quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O risco Lula na Bolsa | Fábio Alves


- O Estado de S.Paulo

Qualquer notícia que indique impedimento da candidatura Lula alimentará o otimismo

Após ter registrado ontem o mais alto fechamento de sua história, aos 74.538,55 pontos, o Ibovespa deve ficar cada vez mais sensível daqui em diante ao noticiário relacionado às eleições presidenciais de 2018.

É razoável dizer que, aos níveis atuais de preços, a Bolsa de Valores brasileira atribui uma probabilidade maior do que 50% de vitória na eleição presidencial de um candidato oriundo da base aliada do governo Michel Temer – em particular do PSDB, DEM ou PMDB – e que representaria a continuidade da atual política econômica. Mas a parcela de probabilidade de vitória de algum candidato que representaria uma oposição a essa política econômica ainda não é desprezível.

Em especial, a probabilidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concorrer, ir ao segundo turno e ganhar o pleito é um risco aos olhos dos investidores que impõe algum limite hoje aos preços das ações.

O prazo para registro das candidaturas às eleições termina no dia 15 de agosto de 2018 e até lá ainda não se tem certeza se o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, vai decidir se mantém ou reverte a condenação de Lula pelo juiz Sergio Moro a 9 anos e meio de prisão, o que tornaria o petista inelegível e o deixaria fora do pleito.

Qualquer notícia que venha a sinalizar um eventual impedimento da candidatura de Lula em 2018 alimentará o otimismo dos investidores. Não à toa que, na véspera do feriado de 7 de setembro, o depoimento de Antonio Palocci, ex-ministro de Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff, ao juiz Moro injetou uma dose de euforia no mercado acionário. Palocci disse que havia um “pacto de sangue” entre Odebrecht e PT, resultando num “pacote de propinas”, o qual incluía R$ 300 milhões para o partido e o ex-presidente Lula.

Marco Tulli Siqueira, gestor de operações da corretora Coinvalores, projeta que o Ibovespa poderá encerrar a 82 mil pontos no fim deste ano e a 95 mil pontos no fim de 2018.

“Na certeza do Lula, do PT e da chamada esquerda ficar fora, os 95 mil pontos podem vir em 2017 e em 2018 chegar a 110 mil pontos, mantendo a economia nessa linha que estamos”, diz Siqueira. Para ele, a Bolsa ainda não embute nos preços a probabilidade de vitória em 2018 de um candidato que manterá a atual política econômica. “Precifica tão somente a economia com Temer que aí está e deve ficar até o fim de 2018.”

Para Vitor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos, a Bolsa brasileira vem surfando no bom momento externo, correspondendo a cerca de 40% da alta recente. Também influencia o bom desempenho do Ibovespa a melhora no prêmio de risco do Brasil, refletindo a melhor perspectiva de votação de reformas importantes pelo governo Temer.

Ele crê que o mercado precifica hoje que o próximo presidente vá manter a partir de 2019 o processo reformista que se observa hoje no governo Temer. “A manutenção da política econômica é o cenário ideal e o imaginado pelo mercado atualmente”, diz Suzaki, que prevê o Ibovespa fechando em até 80 mil pontos no fim deste ano.

Marco Saravalle, analista da XP Investimentos, lembra que a sua instituição fez recentemente uma pesquisa com investidores institucionais na qual 25% dos ouvidos disseram esperar um Ibovespa acima de 80 mil pontos se o governador paulista, Geraldo Alckmin, vencer as eleições presidenciais de 2018, enquanto no caso de vitória do prefeito paulistano, João Doria, a parcela dos que projetaram a Bolsa acima de 80 mil pontos foi de 60%.

A XP Investimentos prevê o Ibovespa a 82.500 pontos no fim deste ano. E se o mercado soubesse que Lula estaria fora das eleições de 2018? “Nesse cenário, o Ibovespa poderia caminhar para nossa expectativa entre cenário-base e o cenário ótimo, ou seja, entre 85.200 pontos e 90.800 pontos”, diz Saravalle.

Ou seja, se o mercado tivesse a certeza de que Lula não seria candidato no ano que vem, engordando a parcela majoritária das apostas hoje de vitória de um nome governista, o Ibovespa já estaria negociando bem acima de seu patamar máximo histórico de quase 75 mil ponto

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