domingo, 15 de abril de 2018

‘Repressões aumentam perto da data que Raúl Castro irá anunciar sucessor’


‘Repressões aumentam perto da data que Raúl Castro irá anunciar sucessor’


A ativista cubana Rosa Payá, filha de Oswaldo Payá
Foto: Divulgação
A ativista cubana Rosa Payá, filha de Oswaldo Payá - Divulgação
Marina Gonçalves, O Globo

RIO e MIAMI — Uma das criadoras da plataforma Cuba Decide e filha de Oswaldo Payá, a ativista Rosa Maria Payá é hoje uma das vozes jovens mais críticas ao governo cubano. 

Em entrevista ao GLOBO, ela denuncia o aumento da repressão na ilha, principalmente nos últimos meses, e diz que mudanças internas, como a reforma migratória e as novas licenças para empreendedores, se transformaram em mecanismos de controle. Para ela, o governo vive um momento de grande vulnerabilidade, já que irá colocar no poder uma pessoa que não foi escolhida pelos cubanos e tampouco faz parte do núcleo que lutou na Sierra Maestra durante a Revolução Cubana.

O que é o Cuba Decide?
É uma campanha de mobilização que tem o objetivo de mudar o sistema político cubano, com a participação dos cidadãos em um plebiscito. Como a Constituição cubana não permite mudanças, essa plataforma cidadã, que não usa a violência, visa a pressionar que os próprios cubanos decidam seu futuro, e não as mesmas pessoas que já o fazem há 60 anos. A campanha nasceu em 2015, numa declaração conjunta assinada na Cúpula das Américas, no Panamá. Desde então crescemos para trabalhar na realização de um plebiscito vinculante, com a participação de milhares de pessoas, cidadãos, jovens, organizações da sociedade civil, ativistas.

Desde então, que ações já foram tomadas?
Nos últimos dois anos propusemos o boicote a votações do regime, como a última, de 11 de março, para delegados provinciais — que são totalmente uma fraude, já que os candidatos na prática são decididos pelo regime. Com os ativistas da plataforma tentamos fazer uma observação do número de eleitores e daqueles que aderiram ao boicote, anulando o voto. Vários dos nossos observadores foram agredidos, tivemos mais de 30 prisões e outros que foram impedidos de votar ou até mesmo de chegar perto de seu colégio eleitoral. Nossa amostragem, feita em poucas seções, mostra que 37% dos eleitores não foram votar, o que indica que uma alta porcentagem dos cubanos boicota esse sistema.

As repressões na ilha aumentaram nos últimos meses?
Sim, consideravelmente, sobretudo conforme vão se aproximando as votações e a data que Raúl Castro irá anunciar o novo designado, que pela primeira vez em muitos anos será alguém que não é da família Castro nem esteve na Sierra Maestra. É um momento de grande vulnerabilidade do regime, que irá colocar no poder uma pessoa que não foi escolhida pelos cubanos e tampouco faz parte desse núcleo. O perigo de uma transição democrática é grande e o regime não quer que este descontentamento seja visível à comunidade internacional, por isso vem acossando ainda mais nossos ativistas, aumentando a repressão e a prisão.
O que muda com a provável designação do vice-presidente Miguel Díaz-Canel?
Uma coisa é uma mudança dentro das estruturas de poder, e outra coisa é uma transição democrática. Podem ser feitas mudanças sem uma transição democrática. Por exemplo, há um ano tivemos um show dos Rolling Stones em Cuba. Isso significa que o país tenha liberdade de expressão? Não. Mas é um símbolo do mundo livre. Não adianta apenas mudar o nome de quem está à frente do Conselho de Estado e de Ministros. Vale lembrar que Raúl continua como presidente do Partido Comunista e o poder econômico está nas mãos do conglomerado militar e da família Castro. Não é real comparar essa substituição à troca de presidência em um governo democrático. Estamos falando de um grupo de homens que sequestraram o poder e estão dispostos a enviar sinais para a comunidade internacional para que pareça que mudanças reais estão acontecendo. Essa mudança de fato só pode vir dos cidadãos e do povo. E o povo leva 60 anos sem ser consultado.

A abertura econômica deve continuar acontecendo?
Na verdade ela já está sendo freada. O governo não está concedendo novas licenças aos cuentapropistas, como são chamados os pequenos empresários cubanos, e os que já têm permissão estão sofrendo acosso das autoridades do governo para fazer seu trabalho. Os motoristas de táxi fizeram recentemente uma greve porque as taxas que têm que pagar são tão altas que não tinham mais lucro. Todos estão enfrentando problemas por regulações do Estado. E não há espaço para novas iniciativas, estão todas suspensas.

Por que isso vem acontecendo? Tem a ver com a mudança de governo nos EUA?
Nem os Estados Unidos nem nenhum fator externo determina isso. Estamos falando de um regime que necessita de um controle para continuar no poder porque não conta mais com o apoio dos cidadãos. Pequenos negócios privados respondem ao regime, porque sabem que ter licença também é manter controle politico. Por exemplo, um cuentapropista que cole um cartaz na porta do seu negócio apoiando o Cuba Decide sabe que perderá sua licença. A gente lê nos jornais que cada vez mais cubanos viajam para o exterior, mas não que muito ativistas perderam a possibilidade de entrar e sair do país. O governo continua decidindo isso. Todas as pequenas reformas que vimos, antes do processo de abertura, que partiu dos EUA, como a reforma migratória e as novas licenças para empreendedores se estabeleceram como novos mecanismos de controle e não de mais direito aos cidadãos. Por parte do governo não houve nenhuma mudança substancial dentro da ilha na direção de reconhecer o direito dos cubanos.

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