouvimos […] O sentimentalismo é, portanto, infantil (porque são as crianças que vivem em um mundo tão facilmente dicotomizável) e redutor da nossa humanidade”.
A reação daqueles jovens no Fantástico, diante de frases escritas em cavaletes, longe de qualquer possibilidade real de perigo, de ofensa, de racismo, no safe-space da Rede Globo, foi chocante para mim. Foi a constatação de que algo muito errado aconteceu a essa juventude. Outra jovem contou que se sentiu um objeto de pesquisa de sua professora, quando esta pediu para tocar em seu cabelo e disse – estupidamente, é verdade: “sempre quis tocar no cabelo de um negro”. Outra aluna entrevistada disse, em seguida, que “o racismo também está nessa microagressão”. Nesse caso, a pressão do Coletivo AfriCásper (!) – grupo criado “com o intuito de proporcionar a troca de informações, a realização de discussões relacionadas aos temas de interesse da comunidade negra, e também a interação da mesma com o ambiente universitário” – foi tão grande que, de acordo com informações de sites ligados ao Movimento Negro, a professora foi demitida.
O termo “microagressão” foi cunhado pelo psiquiatra americano Chester Middlebrook Pierce e popularizado pelo psicólogo Derald Wing Sue – que, recentemente, lamentou o uso excessivo e persecutório do termo, evidenciado numa planilha que circulou no site de algumas universidades americanas, listando exemplos de microagressões –, e vem sendo usado como ferramenta de vitimização da mais irrelevante e contraproducente geração de negros da História.
O efeito que tal conduta provoca é totalmente contrário ao esforço descomunal das gerações anteriores, que lutaram para criar uma identidade positiva da “raça negra”. Lembro-me da alegria que senti ao comprar a primeira Revista Raça, e ver negros sorridentes, bem-sucedidos, muito bem-vestidos (com roupas de grife), esbanjando beleza e bom gosto. Lembro também dos “Bailes Black”, das rodas de samba, das festas de família, ambientes nos quais o racismo era uma impressão – embora indelével – incapaz de minar nosso orgulho e nossa consciência. A agenda do Movimento Negro atual é projeto de poder, uma ideologia nociva que está transformando o mundo num caldeirão de ódio e ressentimento.
Luiz Gama, o grande advogado e abolicionista, é que poderia ser um exemplo para esses jovens coitadistas. Vendido como escravo pelo próprio pai, Gama conseguiu sua alforria e, de maneira obstinada, tornou-se o “advogado dos escravos”, com mais de 500 ações de libertação de escravos ganhas em sua brilhante carreira. Gama também era poeta, e manifestava em seus versos a enorme convicção de sua importância, carregada de uma altivez absolutamente genial. Em sua obra Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, publicado em 1861, no poema de abertura, Prótase, ele “confessa”:
Sobre as abas sentado do Parnaso,
Pois que subir não pude ao alto cume,
Qual pobre, de um Mosteiro à Portaria,
De trovas fabriquei este volume.
[…]
Grosseiras produções d’inculta mente,
Em horas de pachorra construídas;
Mas filhas de um bestunto que não rende
Torpe lisonja às almas fementidas.

Em seguida, dá uma lição espetacular de erudição e inventividade, em Lá Vai o Verso:
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei incontinente
O fio das idéias fui traçando.

As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.

Oh! Musa de Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d’urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
As vias me conduz d’alta grandeza.

Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões – aurifulgentes
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
O obscuro poder da parvoíce
E a fama levar de vil sandice
Às longínquas regiões da velha Báctria!

Quero que o mundo me encarando veja,
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta da Marimba augusta;
E, qual Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo –
As ferrenhas palhetas vai brandindo
Com estilo que preza a Líbia adusta.

Misturando a exaltação da poesia clássica, evoca, não as musas do Olimpo, mas da Guiné, demonstrando, surpreendentemente, um grande conhecimento da cultura africana.
Sobre o racismo que sofria, também faz troça em Quem sou Eu?:
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta…
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes…

Colocando, desse modo, todos os seres humanos – brancos, negros, pobres, ricos etc. – no mesmo patamar.
De acordo com a professora Elciene Azevedo, autora do livro biográfico Orfeu de Carapinha (Unicamp):
“O tom dado por Luiz Gama a seus poemas, longe de trazer uma imagem lamentativa do negro, ligada ao trabalho forçado e à vitimização do escravo, conduzia o leitor a um mundo negro dissociado do trabalho compulsório e valorizado em seus aspectos culturais. Por isso mesmo seus versos deviam ser um meio bastante eficaz de não só de denúncia como também de uma inovadora proposta social. Pode-se dizer a construção de uma identidade africana fundamentada na positivação do negro, e o argumento de que todos neste país de certa forma possuíam ascendência africana, são dois lados de uma mesma moeda”.
É exatamente isso que falta a esses jovens e ao Movimento Negro como um todo. Um senso de positivação não rancoroso; uma consciência negra não cativa de ideologias europeias que só fizeram diminuir o valor do negro na cultura brasileira em vez de exaltá-lo.
Que Deus nos ajude a mudar esse triste quadro.

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