sexta-feira, 16 de junho de 2017

Bolívar Lamounier: “O eleitor tucano está indignado”

GUILHERME EVELIN E JOÃO GABRIEL DE LIMA - EPOCA


O cientista político acha que o PSDB deu um tiro no pé ao continuar 
no governo Temer, e isso pode afetar o partido em eleições futuras


Talvez nenhum partido agregue tantos intelectuais quanto o PSDB. Nessa exuberante fauna acadêmica, o tucano Bolívar Lamounier é uma ave rara. Como nunca exerceu cargo formal em nenhum governo do PSDB, e nem tem pretensões a se eleger, mantém invejável independência intelectual – que usa, entre outras coisas, para criticar o próprio partido. Bolívar ficou chocado com a permanência dos tucanos no governo de Michel Temer, cheio de suspeitos de corrupção – a começar pelo próprio presidente da República. “O partido se tornou fiador e avalista de um governo que já sofre acusações graves e que poderá sofrer outras mais ainda”, diz Bolívar. Ele teme pelo futuro eleitoral do partido – mas mostra otimismo com a democracia brasileira, que, segundo ele, vem reagindo com força às denúncias de corrupção. “Eu ficaria preocupado se os políticos brasileiros cerceassem a atividade do juiz Sergio Moro”, diz. “Se, além de todas as acusações que pesam contra ele, Temer fizesse isso, eu ficaria envergonhado.”

BOLIVAR LAMOUNIER (Foto: Filipe Redondo)



ÉPOCA – Não é uma incoerência o PSDB, que saiu do PMDB justamente na época em que o PMDB de Orestes Quércia era acusado de corrupção, abraçar o PMDB de Temer afogado em denúncias?
Bolívar Lamounier –
 Sim, é uma incoerência. O PSDB acabou, dessa maneira, se tornando fiador e avalista de um governo que já sofre acusações graves e que poderá sofrer outras mais ainda. Então ele fica adiando: “Vamos ver se aparece alguma outra coisa mais grave e aí então tomamos outra decisão”. Isso não é um comportamento partidário coerente no meu entender. Ao decidir ficar e examinar o assunto outra vez mais adiante, acabou reforçando esse aspecto antipático que atribuem ao partido, que é o Hamlet em cima do muro. O PSDB vira o PHB, o Partido Hamletiano do Brasil. Eu acho que a posição correta da reunião de segunda-feira passada devia ter sido sair do governo mantendo apoio às reformas.


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso costuma dizer que, no mundo moderno, o governante tem de ter um olho na opinião pública e outro na política formal. No momento em que a opinião pública clama pelo fim da corrupção, não foi ruim abraçar o PMDB de Temer?
Lamounier – Tenho certeza de que isso vai comprometer o PSDB no futuro. Foi uma posição equivocada. O eleitor tucano está indignado, nas redes sociais, com essa atitude e essa participação neste governo. E eu iria até mais longe. Veja o que aconteceu na França na eleição legislativa. O voto antiestablishment foi arrasador. O Emmanuel Macron [presidente da França] praticamente destruiu o sistema partidário da França, porque ele captou esse sentimento da opinião pública que é contra a corrupção e é contra a política envelhecida. O PSDB já está sendo visto como política envelhecida. Essa decisão de agora reforçou a imagem. É provável que o voto antiestablishment também ocorra aqui no Brasil. Não sei se na escala da França, mas certamente vai ocorrer aqui também. E vai atingir o PSDB, o PMDB e outros partidos. 
ÉPOCA – Quem seria o beneficiário desse voto no Brasil?
Lamounier – Nós não temos nada parecido com o Macron no Brasil. Acho que o Jair Bolsonaro certamente não decolará. O Joaquim Barbosa também dificilmente decolará... Então, o que falta é “o fulano”. No processo eleitoral, no final das contas, o pessoal vai torcer o nariz e vai votar em alguém de dentro do sistema partidário. No limite, o João Doria. Mas eu não acredito que o Doria vá dar um passo maior que a perna. Ele está há apenas meio ano na prefeitura. Seria uma coisa vista como aventureira.
“Se Brasília cercear a atividade do juiz Sergio Moro, o país dará um passo para trás. Eu ficaria envergonhado”
ÉPOCA – O PSDB está com Temer desde o começo. Ele é corresponsável pelo governo, porque não teria havido o impeachment da presidente Dilma Rousseff se o PSDB não tivesse apoiado. A decisão de sair não seria uma flagrante incoerência?
Lamounier –
 Esse tem sido o argumento dos que defenderam a permanência. Mas esse saber de antemão com quem você está lidando é uma coisa muito relativa. Eu acho que ninguém no Brasil tinha a mais remota ideia do tamanho e das modalidades da corrupção. Nós sabemos muito mais hoje do PMDB do que dez, 15 anos atrás. Como sabemos mais a respeito de qualquer outro partido, como o PT por exemplo. As coisas estão vindo à tona aos borbotões.
ÉPOCA – O senhor acompanha o PSDB desde a fundação. O partido continua social-democrata ou ele mudou nos últimos anos?
Lamounier –
 Em 1987, quando ele foi criado, nossa Constituinte – e o mundo inteiro – ainda acreditava excessivamente no Estado de Bem-Estar. Era a época em que se começava a discutir a chamada crise fiscal. Rapidamente o mundo se deu conta de que a crise fiscal mata qualquer democracia se ela não for temperada com alguns pontos que deveriam ser chamados de liberais. Uma ênfase maior no orçamento equilibrado, prioridade ao controle da inflação, privatização de empresas inúteis, como nós tínhamos às dezenas. Isso acabou virando a plataforma do governo Fernando Henrique. Apesar de o Brasil ter uma espécie de coceira, de urticária, com o termo liberal, eu acho que o Fernando Henrique fez um governo basicamente de orientação liberal.
ÉPOCA – Por outro lado, foi o governo, desde a redemocratização, que mais aumentou impostos na história brasileira – o que é uma coisa bem social-democrata.
Lamounier –
 Mas o aumento de impostos, o aumento da carga tributária bruta – que foi de 25% para 35%, mais ou menos – foi basicamente para equilibrar o orçamento. Isso não é uma posição intervencionista ou antiliberal, é um realismo orçamentário. É a mesma discussão que temos hoje em relação à Previdência. Do jeito que ela é calculada – a sociedade se torna em média mais velha, e a pessoa quer trabalhar o mesmo número de anos – a conta não fecha. Não é liberal nem antiliberal você defender o ajuste da Previdência à nova realidade demográfica.
ÉPOCA – O senhor é favorável à reforma política?
Lamounier – 
O Brasil está preso numa armadilha que se chama armadilha da renda média: o país que tem entre US$ 10 mil e US$ 20 mil por habitante por ano. Isso é menos da metade da renda per capita da Grécia. Nessa base, nós vamos levar 25 anos para alcançar a Grécia atual. E, se chegarmos lá, vamos chegar com uma distribuição de renda muito pior. O Brasil precisa de uma sacudida profunda em seu sistema político e econômico para crescer a taxas mais elevadas. Os brasileiros enchem os pulmões para falar: “É a sexta maior economia do mundo”. Ora, pode ser, mas com um índice de pobreza assustador, com 14 milhões de desempregados. E nada garante que nós vamos manter 3% de crescimento do PIB, em média, durante 25 anos.
ÉPOCA – Esse seria o número para alcançar a Grécia.
Lamounier –
 Sim. Nem isso está garantido.
ÉPOCA – Alguns dizem que a democracia brasileira está em crise. Outros dizem o contrário, que ela está se fortalecendo, com o combate à corrupção. Nossa democracia está melhorando ou piorando?
Lamounier – 
Ela está ameaçada pela corrupção, por uma geração política muito ruim, por juízes que não se comportam como juízes. Mas ela está reagindo a essas três coisas com muito vigor. Então eu avalio que está melhorando. Tem uma queda de braço entre fatores negativos e positivos, mas todo país e todo sistema político é sempre isto: uma queda de braço entre uma tendência mais universalista, mais modernizante, e outra tendência que é o contrário, que é patrimonialista, corrupta etc. Nós não imaginávamos, nem remotamente, o tamanho da corrupção. Mas também não imaginávamos a rapidez da resposta e a energia da resposta que vem sendo dada. Eu ficaria pessimista com a democracia do Brasil se os partidos hoje no governo cerceassem a atividade do juiz Sergio Moro. Essa é uma questão que eu vejo nas entrelinhas da discussão política em Brasília. Acho que aí nós daríamos um passo para trás, e feio.
ÉPOCA – O empresário Joesley Batista afirmou que o presidente Temer está justamente planejando colocar freios à Lava Jato. Aí voltamos à questão inicial: não é ruim para o PSDB se aliar a este governo?
Lamounier –
 Tudo isso apenas reforça meu argumento. Se, além das acusações que pesam contra Temer, o presidente tiver uma intenção de cercear investigações tão fundamentais para o Brasil atual, aí definitivamente eu me sentiria envergonhado.

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