segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Delenda Lava-Jato | Ricardo Noblat


- O Globo

“A operação abafa é uma realidade visível. Há os que não querem ser punidos, e há um lote pior, os que não querem ficar honestos” LUÍS ROBERTO BARROSO, ministro do STF

Temer ficou porque era melhor para todo mundo. Melhor para o Congresso acuado pela Lava-Jato e interessado em extrair vantagens de um presidente fraco. Melhor para a oposição que imagina crescer batendo nele. Melhor para os reais donos do poder satisfeitos com a sua agenda de reformas. Melhor até para a maioria dos brasileiros que o rejeita. Trocá-lo por quem? E a 15 meses de uma nova eleição?

AS RUAS NÃO RONCARAM CONTRA Temer porque não são tão bobas. Em junho de 2013, o ronco repentino e espontâneo surpreendeu governantes e partidos de todas as cores. Foi só um susto, contido pela ação violenta da polícia e dos black blocs. Movimentos como aquele, sem líderes para conduzi-lo, sem pauta definida, esgotam-se como simples ventanias. Por vezes funcionam como aviso. Foi o caso.

A PARTIR DE 2015, AS RUAS roncaram forte contra Dilma pelas razões conhecidas — estelionato eleitoral, governo desastroso, recessão econômica com o desemprego de mais de 15 milhões de pessoas e a corrupção revelada pela Lava-Jato. Os gatilhos do impeachment foram os gastos não autorizados pelo Congresso e a maquiagem das contas públicas, uma clara violação da lei. De fato, Dilma caiu pelo conjunto da sua obra.

TEMER FOI ACUSADO DE corrupção. Seria o verdadeiro destinatário da mala com R$ 500 mil entregues pelo Grupo JBS ao então deputado Rocha Loures. De fato, ele foi salvo por falta de alternativa e pelo conjunto da sua obra — a lenta recuperação da economia, a inflação quase negativa, a redução da taxa de juros, a compra de votos de deputados e a promessa de reformas que, se forem feitas, já virão tarde e pela metade.

RAROS OS DEPUTADOS — Miro Teixeira (Rede-RJ) foi um deles — que discutiram a fundo e votaram com seriedade o pedido de licença para que a Justiça examinasse a denúncia de corrupção contra Temer. Não será diferente se ele for de novo denunciado. É improvável que Rodrigo Janot tenha guardada alguma flecha de prata. Mas de prata ou de chumbo, se disparada, ela paralisará o Congresso outra vez.

NESTE PAÍS, CORRUPÇÃO NÃO derruba presidente. Getúlio Vargas matou-se ao concluir que perdera apoio político para governar. Jânio Quadros renunciou para voltar depois como ditador. João Goulart foi deposto por um golpe militar. A morte impediu a posse de Tancredo Neves. Fernando Collor governou de costas para os partidos. Se não fosse por isso, teria completado o mandato. Dilma também. Temer foi mais sabido.

A OPOSIÇÃO AO GOVERNO HAVIA anunciado que negaria quorum à sessão da Câmara. Só entraria no plenário se o governo tivesse conseguido reunir ali 342 deputados, o mínimo exigido para dar início à votação. Não foi assim. Entrou o líder do PT a pretexto de participar da discussão da denúncia. Em seguida, mais três deputados do PT. A porteira havia sido aberta. O governo celebrou. Só contava com 263 deputados para votar.

LULA E TEMER TÊM MAIS em comum do que parece. Juntos comandam a Operação Delenda Lava-Jato, um rol de iniciativas que visam a frear os avanços no combate à corrupção e, se possível, revertê-los. Contam para isso com a ajuda de ilustres portadores de becas e de representantes das elites corruptoras e corrompidas. O Brasil velho de guerra estrebucha e resiste a ser passado a limpo. Continua de pé apesar das avarias. A crise política ficou do mesmo tamanho. Poderá crescer com o que ainda está por vir.

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