domingo, 1 de abril de 2018

1964 e a atuação da KGB no Brasil Por João César de Melo

1964 e a atuação da KGB no Brasil
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“O golpe começou em Washington” é uma das frases mais infames produzidas pela esquerda. A partir dela, outras tantas foram criadas para consolidar no imaginário popular o golpe e a ditadura militar como obras dos Estados Unidos.
De tão repetida nos jornais, nas escolas, nos palcos e nas conversas de bar, ela se tornou uma “verdade” brasileira, transformando a narrativa sobre o golpe de 1964 na mais importante peça de propaganda socialista no Brasil, utilizada até para sustentar a narrativa contra o impeachment de Dilma. Esse absurdo precisa acabar.
Em primeiro lugar, devemos saber que a infame frase “O golpe começou em Washington” foi lançada como título de um livro de Edmar Morel. Quem é ele? Ex-agente da ditadura fascista de Getúlio Vargas e funcionário do famigerado Serviço de Imprensa e Propaganda, o órgão de censura da ditadura. Em 1952, a convite da União Soviética, Morel passou uma temporada em Moscou. Naquele ano, os comunistas mantinham cerca de 3 milhões de pessoas em campos de trabalhos forçados, já haviam matado centenas de milhares de opositores e pessoas vistas como potenciais ameaças à “revolução” e, por causa dos confiscos e deportações para a Sibéria, mais de 10 milhões já haviam morrido de fome ou frio.
Esse era o regime que inspirava o autor de um dos mais importantes livros da literatura socialista brasileira.
Se o perfil ideológico dele espanta, tente assimilar isso: “O Golpe Começou em Washington”, livro apresentado como documento investigativo e histórico, foi escrito, produzido e lançado ao público apenas um ano depois do fato objeto da obra. Um ano! Um ano numa época em que não havia informática e Internet, ou seja, todas as pesquisas eram feitas diretamente nas bibliotecas e nas fontes de informação.
O livro de Edmur Morel é baseado apenas em uma “prova”: a transcrição de uma conversa em que o embaixador americano Lincoln Gordon pede ao presidente americano Lyndon Johnson que tome alguma providência sobre o risco de guerra civil no Brasil.
Vamos lá…
1 – A conversa ocorreu em 31 de março, quando as forças militares brasileiras já estavam nas ruas e João Goulart fazendo as malas para ir embora. Que conspiração foi essa em que o conspirador se mostra surpreso com os fatos?
2 – Como “conspiradores”, os americanos não deveriam continuar quietos, apenas influenciando os fatos?
3 – A frota estava destinada a chegar no Brasil onze dias depois do golpe. Ué?! Os americanos chegariam atrasados no golpe orquestrado por eles mesmos? Pior: a frota sequer chegou ao Brasil. A notícia de que não havia qualquer registro de instabilidade civil fez o governo americano abortar a missão.
4 – Era uma obrigação constitucional do governo dos Estados Unidos enviar tropas a qualquer região onde encontram-se cidadãos e empresas americanas em risco. Ou seja: a “mobilização” de tropas apenas cumpriu um protocolo.
5 – As forças “mobilizadas” não eram suficientes nem para ocupar a cidade do Rio de Janeiro, quanto menos um país do tamanho do Brasil em guerra civil.
Em resumo, o livro de Edmur Morel foi nada mais do que uma obra ficção.
Quando um sujeito da esquerda diz que você precisa “ler livros de história”, é a esse tipo de publicação que ele se refere.
Os cinco argumentos listados acima já são o bastante para desmoralizar o livro de Morel, porém, o verdadeiro massacre está no livro “1964, O Elo Perdido – O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista”, do brasileiro Mauro Kraenski e do polonês Vladimir Petrilák. Uma obra escrita a partir de uma pesquisa de 25 anos nos arquivos da StB, o serviço secreto da antiga Tchecoslováquia. Preste atenção: 25 anos de pesquisa!
No livro, os autores primeiro descrevem o que era a Tchecoslováquia: um país tomado pelo totalitarismo comunista e que seguiu fielmente a cartilha soviética de extermínio da oposição por meio de prisões e fuzilamentos em massa.
Segundo documentos oficiais, o país de 14 milhões de habitantes teve mais de 200 mil pessoas enviadas a campos de trabalhos forçados e 100 mil assassinadas por “crimes políticos” que incluíam simples opiniões.
Para efeito de comparação, durante a ditadura brasileira − período em que a população brasileira chegou a 80 milhões – os militares assassinaram 434 pessoas por razões políticas, de acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV).
Voltando ao livro…
Depois de descrever a Tchecoslováquia da época, Kraenski e Petrilák esclarecem sobre a subordinação da StB (Štátna bezpečnosť, “Segurança do Estado”, serviço secreto tcheco) à KGB (Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti, “Comitê de Segurança do Estado”), o serviço secreto da União Soviética.
A StB atuava livremente no Brasil. Durante a Guerra Fria, a Tchecoslováquia não era vista como inimiga, o que dava liberdade para seus agentes circularem, se relacionarem com brasileiros e obterem informações sem despertar suspeitas. O resultado foi a infiltração de dezenas de agentes tchecos que recrutaram centenas de brasileiros a partir de 1952. Tudo, absolutamente tudo, registrado metodicamente. Em outras palavras: a StB era, de fato, a KGB no Brasil, dado que todas as diretrizes da agência tcheca eram definidas em Moscou.
Segundo os documentos levantados pelos autores, a rede de agentes costurada pela StB contava com pessoas em todos os níveis da sociedade e do estado. Jornalistas, editores, empresários, ativistas nacionalistas, altos funcionários estatais, parlamentares, governadores e pessoas próximas aos presidentes Jânio Quadros e João Goulart.
O serviço secreto comunista infiltrou-se, já naqueles tempos, nas organizações de defesa das mulheres, dos negros e da reforma agrária.
Os autores apresentam ainda documentos e depoimentos de ex-agentes sobre como os comunistas se infiltraram na Igreja Católica, principalmente a partir da criação da “Teoria da Libertação”, um projeto da KGB que teve como objetivo instruir cristãos no marxismo e insuflá-los à revolta armada.
A partir de 1960 − principalmente por causa do golpe comunista em Cuba − o material reunido sobre o Brasil e a rede de agentes deram sustentação para a StB iniciar um trabalho de desinformação contra os Estados Unidos e a favor de Cuba e das ideias socialistas. Para tanto, a agencia financiava jornais, escritores, colunistas, revistas e editoras. Sem qualquer pudor, mentiam. Mentiam muito.
Destacam-se no livro os arquivos da própria StB sobre a falsificação de documentos contra os Estados Unidos e a facilidade com que eram plantados na imprensa graças aos jornalistas e editores que trabalhavam para o serviço secreto tcheco.
O resultado, devidamente reconhecido e registrado pela StB – e percebido até nos dias atuais − foi a instalação de um profundo sentimento anti-americano em grande parte da população, substituindo no imaginário das pessoas a opressão e a fome imposta pelos regimes socialistas por fantásticos números sobre educação e saúde.
O trabalho da StB era meticuloso tanto na obtenção de informação quanto na seleção de seus agentes. A agencia recusava pessoas diretamente ligadas a organizações ou governos reconhecidos como socialistas, preferindo recrutar os “isentões”.
Assim como vemos hoje dezenas de jornalistas e personalidades “apartidários” que estão visivelmente alinhados às pautas petistas, durante as décadas de 1950 e 1960 os contratados da StB não demonstravam publicamente qualquer afeição ao PCB ou a Cuba, formando um “movimento social que deveria causar a impressão de independência e fingir não ter nada em comum com qualquer coisa suspeita aos brasileiros habituados à democracia” nas palavras dos autores (pag. 239).
O esforço de desinformação promovido pela StB tinha um objetivo: alimentar o anti-americanismo como forma de justificar a existência de movimentos de “libertação nacional” baseados nas retóricas anticapitalista e anti-imperialista, gerando uma revolta popular contra um governo acusado de estar “a serviço dos Estados Unidos”; a frente dessa revolta estariam os comunistas brasileiros devidamente instruídos, treinados e armados. Noutras palavras: os comunistas tentavam criar uma guerra civil para implantar uma “ditadura do proletariado” no Brasil.
Segundo os documentos levantados pelos autores do livro, o plano foi frustrado pela movimento das tropas militares em direção ao Rio e fuga de Jango (31 de março), deposição de João Goulart pelo Congresso Brasileiro (2 de abril) e posterior posse (15 de abril) do marechal Castelo Branco, então Chefe do Estado-Maior do Exército.
É verdade que João Goulart era um homem inclinado à esquerda, porém, as relações econômicas que ele firmava com os Estados Unidos eram suficientes para fomentar os movimentos comunistas da época.
A relação entre os registros da StB e o material que ela despejava na imprensa deixa claro que o serviço secreto tchecoslovaco mentia para o povo, mas não para si mesmo.
As centenas de agentes que atuaram no Brasil levantaram absolutamente todos os detalhes da sociedade, da cultura, da economia e da política brasileira. Das marcas mais populares de produtos do dia-a-dia dos brasileiros às relações mais íntimas entre pessoas do alto escalão do estado brasileiro, eles sabiam de tudo. Sabiam de detalhes de contratos de grandes empresas estatais. Conheciam segredos diplomáticos. Sabiam o nome dos brasileiros treinados em Cuba para integrar a revolução armada que estava sendo organizada no Brasil, no ano que antecedeu o golpe militar. Descobriram, inclusive, que a KGB e os serviços secretos de Cuba e da China também tinham seus próprios agentes no Brasil, atuando em missões específicas e independentes.
Os agentes da StB só não conseguiram descobrir um único agente americano. Nas dezenas de milhares de pastas que registraram a atuação dos tchecos no Brasil, não há uma única menção a uma “conspiração” americana antes e depois de 1964. Ao contrário. A própria StB reconhece a ausência da influência americana no governo brasileiro da época.
O serviço secreto tchecoslovaco reconheceu ainda a forma pacífica com que o golpe foi realizado e afirma que a guerrilha comunista no país contou com o financiamento da China e de Cuba. A StB chegou a comparar a repressão da ditadura militar com a que vigorava no bloco socialista: segundo seus agentes, a repressão no Brasil era muito leve e, em certos casos, “cômica”.
Em resumo, o livro “1964, O Elo Perdido – O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista” evidencia duas singularidades:
1 – Quando os socialistas acusam a “direita” de planejar um golpe é porque eles já estão organizando um golpe;
2 – O socialismo é, em essência, um grande golpe de marketing.
As “maravilhas” da revolução cubana. A “sanguinária” ditadura militar brasileira e os ideais de “liberdade e democracia” que moviam as pessoas que lutaram contra ela. Os “avanços sociais” promovidos pelo PT. O “golpe de 2016”. A ladainha do “condenaram Lula sem provas”. Tudo isso faz parte de um mesmo esforço de desconstrução da realidade em favor de um fantástico “socialismo e liberdade” que nunca existiu nem na teoria e nem na prática.
Passado um século desde a “revolução” russa, os socialistas não deram uma única razão para confiarmos neles. Nunca conseguiram se manter no poder sem o uso da tirania. Os “pregadores da paz” foram os maiores assassinos da história. São os “progressistas” que não têm um único exemplo de progresso para citar.

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