terça-feira, 22 de agosto de 2017

Sinais de recuperação se disseminam pela economia – Editorial | Valor Econômico


Nas últimas semanas, a economia colheu vários indicadores que apontaram para o início de um processo de recuperação, após quase três anos seguidos de retração. O indicador que consolidou os sinais positivos foi o IBC-Br, chamado de a prévia do Produto Interno Bruto (PIB) do Banco Central, que subiu 0,5% em junho em comparação com maio, acumulando 0,25% no segundo trimestre, menos do que o 1,2% dos primeiros três meses do ano. O Monitor do PIB/FGV, da Fundação Getulio Vargas, divulgado ontem, mostrou um salto ainda maior em junho, de 2,65%, mas fechou o segundo trimestre com recuo de 0,24% em comparação com o primeiro.

O primeiro sinal animador veio da produção industrial, que cresceu 1% no primeiro trimestre e reduziu a velocidade no segundo trimestre para 0,2%, perdendo o ritmo em onze das 15 localidades pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e nos segmentos de bens de capital e bens de consumo duráveis, que vinham tendo os melhores desempenhos. A indústria extrativa segue à frente da de transformação.

Varejo e serviços tiveram maior influência na expansão do IBC-Br. As vendas no varejo restrito cresceram 2,5% no segundo trimestre, anulando a queda de 2,7% do primeiro; e aumentaram 2,9% no ampliado, superando os 2,2% dos primeiros três meses do ano, o que não ocorria desde 2014. Destacaram-se as vendas de tecidos, vestuário e calçados, móveis e eletrodomésticos e material de construção.

Já o faturamento do setor de serviços aumentou 0,3% no segundo trimestre, compensando o recuo de igual intensidade no primeiro, impulsionado pelas operações de transporte, correios e serviços e pelo transporte terrestre da safra agrícola. A avaliação é que o setor de serviços deve estar se estabilizando antes do esperado. De todas as atividades, a de serviços é geralmente a última a ser afetada por uma crise, mas é também a última a sair dela. Especialistas acreditam que esse avanço seria resultado da queda da inflação, aumento da renda real e mesmo alguma melhora nas estatísticas de emprego no país.

Os diversos segmentos da atividade econômica andam em velocidades diferentes e os indicadores ainda podem mostrar divergências, mas já é possível constatar uma onda de revisão de expectativas para o PIB deste ano nas consultorias e instituições financeiras, que deixaram para trás números negativos e agora trabalham com previsões que variam de estabilidade para ligeiramente positivo.

Posta em dúvida até há algum tempo, a tendência de recuperação da economia agora é dada como certa. Ninguém espera, porém, uma arrancada. Um dos motivos é que alguns dos fatores que impulsionaram a reação não vão se repetir ou vão perder a intensidade. É o caso do impacto da liberação das contas inativas do FGTS, que injetaram cerca de R$ 44 bilhões na economia, e a safra agrícola recorde. Há quem interprete a perda de dinamismo da indústria no segundo trimestre como consequência desses fatores, embora o setor venha sendo impulsionado também pelo aumento da exportação de alguns manufaturados, notadamente de veículos. A retomada do consumo das famílias, favorecida pela redução da taxa de juros e aumento da população ocupada, mesmo que na informalidade, pode, também, incentivar a indústria, além das vendas no varejo.

Outro motivo para a cautela com as previsões é que as perdas acumuladas na produção industrial, no consumo, no emprego, na renda real e no faturamento das empresas foram profundas e o ambiente macroeconômico ainda é pouco favorável ao crescimento, em função do desemprego elevado, dos juros ainda altos em comparação com os níveis de inflação, do crédito escasso e muito caro, da dificuldade da retomada dos investimentos em infraestrutura frente à contração do investimento público e da dificuldade para a aprovação das reformas econômicas.

O diagnóstico mais generalizado é que o consumo das famílias deve puxar o crescimento do PIB neste ano. A melhora das condições financeiras por causa da queda da inflação, da redução dos juros do crédito e do saque do FGTS, e o pequeno aumento da população ocupada, ainda que no mercado informal, estimulam as famílias a voltar às compras. O Banco Central já vê sinais de retomada do crédito em praticamente todas as modalidades, com o aumento das concessões e a queda da inadimplência (Valor 21/8). As revisões não são drásticas, mas já é possível dizer que o pior ficou para trás.

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