quarta-feira, 26 de julho de 2017

Divisão perigosa | Merval Pereira


- O Globo

O racha da equipe econômica é a pior notícia que o presidente Temer poderia receber, mas reflete o momento perigoso que o governo vive. Por isso ele tentou, na noite de ontem, restabelecer a relação entre o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que, mesmo cochilando a seu lado, é o pau que sustenta a barraca do governo, e o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, pau mandado do senador Romero Jucá (PMDB-RR), que continua sendo visto dentro e fora do governo como um influente conselheiro do Planalto, quase um ministro ad hoc no campo econômico.

Oplano de demissão voluntária do serviço público, anunciado como decisão de governo, foi rebaixado a uma simples proposta em estudo, e não seria surpresa se não saísse do papel, fortalecendo a posição de Meirelles, que vê nesse instrumento uma medida paliativa sem grande futuro.

Paradoxalmente, para um governo que precisa reduzir o gasto, o presidente Michel Temer está à frente de barganhas nos bastidores para obter votos suficientes para matar a denúncia da Procuradoria-Geral da República. Essas barganhas aumentam os gastos e podem significar a derrota do projeto da equipe econômica.

O presidente Temer se manteria num governo à deriva, sem objetivo maior do que simplesmente resistir até o final. Dentro de seu objetivo primordial, que é salvar a própria pele, o presidente Temer está bem. Na medida em que a oposição não tem 342 votos para tirá-lo do lugar, ele está garantido.

O problema é que ele não tem a maioria que já teve para comandar a votação e derrotar o pedido de investigação da Procuradoria-Geral da República. Bastam 172 votos para salvá-lo, mas ele precisa do quórum para iniciar a votação e, para isso, ele depende de a oposição não obstruir. Pode ser que a oposição, convencida da derrota, acabe decidindo participar da votação apenas para fazer política, criticar o presidente.

Se puser para votar, o Palácio do Planalto ganha, mas o tamanho de sua vitória é que importa nesse momento. Se tiver por volta de 200, 250 votos, fica muito exposto, é um presidente fraco que não tem mais condições políticas de aprovar reforma constitucional, só pode pensar em sobreviver até o fim do mandato. E cada vez mais na mão de uma minoria da Câmara, aumentando as chances de os aproveitadores quererem tirar cada vez mais vantagens em cima do governo, colocando a meta fiscal, que já está ameaçada, em risco.

Uma meta que, diga-se, é de um déficit grandioso. Se não houver condição de votar agora, pode ser que o governo considere mais prudente aguardar a próxima denúncia e tentar resolver as duas votações mais adiante, ganhando tempo para convencer os indecisos.

O próprio presidente Temer está ligando para esse grupo de cerca de 80 deputados para pedir o apoio, num trabalho de corpo a corpo que pode render resultados para ele e mais déficit.

Mas aí há um perigo para Temer: ele agora tem número suficiente para derrotar a Procuradoria-Geral, mas na próxima denúncia já não se sabe em que condições se encontrará. Com todo esse esforço, se ele tiver entre 200 e 250 votos, uma segunda rodada pode ser fatal.

Ele tem praticamente a metade da base aliada que já teve. Tudo vai influir na avaliação dos deputados, não apenas os benefícios que poderão auferir. Um presidente cada vez mais impopular, especialmente depois do aumento dos combustíveis, não é um bom aliado a longo prazo. O recesso parlamentar que termina semana que vem pode ter como consequência uma pressão grande das bases eleitorais, o que pode mudar o quadro.

O teor da nova denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, versando sobre obstrução à Justiça e atuação do PMDB como uma quadrilha comandada pelo próprio presidente, reforçada pelas revelações do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e do doleiro Lucio Funaro, pode criar fatos novos que mexam nessa base que o presidente ainda mantém.

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