quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

CARMEN LÚCIA QUER SUPERAR A VIOLÊNCIA COM AMOR E FRATERNIDADE Flavio Morgenstern


Na CNBB, a presidente do STF Carmen Lúcia usa de palavras edulcoradas, como "amor ao próximo" e "fraternidade", para falar do crime no Brasil. Mas isso irá diminuir a violência?
Declarações de figuras públicas que saem picotadas em textos da imprensa que citam menos do que uma linha do que foi dito no meio de parágrafos contando a história toda por nós sempre geram desconfiança. Entretanto, as declarações publicadas da ministra Carmen Lúcia, presidente do STF, no lançamento da Campanha da Fraternidade 2018 na sede da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) geram suspicácia e desânimo na população pelo contexto, local e método com que o discurso é repetido no Brasil.
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De acordo com o Valor, Carmen Lúcia afirmou que o poder Judiciário tem atuado “de forma digna e correta” para superar a violência, o que é uma das maçantes séries de palavras burocráticas e genéricas de sentido oco e repetindo o óbvio que tanto alegra entidades como a CNBB (que não é uma organização que faça parte da hierarquia da Igreja Católica).
Carmen Lúcia teria dito que o Direito deve ser para solucionar toda forma de conflito, ressalvando que “umas [pessoas] sofrem mais, outras menos”. O que é mais ou menos a coisa mais óbvia da Via Láctea.
E o Valor vai além:
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Com citações a Chico Buarque e referências ao teórico Thomas Hobbes, a presidente do Supremo destacou que “voltar a amar o próximo e exercer a fraternidade, a solidariedade e o perdão é uma necessidade premente e urgente da sociedade atual”.
Se tem algo que não vai resolver a criminalidade, e aliás que é amado por criminosos, este algo é Chico Buarque. Praticamente uma unanimidade em Bangu, em Pedrinhas e, claro, na Papuda. Thomas Hobbes, além de descascado por C. S. Lewis no seu imortal A Abolição do Homem, é um dos autores que mais sofre do que Olavo de Carvalho chamou de paralaxe cognitiva. Muito do próprio ato de Hobbes escrever contradiz o que está sendo dito. Não foram poucos os críticos de sua obra que notaram como um dos fundadores da filosofia política moderna confunde a descrição com a prescrição em toda a sua obra.
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Mas… “amar o próximo” (sic)? Isto é um mandamento para as pessoas, não para o Judiciário (não se espera amor de um juiz, e sim justiça). Ainda que Carmen Lúcia tenha o dito como recomendação para a população, não faz sentido uma ministra (ou o jornalista que criou a story?) descrever tal mandamento falando de Justiça ou violência.
O amor ao próximo é uma recomendação ao humano, pecador, mas inocente, para não espalhar a cultura da vingança, que provoca o tribalismo tão oposto à evangelização ecumênica. Nada tem a ver com a situação de mais de 60 mil homicídios por ano do Brasil. Nem mesmo a “fraternidade”: não é (apenas) por falta de espírito fraternal que o Brasil está em tal situação, embora a palavra remeta justamente à falta  de espírito, organização e sentimento familiar patriarcal. Tal cortesia com o próximo tem mais a ver com a tradicional kindness britânica do que com julgamentos (palavras de doçura ligadas ao Judiciário dão mais a entender um coitadismo penal que apenas ajudou a destruir nosso país).
O perdão também é algo que alivia quem perdoa, não tanto o perdoado: não se deve, aqui, confundir o perdão individual, e mesmo metafísico, com o perdão jurídico. Um é o que mantém a sociedade funcional, é mesmo a estrutura da sociedade humana, se não quisermos recair na barbárie e na vingança e desentendimento eterno, voltando ao tacape da idade das cavernas. Outro é laxismo penal. Um evita mortes, o outro as causa. É de perdão que o Judiciário está em falta? É por falta de perdão que há violência endêmica no Brasil? É difícil responder afirmativamente à qualquer uma das questões.
Ainda segundo o Valor, Carmen Lúcia teria dito que “os desagrados e os ódios que azedam humores e adversam afetos” não forem superados, haverá “retrocessos bárbaros à nossa convivência”. A palavra “ódio” se tornou um shibboleth da esquerda progressista, que acusa “ódio” em todos os seus desafetos por qualquer coisa da qual discordem (da legalização do aborto ao ódio a ser assaltado), enquanto pode odiar tudo e todos impunemente.
Não são “desagravos” e “ódios que azedam humores” que azeda nossa tranqüilidade para sair à noite e deixar nossos filhos brincando na casa do vizinho como nós mesmos fazíamos na infância. Podemos muito bem odiar sem tiroteio. E alguém nos dando um tiro na cara em troca de um celular não tem necessariamente “ódio”: é o valor da vida humana que caiu, não o ódio que aumentou, apesar de todo o discursinho mongolóide da esquerda apontando “problemas” e se colocando como solução que só piora tudo (pergunte a qualquer um que viveu no Rio antes de Brizola).
Não são “humores” que pioraram no Brasil: foi a sacralidade da vida, embora nem a esquerdíssima CNBB pareça se preocupar tanto com tal questão. E, inclusive, foi falta de uma lei penal rigorosa. É barato matar no Brasil, cumprindo um sexto da pena em regime fechado, saindo por bom comportamento entre um e três anos e vida (do assassino) que segue. Soa no mínimo estranho uma juíza, ou melhor, uma ministra do STF, falar em “perdão” para diminuir a violência em tal cenário. Difícil crer que seria o foco de Jesus Cristo ou de São Francisco de Assis ao assistirem o noticiário do Rio de Janeiro, de Fortaleza ou de qualquer lugar do Brasil.
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Carmen Lúcia também falou que, em sua infância, era recomendada a confiar nos adultos, e que hoje testemunha “mães e professoras alertando para que crianças desconfiem e temam um ser humano”. Dada a nossa situação e nosso Judiciário, além da cultura de permissividade de atos libidinosos com crianças promovida por artistas, chancelada pela Rede Globo e com ampla conivência em diversos setores do Judiciário e do MP, não é para temer? Carmen Lúcia ataca a conseqüência, sem notar que a causa é exatamente tal visão.
E arremata:
“Ensina-se, por uma contingência infeliz do momento em que vivemos, que o outro, o que se aproxima, não é necessariamente um amigo. A desconfiança e a violência contra o outro é o que se prega, fazendo do outro não um irmão, mas alguém a quem precisamos combater.”
A situação do momento não é exatamente uma “contingência infeliz”, como o Holocausto não pode ser descrito como um “acidente histórico”. É uma política, é resultado de leis e do trabalho de gente graúda, e não da população. É loucura, mas com método, como dizia Polônio a Hamlet.
Quando quase 70 mil pessoas são mortas assassinadas todo ano (perfazendo mais de um décimo do Holocausto por década), não se deve atacar a “desconfiança”, e é absurdo sugerir que mães e professoras digam a crianças para confiar em todo mundo (os números não se referem a assaltos, abusos, estupros, seqüestros sem morte etc, ou seriam assustadoramente maiores).
E ninguém “prega” violência: aliás, prega-se o bordão “não reagir” até mesmo na iminescência da morte certa, mesmo quando vidas podem ser salvas com reação.
Mais: impede-se o acesso a meios materiais de defesa da vida, como uma arma que pode salvar o inocente, preferindo deixá-las em monopólio daqueles que não respeitam a lei, ao invés de também permitir seu acesso a quem respeita a lei.
É óbvio que personalidades como Carmen Lúcia podem se dar ao luxo de contar com seguranças armados, mas a população que é assaltada na volta do trabalho 1 da manhã em bairros violentos sabe e sente que o real problema é a sensação de impunidade de quem está disposto a fazer o mal absoluto em troca de uma carteira ou um celular, que certamente poderá apelar para a violência tendo certeza de que não sofre qualquer risco de ter uma reação por parte da população inocente.
Se é com uma noção de “irmandade” que Carmen Lúcia pretende diminuir a violência e a criminalidade, talvez faça sentido dizer isso aos bandidos. Não parece ser exatamente o público-alvo de uma palestra a católicos, mesmo do braço petista da CNBB.
Quando diz que é importante “crer que o irmão ao lado é um aliado, porque igual em sua condição humana”, está mais uma vez forçando o Judiciário a esvaziar as ações dos homens ao julgá-los, preferindo que o caldo cultural corrente seja o do julgamento por “condição”, por “humanidade” e outras características gerais e inatas (como o julgamento por cor de pele, sexo e opção sexual que abarrota o Judiciário, que depois acusa a sociedade de racismo, homofobia e machismo).
Não é por falta de “irmandade” que não conseguimos sair à rua (os bandidos mesmo falam “mano” antes de nos apontar o cano da arma). É muito mais por falta de punição. Ou alguém se lembra de falar no “irmão ao lado” como “aliado” quando é o irmão verdadeiro de uma vítima de homicídio? Há várias a escolher todo dia.
E será que o STF garantirá tal espírito de perdão e fraternidade quando se trata de “ofensas” e outras ações sem vítimas e sem violência, tratadas como um verdadeiro genocídio por esquerdistas e pela moral de vários setores do Judiciário, que neste caso preferem punições rigorosas e exemplares para melhorar o “discurso” e acabar com o suposto “ódio”?
Ao menos, para a ministra, a superação da violência é uma bandeira “de todas as crenças, até de quem não tem crença”. O que às vezes é algo bem importante a ser dito na CNBB.
Espera-se que as palavras de Carmen Lúcia tenham sido menos desastrosas antes da edição. Do contrário, outra virtude cristã, a Esperança, sai seriamente prejudicada quando se trata de olhar para o Judiciário – e para sair porta afora.
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