terça-feira, 8 de agosto de 2017

Deixar de lado o desânimo | Marco Antonio Villa


- O Globo

Centrão renasceu usando velhos métodos. Já o PT tentou assumir a roupagem de defensor intransigente da ética

A mobilização que levou a derrota do projeto criminoso de poder petista deu esperança de que o Brasil poderia rapidamente mudar. Não havia confiança em Michel Temer — muitos, inclusive, sequer conheciam sua carreira política. Mas o determinante era a sensação de que a política poderia ser realizada sobre outras bases — bases republicanas. Era mais um desejo do que a possibilidade real de que tal acontecesse. Basta recordar a votação da autorização do processo de impeachment e a péssima impressão deixada pelos deputados. Não foi um bom sinal.

Logo em seguida, Temer prometeu um Ministério de notáveis, mas o que veio foram ministros encalacrados com a Justiça, representando a velha política. Mais uma decepção. O governo começou, e foram pipocando escândalos envolvendo assessores diretos do presidente. Em nenhum momento, Temer enfrentou as denúncias de forma republicana. Pelo contrário. Fez questão de defender seus auxiliares, dificultou as investigações.

Quando veio à luz a delação premiada da JBS, caiu a máscara de Temer. O presidente — no exercício do cargo — agia da mesma forma que aqueles que foram defenestrados do governo no ano anterior. Ficou a desilusão. O que adiantou ir às ruas se a corrupção permanecia? Será que a vitória foi ter trocado uma presidente que falava um dialeto muito particular por um presidente que abusa das mesóclises?

Depois o Brasil ficou aguardando a tão esperada condenação de Lula. O processo — como de hábito na Justiça tupiniquim — caminhava a passos de tartaruga. Quando saiu a sentença do juiz Sergio Moro, veio mais um desapontamento. Apesar da pena de reclusão em regime fechado, o juiz evitou solicitar a imediata prisão do sentenciado sob o pífio argumento de que poderia ocorrer distúrbios e, para manter a paz social, era melhor deixá-lo em liberdade. Lula, claro, agradeceu a benesse atacando sistematicamente a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o próprio juiz. Teve alguma resposta? Foi preso? Não. Sergio Moro fez ouvido de mercador, como se o seu silêncio significasse algum tipo de desprezo para com o sentenciado. Mas o que ficou para a sociedade foi a impressão de que o juiz agiu politicamente, com temor do criminoso.

Após muita cobrança, um dos principais instrumentos da nova — e desastrosa — matriz econômica petista, o BNDES, divulgou que apresentaria um amplo relatório do que a nova gestão tinha encontrado naquela instituição financeira. Parecia algo alvissareiro. Afinal, a divulgação das mazelas do projeto criminoso de poder, seria uma boa notícia — pois a despetização do Estado tinha ficado para as calendas gregas. Ledo engano. O chamado “Livro Verde” transformou a gestão petista em paradigma de eficiência. Nem Josef Stálin teria coragem de apresentar aquele relatório. Era tão fiel à verdade como o seu homônimo líbio, o Livro Verde de Muamar Kadafi, que pretendia instituir uma nova forma de democracia.

Finalmente, na última quarta-feira, esperava-se que a Câmara dos Deputados apreciasse a denúncia da PGR contra Temer de corrupção passiva. Mais uma frustração. O centrão renasceu usando e abusando dos velhos métodos. Já o PT tentou assumir a roupagem utilizada até 2003, antes de assumir o governo, a de defensor intransigente da ética. O espetáculo foi deprimente.

Tantas derrotas —e é absolutamente compreensível — geraram um sentimento de impotência, de que não adianta participar, que nada muda, que o Brasil sempre foi e será assim. E de que no horizonte nada indicaria que haveria condições de derrotar a velha política, uma percepção de que o máximo permitido pelo sistema foi a derrubada do PT do governo.

Os donos do poder consideram que a Lava-Jato foi longe demais. Também desejam afastar a participação popular dos negócios públicos. Para coroar o restabelecimento da “ordem”, almejam a construção de candidaturas presidenciais que preservem este estado de coisas. Isto não é nenhuma novidade. Novo é tentar esta manobra quando a sociedade brasileira deu, nos últimos anos, mostras de vitalidade, de enorme capacidade de mobilização. Sem exagero, é possível afirmar que o interesse por política nunca foi tão grande como nos tempos atuais.

Tudo indica que o desânimo é momentâneo, produto de uma certa ingenuidade. De que a mudança venceria facilmente as forças retrógradas. Construir um efetivo estado democrático de direito, proclamar a República — que só foi anunciada em 1889 — deverá ser um longo processo, com vitórias e derrotas. O Brasil é um país complexo, díspar, contraditório. A democracia raramente esteve presente na nossa história. Fomos marcados pelo autoritarismo. O nosso pensamento político é mero reflexo de um país que conviveu com diversas desilusões, com mudanças que, paradoxalmente, representaram continuidade. Daí a sedução pelas soluções de força.

A defesa intransigente do espírito republicano não é uma tarefa fácil. Tudo conspira contra. Os principais atores políticos e econômicos jogam pela preservação da “ordem.” O desafio da sociedade civil é continuar pressionando e exigindo mudanças. Negar os políticos não é negar a política. Fazer política, agora, é ainda mais importante do que foi no momento do impeachment de Dilma. Naquela conjuntura tudo se resumiu no enfrentamento do PT e seu maligno projeto de poder. Foi uma grande vitória. Isto é inegável. É necessário dar um passo à frente: manter a democracia como norte, organizar a sociedade e construir instituições verdadeiramente republicanas.

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Marco Antonio Villa é historiador

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