sexta-feira, 21 de julho de 2017

OS R$ 9 MILHÕES DE LULA: ATÉ QUANDO VÃO INSISTIR NESSA DE QUE O PT É “PARTIDO DE POBRE”? Flavio Morgenstern

O PT se pinta como um partido dos excluídos, e o único motivo para alguém criticá-lo é ser rico e não gostar de pobre. Nada mais mentiroso.
Esta é a era dos memes, conceito de Richard Dawkins que define idéias, comportamentos ou estilos transmitidos em uma cultura por meio da memetização (imitação). Adicione a isto a rapidez dos 140 caracteres, RT e curtir, e a política passa de alguma tentativa rudimentar de argumentação para a pura “lacração”: repete-se roboticamente bordões e slogans vindos de autoridades e acredita-se que se venceu uma discussão, invocando-se o pertencimento a um grupelho. O clichê a ser repetido acerebradamente pela militância do PT, o partido de Lula, é o mais cacete: “a casa grande surta quando a senzala ganha poder”. Like, RT, voilà!
Há evidentemente a confusão diabólica do anacronismo: a sociedade brasileira não tem sua economia definida por casas grandes e senzalas há praticamente 2 séculos, e eventos posteriores, como a imigração de japoneses, italianos e alemães que vieram substituir escravos, não permitem que a velha redução à “seqüelas da escravidão” convença alguém para explicar qualquer discrepância econômica do Brasil atual.
O referencial está não apenas 2 séculos atrasado: a história já até mesmo inverteu alguns dos personagens neste tempo.
Mas o erro maior é existencial. O que o PT pretende, ainda, é resgatar a velha e mofada teoria de “luta de classes” do marxismo ortodoxo e dar a realidade toda por explicada. Em um país desproporcionalmente assolado por um Estado gigante, populismo, corporativismo, conchavos entre público e privado, clientelismo, assistencialismo, corrupção e uma noção de realidade mais periférica do que o Sri Lanka, apostar na dinâmica fácil de digerir (e repetir em 140 caracteres) da Casa Grande & Senzala é apenas um bordão mais chato e sem sentido do que refrão de música emo.
Com sua referência anacrônica, o PT tenta se pintar como um partido de pobres, de explorados, de oprimidos, dos grandes coitados injustiçados históricos da nação. Todos os seus adversários e inimigos seriam tão somente ricaços, a elite exploradora, os feitores e malfeitores.
Ninguém desgostaria do PT devido ao mensalão, à diminuição da liberdade de expressão, à torrefação de dinheiro público, ao petrolão, ao BNDES tirando dinheiro do pobre para dar para o empresário que paga dívida de campanha, Pasadena, Friboi, desemprego, inflação, Toninho do PT, roubos, triplex, sítio, Celso Daniel, nada.
único motivo para alguém não gostar do PT, de Lula, de Dilma ou, sei lá, de Maria do Rosário ou do petrolão seria essa pessoa ser triliardária, e o PT ser tão bom, mas tão bom que faz os pobres ficarem ricos (realidade que ninguém vê fora dos discursos petistas), e os ricos, por uma malvadeza horrenda, não gostarem de que pobres enriqueçam, preferindo que eles não tomem banho, os assaltem e ouçam funk alto.
Petistas precisam acreditar em tal estultice, ou seu discurso cai por terra. Mas há um adicional cruel a tal descoco: a maioria dos petistas é ricaNão é o partido dos pobres: é dos atores da Globo (tratada como “direitista” pelo PT), dos artistas Rouanet, dos empresários BNDES, dos professores de Universidades top que falam em “revolução operária” e fazem Jornalismo, Psicologia e Desenho Industrial.
Ou seja: eles são os ricos com “consciência social”. Já todos os outros ricos do país são malvados que, por algum buraco negro econômico, lucram explorando os pobres (o que eles próprios, misteriosamente, nunca fazem).
Tal nequice existencial gera a mais bizarra falha estrutural que já existiu na política brasileira.
Marilena Chaui odeia a classe média. Salário na USP. R$ 15 milO PT pode até ter um passado remoto de alguma pobreza. É um partido de sindicatos, que cresceu como alternativa ao velho PCB na ditadura fazendo greves. Tem sua ala trotskysta, sua ala maoísta, os velhos guerrilheiros. E cresceu pelo modelo do sindicalismo político (modelo mais próximo do fascismo do que do socialismo), unindo sindicalistas à Teologia da Libertação e à esquerda da USP.
Mas isto foi só sua “era romântica”, de guerrilheiros que queriam fumar charutos cubanos. O PT cresceu mesmo atrás de lideranças sindicalistas que falam cuspindo como Lula, Gushiken e Berzoini. O PT é mais Suplicy do que Okamotto, é mais Hoffmann do que Vicentinho, é mais Haddad do que Benedita. Experimentar ouvir seus sobrenomes no original não tem nada de “Silva” e “Santos”, é tudo bem europeu puro-sangue: Salvatti, Hoffmann, Rossi, Palocci, Rousseff.
Petistas hoje são universitários, concurseiros buscando cargos bem remunerados, empresários do “capitalismo social”, jornalistas poderosíssimos com grande trânsito na grande e velha mídia e, claro, empreiteiros, banqueiros, frigorifeiros e petroleiros afins. Pobre anda em desespero com a falta de segurança e a roubalheira e prefere Jair Bolsonaro dizendo que bandido bom é bandido morto ao dilmêshermético para falar de cachorro atrás saudando a mandioca.
Pobre, que tem uma vida com muito maior percentual de urgência, quer solução para seus problemas, não firula ideológica de “transfobia”, “aborto contra o patriarcado”, “legalizar as drogas” e “educação socio-construtivista”. Se Lula conseguia convencer alguém com um discurso populista de greve transformado em Fome Zero (e depois do fracasso retumbante, em Bolsa Família), o aumento artificial de crédito e gasto é sempre um moinho de vento, que explode na forma de inflação e impostos depois.
O pobre hoje é mais anti-petista do que qualquer mauricinho filhinho de papai que sonha em ser youtuber de sucesso: o pobre é Deus, polícia e moralidade ainda mais rígida do que a de ricos urbanos no Jardim de Epicuro. Quem se identifica com o PT adora um discurso a favor de pobre, mas prefere vê-los no zoológico ou num filme da Anna Muylaert numa sala cult na Rua Augusta – não feliz por que o filho que canta no coral da igreja vai casar e entrar na faculdade de Contabilidade.
Não se trata apenas de uma refração ou inversão ótica: trata-se da própria estrutura da sociedade.
Os ricos intelectuais da USP que apoiaram os sindicalistas metalúrgicos, bancários e professores que fundaram o PT queriam uma sociedade não mais movida pelo empreendedorismo e moral capitalista, mas pela força do sindicalismo socialista. Hoje, os sindicalistas já estão no poder há mais de uma década: e ser sindicalista atualmente, nestes ricos sindicatos que dão poder político, significa ser rico e poderoso. Bem mais do que aquele empresário que abriu uma pizzaria na periferia.
Petistas querem uma sociedade em que metalúrgicos enriqueçam, e essa sociedade já é a atual. O problema é que, para transferir dinheiro para sindicatos (e BNDES, e Rouanet, e Bolsa-Blogueiro, e petrodólar para comprar o deputado do meião etc), o empreendedor é sufocado com impostos. Além de ideologia, hegemonia cultural, música do Tico Santa Cruz, textão da Eliane Brum e daí para baixo.
Lula, que fala que é um homem da “senzala” (Lula é negro?), diz que a “casa grande” não gosta dele. Seria mais sensato dizer que é o pobre que escapa da ideologia do reducionismo petista. O pobre que mais vive a realidade.
Sérgio Moro decretou o congelamento de R$ 600 mil de Lula. Petistas imediatamente apareceram para gritar que Moro, este “golpista tucano”, estava deixando Lula sem dinheiro para suas necessidades mais básicas. Logo a seguir, vem a notícia de que Moro também bloqueou R$ 9 milhões de Lula (sic) em um plano de previdência privada. Primeiro, vê-se a hipocrisia cheia de eufemismos e hipérboles (e nunca descrição fria) dos petistas. Segundo, que “classe média” e empresário e empreendedor individual e pai de família cristão heterossexual conservador coxinha por aí tem R$ 9 milhões só a receber, líquido? Mesmo R$ 600 mil?

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